Starfall


Escrita porSoldada
Revisada por Lelen





CAPÍTULO 07 • SWORDS WITH DOUBLE EDGES

TW: o capítulo a seguir terá descrições GRÁFICAS de ABUSO FÍSICO e PSICOLÓGICO, perpetrados por figuras de autoridade sob uma criança. Pule para a sessão com “•••“ caso sinta-se desconfortável.

%CERCI% • ANOS ANTES

  Os sussurros começaram cedo naquela noite. %Cerci% conseguia ouvi-los pelo corredor, arrastando-se como espectros, risos abafados, baixos, quase disfarçados, entoados de forma irregular e falas arrastadas, reverberando como unhas de metal em pedra polida; eram familiares demais para perturbar de imediato o sono da garotinha, mesmo que se encontrasse agora em estado deplorável de exaustão. Os ossinhos doloridos pareciam raspar nas juntas magras e frágeis, os músculos tensos se contraíam em espasmos, tremores que aumentava e desapareciam, travavam e despertavam cãibras dolorosas. Mesmo envolta pela névoa desorientadora do sono, ela ainda se obrigou a piscar, tentando afastar o cansaço de sua mente, tentando concentrar-se no problema em suas mãos e não na letargia crescente. O tremor pareceu aumentar quando os ruídos ficaram mais altos. Seu coraçãozinho martelou contra o peito frágil, os olhos arregalados, aterrorizados voltaram-se para a porta de madeira apodrecida, agarrando-se a parede como se o restante de sua vida dependesse disso; então, movida pelo próprio medo, a garotinha, coçou o couro cabeludo machucado, os cabelos raspados cutucando, de forma incômoda, as mãozinhas feridas, alguns dedinhos ainda tortos graças a punição que recebera mais cedo de Lorde Thanatos. Lady Lyra havia chorado, dissera que tivera um pesadelo, sua recusa para deixar o quarto, gerou a punição para %Cerci%, que não podia entender o que havia feito de errado, mas certamente havia sido algo muito ruim para convencer Lorde Thanatos de que a punição mais adequada para si era justamente quebrar dedo por dedo de suas mãos — não chorou na frente do velho illyriano, não podia chorar, temia fazer as coisas pioraram mais, mas no segredo de seu minúsculo quartinho, soluçou baixinho, tentando colocar os ossinhos de volta no lugar e enrolá-los com o que sobrara de sua velha coberta puída e aos pedaços agora. Não conseguiu ir até o final, as mãozinhas doíam demais, então tentou dormir.
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  Agora lançava-se em direção ao chão, desesperada como a prole abandonada de um animal selvagem ferido, deparando-se com potenciais predadores — porventura sabia que não teria um bom final, mas ainda assim, movida pelo instinto, a necessidade de lutar, de sobreviver tornava-se mais alta —, arrastou-se para debaixo de sua cama, encolhendo-se em uma bolinha de membros magros e pele machucada, trêmula. As costinhas se pressionaram firmemente contra a pedra gélida da parede, pequenos relevos fincando-se na pele machucada, enquanto ela prendia a respiração. Fechou os olhos com força, tentando lembrar-se de quaisquer orações possíveis, tentando lembrar-se de qualquer deusa ou deus que poderia salvá-la, mas %Cerci% %LaFay% não conhecia nenhum. Não foi ensinada. Então, implorou para o vazio por ajuda, como fazia todas as noites, lágrimas grossas escorreram pelos vãos de suas bochechas, encharcando a túnica velha, com o dobro de seu tamanho que usava; obrigou-se a prender a própria respiração, tentando não soltar um ruído sequer, temendo que assim a encontrassem mais fácil. Pediu, para qualquer entidade que existia, e pudesse ouvir, por ajuda, mas não recebeu resposta alguma.
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  A porta foi aberta bruscamente. A madeira, apodrecida de maneira interna, pareceu ceder como papel com a violência que os garotos mais velhos implicaram. Illyrianos como todos na Corte dos Pesadelos, os mesmos que seriam enviados em algumas semanas para o Acampamento de Guerra, treinar, tornar-se guerreiros habilidosos e então tomar seus lugares nas prateleiras do Grão Senhor e Senhora da Corte Noturna — embora muito deste comando fosse apenas fachada, já que era Keir a quem eles eram leais. Aquilo havia começado com Lonan, o irmão mais velho de Lyra, e a quem %Cerci% não viu mais desde que fora enviado para o Acampamento de Guerra; algumas noites antes de ser enviado, Lonan havia invadido o quartinho da menina, que dormindo profundamente não percebeu o ataque até que a dor a acordasse. Ela foi arrastada para fora da cama, as mãozinhas foram amarradas em suas costas, os nós eficientes foram elaborados para não apenas limitar seus movimentos, como igualmente cortar a circulação de seu sangue ali. Seus gritinhos assustados, os pedidos por socorro e ajuda foram silenciados com uma mordaça de pano. Completamente vulnerável, Lonan a jogara no meio da floresta, e entre risos altos com seus amigos, apenas gritou para que ela corresse. E quando ela o fez, desesperada, desorientada, e sem ter ideia de onde deveria ir, a quem buscar por ajuda, Lonan retirou uma flecha de sua aljava, enroscou em seu arco, e então atirou. Os risos aumentaram, a flecha cortou a pele da menina, que aos prantos, percebera apenas tardiamente que havia se tornado o alvo daquela caça esportiva.
