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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Silent Heart


Escrita porPams
Revisada por Lelen

7 • Carter Fine Art

Tempo estimado de leitura: 29 minutos

Londres - Hyde Park, outono de 2022

  A porta se fechou com um estalo seco. 
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  Mais alto do que deveria. Mais alto do que nunca pareceu antes. %Charles% colocou as chaves no aparador de mármore, mas desta vez elas não pousaram com aquele toque elegante e calculado. Foi brusco, carregado de irritação, fazendo-as ricochetear, escorregando até o chão. Ele não se abaixou para pegá-las, ignorando. O terno parecia sufocá-lo com aquela gravata bem alinhada, o que fez seus dedos a puxarem como se ela fosse uma corda no pescoço. O paletó voou sobre o sofá — dessa vez, sem a elegância habitual, sem aquele cuidado meticuloso que sempre o definiu. E seus passos pesados até o bar pareceram trilhar um caminho de espinhos. Seu corpo parou por um momento, o fechar de seus olhos levou os punhos a se fecharem também. Tenso, como se apertasse o próprio peito. 
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  Como se pudesse esmagar aquele nó na garganta que surgiu sem permissão.
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  A imagem perturbadora não lhe saía da cabeça. Sua %Margareth% sorrindo, com leveza e verdade, de uma forma tão descontraída que parecia ter voltado aos tempos de adolescente, quando tudo em seu namoro era novidade. Daquele jeito que não sorria para ele havia anos, mas agora sorria para outro homem.
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  As mãos tremeram. 
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  E ele odiava isso. Odiava cada segundo disso. Por que ele pediu o divórcio? Por que ela aceitou com tanta facilidade? — eram as perguntas que não lhe saíam da mente. A dor interna seria compensada com o álcool, um copo de Bourbon que levou aos lábios sem a preocupação se estaria bem ou não para enfrentar o tribunal no dia seguinte. O primeiro gole desceu queimando-o por dentro, não pelo gosto, mas por seus sentimentos sufocados e abafados por seu orgulho. E o que deveria ser apenas uma bebida, virou uma âncora. 
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  Uma necessidade. Uma fuga da realidade.
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  Poucos passos até a janela, atento às luzes de Londres vibrando do lado de fora. As árvores do Hyde Park balançavam com o vento úmido de uma noite que não prometia nada além de solidão. Era doloroso admitir que estava sozinho. Verdadeiramente sozinho. Não o tipo de solidão que escolheu, aquela de quem priorizava trabalho, contratos, sucesso, ou de alguém que apenas deseja evitar discussões sem propósito que ferem os envolvidos em questão. Não. Agora era outra, era a solidão de quem percebia, tarde demais, que aquilo que julgava eterno, cansou de esperar assim que aceitou a palavra divórcio entre eles.
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  O reflexo no vidro o encarou. E ele não gostava do que via.
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  — Parabéns, %Charles%... — murmurou com uma risada rouca, quebrada. — Você ganhou. Perdeu tudo, mas ganhou.
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  Ele virou o corpo, cambaleou, não de álcool, mas do peso de suas ações impensadas e tomadas no calor do momento. O único momento em que o senhor racional não agiu pela razão e sim pelo cansaço. Ele se moveu em passos lentos até a cama e se jogou nela, fixando os olhos no teto que lhe apresentava a frieza de sua realidade.
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  Uma vida inteira que agora parecia uma lembrança emprestada.
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  Por alguns segundos, só respirou, enquanto sentia seus olhos marejarem aos poucos. Mas não. Ele não ia chorar. Seu orgulho não permitiria tal ato, afinal, nem tudo estava perdido e se fosse para vencer verdadeiramente, seria com a esposa ao lado no final de tudo isso, com a extinção da palavra divórcio. Em minutos de silêncio...
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  A dor não gritava, ela sussurrava.
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  Como se quisesse tocar em sua ferida e fazê-lo contorcer.
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  Sussurrava o que ele mais temia ouvir: “Ela está seguindo em frente, e talvez… Não o ama mais.”
