Capítulo 30
— Vocês já estão dormindo? — A voz do Jungkook soa do lado de fora da porta fechada do nosso quarto, seguida por algumas batidas suaves.
Da cama de Dana, da qual passei a usar, encaro Jack que estava deitada de lado no beliche debaixo. Ela enruga suas sobrancelhas e eu dou de ombro, enquanto continuo afagando os pelos brancos de Duque, que já dormia.
— Não. — Respondo alto, fazendo assim, Jungkook abrir a porta.
Jack se senta.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — Ela coloca as pernas para fora do beliche.
— Não. — Jungkook sorri e nega com a cabeça. — Namjoon e eu estamos bebendo no quarto dele, não querem se juntar?
Encaro Jack mais uma vez e dou de ombros de novo.
— Toda hora é uma boa hora para beber. — Digo, já me levantando da cama.
— Só espero não acabarmos em problemas dessa vez. — Jack se junta, e nós rimos dela.
Ajeito Duque sobre a cama e me certifico que ele estava dormindo tranquilamente. Em seguida, saio do quarto com Jack e Jungkook.
— Por que vamos beber? — Jack pergunta, enquanto andamos pelo corredor.
— Nenhum motivo especial, apenas vamos beber. — Jungkook sorri para ela e isso o deixava mais jovem.
Fizemos todo o caminho e saímos do corredor feminino, depois entramos no corredor masculino e caminhamos até o final, onde a porta do quarto de Namjoon já estava entreaberta.
— Belezuras! — Namjoon nos recebe um pouco alto demais e ergue os braços, já segurando uma garrafa de rum.
Haviam várias garrafas postas no chão, em frente ao seu baú de armas.
Após fechar a porta, nós três nos sentamos com ele em sua cama, e Namjoon logo vai nos entregando garrafas de rum.
— Como nos velhos tempos. — Ele ergue sua garrafa em direção às nossas e brindamos.
— Se for como nos velhos tempos, então terei que enganar vocês. — Provoco e dou um gole na bebida.
— Você é tão pirata quanto nós, Serena. Antes mesmo de se juntar, já trapaceava como uma loba do mar.
Todos rimos.
— As coisas vão ficar complicadas daqui para frente, por isso, precisamos ficar bêbados enquanto ainda podemos. — Jungkook diz e Jack para de beber para encará-lo.
— Se vocês não forem mortos, provavelmente2 morrerão de tanto beber. — Ela diz e Namjoon ri alto.
— Então será uma boa morte. — Ele fala, me fazendo fitá-lo de forma desacreditada.
Acho que a relação dos piratas com a bebida é ainda mais forte do que com o ouro.
— E então... — Jungkook alonga a última letra, enrolando a língua. — O que vocês farão depois que encontrarmos Atlantis? Dizem que há tantas riquezas lá que nem sei o que farei.
— Vocês poderiam continuar aqui no navio. Não temos tantas amigas piratas, sempre são mulheres como a Inez ou elas tentarão ficar conosco. — Namjoon diz.
— Tentador. — Brinco, piscando para ele.
— E isso por acaso é ruim? Você é um safado sem-vergonha, não sei por que está reclamando. — Jack responde.
— Não estou reclamando. — Namjoon balança os ombros, parecendo meio atordoado. — Mas às vezes é bom passar um tempo com pessoas que não falam só de peitos, merda ou bolas.
— Entendo o que você quer dizer. — Finjo uma pausa pensativa. — Nós, por exemplo, podemos passar muito tempo falando mal dos piratas.
Jack ri.
— Acho que prefiro falar sobre merda. — Jungkook diz, com uma feição estranha.
— Mas agora vocês também são piratas. Então, portanto, se estivessem falando mal de piratas, vocês também estariam falando mal de vocês mesmas, porque vocês já são piratas antes mesmo de estarem nesse navio pirata. — Namjoon se enrola, devido à bebida, nos fazendo rir.