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  Aquilo tornou-se uma tradição entre os illyrianos. Sempre que alguns dos meninos atingiam a idade necessária para serem mandados para o Acampamento de Guerra, eles encontravam desculpas para beber e, iniciavam uma busca por ela — em alguns raros solstícios %Cerci% encontraria uma boa forma de esconder-se, e ali, ficaria até que os meninos tivessem ido embora, sem maiores perturbações. Mas como a crueldade parecia intrínseca na natureza dos illyrianos, logo aquilo também tornou-se um jogo para eles; quem a encontrava, teria direito aos três primeiros disparos, aquele que a acertasse poderia escolher o que faria: as vezes quebravam algum de seus braços, às vezes, raspavam-lhe os cabelos, e, algumas vezes, lhe cortavam a pele, superficialmente apenas para que seu sangue grudasse em suas roupas, antes de arremessá-la no lago; de seu sangue, as criaturas que viviam no lago seriam atraídas, e sem saber nadar, não demoraria muito para que %Cerci% fosse arrastada para o fundo do rio. A brincadeira só acabava quando ela estivesse inconsciente, então acordaria de volta ao Poço, onde ficaria por uma semana como punição de Lorde Thanatos.
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  Botas pesadas chocavam-se contra o chão empoeirado, resmungos irritados, alguns fungados e risos se espalhavam pelo espaço. Eles mexeram em tudo, mesmo que a menina não tivesse nada. Jogaram fora a coberta puída que possuía, relegando a garotinha a dormir, novamente, sem nada para se cobrir, fazendo caretas de desprezo ou nojo. Um dos jovens resmungou que o lugar fedia, o outro riu e deu-lhe tapinhas no ombro. E então, o que parecia ser o mais silencioso do grupo, aproximou-se da cama. %Cerci% tremeu, apavorada, sentindo seu corpo inteiro congelar enquanto o mesmo inclinava a cabeça analisando a cama. Os olhos da menina se fixaram nas botas sujas de lama do rapaz, os cadarços desfeitos, pendiam tortos pelo couro resistente, desgastado apenas pelo uso contínuo. O jovem resmungou algo como se quisesse convir para os amigos de que ela não estava ali, e por uma fração de segundos, %Cerci%, amortecida ainda pelo sono, ousou acreditar que ao menos, um daqueles monstros poderia ser gentil, sua percepção foi imediatamente traída quando sentiu as mãos do jovem a agarrar debaixo da cama — ele não havia mentido para protegê-la, havia mentido para proteger seu direito de atirar primeiro. Um grito estrangulado, repleto do terror que congelava os membros franzinos e raquíticos da criança foi bruscamente silenciado com o braço do jovem, as mãos, como garras, lhe cortaram o rosto, unhas afiadas fincaram-se na pele, agarrando-a de maneira firme, assegurando-se de que ela não escaparia. A garotinha ainda tentou se debater, tentou resistir, morder e chutar qualquer um que chegasse perto dela.
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  Fincou os dentinhos contra a mão, sentindo o gosto metálico e ferruginoso do sangue escorrendo por sua língua com lentidão nauseante. Um grito furioso escapou, e então, um golpe atingiu a parte de trás de sua cabeça. Não levou nem mesmo meio segundo para que a menina desmaiasse. Seu corpinho ficou mole, a cabeça pendeu para o lado, e com o desdém oferecido para um saco de batatas, foi arremessada sobre as costas de alguém. A última coisa que seus olhos registraram foi a tonalidade escura, como a noite, de asas antes de tudo desaparecer no vazio.
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  A primeira coisa que percebeu quando voltou a ficar consciente foi a lama pressionada contra sua bochecha. Manchava metade de seu rosto, estatelada no chão, de barriga para baixo. Como sempre, tentou usar seus bracinhos para se levantar, mas percebeu que estavam amarrados, dessa vez com cordas resistentes que envolviam seu tronco franzido como um colete. Os punhos repousavam, doloridos, pressionados contra suas omoplatas, os dedinhos formigavam, a dor espalhava-se como ondas em quebra a beira mar, nauseante, assustador e intensa. Teria vomitado se pudesse, mas a última coisa que comera foi metade de um pão que Lady Lyra não quis terminar de comer — pegou escondido, sem que ninguém visse, quando foi comandada descartar a comida —, no café da manhã. Não comeu mais nada desde então, tudo o que escorreu por seus lábios ressecados e trêmulos foi apenas saliva misturada com bile, a fez se engasgar enquanto tremia. Um de seus olhos ainda estavam embaçados pela pancada que havia levado na lateral da cabeça, e agora podia sentir um galo se formar onde havia sido acertado.
