6 • Library Girl
Tempo estimado de leitura: 32 minutos
Londres - Mayfair, outono de 2022
A luz invadia suavemente a suíte, filtrada pelas cortinas de linho claro, um feixe de linhas douradas tocava o lençol desalinhado, aquecendo as memórias criadas da noite que, de tão intensa, parecia não caber mais na cronologia da vida real. %Maggie% despertou lentamente, notando rapidamente a diferença daquele colchão, por um curto espaço de tempo sua mente ficou em paralisia por não saber onde estava, até que o cheiro de seu marido impregnado nos lençóis, denunciou suas aventuras da madrugada.
— Pode continuar com os olhos fechados. — A voz grossa e firme rescindiu o quarto, cortando todo aquele silêncio estabelecido pelo amanhecer. — Fingirei que ainda não acordou, e está envergonhada o bastante para me encarar.
Aquele tom que apenas seu corpo reconhecia em todas as entonações.
Ela respirou fundo, sentindo o rosto queimar de vergonha pelo que tinha acontecido entre eles. Como deixou-se chegar naquela situação de vulnerabilidade de uma forma tão boba e irracional? Bastava apenas dizer um não. Porém, não havia forças nem mesmo para afastá-lo de perto. Mantendo-se com os olhos fechados, seu corpo apenas se encolheu entre os lençóis, o coração acelerou assim que sentiu o impacto do corpo dele sobre o colchão, enquanto engatinhava até ela. O que mais ele queria? O que mais ele faria? Ela não sabia nem mesmo classificar as variadas emoções que lhe sufocavam internamente.
— Vou tomar um banho… — sussurrou ele, com mais malícia. — Aproveite esse tempo para vestir-se com rapidez e deixar minha suíte como uma adolescente que desaparece do quarto do namorado no dia seguinte, sem deixar nenhum bilhete… Prometo não atrapalhar sua fuga.
Envolvente como o esperado. Foi notório para ele o arrepio pelo corpo que ela sentiu, o que lhe arrancou um sorriso de canto maldoso e terno. %Charles% endireitou seu corpo e descendo da cama, seguiu para o banheiro, a fim de cumprir com a sua palavra. O barulho do chuveiro ligando, os olhos de %Maggie% abriram-se de imediato, ela puxou o ar com tanta força para seus pulmões, que pareceu que estivesse prendendo a respiração todo aquele tempo.
— O que nós fizemos?! — sussurrou para si, ao voltar seu olhar para porta do banheiro, constatando que ele cumpria com sua palavra.
Embaraçada e com as bochechas coradas, levantou-se da cama com cautela, mesmo sabendo que ele não sairia do banheiro enquanto estivesse ali, queria manter o personagem da adolescente que relatou. Um breve riso de nervoso soou baixo, ao lembrar da primeira vez que algo parecido lhe ocorreu no dia em que perdeu a virgindade com o pai de sua filha. Uma aventura precoce e imatura que lhe rendeu nove meses de gestação, uma discussão aterrorizante com a mãe e um casamento logo em seguida.
— Aonde está… — Seus olhos passaram pelo chão da suíte, tentando reconhecer suas roupas entre as dele.
O nervosismo falou mais alto no calor do momento, e vestindo-se apressadamente, apenas colocou a sandália nos pés e se retirou da suíte sem levar em conta os detalhes do seu look da noite anterior. Apenas quando chegou à calçada do lado de fora, se deu conta de que a bolsa de mão com os documentos, chave do apartamento e o celular…
— Droga! — gritou irritada consigo mesma.
Seus olhos voltaram para o monumental prédio atrás dela.
— Não posso voltar lá — sussurrou a realidade.
Seria um perigo para ela, e mais ainda para sua sanidade mental em recuperação.
Respirando fundo, percebeu que a única opção era voltar para casa a pé e, com sorte, encontrar a filha em casa, já que teria seu brunch com o pai, mais próximo do horário do almoço. Ao chegar, deu de cara com a porta fechada e não teve escolhas a não ser recorrer a quem não queria.
— Olha só, a Cinderela apareceu, exatamente com um sapatinho faltando. — O sarcasmo escorria como cobertura de bolo entre as palavras de Meredith.
— Não me olhe assim e nem me recrimine — pediu %Maggie%, com o rosto fumegando pela situação. — Sei o que está pensando e… — Ela se calou.