— Ok, senhor bebum. Não iremos falar mal dos piratas. — Digo entre minha risada.
— Quanto tempo faz que vocês são piratas? — Jack pergunta, mudando o clima e se deitando de lado na cama, apoiando o rosto na mão fechada.
— A vida toda. — Jungkook responde. — Não conheci a minha mãe, mas meu pai fazia parte da tripulação do pai do Taehyung. Então cresci pelos navios.
— E você, Namjoon? — Pergunto.
Ele faz uma pausa e aperta os olhos em uma feição pensante.
— O meu pai também era um pirata. Minha história não é tão diferente.
— Eu esperava um pouco mais de emoção. — Brinco, fingindo uma feição entediada.
Namjoon ri.
— Converse com os outros piratas do Vingança e você escutará todo tipo de história. A Inez, por exemplo, Taehyung a encontrou na rua e a trouxe para esse navio. Ele ensinou tudo que ela sabe hoje, inclusive, como a matar duas pessoas com um tiro só.
— Isso não é tão difícil. Você precisa ver o que ele faz com uma faca e um corpo morto. — Jungkook completa.
Jack me fita, sem saber o que dizer.
— A Jack ameaçou um homem em Tortuga com uma faca. — Revelo.
— O quê? É sério? — Jungkook se joga na frente dela, a encarando de forma encantada. — Isso é tão legal, Jack.
Ela sorri sem graça, parecendo atordoada por ele achar esse tipo de coisa interessante.
— Bem... sim, mas a Serena roubou todas as moedas de ouro que ele tinha.
Namjoon ri alto de novo.
— Vocês, definitivamente, são piratas da mais baixa qualidade. E esse é o melhor tipo. — Ele ergue sua garrafa de novo e propõe outro brinde.
***
— E se jogássemos água nas suas pernas, será que elas virariam uma cauda de sereia? — Jungkook pergunta, com os olhos bem abertos.
— Eu tomo banho, sabia? — Debocho, me sentindo levemente tonta.
— É verdade. — Ele parece um pouco desapontado.
— Mas você nunca viu nada estranho nas suas pernas, Serena? E se sua cauda só aparece enquanto você está dormindo? — Jack pergunta, segurando uma garrafa vazia.
— Por que diabos ela apareceria enquanto eu estou dormindo? — Pergunto e ela dá de ombros.
— Piratas sujos, o rum acabou. — Deitado no chão, entre as garrafas vazias, Namjoon avisa. — Jungkook, você não tem mais no seu quarto?
— Não. Todas que eu tinha eu trouxe para cá. — Ele fala entre um soluço.
— Então será que devemos parar de beber? — Jack pergunta, enquanto fita a garrafa vazia em sua mão.
— Não! — Namjoon se senta rapidamente no chão. — Vamos pegar mais.
— Onde? — Jungkook pergunta.
— Na cabine do Capitão. Ele guarda algumas garrafas lá. — Namjoon responde.
— Vamos. — Repondo animada e sorrio.
— Será que nós devemos ir lá mesmo? — Jungkook pergunta, fitando todos nós.
— Qual o problema? Pensei que você fosse um pirata. — Provoco e Jungkook me encara por alguns segundos, antes de se levantar, pronto para invadir qualquer lugar agora.
Entre os resmungos enrolados de Jack, nós quatro deixamos o quarto de Namjoon e fomos até o corredor que tinha apenas um único alçapão que levava para outro corredor, esse, em que ficava o quarto do Taehyung e sua cabine também.
Namjoon pede que fiquemos em silêncio, quando, no escuro, Jungkook, Jack e eu tropeçamos nos degraus do alçapão e quase caímos.
Uma claridade bem fraca vinha da fresta da porta do quarto de Taehyung, indicando que ele estava lá. Portanto, quando Namjoon abriu a cabine do Capitão - usando um molho de chaves que apenas ele, o contramestre, tinha, optamos por não trazer uma lamparina ou algo do tipo para que a luminosidade não nos entregasse. E, de qualquer forma, Namjoon disse que conhecia a cabine bem o suficiente para encontrar as garrafas mesmo no escuro.