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  Hiperventilando, ela se obrigou a se levantar, escorregando na lama gélida e gosmenta abaixo de si, o cheiro de terra e sujeira espalhava-se pelo chão da floresta escura, iluminada apenas pelos breves relances da luz da lua que se infiltrava por entre os galhos espinhentos altos e as folhas verde escuras. Estava no escuro, aprisionada pelo silêncio da noite, desesperada por socorro, mas sem poder gritar — a mordaça, firme dessa vez, chegava a marcar a pele frágil com a força que havia sido amarrada. As lágrimas não demoraram a escorrer por seu rostinho aterrorizado, esvaindo-se como uma barragem quebrada. Soluços abafados, ruídos pequenos e abafados de medo e desespero escapando por sua garganta, ao rodar em seu próprio lugar, tentando encontrar uma forma de sair daquele pesadelo, mas como sempre, não tivera tempo para assimilar onde estava. Acompanhada por um riso alto, cruel, uma flecha cruzou o ar, lhe cortando o vento tão perto de sua orelha direita que ela pôde jurar sentir que algo havia a atingido. Não precisou de incentivo melhor para correr.
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  Disparou pelo terreno irregular da floresta, os pés enroscavam-se em raízes sobressalentes, projetadas para fora, o corpinho chocava-se abruptamente contra os galhos de árvores secas que lhe arrancavam, sem misericórdia, seu sangue. Gritinhos sufocados se misturavam com o arquejar desesperado de sua respiração, o peito inflava ao máximo que conseguia antes de contrair-se de novo, tentando absorver o quanto pudesse de oxigênio, mesmo quando desabava contra o chão.
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  %Cerci% nunca sabia por quanto tempo corria; era somente quando suas pernas fraquejavam e ela caia no chão, obrigando-se a arrastar-se que tinha ciência de que seu corpo exausto como estava, não aguentaria mais. A garotinha então arrastava-se para o primeiro buraco que encontrasse, fosse uma poça de lama funda o suficiente para que apenas sua cabeça ficasse para fora, ocultada por uma pedra, fosse um tronco velho infestado de insetos que iriam rastejar por sua pele, de cheiro e movimento nauseantes, fosse para debaixo das raízes das árvores submersas, torcendo para que os jovens illyrianos tivessem a perdido de vista. Mas naquela noite, em questão, tudo o que %Cerci% havia encontrado, havia sido um amontoado de arbustos espinhentos para se esconder. Envolta pela névoa cega de seu próprio desespero, não hesitou antes de se lançar contra os espinhos, debatendo-se para caber naquele pequeno espaço, obrigando-se a abafar seus soluços trêmulos, enquanto esperava pelo amanhecer.
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  Quando o sol finalmente nascesse, os monstros teriam ido embora. Ela poderia se arrastar de volta para a Corte dos Pesadelos, e, se tivesse sorte, não seria pega por Lorde Thanatos, ou nenhum dos outros Senhores, que certamente iriam tentar enviá-la de volta ao poço, como sempre, como punição. Mas naquela noite, não foi o que aconteceu. Algo se moveu entre as sombras, projetando-se sobre o arbusto uma criatura envergada, alta, com chifres projetando-se do topo de sua cabeça e olhos que pareciam brilhar como jades, arrastou-se. De repente o cheiro pungente de putrefação e petrichor que se espalhava pelo solo da floresta adormecida, foi tomado por algo diferente, algo que parecia lembrar a flores silvestres, a frutas frescas e… casa. Como, porventura, %Cerci% poderia saber tal coisa, se ela nunca tivera uma? Não temeu a criatura, nem mesmo quando se projetou sobre ela, movendo-se como um predador em direção aos jovens illyrianos. Não se encolheu quando ouviu o grunhido, a voz baixa, arrastada, vibrações tão profundas que pareciam fazer o chão tremer.
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  A garotinha empurrou os joelhos contra o peito, sentindo algo diferente surgir em seu coraçãozinho descompassado e exausto. Era mais suave, convidativa, como nunca pudera ousar sentir anteriormente, mas ainda assim, um respiro após longa quantidade de tempo submersa. Ela sentiu esperança. Aqueceu-a como um cobertor, mesmo sob a noite fria e o olhar cruel da lua, aninhou-a com súplica silenciosa. Os olhinhos seguiram o monstro que fincava seus pés sob o solo como se estes fossem suas âncoras naquele mundo. Ossos estalavam como se ele fosse feito de madeira, ecoavam pelo espaço acompanhado por um murmúrio sombrio, carregado por palavras estrangeiras que ela não conseguia compreender de fato, mas que a lembrava estranhamente de uma canção de ninar. Algo pareceu inflamar em seu peito, seu coraçãozinho, agitado e martelando com veemência contra o tronco franzino pareceu acalmar-se, o acalanto silencioso de um monstro que viera a seu resgate — não o contrário.
