8 • Mr. Blackwood
Tempo estimado de leitura: 30 minutos
Londres - Mayfair, outono de 2022
Mais cedo, naquele mesmo dia…
Ao mesmo tempo que %Margareth% sentia o gosto da superação…
Sentia seu corpo dolorido pela longa rotina de trabalho duro e muito esforço. A galeria estava ativa e operante, com alguns pedidos significativos fechados, e algumas encomendas feitas. O sol atravessava a fina camada de vidro blindex que compunha toda a fachada da
Carter Fine Art, preenchendo o ambiente com uma luz dourada que refletia nos quadros recém-instalados e nas esculturas minimalistas expostas pelo salão principal. O som dos saltos de Meredith ecoava suavemente sobre o piso de cimento queimado, enquanto ela se aproximava de uma tela que ainda aguardava a curadoria.
Sentada atrás do balcão de madeira rústica, %Margareth% deslizava distraidamente o dedo pela borda da xícara de porcelana, o olhar perdido na tela do celular, que vibrava intermitente.
— Deixe-me adivinhar… — murmurou Meredith, em seu tom malicioso, com aquele meio sorriso perspicaz. — É um certo artista urbano?
%Margareth% suspirou, inclinando-se para trás na cadeira, sem negar, mas também sem confirmar.
— Quarta mensagem desde de manhã — respondeu, deslizando a tela para ler mais uma notificação. — Confesso que sua energia é difícil de ignorar… E sua insistência também.
Meredith arqueou uma sobrancelha, segurando a risada.
— Achou mesmo que ficaria apenas no lançamento da exposição? — Então, girou nos calcanhares, aproximando dela. — E ele não iria tentar algo mais sério e concreto? Como é inocente essa minha irmã caçula.
%Margareth% apertou o celular, tentando ignorá-lo.
— É só... Provocação. — Constatou %Maggie%. — Certamente é parte do charme rebelde de artista.
— Charme é uma palavra bem gentil para descrever aquilo. — Meredith lançou aquele seu olhar, divertida. — Mas o que eu achei mais interessante não foi o artista, e sim as reações do advogado.
Sua menção foi como uma lâmina delicada e pontual.
%Margareth% parou, rígida, antes de soltar lentamente o ar pelos lábios.
— Ele não disfarçou em nada, pelo menos não para mim — murmurou a caçula. — Os olhares eram praticamente flechas atravessando a sala inteira.
Meredith, ao puxar uma cadeira, sentiu-se ajeitando o corpo em seguida.
— Ele parecia prestes a incendiar a galeria inteira, só com o maxilar tensionado — concordou a mais velha de imediato. — Isso é um fato, estava com um notável ciúme.
%Margareth% tentou manter a compostura, mas o sorriso puxou discretamente um dos cantos de sua boca.
— Ele não tem esse direito. Foi ele quem pediu o divórcio, lembra? — rebateu, fingindo indiferença, embora a voz denunciasse um tremor sutil. — Ele escolheu o trabalho, os processos, as reuniões. Não fui eu.
Meredith se inclinou um pouco mais, agora com o olhar mais suave, menos sarcástico.
— Sabia que amor e orgulho nunca se equilibraram bem na equação de vocês dois? — Fez uma pausa, antes de acrescentar: — Você viu o jeito como ele segurava a taça? Se apertasse mais um pouco… E cada vez que o artista se aproximava de você, parecia que uma guerra mundial iria se iniciar em meio ao salão principal.
%Margareth% desviou o olhar para os quadros.
— As mudanças de humor de %Charles% me irritam… E machucam — confessou, num tom mais baixo, quase uma rendição.
O celular vibrou novamente. Outra mensagem do artista urbano, que a fez ler em pensamento desta vez.
"Então... você vai continuar fingindo que não temos uma química e me ignorando?" — Não quero mais problemas para o meu coração em recuperação — sussurrou ao desligar a tela do celular e colocá-lo em cima do balcão.
Meredith, em solidariedade, estendeu a mão, segurando a da irmã com firmeza.
— Querida, o problema jamais será em dar chances para outro homem… O problema sempre foi que, no fundo, você não quer outro, e sim o mesmo de sempre.