Quando demos os primeiros passos em direção à escuridão da cabine, o cheiro forte de álcool nos rondou. Eu só estive nessa cabine uma única vez, mas, na ocasião, eu não acho que tive tempo para me preocupar com o cheiro.
Atrás de mim, Jack esbarra em algo e Jungkook a repreende com um “Shh”, antes de esbarrar em algo também. Nem mesmo a porta aberta era capaz de nos ajudar a enxergar, uma vez que, o corredor de fora também estava escuro. Tudo que víamos aqui, enquanto tateávamos para não cair, eram silhuetas e nada mais.
— Achei! — Namjoon sussurra e eu posso ver sua sombra se abaixar. Eu não sei ao certo, mas ele parecia estar em frente a um armário ou algo do tipo, talvez, o mesmo em que eu me escondi quanto estive aqui.
Namjoon mexe em alguma coisa, demora alguns segundos e abre o armário, que, em questão de segundos, é fechado por uma silhueta muito fina e esguia, em um baque alto que nos pega desprevenidos.
— Uma vez, um pequeno rato entrou na minha cabine, mas agora parece que tem quatro deles aqui. — A claridade vinda de uma lamparina, sobe atrás da mesa da cabine, escondida embaixo dela. Taehyung estava sentado em sua cadeira, com as pernas apoiadas sobre a mesa ocupada por algumas garrafas vazias. Ele segurava uma espada e foi isso que usou para fechar a porta do armário.
Namjoon cai sentado para trás, surpreso.
— Posso saber por que vocês, ratos, estão invadindo a minha cabine no meio da noite? — Ele pergunta, calmamente.
— Capitão, a culpa é do Namjoon. Estávamos bebendo e o rum acabou, então ele disse que deveríamos vir aqui pegar mais. — Jungkook responde sem pensar duas vezes e Jack aponta para o Namjoon também.
— Seu maldito pirata da língua solta, eu deveria costurar sua boca. — Namjoon se levanta e lança um olhar mal-encarado para o amigo.
— Eu é que deveria fazer isso com vocês. — Taehyung interrompe. — Iriam me roubar dentro do meu próprio navio.
— Você não pode nos culpar por agir como piratas. — Digo, o encarando.
Em seu rosto sombreado pela lamparina, ele arqueia as sobrancelhas.
— Espera. Você também estava bebendo? — Namjoon pergunta quando nota as garrafas na mesa. — Poxa, cara, deveria ter se juntado a nós. Enchemos a cara lá no meu quarto. — Parecendo animado demais, Namjoon se aproxima de Taehyung e o abraça pelos ombros.
— Só estávamos tentando nos embebedar um pouco. — Jungkook também se junta a eles.
— É bom ter um pouco de diversão às vezes, já que estamos presos nesse navio. — Digo.
— Diversão, é? — Taehyung sorri e afasta Namjoon e Jungkook de perto. Em seguida, ele se levanta e pega todas as garrafas vazias que pode, e as que não consegue, pede que Namjoon e Jungkook o façam.
Depois ele diz para todos nós sairmos de sua cabine e então nos guia pelo corredor, indo diretamente para o convés.
Com passos um pouco desajeitados, mostrando que ele havia bebido mais que nós, Taehyung caminha até uma das bordas do navio e coloca todas as garrafas vazias ali, pedindo que Namjoon e Jungkook façam o mesmo com o resto.
Após isso, ele desprende de seu cinto, duas pistolas, entregando uma para mim e outra para Jack.
— Nós, piratas, costumamos nos divertir assim fora do navio, cada garrafa acertada vale um saco de moedas de ouro. — Ele explica.
— Isso dificulta quando estamos bêbados. — Jungkook diz.
— E essa é a graça. — Namjoon ri, animado.