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  Caminhou elegante como um fauno pela terra, os pés fincando-se sobre o solo, desaparecendo ao redor da relva e flores silvestres que se erguiam, nascidas do vazio, e mortas no instante seguinte que ele estendia seu pé para dar o próximo passo. Mãos em formas de garras envolveram o arco que tinha preso em seu tronco largo e parcialmente apodrecido. Ossos das costelas esquerdas, expostos, deformados, envoltos por ramalhetes e até mesmo vinhas. Sardas espalhavam-se por sua face assombrosamente bela, como um pequeno pontilhado de estrelas, espelhando o céu noturno. Presas projetaram-se pelos lábios ressecados e distorcidos, quando um rugido espectral escapou de sua garganta. Um brado de guerra reverberou pelas árvores um aviso iminente da violência que os aguardava. %Cerci% arregalou os olhos um pouco mais, enterrando o rostinho em seus joelhos, espiando pela fresta o momento em que os caçadores se tornaram caça. Paralisada pelo próprio medo, a garotinha não conseguiu assistir a cena que transcorria a sua frente, então obrigou-se a fechar os olhos, enquanto gritos desesperados rasgavam a garganta daqueles que outrora a atormentaram.
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  Gorgolejos perturbadores reverberaram, gritos e barulhos de baque molhados espalharam-se pelo solo acompanhado pelo estalido constante da madeira que envolvia o corpo da criatura. %Cerci% concentrou-se naquele som, na forma com que pareciam estalar como lenha tocada sob o fogo. Não soube dizer quanto tempo havia se passado, um ruído alto, um grito desesperado, e então, o silêncio a engoliu. Prendeu a respiração, trêmula, assustada demais para erguer sua cabeça de onde havia enterrado entre seus joelhos, os olhinhos fechados com força, pareciam colados com piche. Foi o eco vago dos passos, rumando em direção a onde ela estava, que a fez abrir os olhos.
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  Deparou-se com o rosto da criatura, agora, a poucos centímetros de distância de si. Um chorinho abafado escapou por sua boca amordaçada, o coraçãozinho, irregular e disparado, pareceu contrair-se dolorosamente em seu peito, a adrenalina, gélida que corria por seu sangue, manchou o ar ao seu redor com o aroma de seu medo. Um ruído baixo, profundo, pareceu percorrer, do centro do peito da criatura e reverberar até que se derramasse de seus lábios, mas os olhos de jade, parecendo possuir aquele estranho brilho que permeava as sardas que decoravam seu rosto, não eram ameaçadores. Por um momento, os dois apenas se encararam, o silêncio que se estendeu ao seu redor, não fora ameaçador, mas permeado por uma calmaria reconfortante. A criatura inclinou sua cabeça para o lado, o movimento provocou estalidos por sua pele estrangeira, as galhadas de cervo rasparam o tronco de uma árvore próxima. Então, quase trêmulo, a criatura estendeu sua garra na direção dela, a unha curvada, manchada de sangue, mal tocara a pele da garotinha, apenas repousou sobre a lágrima que escorria pela lateral de suas bochechas magras, roubando-lhe para si.
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  A criatura soltou um ruído baixo, quase consolador, as sobrancelhas se uniram, e pareceu buscar alguma coisa que a menininha não conseguia entender. Com um gesto rápido de seu pulso, as garras da criatura encontraram com as amarras que envolviam o pulsos e tronco da menina, arrebentando-a antes que pudesse causar um dano permanente. A garotinha chorou baixinho quando a dor acompanhada pelo fluxo de seu sangue esvaiu-se por seus membros amortecidos, ela soluçou baixinho, as mãozinhas trêmulas repousaram a frente de seu pequeno tronco, ao encarar assustada, e curiosa a criatura. O monstro arrastou-se um pouco mais para frente, como se desejasse sentar-se ao seu lado, mas não o fizera. Suas garras enroscaram-se nos espinhos e como se fossem feitas de apenas um sopro efêmero, desfizeram-se em um amontoado de cinzas, carregados pelo vento, finalmente oferecendo uma ponta de alívio para a pele torturada dela. Acabou caindo sentada no chão, mas esticou os bracinhos na direção da criatura. Os dedinhos machucados, meio tortos, ainda com curativos improvisados sujos, tocaram o rosto da criatura, tentando sentir o que eram aquelas sardas curiosas que cintilavam. A criatura, por sua vez, apenas abaixou a cabeça gentilmente, encarando-a no fundo de seus olhos. Ali, mesmo que ela não fosse capaz de compreender, encontrou um sentimento reconfortante, algo caloroso que pareceu se espalhar por seu corpinho trêmulo. Era pequena demais para compreender o que seria, mas desejou poder apegar-se a tal sentimento.