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--

  Os últimos dias de preparação para a reinauguração da galeria foram os mais corridos e caóticos possíveis. Com as irmãs Carter passando noites em claro sob a luz artificial dos pendentes e arandelas da edificação que necessitavam daqueles toques finais, que somente as donas poderiam dar. Os olhos de %Maggie% brilharam ao contemplar tudo em seu devido lugar, enquanto a irmã, assentada na cadeira ao lado, confirmava a presença de mais um contato de sua lista de convidados.
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  — Terra chamando %Margareth% — brincou ela, despertando a irmã de seus devaneios profissionais.
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  — Desculpa, estava sonhando com hoje à noite — se explicou ao voltar a atenção para a outra. — Como estamos?
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  — Promissoras — respondeu, abrindo um largo sorriso de satisfação. — Todos os convidados me parecem bem animados ao anúncio da primeira exposição ser do excêntrico e rebelde Novak.
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  — Espero que isso seja positivo para as vendas — retrucou.
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  — E por falar em pintor promissor… — Meredith iniciou suas insinuações. — Como tem sido para a senhorita quase divorciada os encontros à tarde com ele?
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  — Como assim? — %Maggie% enrugou a testa. — São apenas encontros profissionais.
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  — Ah, sim, encontros profissionais que te fizeram passar as tardes com um sorriso bobo no rosto — comentou apenas o que seus olhos presenciaram. — Deste um ano de lamúria e agonia pelo divórcio, a única vez que te vi com um sorriso assim, e suspirando a cada dez minutos, foi no dia seguinte à noite do pecado — completou ela, referindo-se a entrega involuntária da irmã após uma crise de ciúmes infundada.
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  — Por favor, não me recorde dos meus pecados — pediu, disfarçando o desconforto.
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  Lutou brevemente com as lembranças do doce calor que emanava de %Charles% ao longo da noite. Com uma derrota esmagadora que lhe deu de brinde um frio na barriga.
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  — Além do mais… — %Maggie% continuou, voltando à sanidade e se fazendo de forte e determinada. — Já lhe disse que não estou com cabeça para relacionamentos novos agora, menos ainda com alguém mais novo que eu.
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  — Olhe pelo lado positivo — argumentou a irmã. — Pelo menos ele não tem idade para ser seu filho, safra 1995… São 27 anos de puro charme e atração.
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  Uma piscadela maliciosa de Meredith, que a levou a revirar os olhos, tentando não a agredir por seus comentários tendenciosos.
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  — Podemos nos concentrar em algo que seja mais importante? — pediu.
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  — %Maggie%, deixe de ser chata e recatada pelo menos uma vez na vida — reclamou a mais velha, fazendo careta. — Ao menos uma vez na vida permita-se ver o mundo além da sua família não mais perfeita… %Charles% não é o único homem do mundo.
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  — Eu nunca disse que ele era — retrucou, controlando seu tom de chateação. — Mas não é fácil desapegar de alguém com quem conviveu mais de dezoito anos… Você nunca amou ninguém de verdade, com profundidade de lhe doer a alma? Porque suas rápidas paixonites de uma noite, no máximo uma semana, não contam.
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  A pergunta soou como repreensão misturadas a uma lição de moral, deixando Meredith sem argumentos, pois nunca tinha vivido tal sentimento descrito pela irmã. E curiosamente, isso lhe angustiava também, não conseguir viver a experiência de um amor arrebatador que lhe causasse falta de ar.
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  — Desculpa… Não consigo imaginar o quão caótico devem estar seus sentimentos aí dentro — disse num tom baixo e arrependido dos muitos julgamentos e falta de empatia.
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  — Tudo bem, já tive dias piores — confessou a mais nova, desculpando-a.
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  “Literalmente” — pensou %Maggie%.
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  — Estou feliz por ter a galeria para manter-me ocupada dos pensamentos inapropriados — continuou a caçula.
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  — Você o convidou? — indagou, curiosa. — Porque não vi o sobrenome Blackwood, na minha lista.
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  — Como poderia não convidar o pai da minha filha? — respondeu com outra pergunta. — Ainda mais depois de todo o apoio que ele nos deu com o lance jurídico da reforma e licença da prefeitura.
