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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Silent Heart


Escrita porPams
Revisada por Lelen

8 • Mr. Blackwood

Tempo estimado de leitura: 30 minutos

Londres - Mayfair, outono de 2022

  Mais cedo, naquele mesmo dia…

  Ao mesmo tempo que %Margareth% sentia o gosto da superação…
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  Sentia seu corpo dolorido pela longa rotina de trabalho duro e muito esforço. A galeria estava ativa e operante, com alguns pedidos significativos fechados, e algumas encomendas feitas. O sol atravessava a fina camada de vidro blindex que compunha toda a fachada da Carter Fine Art, preenchendo o ambiente com uma luz dourada que refletia nos quadros recém-instalados e nas esculturas minimalistas expostas pelo salão principal. O som dos saltos de Meredith ecoava suavemente sobre o piso de cimento queimado, enquanto ela se aproximava de uma tela que ainda aguardava a curadoria.
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  Sentada atrás do balcão de madeira rústica, %Margareth% deslizava distraidamente o dedo pela borda da xícara de porcelana, o olhar perdido na tela do celular, que vibrava intermitente.
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  — Deixe-me adivinhar… — murmurou Meredith, em seu tom malicioso, com aquele meio sorriso perspicaz. — É um certo artista urbano?
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  %Margareth% suspirou, inclinando-se para trás na cadeira, sem negar, mas também sem confirmar.
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  — Quarta mensagem desde de manhã — respondeu, deslizando a tela para ler mais uma notificação. — Confesso que sua energia é difícil de ignorar… E sua insistência também.
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  Meredith arqueou uma sobrancelha, segurando a risada.
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  — Achou mesmo que ficaria apenas no lançamento da exposição? — Então, girou nos calcanhares, aproximando dela. — E ele não iria tentar algo mais sério e concreto? Como é inocente essa minha irmã caçula.
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  %Margareth% apertou o celular, tentando ignorá-lo.
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  — É só... Provocação. — Constatou %Maggie%. — Certamente é parte do charme rebelde de artista.
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  — Charme é uma palavra bem gentil para descrever aquilo. — Meredith lançou aquele seu olhar, divertida. — Mas o que eu achei mais interessante não foi o artista, e sim as reações do advogado.
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  Sua menção foi como uma lâmina delicada e pontual. 
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  %Margareth% parou, rígida, antes de soltar lentamente o ar pelos lábios.
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  — Ele não disfarçou em nada, pelo menos não para mim — murmurou a caçula. — Os olhares eram praticamente flechas atravessando a sala inteira.
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  Meredith, ao puxar uma cadeira, sentiu-se ajeitando o corpo em seguida.
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  — Ele parecia prestes a incendiar a galeria inteira, só com o maxilar tensionado — concordou a mais velha de imediato. — Isso é um fato, estava com um notável ciúme.
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  %Margareth% tentou manter a compostura, mas o sorriso puxou discretamente um dos cantos de sua boca.
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  — Ele não tem esse direito. Foi ele quem pediu o divórcio, lembra? — rebateu, fingindo indiferença, embora a voz denunciasse um tremor sutil. — Ele escolheu o trabalho, os processos, as reuniões. Não fui eu.
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  Meredith se inclinou um pouco mais, agora com o olhar mais suave, menos sarcástico.
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  — Sabia que amor e orgulho nunca se equilibraram bem na equação de vocês dois? — Fez uma pausa, antes de acrescentar: — Você viu o jeito como ele segurava a taça? Se apertasse mais um pouco… E cada vez que o artista se aproximava de você, parecia que uma guerra mundial iria se iniciar em meio ao salão principal.
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  %Margareth% desviou o olhar para os quadros.
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  — As mudanças de humor de %Charles% me irritam… E machucam — confessou, num tom mais baixo, quase uma rendição.
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  O celular vibrou novamente. Outra mensagem do artista urbano, que a fez ler em pensamento desta vez.
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"Então... você vai continuar fingindo que não temos uma química e me ignorando?"
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  — Não quero mais problemas para o meu coração em recuperação — sussurrou ao desligar a tela do celular e colocá-lo em cima do balcão.