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  — A réalta bheag, cad atá déanta acu duit¹… — entoou a criatura com uma voz melodiosa como sinos, carregados pelo vento, distantes, o som de sua voz era doce, gentil, até mesmo amigável. Parecia-se com o veludo macio dos vestidos que Lady Lyra usava, como a penugem macia dos pelos que os artesãos da Corte dos Pesadelos usavam para fazer os ursinhos de brinquedo da jovem senhora. Suave como uma canção de ninar, mesmo que porventura, %Cerci% nunca tivesse descoberto o que viera a ser tal coisa. — Mo réalta bheag² — pareceu entoar em uma canção suave. Apoiou uma garra abaixo do queixo da menina, e então, com um cuidado demasiado que soou estrangeiro para %Cerci%, inclinou a cabeça da garotinha para trás, como se quisesse mostrar-lhe algo.
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  %Cerci% ofegou, pega de surpresa, quando seus olhinhos encontraram com os céus noturnos. Primeiro, viu inúmeras estrelas encobrindo o manto azul escuro e profundo que havia se tornado, as nuvens carregadas que costumavam envolver as montanhas haviam sido dispersas pela brisa suave, assim como carregara consigo o aroma pungente do sangue dos jovens que a criatura havia caçado. Então, como um súbito piscar, um risco atravessou os céus, uma estrela, rodopiando em seu eixo desabou como uma explosão de cores, riscando o horizonte. A garotinha soltou um ruído baixo de puro fascínio esquecendo-se de todo o resto por uma fração de segundos; dos illyrianos monstruosos que a perseguiram, da tortura que era coexistir como prisioneira para Lorde Thanatos, e servir Lady Lyra, para os pesadelos que se desfaziam em realidade pelo território de Keir. A garotinha apenas assistiu, com um fascínio derivado de sua própria inocência, a Queda das Estrelas.
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  — Mo Reitílin — sussurrou a criatura suavemente, em uma despedida. %Cerci% acordou noutro dia, de volta ao poço, correntes pesadas envolvendo seus pulsos magricelas, a escuridão engolindo-a por completo, acompanhado pelos ruídos e chiados assombrosos dos monstros e pesadelos que se arrastavam abaixo da Corte dos Pesadelos, à espreita do melhor momento que encontrariam para invadir-lhe a cela. O sobressalto a fez debater-se, em desespero, reabrindo os ferimentos que deveriam ter estancado pela noite.
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  Quando seu sangue tocou o chão, flores silvestres e relva, ergueram-se.
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•••

  Perdida em seus próprios pensamentos, a jovem não percebeu que Skad havia acabado de dormir até que sentiu o peso do melhor amigo sobre a lateral de seu corpo como uma coberta gelada. Não era como se ele não possuísse circulação sanguínea, na verdade o tinha, mas a temperatura corporal das criaturas que compunham a Corte Invernal era, por si só, amenas para sobrevivência, era por isso que às vezes ela sentia certa dificuldade para caminhar em tempestades de neve, enquanto Skad parecia andar com a mesma naturalidade que um membro da Corte Estival o faria na praia. Sua mão direita, aquela que permanecia feita de carne, e que carregava as cicatrizes de seu passado atormentador causado pela Corte Noturna, estabilizou-se, o polegar pressionou por instinto as inscrições antigas e runas cuidadosamente traçadas do pedaço da flecha de freixo que havia lhe permitido escapar daquele maldito pesadelo. Um suspiro suave escapou por entre seus lábios apertados ao voltar sua atenção para o jovem babando em seu ombro.
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  Ele parecia exausto, os cabelos esbranquiçados desalinhados e maiores do que o comum se espalhavam por sobre seus olhos como uma cortina sedosa e macia, os cílios tremiam ora ou outra conforme sonhava, os lábios entreabertos expeliam uma respiração suave e profunda; ela fez uma careta, podia sentir o cheiro do hálito dele, cheio de frutas vermelhas e vinho que pegara escondido da adega de seu pai após o treinamento. O brinco em sua orelha pontiaguda parecia cintilar, dourado, sobre a palidez de sua tez; ele sempre havia cheirado a limão, mas naquele dia cheirava a suor, frutas, e papeis velhos. Skad resmungou alguma coisa inteligível, e então, preso no que quer que estivesse sonhando, tampou a boca de %Cerci%, balançando a cabeça dela para cima e para baixo e então para o lado e para o outro. %Cerci% se empertigou, e, por despeito, mordeu a mão dele; com força o suficiente para despertá-lo, com suavidade o suficiente para não o machucar.