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  — Advogado de graça — brincou Mere ao se lembrar do detalhe. — Está aí, duas profissões maravilhosas para o futuro pai dos meus filhos, advogado ou médico… E como já temos um jurídico na família, falta apenas o médico, imagina… — sibilando. — Eu teria consulta de graça… Melhor…
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  %Maggie% riu das caras e bocas da irmã mais velha.
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  — Eu poderia viver uma breve experiência de Grey’s Anatomy… — Jogou sua série favorita na roda como referência. — Minutos de luxúria na sala de descanso dos enfermeiros.
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  Sua gargalhada louca e maldosa contagiou a irmã, fazendo-a rir junto.
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  — Você é muito boba, sabia? — disse %Maggie%, deixando o rosto um pouco mais sério. — Vamos voltar ao trabalho.
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  — Sou boba, mas pelo menos sei me divertir — retrucou Meredith, voltando às suas ligações.
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  Pontualmente às sete da noite…

  A Carter Fine Art recebia calorosamente seus convidados na exposição de reinauguração da galeria. Com ambas as irmãs deslumbrantes em seus vestidos de gala, e muitos sorrisos para cada cumprimento que davam na porta de entrada. No interior do lugar, o artista urbano Kai Novak, acompanhado de sua aprendiz, Hana, era agraciado com muitos elogios por seus quadros expostos — peças que mesclavam o caos urbano à poesia visual, com cores vibrantes e mensagens afiadas, quase desconfortáveis.
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  O ambiente exalava sofisticação e irreverência. 
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  Os convidados — curadores, colecionadores, críticos e investidores — se deslocavam com taças de champanhe nas mãos, deslizando os olhares atentos pelos quadros de Kai, que agora dominavam boa parte das paredes do salão principal da galeria. A música ambiente era um jazz moderno, elegante, que preenchia os espaços vazios entre os diálogos contidos, risos abafados e comentários técnicos. Após uma hora e meia de evento, uma presença cortou o tecido invisível da sala, o imponente advogado Blackwood cruzou a porta principal, acompanhado do casal de amigos e também sócios: Os Partners. %Charles% era o tipo de homem que atraía a atenção com facilidade, em qualquer lugar que estivesse, o clássico terno de alfaiataria italiana em grafite, tão impecável quanto sua expressão — sóbria, elegante, levemente cerrada. Seus olhos varreram o salão numa busca precisa, até congelarem.
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  O mundo pareceu desacelerar.
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  Ao centro do jardim de convivência, em meio a um pequeno grupo de curadores, estava %Margareth% — impecável em um vestido preto de seda, com decote sutil nas costas fazendo o efeito transpasse, tão imponente quanto vulnerável aos olhos de quem sabia decifrá-la. 
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  E, ao lado dela… Ele.
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  Kai Novak.
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  O mesmo homem que, dias atrás, %Charles% vira com ela, adentrando uma cafeteria modesta de um bairro da periferia. As tatuagens nos braços, agora visíveis graças à camisa de linho parcialmente dobrada, o olhar cortante, aquela postura meio displicente, consciente de que atraía os olhares femininos. O rosto jovial de quem poderia facilmente se passar por um estudante de artes de King’s College. Era ele o mesmo, não tinha nenhuma sombra de dúvida. Por um segundo, o maxilar de %Charles% enrijeceu. Seus dedos apertaram discretamente o cristal da taça que acabava de receber de um dos garçons.
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  O champanhe pareceu amargo na boca.
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  Ele observou quando Kai, em meio a uma risada breve, se inclinou discretamente, sussurrando algo no ouvido de %Margareth%. O que lhe ferveu o sangue internamente. Ela, por sua vez, sorriu com discrição — aquele sorriso que %Charles% conhecia bem. Raro e sereno, que ela guardava para quando algo realmente a desconcertava… ou a constrangia de uma forma positiva.
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  A poucos passos deles, em risos com um parlamentar britânico, Meredith, sempre perspicaz, notou o exato instante em que %Charles% os viu. Seu olhar cruzou o dele, e por um segundo ela viu-se inexpressiva, apenas avaliando-o como se pudesse ler nas entrelinhas de seu rosto rígido. Sabia que, embora o cunhado sustentasse a máscara do cavalheiro inabalável, por dentro, o homem certamente se quebrava em rachaduras invisíveis.