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  Meredith, em solidariedade, estendeu a mão, segurando a da irmã com firmeza.
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  — Querida, o problema jamais será em dar chances para outro homem… O problema sempre foi que, no fundo, você não quer outro, e sim o mesmo de sempre.
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  Silêncio.
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  O tipo de silêncio que só as irmãs conseguem compartilhar — carregado de verdades, lembranças, dores e cumplicidade. Logo o som do tilintar delicado de uma escultura de vidro suspensa, balançando com a brisa que atravessava discretamente o salão, lhes atraiu a atenção. Uns minutos e outra mensagem apitou no celular de %Maggie%, porém, desta vez não era o artista, e sim o advogado que lhe causava pesadelos e sonhos perturbadores. Antes mesmo de pensar o que faria, a mensagem apareceu aberta diante dela, em um movimento automático. Ficou olhando por alguns segundos, imóvel. Os olhos varreram, indecisos, o teclado virtual, enquanto sua mente travava uma batalha interna cruel.
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  — Não vai responder? — perguntou Meredith curiosa, espichando o pescoço para tentar ler.
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  — É o %Charles%… Se eu responder, ele vai achar que me importo — rebateu %Margareth%, apertando os olhos, o polegar pairando sobre a tela. — Se eu não responder, ele vai interpretar como um desafio e vir pessoalmente.
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  — E ambas sabemos o quanto ele adora um desafio — Meredith completou, sorrindo de lado, mordaz.
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  %Margareth% soltou um suspiro curto, como se o ar lhe ardesse dentro do peito, e finalmente levantou-se da banqueta a qual se mantinha sentada. Ela precisava tomar um ar no jardim para espairecer sua mente e esquecer aquela parte indefinida de sua vida. Pelo menos teria o trabalho para se concentrar e não agir por impulso com o risco de se arrepender.
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--

  O frescor do outono estava com os dias contatos.
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  Aos poucos, a brisa gélida do inverno começou a dar seus sinais. A última quinta-feira do mês de novembro havia sido agraciada com uma repentina mudança no clima. O dia de Ação de Graças seria celebrado com uma fina camada de chuva, que caía do lado de fora, riscando os vidros do apartamento em Mayfair com sons quase perceptíveis. O relógio já marcava pouco mais de um da tarde, e %Maggie% se mantinha de pé em frente à bancada da pia sem saber o que faria para o almoço de celebração. 
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  Seria o segundo ano consecutivo sem a presença dele.
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  Um suspiro cansado da mulher, que logo notou a presença da filha, vindo do corredor dos quartos. %Evie% entrou na sala em silêncio, enrolada no cobertor, que a acompanhou toda a manhã de feriado em sua maratona de doramas na Netflix. O olhar da filha encontrou-a apática e parcialmente reflexiva, com expressões de quem não sabia o que estava fazendo da vida.
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  — Acho que nosso almoço sairá atrasado — anunciou a mãe, com a voz baixa, quase um sussurro.
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  %Margareth% deu um sorriso fechado ao voltar sua atenção para a filha.
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  — Está tudo bem, não estou com fome — assegurou a filha, entendendo os sentimentos da mãe relacionados àquele dia. — Já passaram três meses desde a nossa vinda para cá, e ainda não me acostumei com o colchão. — Resolveu mudar o assunto.
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  — Tem certeza que é apenas o colchão? — indagou a mãe, conhecendo-a bem.
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  — Não é… — afirmou, engolindo seco, sentiu um aperto no peito. — Não tenho tido bons sonhos.
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  — Sua mente tem estado mais barulhenta que o habitual? — indagou.
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  %Evie% assentiu com a cabeça ao se aproximar da área da cozinha e puxar uma banqueta para se sentar.
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  — Não apenas a mente tem estado barulhenta... — continuou a filha. — Mas meu coração também.
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  %Maggie% olhou-a com a ternura de alguém que sabia quando a filha precisava desabafar.
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  — É pessoal? Ou está relacionado ao divórcio? — indagou, criando uma abertura para uma conversa mais profunda.
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  — Pessoal — respondeu.