— Que bom que não vai tentar negar, pois acabo de ligar para seu celular e um certo advogado atendeu. — Os braços da mais velha cruzaram, seguidos de um olhar embasbacado.
— Guarde seus comentários de repreensão para você, por favor. — Num tom quase implorando. — Estou no ápice do constrangimento para falar do assunto, e com o emocional abalado ao extremo.
— %Evie% já tinha saído de casa, não é? — constatou.
— Sim… Não posso ir às compras assim. — Uma indireta muito direta.
— Venha, vamos ao meu apartamento antes, te empresto algo para se vestir — sugeriu o óbvio.
--
1 horas antes
A jovem Carter espreguiçou-se na cama, enquanto ouvia o turbulento som dos carros na rua adentrando a janela entreaberta, afinal, uma noite de frescor pedia pela brisa de Londres. Erguendo o corpo com a mente ainda sonolenta, percebeu o silêncio vindo do lado de fora do quarto, causando-lhe mais curiosidade pela localização exata da mãe.
— Quando cheguei ela não estava… — %Evie% levantou da cama e seguiu para o quarto de %Maggie%, vendo-o exatamente como na noite anterior. — Onde será que passou a noite? Com a tia Meri?
A jovem não dispunha de muito tempo para se questionar sobre o ocorrido com a mãe, pois tinha alguns compromissos para o dia e talvez se deliciar com uma fruta da estação antes de sair fazia-se necessário, já que faltavam horas até o brunch com o pai. No meio do vislumbre de refeição, uma ligação da tia interrompeu seu momento de contemplação na varanda.
— Tia Meredith — disse ao atender. — Bom dia?!
—
Bom dia, querida, que bom que atendeu, sua mãe está em casa? — indagou a mulher num tom preocupado.
Afinal, mesmo em suas aventuras noturnas, Meri sempre cumpriu com suas responsabilidades e horários. Agora, estava na galeria à espera da irmã que nunca se atrasava.
— Achei que estivesse com a senhora — respondeu a garota, achando estranho sua indagação.
—
A última vez que a vi foi… — A mente de Meri se transportou para o pub, exatamente no momento em que %Maggie% seguiu para a saída, sendo seguida por %Charles%. — Se ela chegar aí antes de você sair, diga que estou na galeria.
%Evie% encerrou a ligação e após se trocar, seguiu diretamente para o seu primeiro compromisso: a universidade. Por mais que fosse sábado, sua empolgação pela enorme biblioteca levou-a à necessidade de passar pelo menos algumas horas da manhã naquele espaço, sempre em uma leitura concentrada de algum livro raro que encontrou na parte de literatura fantástica. E atualmente se concentrava em um romance de fantasia medieval. A parte triste, era que não poderia levar o livro físico emprestado para casa, o que limitava a sua leitura para apenas as horas naquele lugar pomposo.
Em um breve momento, o olhar de %Evie% se desviou das páginas do livro regadas a romance, drama e aventura, para a direção da bibliotecária. Não sabia o motivo, mas sentiu como se um ímã a atraísse, e ao elevar seu olhar…
O aluno mais popular entre os universitários e requisitado entre os professores.
Agora, ela teria que lidar com sua presença não apenas nas aulas de história, como também nas aulas de desenho técnico.
Mas o que ele fazia ali, na biblioteca? %Evie% sentia que algum tipo de ímã havia se criado entre eles, fazendo-os esbarrar a todo momento no campus. Ela, contudo, sempre se esforçava ao máximo para não se aproximar e desviar seu caminho, sempre com a ajuda inconsciente de Sophie.
— Carter… — A voz de %Lucas% a parou no meio do corredor.
O que deveria ser um frio na barriga, gélido por ouvir seu nome em um tom forte e autêntico, transformou em uma brisa leve e suave que lhe arrepiou os pelos da nuca ao se deparar com um olhar gentil e profundo.
— Sim, monitor. — Sua voz quase falhou.
— Vai mesmo agir como se não me conhecesse? — Ele riu de canto, disfarçando a frustração. — Por isso tem fugido todo esse tempo?
— Hum?! — Sua mente fundiu. — Eu não estou fugindo… E, realmente não o conheço de fato.
No seguimento, seu coração já acelerava pela aproximação dele.