O tipo de silêncio que só as irmãs conseguem compartilhar — carregado de verdades, lembranças, dores e cumplicidade. Logo o som do tilintar delicado de uma escultura de vidro suspensa, balançando com a brisa que atravessava discretamente o salão, lhes atraiu a atenção. Uns minutos e outra mensagem apitou no celular de %Maggie%, porém, desta vez não era o artista, e sim o advogado que lhe causava pesadelos e sonhos perturbadores. Antes mesmo de pensar o que faria, a mensagem apareceu aberta diante dela, em um movimento automático. Ficou olhando por alguns segundos, imóvel. Os olhos varreram, indecisos, o teclado virtual, enquanto sua mente travava uma batalha interna cruel.
— Não vai responder? — perguntou Meredith curiosa, espichando o pescoço para tentar ler.
— É o %Charles%… Se eu responder, ele vai achar que me importo — rebateu %Margareth%, apertando os olhos, o polegar pairando sobre a tela. — Se eu não responder, ele vai interpretar como um desafio e vir pessoalmente.
— E ambas sabemos o quanto ele adora um desafio — Meredith completou, sorrindo de lado, mordaz.
%Margareth% soltou um suspiro curto, como se o ar lhe ardesse dentro do peito, e finalmente levantou-se da banqueta a qual se mantinha sentada. Ela precisava tomar um ar no jardim para espairecer sua mente e esquecer aquela parte indefinida de sua vida. Pelo menos teria o trabalho para se concentrar e não agir por impulso com o risco de se arrepender.
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O frescor do outono estava com os dias contatos.
Aos poucos, a brisa gélida do inverno começou a dar seus sinais. A última quinta-feira do mês de novembro havia sido agraciada com uma repentina mudança no clima. O dia de
Ação de Graças seria celebrado com uma fina camada de chuva, que caía do lado de fora, riscando os vidros do apartamento em Mayfair com sons quase perceptíveis. O relógio já marcava pouco mais de um da tarde, e %Maggie% se mantinha de pé em frente à bancada da pia sem saber o que faria para o almoço de celebração.
Seria o segundo ano consecutivo sem a presença dele.
Um suspiro cansado da mulher, que logo notou a presença da filha, vindo do corredor dos quartos. %Evie% entrou na sala em silêncio, enrolada no cobertor, que a acompanhou toda a manhã de feriado em sua maratona de doramas na Netflix. O olhar da filha encontrou-a apática e parcialmente reflexiva, com expressões de quem não sabia o que estava fazendo da vida.
— Acho que nosso almoço sairá atrasado — anunciou a mãe, com a voz baixa, quase um sussurro.
%Margareth% deu um sorriso fechado ao voltar sua atenção para a filha.
— Está tudo bem, não estou com fome — assegurou a filha, entendendo os sentimentos da mãe relacionados àquele dia. — Já passaram três meses desde a nossa vinda para cá, e ainda não me acostumei com o colchão. — Resolveu mudar o assunto.
— Tem certeza que é apenas o colchão? — indagou a mãe, conhecendo-a bem.
— Não é… — afirmou, engolindo seco, sentiu um aperto no peito. — Não tenho tido bons sonhos.
— Sua mente tem estado mais barulhenta que o habitual? — indagou.
%Evie% assentiu com a cabeça ao se aproximar da área da cozinha e puxar uma banqueta para se sentar.
— Não apenas a mente tem estado barulhenta... — continuou a filha. — Mas meu coração também.
%Maggie% olhou-a com a ternura de alguém que sabia quando a filha precisava desabafar.
— É pessoal? Ou está relacionado ao divórcio? — indagou, criando uma abertura para uma conversa mais profunda.
— O que tem lhe perturbado? — perguntou, recebendo o silêncio como resposta.
%Evie% respirou fundo, havia muitas inquietações internas que a deixavam sem forças para lutar.
— Está relacionado ao monitor da livraria? — continuou a mãe, traçando uma estratégia para perguntas pontuais.
Ambas já tinham conversado sobre o assunto algumas vezes ao longo daquele tempo.
— Sim. — Mais um suspiro fraco. — Eu não sei o que fazer.
— O que a incomoda? — insistiu.
— Eu o conheci antes de toda a chuva de impedimentos… E acho que fiquei tão assustada por estar interessada por alguém que é relativamente carismático e popular, era um sentimento novo para mim… — Seu tom tinha traços de saudosismo, por um breve momento que viveu, inspirado nos seus livros de romances vitorianos. — No início pensava ser apenas fascinação pela forma como ele foi cavalheiro comigo na primeira vez que o vi… Mas acabei me descuidando e me… apaixonando de verdade.
— E qual o problema de estar apaixonada por ele? — questionou a mãe, estranhando a história, notando que tinha mais linhas do que ela havia relatado da última vez.