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  Skad grunhiu, despertando de supetão, mas não parecendo consciente. Não soltou o rosto de %Cerci%. Ela estreitou os olhos, fuzilando-o com seu olhar, considerando se deveria acertá-lo com um tapa, e então, avisar que sua ajuda havia sido o suficiente para o dia e que ele deveria ir para seu quarto, dormir em uma cama confortável que não fosse ela; descartou a ideia imediatamente, conhecia-o bem o suficiente para saber que Skad diria que estava confortável, que não estava com sono e não iria dormir até que eles tivesse resolvido a primeira parte do problema em mãos — entender o que diabos era aquela flecha, e acima de tudo, o que as runas significavam —, não sairia até que %Cerci% estivesse cansada. Tentar convencê-lo do contrário seria sempre uma declaração de guerra fria que, pela insistência e manipulação emocional precisa dele, ela certamente perderia. O fizera vezes o suficiente para empertigar-se com a ideia de confrontá-lo sobre.
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  Fez então a única coisa que lhe restava fazer, recostou-se contra o sofá macio acoplado a janela abobadada da biblioteca da Corte Invernal, ainda fedendo lama e suor da sessão de treinamento que tivera mais cedo, junto com Skad, após rolar várias vezes entre a lama e a neve para ter certeza que seu cheiro não estava lá um dos melhores, e o observou de fato. Pela mãe, ela sentiu um afeto tão profundo pelo idiota que parecia que faria seu coração transbordar. Não era romântico, como Lumia costumava a descrever em seus livros “especiais”, porventura talvez %Cerci% nunca fosse capaz de compreender tal concepção. Sentia-se como se uma parte de si estivesse faltando, uma peça, pequena e imperceptível que havia deixado para trás, na Corte dos Pesadelos e que não percebera até que fosse tarde demais; talvez, ela fosse quebrada demais para compreender o que aquele tipo de amor viria a ser. Certamente não era lá sua prioridade encontrá-lo igualmente, carregava pesos e correntes demais para focar em fantasias românticas. Não era igualmente sexual, %Cerci% não tinha tanta certeza assim se sequer era capaz de sentir-se atraída por alguém, sentia-se suja demais, o tempo todo, a ideia de alguém tocá-la era nauseante, e havia aquele instinto de correr sempre que alguém se aproximava, mas Skad… pela mãe, Skad era Skad. E isso, por si só, era perfeito. Um afeto tão profundo que parecia queimar, natural e pungente, com a natural conclusão de que era certo. Era consequência, não imposição. Apenas era.
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  Mesmo que ele dormisse com a boca entreaberta, que babasse sobre seu ombro esquerdo, onde sua cabeça estava escorada, com a túnica branca entreaberta ao redor do pescoço e peito, revelando a linha forte de suas clavículas, e a pele que parecia espelhar a neve; havia algumas cicatrizes ali, pequenas, mas perceptíveis, de suas próprias aventuras. Quando era um pouco mais novo, ele lhe contara inúmeras aventuras que tivera, e sendo ela, acreditara em todas as suas palavras; agora, %Cerci% desconfiava que o heroísmo nobre que Skad apresentara era um tanto quanto exagerado, não era menos querido por isso. %Cerci% bufou baixinho, a lufada de ar quente chocou-se contra a mão dele, antes dela estender a mão direita e apertar o nariz do Herdeiro da Corte Invernal.
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  Skad finalmente pareceu livrar-se do torpor de seu próprio cansaço. Piscando, meio desorientado, o garoto primeiro tentou registrar onde estava, antes de perceber que segurava o rosto de %Cerci% e que ela lhe apertou o nariz.
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  — Tô acordado — defendeu-se no mesmo segundo, atrapalhando-se com suas palavras, tossindo um pouco como se tivesse se engasgado com sua própria saliva, antes de soltar o rosto de %Cerci% com cuidado. Um rubor suave pareceu colorir suas bochechas de um jeito que ela raramente costumava a ver, e %Cerci% abriu um sorriso, doida para começar a fazer piadas sobre o amigo. Só não o fez, porque não era de sua natureza respostas sagazes e afiadas; não por falta de tentativa, mas por falta de talento. — Estou totalmente acordado, não me olhe assim! Já estava, mas agora estou mais, juro que estou — ele disse meio afobado, e ela riu baixinho, negando com sua cabeça suavemente. — Onde a gente estava? — Skad pigarreou, endireitando-se no estofado e voltando a projetar seu tronco sobre a mesa, fingindo uma seriedade que ela sabia perfeitamente que ele não possuía. Parecia prestes a adormecer outra vez, os olhos piscando deliberadamente, a expressão serena ocultando o cansaço por trás das olheiras que manchavam sua pele alva. %Cerci% mordeu o interior de suas bochechas tentando não sorrir quando a cabeça de Skad pesou outra vez contra a mesa, por instinto, ou apenas cuidado, a jovem esticou a mão com rapidez o suficiente para impedi-lo de acertar a mesa de mogno, segurando sua testa com cuidado.