— Não se lembra de mim na livraria? — indagou ele.
— Vagamente. — Mentindo, por mais que sentisse fascinação por estar próximo a ele, ela não tinha tanta experiência em conversas com jovens da sua idade, menos ainda nas circunstâncias de um relativo interesse amoroso.
Não sabia o que responder ou como responder. Mal conseguiu expulsar de sua boca aquela pequena e falsa palavra.
— Tudo bem… Então, vamos agir apenas como eu sendo o seu monitor e você, a minha caloura — sugeriu ele ao senti-la um pouco desconfortável e tímida para aquele assunto. — Me deve um resumo do livro que indiquei na aula da senhora Brown. Todos os alunos entregaram, exceto você. Preciso lembrá-la que as atividades do monitor também são avaliadas e pontuadas pelo professor?
O tom de repreensão lhe estremeceu por dentro.
— Me desculpe, eu… — Forçou novamente as palavras, sentindo-se estática pela forma séria e nada gentil que soou. — Ainda não terminei de ler.
— Lhe darei até segunda para me entregar. — %Lucas% sentiu o celular vibrar no bolso da calça, sabia a quem pertencia a ligação, então deu o primeiro passo para se retirar.
%Evie% apenas silenciou-se, com aceleração em massa, absorvendo o que tinha acontecido.
Os dias passaram…
Era quase meia-noite, e as luzes da galeria estavam acesas. %Margareth% em seu momento de inspiração, se encontrava sentada ao chão, rodeada por molduras, catálogos e pinceis, cantarolando algumas canções clássicas dos filmes da Disney. Seu momento de solitude foi cortado pela presença do inesperado, que utilizando se sua chave, adentrou o lugar silenciosamente para lhe fazer uma surpresa.
Sendo esta considerada boa ou não.
— Parece que não sou o único perfeccionista que deixa a refeição para se concentrar no trabalho. — A voz de %Charles% despertou-a de sua concentração.
Seu olhar levantou um pouco temeroso, não pelo fato de sua presença, mas em como ela reagiria ao encontro. Após a fuga da suíte proibida, não o tinha visto depois. O rosto sereno, um sorriso de canto prepotente, combinado a duas caixas de comida japonesa nas mãos.
— Está com fome? — indagou ele, agindo com a mais singela naturalidade.
Foram segundos até ela conseguir gerar uma reação na cena em sua frente.
— O que faz aqui? — indagou, ao continuar sentada no chão.
Nem mesmo sentia que tinha forças nas pernas para isso.
— Se Maomé não vai a montanha? Nossa filha disse que estava saindo tarde esses dias. — %Charles% ergueu um pouco mais o braço direito, evidenciando uma sacola de papel kraft. — Trouxe sua bolsa, já que não quis voltar para buscá-la…
— Ah. — Sentiu a voz falhar.
— Fiquei me perguntando como alguém que está há dias de uma reinauguração conseguiu passar dias sem os documentos e o celular — comentou ele, num tom curioso e descontraído.
— Sei trabalhar com o que tenho — explicou inutilmente, ao finalmente se levantar do chão para pegar a sacola. — Poderia ter deixado na portaria do prédio, ou entregado a %Evie%.
— Não confio em terceiros para isso, principalmente quando os documentos não são meus — relatou o ponto central de suas ações. — E se eu tivesse entregado a nossa filha, daria abertura para perguntas das quais acho que está fugindo da resposta.
— Hum… — Ao se aproximar dele, sem argumentos, pegou a caixa que continha yakisoba dentro, e a sacola com suas coisas. — Obrigado pelo zelo.
O sorriso de canto estava lá, disfarçado no rosto de %Charles%.
— Podemos comer no jardim — propôs ela, seguindo na frente.
— A reforma tem deixado esse lugar mais vivo — comentou, ao observar os detalhes pelo caminho que passavam. — Me lembro vagamente de como era quando sua mãe gerenciava.
— Segundo Meri, esse lugar precisava conhecer o reluzir da modernidade — comentou, rindo baixo das loucuras da irmã. — Principalmente o piso que era de carpete.
— Nunca achei aquele carpete bonito. — Sincero quanto a realidade de outrora. — Mas o piso em cimento queimado me deixou impressionado, achei que seguiram a linha do clássico.