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  — O que tem lhe perturbado? — perguntou, recebendo o silêncio como resposta.
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  %Evie% respirou fundo, havia muitas inquietações internas que a deixavam sem forças para lutar.
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  — Está relacionado ao monitor da livraria? — continuou a mãe, traçando uma estratégia para perguntas pontuais.
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  Ambas já tinham conversado sobre o assunto algumas vezes ao longo daquele tempo.
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  — Sim. — Mais um suspiro fraco. — Eu não sei o que fazer.
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  — O que a incomoda? — insistiu.
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  — Eu o conheci antes de toda a chuva de impedimentos… E acho que fiquei tão assustada por estar interessada por alguém que é relativamente carismático e popular, era um sentimento novo para mim… — Seu tom tinha traços de saudosismo, por um breve momento que viveu, inspirado nos seus livros de romances vitorianos. — No início pensava ser apenas fascinação pela forma como ele foi cavalheiro comigo na primeira vez que o vi… Mas acabei me descuidando e me… apaixonando de verdade.
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  — E qual o problema de estar apaixonada por ele? — questionou a mãe, estranhando a história, notando que tinha mais linhas do que ela havia relatado da última vez.
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  — Foi isso que eu não contei… — Em um respiro profundo, %Evie% abaixou o olhar, envergonhada por seus sentimentos. — A garota que te contei, que se tornou minha amiga depois que trombamos na biblioteca… É a namorada dele.
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  — Isabella? Ou a Sophie? — indagou a mais velha, tentando lembrar-se de qual das duas.
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  — Isabella — respondeu. — Izzy.
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  Uma breve pausa.
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  — Eu juro que tentei… Tentei ficar longe dele e não levar adiante minha amizade com ela, mas não consegui — continuou %Evelyn% em seu desabafo. — Quanto mais eu invento desculpas para não participar dos encontros com o grupo, mais ela me envia convites para estar com eles, sem direito a recusa.
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  Houve uma pausa pesada. %Margareth% inclinou-se um pouco na bancada da ilha, e segurou com gentileza as mãos da filha, transmitindo apoio a ela.
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  — Às vezes... — Sua voz saiu rouca, sincera. — Nosso coração faz escolhas por vontade própria, esquecendo-se de perguntar à razão se ele pode seguir tal caminho.
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  — É errado eu gostar dele? — indagou %Evie% com os olhos marejados. — Porque a cada conversa que temos na livraria, meu coração acelera ainda mais. — Sentia uma dor interna.
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  %Margareth%, em sua empatia infinita, deu a volta na bancada e abraçou a filha. Um abraço acolhedor e reconfortante que fez a jovem derramar mais lágrimas em seu ombro. Aquele era o momento mãe e filha em que compartilhariam suas tristezas, e encontrariam forças uma na outra. Por mais que a mãe se mostrasse sempre forte e inabalada diante dela, o interior de %Maggie% também tinha suas trincas e rachaduras. Ambas ficaram em silêncio. Só a chuva lá fora parecia capaz de traduzir tudo o que não cabia em palavras.
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  E então, num gesto automático, %Margareth% beijou a testa da filha.
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  — Não se culpe por gostar dele — disse a mãe com segurança no olhar. — Mas só te peço uma coisa, %Evie%... nunca, nunca se diminua para caber no mundo de ninguém.
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  %Evie% fechou os olhos, gravando cada palavra como quem grava um juramento secreto. Contudo, o conselho de %Margareth% também valia para ela mesma.
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  Alguns minutos com ambas indecisas sobre o que iriam preparar para o almoço, e o som do interfone cortou-as de imediato. Era uma visita tão inesperada quanto a chuva no final do outono. Alguns passos até a porta e os olhos da mulher ficaram parcialmente estáticos.
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  %Charles%.
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  Com sua alfaiataria impecável agora sendo esbanjada em um terno azul marinho, gravata escura, devidamente alinhado — a personificação do autocontrole. Ou, pelo menos, da tentativa de parecer que o tinha. Seus olhos claros se mantiveram fixos nela, até que desviou brevemente para a filha mais atrás.