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  — %Charles% Blackwood — anunciou educadamente um dos curadores, interceptando-o para cumprimentá-lo. — Que honra tê-lo conosco.
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  — Não deixaria de prestigiar o evento — respondeu, mecânico, sem desviar os olhos de seu ponto de desejo.
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  Kai, virando o rosto para identificar a quem o homem se referia, pareceu sentir o peso do olhar do advogado para a bela mulher ao seu lado. Sentiu de imediato uma sutil camada de tensão que pairava ocultamente entre os envolvidos. O silêncio entre eles não era sonoro, mas se demonstrava denso. Kai disfarçou com a taça de vinho em sua mão, levando-a até os lábios e sorriu — um sorriso que era tudo, menos cordial. 
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  Era um sorriso que dizia: "Eu sei quem você é. A pergunta é: você sabe quem eu posso ser para ela?"
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  %Margareth%, quando finalmente se deu conta da presença do ainda marido, notou a mudança no ar. Mesmo sendo discreta, seu olhar fitou %Charles% como um ímã forte, incapaz de desviá-los, sentiu-se vacilar internamente. Aquele mesmo olhar silencioso e voraz, como de um predador, que a fez se apaixonar no passado. Sua mão apertou automaticamente a clutch dourada, como se aquilo pudesse ancorá-la.
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  — Boa noite, %Maggie% — disse %Charles%, deixando soar um tom sereno, de quem demonstrava certa intimidade ao chamá-la pelo apelido.
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  — Boa noite, %Charles% — cumprimentou ela, sentindo um leve tremor interno pela intensidade do olhar dele. — Quero que conheça nosso artista em exposição, Kai Novak.
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  — Prazer — disse Kai, estendendo a mão.
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  — Igualmente. — O advogado manteve seu tom firme como o habitual, retribuindo o cumprimento com cordialidade.
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  Ao respirar fundo com sutileza, ambos os envolvidos pareciam sentir a mesma coisa. Havia-se formado um campo de batalha invisível naquele modesto jardim.
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  E ninguém sabia quem sairia vitorioso.
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  Manhã de sábado, %Evie% permitiu-se acordar mais tarde. Após a impressionante abertura da exposição na galeria, sabia que sua mãe também se daria ao luxo de não sair da cama antes das dez. Uma risada boba ao lembrar-se do comentário do pai sobre o artista urbano, acendeu uma chama de esperança pela continuação do casamento deles. Afinal, nada como um ciúme genuíno para bagunçar as coisas e colocá-las em seu devido lugar.
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  — Acho que é hora de levantar — sussurrou, ao olhar o sol atravessando o vidro da janela e tocando sua cama. — Preciso ir a um lugar agora pela manhã.
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  Não que ela quisesse mesmo ir, pois se tratava da Casa del Libro, contudo, não tinha escolha. Após uma rápida pesquisa na internet, descobriu-se que o livro indicado pelo monitor, aparentemente, tinha um único exemplar à venda, justamente naquele lugar. Um suspiro fraco, uma ducha rápida e um look despojado regado a moletom e all star. Em certas ocasiões, o conforto lhe era mais necessário que seguir a moda estipulada pelas grifes de Paris.
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  Nem mesmo despediu-se da mãe.
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  Se era para encarar a fera, que fosse rápido e indolor. Assim que chegou a livraria, estranhou a ausência daquele a quem não sabia se queria ou não ver. Seus sentimentos que inicialmente estavam embaraçosos por se encantar à primeira vista por um desconhecido, agora seguiam piores pela convivência com ele e a crescente amizade com sua namorada. Quanto mais %Evie% tentava fugir dos encontros no intervalo com Izzy e seus amigos, mais a garota que parecia ser a líder do grupo, estreitava a amizade. 
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  A gentileza e carisma de Isabella havia conquistado sua afeição e confiança com a mesma rapidez que Sophie. Mas, ao contrário de sua amiga hipster, a princesinha de classe média de Shoreditch, tinha algo do qual se querer distanciar. Com nome e sobrenome: 
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  %Lucas% Bennett.