— Foi isso que eu não contei… — Em um respiro profundo, %Evie% abaixou o olhar, envergonhada por seus sentimentos. — A garota que te contei, que se tornou minha amiga depois que trombamos na biblioteca… É a namorada dele.
— Isabella? Ou a Sophie? — indagou a mais velha, tentando lembrar-se de qual das duas.
— Isabella — respondeu. — Izzy.
— Eu juro que tentei… Tentei ficar longe dele e não levar adiante minha amizade com ela, mas não consegui — continuou %Evelyn% em seu desabafo. — Quanto mais eu invento desculpas para não participar dos encontros com o grupo, mais ela me envia convites para estar com eles, sem direito a recusa.
Houve uma pausa pesada. %Margareth% inclinou-se um pouco na bancada da ilha, e segurou com gentileza as mãos da filha, transmitindo apoio a ela.
— Às vezes... — Sua voz saiu rouca, sincera. — Nosso coração faz escolhas por vontade própria, esquecendo-se de perguntar à razão se ele pode seguir tal caminho.
— É errado eu gostar dele? — indagou %Evie% com os olhos marejados. — Porque a cada conversa que temos na livraria, meu coração acelera ainda mais. — Sentia uma dor interna.
%Margareth%, em sua empatia infinita, deu a volta na bancada e abraçou a filha. Um abraço acolhedor e reconfortante que fez a jovem derramar mais lágrimas em seu ombro. Aquele era o momento mãe e filha em que compartilhariam suas tristezas, e encontrariam forças uma na outra. Por mais que a mãe se mostrasse sempre forte e inabalada diante dela, o interior de %Maggie% também tinha suas trincas e rachaduras. Ambas ficaram em silêncio. Só a chuva lá fora parecia capaz de traduzir tudo o que não cabia em palavras.
E então, num gesto automático, %Margareth% beijou a testa da filha.
— Não se culpe por gostar dele — disse a mãe com segurança no olhar. — Mas só te peço uma coisa, %Evie%... nunca, nunca se diminua para caber no mundo de ninguém.
%Evie% fechou os olhos, gravando cada palavra como quem grava um juramento secreto. Contudo, o conselho de %Margareth% também valia para ela mesma.
Alguns minutos com ambas indecisas sobre o que iriam preparar para o almoço, e o som do interfone cortou-as de imediato. Era uma visita tão inesperada quanto a chuva no final do outono. Alguns passos até a porta e os olhos da mulher ficaram parcialmente estáticos.
Com sua alfaiataria impecável agora sendo esbanjada em um terno azul marinho, gravata escura, devidamente alinhado — a personificação do autocontrole. Ou, pelo menos, da tentativa de parecer que o tinha. Seus olhos claros se mantiveram fixos nela, até que desviou brevemente para a filha mais atrás.
— Feliz dia de Ação de Graças — disse, quase como uma explicação de sua presença ali, enquanto levantava a mão direita, mostrando ter levado uma caixa requintada contendo uma torta de maçã dentro e outras sacolas suspeitas na mão esquerda.
— O que faz aqui em pleno feriado? — indagou %Margareth%, embasbacada com a situação.
— Pelo que sei, hoje é um feriado para se passar em família — explicou com seu tom de advogado. — E ainda somos uma família.
— Papai! — A voz de %Evie% cortou a tensão criada entre os dois, e logo a filha passou pela mãe e o abraçou. — Que bom que está aqui!
— Boa tarde, querida! — disse, retribuindo o abraço.
Ao se afastar, analisou discretamente os olhos inchados da mais nova.
— Andou chorando, %Evie%? — indagou com precisão.
— Ah… — A jovem se acanhou pelo pai sempre observador aos detalhes. — Estava vendo um dorama na Netflix… Era triste.
— Hum. — %Charles% voltou o olhar para a esposa. — Poderia guardar nossa sobremesa?
— Ah… Claro. — %Maggie% ainda estava absorvendo toda aquela informação repentina.
Minutos atrás era apenas ela e a filha, agora, seu feriado estava um pouco mais movimentado.
— Achei que encontraria sua irmã aqui — comentou %Charles% ao passar pela porta e fechá-la no lugar da filha.
— Segundo ela, vai passar aqui mais tarde, pois já tinha um compromisso inadiável — explicou %Maggie%. — Achei que iria para a casa dos seus pais como no ano passado.
— Meus pais estão viajando — contou ele com naturalidade, seguindo-a até a cozinha. — Mas ainda se estivessem aqui… Não seria lá a minha localização atual.