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  — Feliz dia de Ação de Graças — disse, quase como uma explicação de sua presença ali, enquanto levantava a mão direita, mostrando ter levado uma caixa requintada contendo uma torta de maçã dentro e outras sacolas suspeitas na mão esquerda.
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  — O que faz aqui em pleno feriado? — indagou %Margareth%, embasbacada com a situação.
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  — Pelo que sei, hoje é um feriado para se passar em família — explicou com seu tom de advogado. — E ainda somos uma família.
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  — Papai! — A voz de %Evie% cortou a tensão criada entre os dois, e logo a filha passou pela mãe e o abraçou. — Que bom que está aqui!
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  — Boa tarde, querida! — disse, retribuindo o abraço.
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  Ao se afastar, analisou discretamente os olhos inchados da mais nova.
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  — Andou chorando, %Evie%? — indagou com precisão.
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  — Ah… — A jovem se acanhou pelo pai sempre observador aos detalhes. — Estava vendo um dorama na Netflix… Era triste.
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  — Hum. — %Charles% voltou o olhar para a esposa. — Poderia guardar nossa sobremesa?
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  — Ah… Claro. — %Maggie% ainda estava absorvendo toda aquela informação repentina.
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  Minutos atrás era apenas ela e a filha, agora, seu feriado estava um pouco mais movimentado.
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  — Achei que encontraria sua irmã aqui — comentou %Charles% ao passar pela porta e fechá-la no lugar da filha.
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  — Segundo ela, vai passar aqui mais tarde, pois já tinha um compromisso inadiável — explicou %Maggie%. — Achei que iria para a casa dos seus pais como no ano passado.
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  — Meus pais estão viajando — contou ele com naturalidade, seguindo-a até a cozinha. — Mas ainda se estivessem aqui… Não seria lá a minha localização atual.
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  — Hum?! — A mulher virou-se bruscamente para olhá-lo, precisava ver se seu olhar continha a verdade.
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  Contudo, acabou trombando no homem que estava a centímetros de distância.
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  — Ops… — sussurrou no impacto.
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  — Te peguei — disse %Charles% ao equilibrá-la com um leve toque ao centro de suas costas.
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  — Obrigada — murmurou afastando-se rapidamente. %Margareth% se virou para guardar o pacote de torta no micro-ondas.
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  — Eu deveria perguntar o que temos para o almoço? — indagou o homem ao notar que não havia nenhum sinal de preparação da refeição.
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  Mãe e filha se entreolharam, sem saber o que responder.
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  — Imaginei. — Ele riu de canto, ao deixar as sacolas misteriosas em cima da bancada e retirar o paletó, apoiando-o no assento da banqueta, então, arregaçou as mangas da camisa de linho egípcio, seguindo até a geladeira. — Deixe-me adivinhar, ambas iriam comer macarrão instantâneo ou torradas com pasta de amendoim?
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  — Não exagere — reclamou a mulher, fazendo uma careta.
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  — Ainda estávamos escolhendo o menu — completou a filha, segurando o riso.
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  — Ok… Vou ser bonzinho com as duas e preparar nosso almoço. — Um sorriso de canto.
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  Aquele sorriso.
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  Foi tudo o que ele precisava para cravar a mais letal lâmina no coração de %Maggie%. Ambas as senhoritas sentaram nas respectivas banquetas e apenas observaram aquele homem cheio de destreza manuseando os instrumentos da cozinha com maestria. Se não fosse um bem-sucedido advogado, %Charles% poderia ter seguido muito bem a carreira de chef célebre, por sua invejável habilidade com a área da gastronomia. Filho de peixe… Sua mãe era famosa no meio por sua linha de restaurantes de elite. 
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  Por um instante em que a filha se afastou para atender uma ligação…
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  — Gosta do que vê? — perguntou %Charles%, num tom instigante.
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  — Que mulher não acha atraente um homem de avental, cozinhando para ela? — retrucou a pergunta, sendo enigmática. — Se eu dissesse que não… Estaria mentindo.
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  Uma risada baixa vindo dele, que manteve a concentração no que fazia. Contudo, percebendo o suspiro ávido vindo dela.
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  — O que está aprontando aí? — indagou ela, curiosa com sua preparação refinada.