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  — Que bom que não esteja aqui — sussurrou ela, em um suspiro de alívio.
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  Com seu emocional caótico, %Evie% sentia-se culpada por seu coração inexperiente no amor manter-se atraído por alguém comprometido. Em seus princípios, ela sabia que era errado gostar de %Lucas%, contudo, seu lado racional não estava em vantagem naquela disputa territorial. 
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  “Preciso aproveitar a oportunidade. Entrar e sair sem chamar a atenção” — pensou ela.
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  Todavia, nem tudo o que queremos é o que temos. Em um passo em falso, a jovem tropeçou em um dos objetos de decoração, desequilibrando-se em seguida, com a máxima chance de uma queda certeira. Porém, uma mão suave e protetora segurou-a pela cintura, devolvendo-lhe o equilíbrio e acelerando o coração. Não pelo susto do tropeço, mas sim pela aproximação do momento e o dono do ato heroico.
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  Ele mesmo… Bennett.
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  — Te peguei — disse ele, com a mesma leveza da primeira vez, nem parecia o monitor carrasco das aulas de desenho técnico. — Parece que estamos fadados a reviver algumas cenas da nossa vida.
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  — Obrigada — um sussurro forçado, pois a voz não queria sair. — Me desculpe.
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  — Tudo bem… — Ele sorriu de canto, mantendo o olhar fixo nela. — Contanto que não fuja de mim ou finja que não me conhece.
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  O rosto dela corou de vergonha.
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  — Desculpa — disse novamente, com mais clareza na voz, porém, deixando o olhar baixo.
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  Sentiu suas costas em chamas pelo calor da mão dele, que ainda a amparava.
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  — Está aqui pelo livro que indiquei? — indagou ele.
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  O sino na porta soou baixinho, como uma nota tímida em meio ao silêncio confortável do espaço, lhes atraindo a atenção. Era mais um cliente adentrando o refúgio dos leitores. Os vitrais coloridos deixavam que a luz da manhã dançasse sobre as estantes, tingindo os livros de azul, âmbar e rubi. Só apenas naquele momento se atentou às vestes casuais dele, uma camisa preta dobrada nos antebraços e jeans escuros, combinados ao all star amarelo, cortando o ar sério e social que transmitia.
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  — Também. — Assentiu, ao se afastar um pouco dele e olhar em volta. — Aqui é tão aconchegante que… Dá vontade de morar.
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  Ela deslizou os dedos sobre os títulos de uma prateleira referente aos livros de design quando:
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  — Poder me perder entre as páginas dos livros — confessou.
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  O olhar do rapaz carregava um brilho tranquilo, quase contemplativo, que ele reservava às coisas que realmente lhe interessavam. Era como se entendesse as palavras ditas por ela, sentindo o mesmo.
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  — Acho que é por isso que trabalho aqui — disse em um desabafo momentâneo e inesperado. — As páginas destes livros encontraram e me adotaram.
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  Ela riu, meio sem jeito, deslizando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
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  — Bom saber que não estou sozinha no mundo, quando penso em coisas desse tipo — continuou ela, desviando o olhar para o livro à sua frente. — Tipografia da Bauhaus — disse o nome em voz alta, e continuou: — Uma História Visual. — Refletiu brevemente no subtítulo. — Sempre achei fascinante como uma simples escolha de fonte pode mudar completamente a percepção de um projeto gráfico.
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  Ele deu um passo para mais perto, e inclinando-se ligeiramente para ver a capa junto dela, tão perto que ela sentiu o cheiro amadeirado e fresco do perfume dele.
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  — Totalmente, principalmente quando se trata da famosa Bauhaus — concordou, passando o polegar pelo queixo, pensativo. — Tipografia não é só estética, é narrativa, até mesmo para quem é do curso de Produto. Uma fonte nos proporciona um tom de voz, uma intenção, uma emoção… Sem dizer uma palavra, apenas por seu traço.
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  %Evie% o olhou, impressionada.
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  — Nunca tinha pensado assim — refletiu. — Tom de voz sem voz.