— Hum?! — A mulher virou-se bruscamente para olhá-lo, precisava ver se seu olhar continha a verdade.
Contudo, acabou trombando no homem que estava a centímetros de distância.
— Ops… — sussurrou no impacto.
— Te peguei — disse %Charles% ao equilibrá-la com um leve toque ao centro de suas costas.
— Obrigada — murmurou afastando-se rapidamente. %Margareth% se virou para guardar o pacote de torta no micro-ondas.
— Eu deveria perguntar o que temos para o almoço? — indagou o homem ao notar que não havia nenhum sinal de preparação da refeição.
Mãe e filha se entreolharam, sem saber o que responder.
— Imaginei. — Ele riu de canto, ao deixar as sacolas misteriosas em cima da bancada e retirar o paletó, apoiando-o no assento da banqueta, então, arregaçou as mangas da camisa de linho egípcio, seguindo até a geladeira. — Deixe-me adivinhar, ambas iriam comer macarrão instantâneo ou torradas com pasta de amendoim?
— Não exagere — reclamou a mulher, fazendo uma careta.
— Ainda estávamos escolhendo o menu — completou a filha, segurando o riso.
— Ok… Vou ser bonzinho com as duas e preparar nosso almoço. — Um sorriso de canto.
Foi tudo o que ele precisava para cravar a mais letal lâmina no coração de %Maggie%. Ambas as senhoritas sentaram nas respectivas banquetas e apenas observaram aquele homem cheio de destreza manuseando os instrumentos da cozinha com maestria. Se não fosse um bem-sucedido advogado, %Charles% poderia ter seguido muito bem a carreira de chef célebre, por sua invejável habilidade com a área da gastronomia.
Filho de peixe… Sua mãe era famosa no meio por sua linha de restaurantes de elite.
Por um instante em que a filha se afastou para atender uma ligação…
— Gosta do que vê? — perguntou %Charles%, num tom instigante.
— Que mulher não acha atraente um homem de avental, cozinhando para ela? — retrucou a pergunta, sendo enigmática. — Se eu dissesse que não… Estaria mentindo.
Uma risada baixa vindo dele, que manteve a concentração no que fazia. Contudo, percebendo o suspiro ávido vindo dela.
— O que está aprontando aí? — indagou ela, curiosa com sua preparação refinada.
— Não confia em mim? — brincou ele.
— Já tem um tempo que não o vejo cozinhar. — As palavras de realidade a cortavam por dentro com certa leveza.
— Salmão assado ao molho de manteiga, limão e alcaparras, acompanhado de batatas gratinadas e salada, um mix de folhas verdes com pera, nozes e vinagrete de mostarda e mel — respondeu ele, encerrando o mistério. — Acho que se lembra dessa combinação.
— Filet de salmão fresco, assado rapidamente, servido com molho cítrico de manteiga dourada, alcaparras e ervas, acompanhado de batatas meia lua gratinadas ao forno e regadas ao vinho branco com alecrim… Combinados a uma salada fresca, elegante e aromática, que traz contraste entre o doce da pera, a crocância das nozes e o ácido suave do vinagrete — descreveu %Margareth%, poeticamente e com exatidão. — Como poderia me esquecer… Foi isso que cozinhou no nosso jantar de noivado.
— Sim… — Assentiu, mantendo o sorriso de canto no rosto, aliviado e grato por ela se lembrar. — Minha mãe me fez passar o dia escolhendo os ingredientes frescos na feira.
— E fez o mesmo hoje? — perguntou curiosa, deixando soar como saudosismo pelo momento recordado.
— Antes do sol nascer eu estava lá escolhendo as peras — contou %Charles%, em uma entonação de zelo e preocupação.
Enfatizando subjetivamente que não havia se esquecido de sua preferência pela fruta. Era a favorita de %Maggie%.
— Hum… — Havia lhe deixado sem palavras.
— Como tem sido na galeria após a reinauguração? — continuou ele, mantendo o clima suave e descontraído de dois amigos conversando sobre assuntos rotineiros.
— Muito trabalho e novos projetos — contou ela num tom de satisfação. — Voltei à fotografia.
— Sério? — Ele parou por um momento e a olhou com felicidade. — Que legal, fico feliz por isso, você sempre teve o dom para enxergar além das lentes.
Ela notou que vinha com sinceridade.
— Sim, já estava mesmo pensando sobre isso em Derbyshire, e quando viemos para cá, vi a oportunidade de voltar — continuou %Maggie% num tom empolgado. — Mas precisei de alguns workshops para relembrar o básico.