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  — Não confia em mim? — brincou ele.
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  — Já tem um tempo que não o vejo cozinhar. — As palavras de realidade a cortavam por dentro com certa leveza.
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  A ele também.
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  — Salmão assado ao molho de manteiga, limão e alcaparras, acompanhado de batatas gratinadas e salada, um mix de folhas verdes com pera, nozes e vinagrete de mostarda e mel — respondeu ele, encerrando o mistério. — Acho que se lembra dessa combinação.
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  — Filet de salmão fresco, assado rapidamente, servido com molho cítrico de manteiga dourada, alcaparras e ervas, acompanhado de batatas meia lua gratinadas ao forno e regadas ao vinho branco com alecrim… Combinados a uma salada fresca, elegante e aromática, que traz contraste entre o doce da pera, a crocância das nozes e o ácido suave do vinagrete — descreveu %Margareth%, poeticamente e com exatidão. — Como poderia me esquecer… Foi isso que cozinhou no nosso jantar de noivado.
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  — Sim… — Assentiu, mantendo o sorriso de canto no rosto, aliviado e grato por ela se lembrar. — Minha mãe me fez passar o dia escolhendo os ingredientes frescos na feira.
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  — E fez o mesmo hoje? — perguntou curiosa, deixando soar como saudosismo pelo momento recordado.
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  — Antes do sol nascer eu estava lá escolhendo as peras — contou %Charles%, em uma entonação de zelo e preocupação.
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  Enfatizando subjetivamente que não havia se esquecido de sua preferência pela fruta. Era a favorita de %Maggie%.
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  — Hum… — Havia lhe deixado sem palavras.
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  — Como tem sido na galeria após a reinauguração? — continuou ele, mantendo o clima suave e descontraído de dois amigos conversando sobre assuntos rotineiros.
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  — Muito trabalho e novos projetos — contou ela num tom de satisfação. — Voltei à fotografia.
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  — Sério? — Ele parou por um momento e a olhou com felicidade. — Que legal, fico feliz por isso, você sempre teve o dom para enxergar além das lentes.
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  Ela notou que vinha com sinceridade.
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  — Sim, já estava mesmo pensando sobre isso em Derbyshire, e quando viemos para cá, vi a oportunidade de voltar — continuou %Maggie% num tom empolgado. — Mas precisei de alguns workshops para relembrar o básico.
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  Soltou uma gargalhada suave e gostosa que o levou a rir junto.
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  — Tenho certeza que nunca desaprendeu por completo — comentou %Charles% em sua forma de apoio subjetivo. — Há certas coisas que são como andar de bicicleta, você nunca desaprende.
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  — Isso é verdade. — E levantando-se da banqueta, correu até a parte que havia feito de escritório para pegar sua câmera profissional. — Por isso… Vou praticar um pouco com você!
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  — O quê?! — Ele riu meio sem jeito. Por mais que tivesse sua pose elegante e rígida de sempre, não estava acostumado com algo tão singelo assim. — Ah, não, não sou o modelo ideal.
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  — Acredite… — ela se posicionou no ângulo certo, ajustando o zoom da câmera para capturar a cena — você é perfeito.
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  Um clique… Um pulsar mais forte.
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  Por mais que tivesse soado com naturalidade de uma profissional, para ambos, aquela pequena e significativa palavra, era margem para tantos outros sentidos e significados.
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  — Abrirei uma exceção apenas para você — murmurou, olhando-a com seriedade e singela sutileza.
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  %Maggie% jamais imaginaria que seu feriado seria assim.
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  Primeira semana de Dezembro… 

  E o inverno já dava seus primeiros sinais de proximidade. Após semanas relutando o inevitável, %Maggie% tirou alguns minutos da sua manhã para finalmente ler a atualização dos documentos do divórcio. Com o coração apertado, seus olhos foram passando linha por linha, sem pular nenhuma palavra. 
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  — Finalmente resolveu encarar? — comentou Meredith, ao se aproximar e perceber o que fazia.
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  — Não posso protelar mais — a mais nova relatou sua decisão. — Daqui a pouco fazemos dois anos nessa indecisão.