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  Skad pareceu despertar com seu toque, a sensação de sua pele abaixo de seus dedos enviando uma onda curiosa de formigamento por sua pele — a pele dele sempre era mais fria do que a dela, sempre parecia mais próxima de neve do que do sol e %Cerci% gostava da sensação. Ouviu-o bufar baixinho, virando o rosto em sua direção, sem mover um músculo. Seus olhos azuis, como os do pai dele, fixaram-se em seu rosto, sem desviar-se. Talvez mais despertos do que uma pessoa sonolenta deveria estar, mas não menos nublados pelo cansaço.
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  — A gente pode encerrar hoje? — pediu baixinho, com um sorriso adorável que aquecia sua face sempre pétrea e frígida, e %Cerci% percebeu-se incapaz de não retribuir o gesto. Era uma criatura curiosa; quando o conheceu, tivera certeza de que o menino não gostava dela, mas agora, encarando-o na privacidade noturna da biblioteca da Corte Invernal, %Cerci% quase poderia pegar-se entretendo a ideia de que havia encontrado… pela mãe, porventura realmente tivesse encontrado um amigo. Após tantos anos sem ter ideia do que tal palavra significava, agora deparava-se com a possibilidade mais real do que jamais fora. — Fica aqui hoje? — arriscou Skad, quase esperançoso. %Cerci% apertou os lábios negando com um gesto singelo de sua cabeça, para a decepção do amigo. — Sabe, você não precisa dormir em um albergue só porque Bóreas disse, tem espaço para você aqui, posso falar com Lumia… — Skad começou a negociar, mas desistiu quando viu %Cerci% não fazer menção alguma de interrompê-lo.
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  Skad ajeitou-se outra vez, afastando seu rosto da palma estendida de %Cerci%, e então, com um gesto um tanto quanto inesperado, tomou-lhe em suas mãos. As pontas de seus dedos traçaram com cuidado as cicatrizes que se formavam ali. %Cerci% sentiu o familiar impulso de encolher-se, de puxar sua mão para longe do alcance do melhor amigo, mas então, pela primeira vez, hesitou ao perceber que o toque não era agressivo, era simplesmente… gentil. Compreendeu então, somente naquele momento, o que a palavra poderia significar — percebeu que era a primeira vez que alguém lhe oferecia tal gesto. Desprovido de segundas intenções ou acusações indiretas.
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  — Faz parte da ligação — %Cerci% disse baixinho, abaixando seu olhar para sua mão, sentindo-se estranhamente inadequada, como se suas mãos fossem sujas demais para que Skad as tocassem. Ela apertou os lábios em uma fina linha rígida, subitamente consciente de si mesma, então, balançando a cabeça suavemente em um não, puxou-a de volta para si. — Não posso ficar longe dele, tanto quanto ele pode ficar longe de mim, a diferença é que ele é mais poderoso que eu, então não afeta muito ele.
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  Skad franziu o cenho, encarando com curiosidade as marcas que traçavam os braços da jovem como uma grossa camada de tinta uniforme.
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  — Meu pai e minha mãe são parceiros — Skad disse quase de supetão, as engrenagens de sua cabeça quase visíveis conforme o garoto parecia considerar cada mínima nuance na fala de %Cerci%, com um exagero demasiado desnecessário. %Cerci% franziu os cenhos confusa com as palavras de Skad. — Eles têm a ligação de parceria, é a mesma coisa com você e o Bóreas? — A voz baixa do rapaz tornou-se levemente mais defensiva do que antes, e %Cerci% fez uma careta, não pela curiosidade do melhor amigo, mas pela a ideia de Bóreas ser algo além do que Bóreas. A criatura que a havia acolhido como seu filhote em uma nevasca insuportavelmente forte e que não havia a abandonado desde então.
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  — Ele não é… quer dizer, eu sou a sombra dele, e ele é a minha. — Ela tentou colocar em palavras o sentimento, mas acabou desistindo sem saber ao certo como expor em palavras a sensação. — É parte de mim, eu posso sentir seus pensamentos por minha mente, e seu poder por minhas veias, mas mais do que isso, é meu amigo — ela disse com sinceridade voltando o olhar para Skad com um sorriso meigo. — Como você.
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  Algo nos olhos de Skad pareceram cintilar com intensidade, e %Cerci% por um momento pensou em como os olhos dele poderiam lembrá-la da água cristalina em uma manhã de sol, na forma que o gelo parecia adquirir sob o toque da luz, ainda frio e distante, mas não menos belo. Skad abriu um sorriso largo que revelou pequenas covinhas ao redor de suas bochechas. O brinco que pendia em sua orelha esquerda tilintou com o movimento de sua cabeça, quando a inclinou para a direita, encarando-a com um afeto sincero.