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  %Lucas% puxou o livro da prateleira ao lado, folheando até uma página marcada com uma dobra sutil. Era o seu preferido da sessão em questão, e sempre o usava nos trabalhos práticos de seu curso.
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  — Olha isso. — Apontou para uma página com uma composição de pôsteres dos anos 60. — Percebe a diferença? Helvética te passa ordem, precisão, neutralidade. Já uma Garamond carrega história, tradição, algo mais humano. E aí você pega uma Futura... moderna, assertiva, quase impositiva. Tudo isso antes mesmo de ler o texto.
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  — Nossa… — Ela passou o olhar pelas fontes ditas, não imaginando a profundidade do assunto.
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  — É como quando temos ela incógnita entre a escolha da fonte correta. A serif com sua sutileza em demonstrar a tradição, sofisticação, estabilidade e confiança em uma determinada marca como a Vogue, por exemplo — continuou ele, abrindo em outra página também demarcada. — Ou sans serif, que nos entrega algo mais claro e limpo, com sua modernidade, simplicidade e inovação, como o caso da própria Bauhaus, pioneira nesta característica de fonte. 
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  — Isso é... — Ela franziu o cenho, buscando a analogia. — Basicamente escolher a roupa certa para a informação que quer transmitir com ela.
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  — Exatamente — concordou.
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  Ele sorriu, genuíno.
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  — Você entende mais rápido do que imaginei — comentou num bom sentido.
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  — Gosto do assunto — declarou.
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  Por um segundo, o silêncio entre eles se encheu de algo que nenhum livro conseguia nomear. Era estranho estar ali tendo uma conversa casual sobre tipografia com ele, mas um estranho legal para ela. Um intervalo suave, confortável, onde os olhos falavam mais do que qualquer manual de design gráfico poderia explicar.
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  %Evie% abaixou o olhar, mordendo de leve o lábio inferior.
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  Se reprimia por dentro, por querer ter mais momentos como esse com ele, conhecê-lo mais profundamente e… Não! Ela não podia vislumbrar coisas das quais não poderia viver no futuro. Era o namorado de sua nova melhor amiga à sua frente. Uma garota que transmitia a sensação de ter crescido ao seu lado em meio às campinas de Derbyshire.
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  — Acho que... você deveria me indicar mais alguns livros, se não for incômodo. — Ela finalmente afastou os maus pensamentos.
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  %Lucas% fechou o livro nas mãos e o esticou para ela.
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  — Acredite, este é o único que vale a pena ler — disse, com aquela voz mais baixa, quase confidencial. — Não precisará de outro.
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  — Mas… Este é seu! Pude ver suas anotações em algumas das páginas — murmurou em recusa.
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  — Eu insisto. — Manteve-se na mesma postura.
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  Ela sorriu, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, que talvez alguns encontros — assim como algumas fontes — não aconteciam por acaso. Assentiu com a cabeça e pegou o livro, grata pela pequena aula que teve em um curto espaço de tempo. 
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  O assunto inesperado, porém, descontraído, deu espaço para mais conversas que arrancavam sorrisos fáceis por parte dela, e olhares contemplativos por parte dele. 
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  O tempo foi passando…
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  De um convite para o brunch em um modesto restaurante mexicano, próximo a livraria, a percepção de tempo e espaço de ambos fora congelada pelo aconchego da companhia mútua um do outro. O sol se punha por trás dos prédios antigos da que ocupavam toda a extensão da rua, tingindo o céu de tons dourados e rosados. Ambos seguiam caminhando juntos por uma rua tranquila, do qual não faziam ideia de como havia chegado a ela. Porém, contemplavam as muitas artes em grafite, desenhadas em suas fachadas, longe do barulho dos carros que movimentavam o centro da cidade londrina.
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  %Lucas% parou por um momento e voltou seu olhar para %Evie%. 
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  Curioso, como se quisesse entender algo que estava ali, mas invisível.
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  — Todas as vezes que estivemos juntos em grupo, você nunca contou muito sobre onde cresceu — comentou ele, a voz baixa, quase um convite para ela se abrir. — Nem o motivo de ter se mudado.
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  %Evie% respirou fundo, olhando para o chão, depois para o céu.