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  — Só acho que se quisessem mesmo o divórcio, já teriam assinado isso. — Mere tentou ser sutil, mas saiu como um tapa que acordava para vida.
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  Apenas o som de um suspiro cansado veio de %Margareth%, que ao finalizar, levantou-se da cadeira e, ajeitando a bolsa no ombro, fechou a pasta de documentos, seguindo para a saída. Nem mesmo os questionamentos da irmã, indagando onde ia com tanta pressa, a fez retrair os passos apressados. As duras palavras de Meredith tinham surtido efeito. Se era para ter um divórcio, não poderia mais protelar.
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  Afinal…
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  A ideia partiu dele.
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  Chegou em frente ao monumental edifício em que se localizavam os andares pertencentes ao escritório de advocacia do marido. Uma pausa para manter o foco, ao olhar para a fachada de espelho de vidro, sabendo que uma simples assinatura mudaria tudo em sua vida. Respirou fundo. E entrou confiante de que naquele dia não seria vulnerável à dor interna que sentia pelo rompimento de uma história construída com lutas, conquistas e muita cumplicidade.
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  — Senhora Blackwood… O senhor Blackwood está em reunião — anunciou a secretária, que no impulso do desespero, saiu correndo atrás da mulher.
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  %Maggie% estava tão determinada que nem se importou com o desespero da funcionária e seguiu até a porta que se mantinha fechada. Um giro na maçaneta e passos inesperados adentrando a sala do sócio majoritário. Seu corpo gelou de imediato ao ver a não tão amiga Taylor, próxima o suficiente para alisar a gravata do homem, com um sorriso de segundas intenções.
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  — Senhor Blackwood, eu disse que o senhor estava em reunião. — A voz afobada da secretária soou atrás de %Margareth%.
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  Mas não foi o suficiente para encerrar sua pequena paralisia pela cena.
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  — %Maggie%. — O tom surpreso de %Charles%, sim, foi o que a despertou.
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  — Continue com a sua reunião — disse ela, num tom seco e amargo, já dando meia volta para sair o mais rápido possível dali.
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  Em seu breve momento de desorientação, %Margareth% nem mesmo se deu ao trabalho de chamar o elevador, internamente estava num misto de frustração e raiva, que preferiu descer as escadas. Assim, se chorasse pelo caminho, apenas o segurança das câmeras a veria. E foi assim, passando pela porta de acesso e descer correndo o primeiro lance.
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  Seriam muitos, já que o escritório ficava no décimo sétimo andar.
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  Logo, a sensação de estar sendo seguida a atingiu, como de fato estava. No quinto lance de degraus, a mão de %Charles% a parou na metade do trajeto, puxando-a para perto.
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  — %Maggie%. — Seu tom firme, com traços de desespero, não foi capaz de desestabilizar o olhar sereno e controlado dele.
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  — Me solta — pediu ela, se debatendo.
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  — Não. — Firme em sua recusa. — Não quero dar margem para que pense algo que não está acontecendo.
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  — Não estou pensando nada — retrucou %Margareth%, demonstrando a raiva no olhar.
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  — Não é o que estou vendo — argumentou o homem, em uma serenidade fora do comum, que a irritava ainda mais. — Por favor, me deixe explicar.
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  — Já disse que não quero saber — disse elevando o tom da voz, ela conseguiu soltar-se de forma brusca, tanto que até a pasta em sua mão foi lançada para longe.
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  O que não foi notado pelo nervosismo do momento, e sem dar espaço para o contra-ataque, ela se afastou dele, retornando para o interior do edifício, partindo para o plano B: o elevador. Assim que as portas se abriram e ela entrou, a expectativa foi desfeita pela interrupção de %Charles% que, ao entrar logo atrás, apertou o botão para fechar a porta e em seguida o de trava de segurança.
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  — O que está fazendo?! — indagou ela, perplexa pela ousadia dele.
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  — Você vai me ouvir, querendo ou não — disse ele confiante de sua inocência.
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  — O que eu vou ouvir? — indagou ela, não disfarçando o ciúme que vinha reprimindo sempre que estavam próximos. — Sei muito bem da sua história com a Taylor antes de nos conhecermos.