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  — Promete? — Skad disse animado, mesmo com as sobrancelhas franzidas de %Cerci%. — Promete que sou seu amigo? Pra sempre? — pediu ele estendendo o dedo mindinho na direção dela e %Cerci% sorriu. Ouvira tantas vezes de Lumia sobre aquele pequeno ritual, uma coisa simplória até mesmo considerada infantil, mas sendo a promessa de um fae possuía igual valor, muitos diziam que o truque era desonesto e não deveriam ser ensinados para crianças por se tratar de impulsos infantis que, muito provavelmente, poderiam ganhar conotação real com o acordo de magia entre os faes; mas o olhar genuíno de Skad, a ansiedade que alastrava-se pelo peito de %Cerci% com a mera possibilidade de finalmente ter um amigo verdadeiro em um mundo que não hesitava em lembrá-la de que não pertencia, a garota não havia hesitado em entrelaçar o mindinho com o de Skad em uma promessa silenciosa. Um voto a nunca ser desfeito, mesmo que o gesto com o dedo mindinho fosse meramente ilustrativo; mesmo que não tivesse poder algum.
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  — Para sempre — ela repetiu com um sorriso cúmplice e Skad assentiu, ainda sonolento, mas com um brilho incandescente em seus olhos, observando-a com atenção. — Não importa o que aconteça, sempre seremos amigos — ela prometeu, mas não soube ao certo para quem fazia a promessa, se para Skad, ou se para si mesma.
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•••

SKADCORTE INVERNAL

  Foi somente quando seus pés chocaram contra os bancos de neve macios e escorregadios que os olhos azuis como gelo do rapaz encontraram-se com o que parecia ser pequenos veios sob a neve. Formavam-se como pequenos galhos de árvores pelo solo, pequenas veias desenhadas sob a neve derretida, quase imperceptíveis em sua finura, mas com uma assombrosa certeza de que não pertencia àquele mundo, porque, onde a mancha vermelha parecia espalhar-se, como veios sob uma pele alva, projetavam-se para cima margaridas atraídas por um céu sem sol algum. O vento gélido atingiu a face do macho, afastando algumas mechas de seus cabelos pálidos para longe de seu rosto, fazendo alguns fios rebeldes engancharem em seus cílios, pesados pelos cristais de gelo que projetavam-se ali. Algo contorceu-se dentro de seu peito, algo que pareceu trincar, inicialmente antes de se romper com um impacto abrupto, fizera seu estômago se contorcer, como uma criatura mal matada, debatendo-se por agonia, o gosto amargo de bile espalhou-se por sua língua pungente e impossível de ser ignorado, enquanto sua garganta pareceu se contrair; lufadas de ar, agora pesadas, escapavam pelos lábios entreabertos dele, lentamente percebendo o que diabos estava acontecendo. Os olhos buscaram por alguma pista, por algum traço dos cabelos dela, de seus olhos, qualquer pista por menor que fosse de onde %Cerci% poderia estar, mas não havia nada.
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  Apenas sangue.
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  Um rastro de sangue que perdia-se em meio às árvores congeladas, as raízes cobertas pela neve e a violência invernal. Medo, puro e visceral, contorceu-se por suas veias, enroscando-se por seu peito como vinhas repletas de espinhos, lhe cortando a carne, obliterando seu caminho, expondo-a, viva e vulnerável à crueldade ardente do desespero. A corda que se enroscava por seu pescoço, pareceu apertar-se ainda mais contra sua garganta, restritivo, sufocando-o conforme o tecido grosso e revestido de sua capa chicoteava o vazio atormentador atrás de si. Ouviu a voz de Ivar, o comando para que eles continuassem se movendo, que a tempestade de neve iria piorar, que deveriam buscar refúgio, e que as criaturas estavam se aproximando de onde estavam, mas Skad estava congelado no lugar. Como uma estátua cuidadosamente esculpida pelo vento e pela umidade do ar, encarando o rastro vermelho pungente no solo conforme o choque tingia sua pele. Os dedos, outrora enroscados com mais força contra a espada, como se porventura desesperado para mantê-la a seu alcance, escapou, desabando sob a neve, o tremor crescente, amortecendo os músculos tensos.
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  Uma sensação perturbadora pareceu começar a dominar seu peito, esquisita e desconfortável, quase dolorosa quando ele percebeu, com uma pontada de horror que, porventura, talvez, ele tivesse chegado tarde demais. Talvez ele estivesse atrasado, talvez %Cerci% tivesse sido levada pela corrente… não! Ele não podia.
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  Nota da Autora: eu quero agradecer do fundo do meu coração por você ter lido até aqui, muito obrigada por manter essa fic viva, mesmo que ela não seja lá a minha mais conhecida ou a mais impressionante, eu realmente me divirto ao desenvolvê-la, especialmente pela construção dos personagens. Vale sempre lembrar que a fic é inspirada no mito de Orpheus e Eurydice, junto com umas pitadas de Branca de Neve, logo prepara o seu coração porque haverá momentos bem tristes, no mais, só tenho a agradecer por ter chegado até aqui, e por ter lido! Escrever essa história fez meu ano, de certo modo, e espero que tenha valido a pena para você que a lê. Muito obrigada, do fundo do meu coração, e te vejo daqui a pouquinho, prometo, é rapidinho!

CAPÍTULO 07




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