Soltou uma gargalhada suave e gostosa que o levou a rir junto.
— Tenho certeza que nunca desaprendeu por completo — comentou %Charles% em sua forma de apoio subjetivo. — Há certas coisas que são como andar de bicicleta, você nunca desaprende.
— Isso é verdade. — E levantando-se da banqueta, correu até a parte que havia feito de escritório para pegar sua câmera profissional. — Por isso… Vou praticar um pouco com você!
— O quê?! — Ele riu meio sem jeito. Por mais que tivesse sua pose elegante e rígida de sempre, não estava acostumado com algo tão singelo assim. — Ah, não, não sou o modelo ideal.
— Acredite… — ela se posicionou no ângulo certo, ajustando o zoom da câmera para capturar a cena — você é perfeito.
Um clique…
Um pulsar mais forte. Por mais que tivesse soado com naturalidade de uma profissional, para ambos, aquela pequena e significativa palavra, era margem para tantos outros sentidos e significados.
— Abrirei uma exceção apenas para você — murmurou, olhando-a com seriedade e singela sutileza.
%Maggie% jamais imaginaria que seu feriado seria assim.
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Primeira semana de Dezembro…
E o inverno já dava seus primeiros sinais de proximidade. Após semanas relutando o inevitável, %Maggie% tirou alguns minutos da sua manhã para finalmente ler a atualização dos documentos do divórcio. Com o coração apertado, seus olhos foram passando linha por linha, sem pular nenhuma palavra.
— Finalmente resolveu encarar? — comentou Meredith, ao se aproximar e perceber o que fazia.
— Não posso protelar mais — a mais nova relatou sua decisão. — Daqui a pouco fazemos dois anos nessa indecisão.
— Só acho que se quisessem mesmo o divórcio, já teriam assinado isso. — Mere tentou ser sutil, mas saiu como um tapa que acordava para vida.
Apenas o som de um suspiro cansado veio de %Margareth%, que ao finalizar, levantou-se da cadeira e, ajeitando a bolsa no ombro, fechou a pasta de documentos, seguindo para a saída. Nem mesmo os questionamentos da irmã, indagando onde ia com tanta pressa, a fez retrair os passos apressados. As duras palavras de Meredith tinham surtido efeito. Se era para ter um divórcio, não poderia mais protelar.
Chegou em frente ao monumental edifício em que se localizavam os andares pertencentes ao escritório de advocacia do marido. Uma pausa para manter o foco, ao olhar para a fachada de espelho de vidro, sabendo que uma simples assinatura mudaria tudo em sua vida. Respirou fundo. E entrou confiante de que naquele dia não seria vulnerável à dor interna que sentia pelo rompimento de uma história construída com lutas, conquistas e muita cumplicidade.
— Senhora Blackwood… O senhor Blackwood está em reunião — anunciou a secretária, que no impulso do desespero, saiu correndo atrás da mulher.
%Maggie% estava tão determinada que nem se importou com o desespero da funcionária e seguiu até a porta que se mantinha fechada. Um giro na maçaneta e passos inesperados adentrando a sala do sócio majoritário. Seu corpo gelou de imediato ao ver a não tão amiga Taylor, próxima o suficiente para alisar a gravata do homem, com um sorriso de segundas intenções.
— Senhor Blackwood, eu disse que o senhor estava em reunião. — A voz afobada da secretária soou atrás de %Margareth%.
Mas não foi o suficiente para encerrar sua pequena paralisia pela cena.
— %Maggie%. — O tom surpreso de %Charles%, sim, foi o que a despertou.
— Continue com a sua reunião — disse ela, num tom seco e amargo, já dando meia volta para sair o mais rápido possível dali.
Em seu breve momento de desorientação, %Margareth% nem mesmo se deu ao trabalho de chamar o elevador, internamente estava num misto de frustração e raiva, que preferiu descer as escadas. Assim, se chorasse pelo caminho, apenas o segurança das câmeras a veria. E foi assim, passando pela porta de acesso e descer correndo o primeiro lance.
Seriam muitos, já que o escritório ficava no décimo sétimo andar.
Logo, a sensação de estar sendo seguida a atingiu, como de fato estava. No quinto lance de degraus, a mão de %Charles% a parou na metade do trajeto, puxando-a para perto.
— %Maggie%. — Seu tom firme, com traços de desespero, não foi capaz de desestabilizar o olhar sereno e controlado dele.
— Me solta — pediu ela, se debatendo.