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  — Então sabe que não existe mais nenhuma linha a ser escrita — retrucou ele, reunindo toda a paciência que se escondeu em seu interior.
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  Foram preciso três passos para chegar bem próximo a %Maggie%, fazendo-a recuar até restar apenas a parede fria do elevador para lhe sustentar de pé. %Charles% apoiou a mão direita na parede, na altura do rosto da esposa com o olhar fixo e arrebatador.
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  — O que veio fazer aqui? — indagou ele.
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  — Está mudando de assunto — retrucou ela, não respondendo.
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  — %Margareth% Blackwood… — prosseguiu, inclinando um pouco seu corpo.
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  — É Carter, para você — corrigiu, segurando seu interior trêmulo pela aproximação, lutando contra rendição fácil. — Foi você quem procurou por isso.
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  — E você aceitou de bom grado. — O único argumento que usava para a fatídica frase repetida por ela.
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  Inclinou-se mais.
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  — Diga que não me ama — sussurrou em seu ouvido, com aquele toque de malícia que ela conhecia.
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  — %Charles%… — sussurrou ela de volta ao sentir a intensidade que emanava dele, num misto de desejo e atração. — Por favor…
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  Ela não iria mentir… Não em relação ao que ainda sentia por ele.
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  Diante do silêncio que pousou sobre ambos, com os rostos próximos o suficiente para sentirem a respiração um do outro, em sua sutileza, os lábios de %Charles% tocaram os dela em um beijo que possuía a mistura de doçura e amargor, que lhes ardiam por dentro. Por mais que quisesse resistir — por mais que seu orgulho urrasse em seu peito —, %Maggie% se viu incapaz de sustentar a batalha que ela mesma declarara.
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  Seu corpo cedeu antes que sua mente pudesse formular qualquer defesa plausível, rendida estava às investidas do homem, sem nem mesmo se importar com o lugar em que estavam. O advogado, por sua vez, bastou um gesto discreto e preciso com a mão esquerda para que o responsável pelas câmeras entendesse o recado. O elevador exclusivo dos executivos estava temporariamente interditado, e a câmera devidamente desligada para “reajustes” do sistema.
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  — %Charles%… — Um gemido vindo dela.
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  Suas mãos, que antes empurravam o peito dele em negação, agora seguravam sua camisa, puxando-o com uma fome que vinha sendo sufocada desde o feriado de Ação de Graças. O beijo, antes contido, se desfez em urgência — uma confissão muda de tudo o que haviam tentado negar. %Charles% deslizou os dedos pela nuca da mulher, enlaçando-a pela cintura, apertando-a contra si, como quem tentava, de algum modo, costurar os pedaços que a vida teimava em arrancar deles.
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  — %Maggie%… — Uma pausa de sua parte para puxar o ar com mais força, quase se esquecendo de respirar, então, retomou do ponto em que havia pausado.
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  Ela apertou os olhos fechados, agarrando ainda mais o tecido entre os dedos, como uma entrega nunca tida antes, inesperada até por ele. Nenhuma palavra a mais foi necessária. Em um breve momento de intimidade, apenas o toque, as carícias e os suspiros preenchiam aquele espaço apertado, onde o tempo parecia, enfim… 
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  Ter parado só para eles dois.
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Creo en ti y en este amor
Que me ha vuelto indestructible
Que detuvo mi caída libre.
- Creo en Ti / Lunafly

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Lelen

CHARLES, MEU QUERIDO, FOI TU QUE PEDIU O DIVÓRCIO E FOI O PRIMEIRO A SE ARREPENDER.
E o que a Margareth ia fazer com os papéis do divórcio, ia só aceitar os termos ou ia finalmente dar o braço a torcer?
PELAMOR, VOLTEM LOGO A SER UM CASAL. Ou sei lá, voltem pra fase do namoro, cada um fica na sua casa e depois se encontram, às vezes a saudade faz bem, né? HAHAHAH Mas eu ainda tô esperando a jogada do Kai? Será que vai dar tempo de qualquer coisa depois dessa cena final do capítulo? OIBASDOIASNDOIA

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