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  — Derbyshire é... Aquele tipo de lugar onde o céu parece mais perto, e o silêncio às vezes chega a ser ensurdecedor — iniciou ela, sua visão objetiva do lugar. — Bonito, sim. Perfeito, talvez. Ideal pra quem quer se perder um pouco, entende?
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  Ela parou, buscando as palavras certas, tentando traduzir em voz o que sentia.
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  — Com clareza. — Assentiu ele. 
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  — Quando você vive num lugar assim, o silêncio vira um som constante. Tem dias que ele pesa tanto que você sente falta do barulho — continuou. — Até do barulho ruim.
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  %Lucas% sorriu, compreendendo a profundidade.
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  — E Londres é o oposto disso — complementou.
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  %Evie% assentiu, com um sorriso meio triste.
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  — Sim. Aqui tudo pulsa mais forte, grita — enfatizou ela. — Parece uma correnteza que te arrasta e você nem sabe pra onde vai... Mas, às vezes, é isso que você precisa… Ser arrastada para saber recomeçar com mais otimismo.
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  %Evie% o olhou, e por um momento, o mundo pareceu mais quieto.
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  Apenas os dois.
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  — Se mudou para cá, para ser arrastada? — supôs ele.
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  — Também. — Assentiu. — Meus pais estão em processo de divórcio.
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  Era a primeira vez que falava abertamente sobre o assunto com alguém além de sua tia. %Lucas% segurou sua mão, sem pressa, como se respeitasse aquela confissão tão íntima e familiar.
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  — Entendo pelo que está passando… — murmurou em um tom acolhedor, que a estremeceu por dentro.
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  Foi subjetivo, mas ele deixou soar uma vivência em seu passado enigmático e desconhecido por todos. Um momento de silêncio. Um abraço de amigo, carregado de amparo. Então, continuaram caminhando. As sombras da noite começaram a surgir e se estender pela rua estreita. %Lucas% olhou para o rosto dela, tentando decifrar algo que parecia invisível.
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  — Como tem lidado com a condição dos seus pais? — indagou ele, quebrando o silêncio.
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  Sentia que ela precisava externar o assunto para passar por ele com mais leveza.
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  — É estranho vê-los agindo como se nada estivesse acontecendo… Como se não tivessem compartilhado anos de vivência — desabafou com mais sucesso. — Às vezes sinto que estou me afogando num mar de aparências, e eles não percebem isso.
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  %Lucas% segurou em sua mão, mantendo seus passos no mesmo ritmo que ela. Uma sensação de apoio que lhe transmitia segurança.
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  — Me deixe ser o seu bote salva-vidas — soou com serenidade e confiança, então completou: — Amigos são para isso.
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  Por um instante, a noite inteira pareceu conter a sua respiração.
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  %Evie% percebeu que ali, naquele momento, havia mais do que palavras — havia uma promessa não dita, uma âncora num mar revolto. Exceto pela palavra “amigos”, ela parecia estar vivendo um sonho do qual não desejava acordar.
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  Um livro o qual não queria que terminasse.
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Será que você sente
Tudo o que eu sinto por você?
Será que é amor?
Tá tão difícil de esconder
- Olha o Que o Amor Me Faz / Sandy & Junior

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Lelen

O CIÚME DO HOMEEEEM. Mas pois é, né, Charles. POR QUE FOI PEDIR O DIVÓRCIO? Tava ruim antes, imagina agora que a mulher tá sendo cortejada por um rapazinho jovem? E olha, na boa, tô torcendo pro coração dela dar uma fraquejada de leve pelo Kai. PRO CHARLES PARAR DE SER BESTA!
E o Lucas. Falei que foi ego que doeu nele pra agir todo frio e MEHEMEH. Agora tá ainda, sendo “amigo”. Direi que acho a situação MUITO problemática porque, apesar de eu poder estar interpretando tudo errado, ele tá dando sinais de muita intimidade com alguém que acabou de conhecer. KIRIDO, ESCUTA AQUI!!!
Ai, esses homens, viu? O que se tem a fazer é torcer pelo caos, né, aí a gente sai ganhando kkkkkk

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