— Não. — Firme em sua recusa. — Não quero dar margem para que pense algo que não está acontecendo.
— Não estou pensando nada — retrucou %Margareth%, demonstrando a raiva no olhar.
— Não é o que estou vendo — argumentou o homem, em uma serenidade fora do comum, que a irritava ainda mais. — Por favor, me deixe explicar.
— Já disse que não quero saber — disse elevando o tom da voz, ela conseguiu soltar-se de forma brusca, tanto que até a pasta em sua mão foi lançada para longe.
O que não foi notado pelo nervosismo do momento, e sem dar espaço para o contra-ataque, ela se afastou dele, retornando para o interior do edifício, partindo para o plano B: o elevador. Assim que as portas se abriram e ela entrou, a expectativa foi desfeita pela interrupção de %Charles% que, ao entrar logo atrás, apertou o botão para fechar a porta e em seguida o de trava de segurança.
— O que está fazendo?! — indagou ela, perplexa pela ousadia dele.
— Você vai me ouvir, querendo ou não — disse ele confiante de sua inocência.
— O que eu vou ouvir? — indagou ela, não disfarçando o ciúme que vinha reprimindo sempre que estavam próximos. — Sei muito bem da sua história com a Taylor antes de nos conhecermos.
— Então sabe que não existe mais nenhuma linha a ser escrita — retrucou ele, reunindo toda a paciência que se escondeu em seu interior.
Foram preciso três passos para chegar bem próximo a %Maggie%, fazendo-a recuar até restar apenas a parede fria do elevador para lhe sustentar de pé. %Charles% apoiou a mão direita na parede, na altura do rosto da esposa com o olhar fixo e arrebatador.
— O que veio fazer aqui? — indagou ele.
— Está mudando de assunto — retrucou ela, não respondendo.
— %Margareth% Blackwood… — prosseguiu, inclinando um pouco seu corpo.
— É Carter, para você — corrigiu, segurando seu interior trêmulo pela aproximação, lutando contra rendição fácil. — Foi você quem procurou por isso.
— E você aceitou de bom grado. — O único argumento que usava para a fatídica frase repetida por ela.
— Diga que não me ama — sussurrou em seu ouvido, com aquele toque de malícia que ela conhecia.
— %Charles%… — sussurrou ela de volta ao sentir a intensidade que emanava dele, num misto de desejo e atração. — Por favor…
Ela não iria mentir… Não em relação ao que ainda sentia por ele.
Diante do silêncio que pousou sobre ambos, com os rostos próximos o suficiente para sentirem a respiração um do outro, em sua sutileza, os lábios de %Charles% tocaram os dela em um beijo que possuía a mistura de doçura e amargor, que lhes ardiam por dentro. Por mais que quisesse resistir — por mais que seu orgulho urrasse em seu peito —, %Maggie% se viu incapaz de sustentar a batalha que ela mesma declarara.
Seu corpo cedeu antes que sua mente pudesse formular qualquer defesa plausível, rendida estava às investidas do homem, sem nem mesmo se importar com o lugar em que estavam. O advogado, por sua vez, bastou um gesto discreto e preciso com a mão esquerda para que o responsável pelas câmeras entendesse o recado. O elevador exclusivo dos executivos estava temporariamente interditado, e a câmera devidamente desligada para “reajustes” do sistema.
— %Charles%… — Um gemido vindo dela.
Suas mãos, que antes empurravam o peito dele em negação, agora seguravam sua camisa, puxando-o com uma fome que vinha sendo sufocada desde o feriado de
Ação de Graças. O beijo, antes contido, se desfez em urgência — uma confissão muda de tudo o que haviam tentado negar. %Charles% deslizou os dedos pela nuca da mulher, enlaçando-a pela cintura, apertando-a contra si, como quem tentava, de algum modo, costurar os pedaços que a vida teimava em arrancar deles.
— %Maggie%… — Uma pausa de sua parte para puxar o ar com mais força, quase se esquecendo de respirar, então, retomou do ponto em que havia pausado.
Ela apertou os olhos fechados, agarrando ainda mais o tecido entre os dedos, como uma entrega nunca tida antes, inesperada até por ele. Nenhuma palavra a mais foi necessária. Em um breve momento de intimidade, apenas o toque, as carícias e os suspiros preenchiam aquele espaço apertado, onde o tempo parecia, enfim…
Ter parado só para eles dois.
Creo en ti y en este amor
Que me ha vuelto indestructible
Que detuvo mi caída libre.
- Creo en Ti / Lunafly