— Para cada garrafa que elas acertarem, eu darei um saco de moedas de ouro para cada um de vocês. — Taehyung sorri e cruza os braços.
Jack me encara surpresa, mas é a primeira a tentar a tirar, com certeza, fazendo isso por conta do rum em seu sangue. O disparo passa longe das garrafas, acertando o navio que navegava ao lado do Vingança.
— Atire direito, Jack. Você escutou o que o Capitão disse? Um saco de moedas para cada um de nós. — Jungkook resmunga.
Jack assente e se prepara para atirar de novo, quando alguém surge correndo no convés do outro navio. Jack atira mais uma vez e erra, e, de novo, o tiro acerta o outro navio.
— O que vocês pesam que estão fazendo, seus malditos malucos?! — Um dos tripulantes dos piratas da irmandade que estavam indo para Atlantis conosco, grita.
— Acerte a garrafa! — Namjoon grita para ele, rindo, enquanto Jungkook se aproxima de Jack e tenta ensiná-la como mirar da forma correta.
Acabo rindo da cena e levanto a pistola que segurava, pronta para tentar também. Mas um dos braços de Taehyung passa ao redor da minha cintura, enquanto sua mão abaixa a arma.
— Se ainda não ficou claro, isso é apenas um pretexto. — Ele sussurra perto da minha orelha.
O espio sobre os ombros.
— Pretexto exatamente para quê? — Estreito os olhos e ele sorri.
— Para nos deixarem sozinhos. — E com isso, pela cintura, ele me arrasta em direção à porta do convés, enquanto Jack, Namjoon e Jungkook atiravam e discutiam com o tripulante do outro navio sem nem ao menos perceberem a nossa pequena fuga.
Sinto meu coração se agitar quando começamos a caminhar pelo corredor escuro e pequeno, até estarmos em frente à porta do seu quarto. Taehyung a abre e quando entramos, ele logo trata de trancá-la.
Eu não tenho tempo para observar o quarto fracamente iluminado por duas lamparinas e pequena janela redonda, pois logo o sinto me jogando na cama. Então, deitada e com os cotovelos apoiados no colchão, o vejo tirar sua própria camisa antes de subir na cama e vir em minha direção. E, em instante, seu corpo está sobre o meu e suas mãos afundadas ao lado do meu corpo.
Quando seus lábios gelados e com sabor de rum tocam os meus, fecho os olhos e inspiro fundo, absorvendo todo o aroma de álcool que balançava pelo ar do quarto.
Seguro seu rosto quando ele arrasta seu beijo para o meu pescoço, deixando minha pele quente onde seus lábios tocavam. Logo, também já sinto uma das mãos de Taehyung tocar minha perna, deslizando por deixado do meu vestido enquanto o levanta lentamente, me causando arrepios.
Inspiro profundamente e tento aproveitar as sensações que ele me dava, mas, isso dura pouco, pois, os lábios de Taehyung se afastam do meu pescoço e seu corpo despenca sobre o meu. Sua mão, antes em minha coxa, cai no colchão, assim como a outra também.
— Taehyung? — O chamo, mas ele não responde. E minha única resposta é sua respiração profunda. — Eu não acredito nisso. — Rio, sem humor e empurro seu corpo para o lado, o jogando no colchão.
Ele havia dormido. Bebeu tanto que literalmente desmaiou de sono.
Seu rosto estava com uma expressão suave, e seu peito desnudo descia e subia com tranquilidade.
Suspiro e nego com a cabeça, antes de apoiar uma das minhas mãos no seu tronco e sobre sua cicatriz, me inclinando para frente e dando-lhe um breve selar de boa noite.
Encaro seu belo rosto de pirata por alguns segundos, e depois me deito em seu tronco. Fecho os meus olhos e tento adormecer com esse bebum, enquanto escuto as batidas calmas de seu coração. Ao menos era o que eu pretendia fazer até ele começar a roncar por conta de todo o rum que bebeu, me fazendo ter vontade de sufocá-lo com um dos travesseiros.