— Tanto eu quanto a Meredith achamos mais viável seguir o estilo industrial, se é para ser moderna, que seja de uma forma versátil que dá abertura para qualquer tipo de exposição — explicou ela ao adentrar o jardim.
— Seu bom gosto nunca me surpreende — comentou, deixando-a desconcertada.
— Vou levar como um elogio — retrucou.
— Fique à vontade. — Um riso baixo soou.
%Maggie% puxou duas cadeiras para que sentassem próximos a parede de plantas suspensas por suportes de macramê. O silêncio os acompanhou durante o momento de degustação do alimento, até que %Charles% o interrompeu.
— Não vamos mesmo falar sobre o ocorrido? — iniciou ele, instigando o assunto.
— O que teríamos para falar? — indagou, fazendo-se inocente e alheia.
— Vai me dizer que nada mudou? — retrucou, levantando-se pela irritação.
— E por que mudaria? — continuou, sustentando seu posicionamento.
— %Maggie%, está se ouvindo? — Ele bufou, controlando sua inquietação interna para manter suas ações em âmbito racional. — Acaso lembra-se dos detalhes de nossa noite, de como sussurrou o meu nome pedindo por mais?!
Por instantes, ela viu-se sem argumentos.
Então o lembrou o causador de todas as suas dores nas noites frias do último ano.
— Não foi eu a pedir o divórcio — jogou a realidade nua e crua.
Direta e objetiva o bastante para perfurá-lo como uma adaga prateada.
— Mas o aceitou facilmente. — O gosto amargo da realidade invadiu sua boca, anulando o gostinho da refeição que acabara de fazer.
Ambos passaram alguns minutos encarando.
Havia muito a ser dito, porém, a ardência em suas gargantas os impedia de pronunciar uma única palavra para prosseguir aquilo que deveria ser uma conversa definitiva sobre o futuro deles.
Ainda havia um documento a ser lido… Um divórcio a ser assinado. --
Terça-feira à tarde…
O som da porta se fechando atrás fez %Evie% se virar instintivamente. Mesmo com os fones no ouvido, o barulho havia sido nítido e alto o bastante para ser ouvido. Seus olhos encontraram os dele antes que qualquer outro som preenchesse o espaço. E até mesmo a canção tocada no aplicativo pareceu desaparecer naquele curto espaço de tempo.
Ele atravessou a sala com uma prancheta debaixo do braço, fones pendurados no pescoço, mangas da camisa de algodão puxadas até os antebraços, revelando tatuagens delicadas — linhas finas, desenhos geométricos e fragmentos de palavras em latim que ela não conseguia decifrar do local onde estava.
Os passos dele eram seguros, firmes, como quem já dominava aquele espaço há muito tempo. Como de fato era.
— Para os calouros que faltaram nas últimas semanas, sou Bennett, o monitor de vocês nessa disciplina, sou aluno do último ano de Design de Produto — disse ele, num tom curto e rude. — A professor
Leather teve uma emergência hospitalar e irei conduzir a aula de hoje em seu lugar. Se tiverem dúvidas sobre a última aula, por favor, sinalizem, caso contrário, sei que possuem uma prova na próxima semana, então tirem esta aula para revisarem seus desenhos.
Ele parou bem no centro, olhando rapidamente para todos em geral — então, seus olhos pousaram diretamente em %Evie%. Por uma fração de segundo, seu rosto enrijeceu, como se uma tensão elétrica atravessasse o ar entre eles. Ela engoliu em seco, desviando o olhar para a folha com os traços do que deveria ser o desenho de uma planta baixa arquitetônica.
Ótimo. Como se já não fosse complicado o suficiente tê-lo por perto quase todos os dias. Agora estou me sentindo intimidada — pensou ela, num suspiro baixo.
%Lucas% pigarreou, voltando a encarar o grupo.
— A única coisa que vocês precisam memorizar é… Desenho técnico significa precisão ao extremo, até mesmo nas curvas. E sim, consigo ser tão chato quanto o senhor Leather. — Sorriu, um sorriso leve e misterioso, mas que não tocou os olhos, porém, causou suspiros entre as alunas. — A segunda coisa é, tenha seu jogo de esquadro, o escalímetro e o compasso como velhos amigos de infância, pois eles são os instrumentos mais necessários nesta disciplina.
Continuou em seu discurso, voltando a encará-la, como se suas palavras fossem apenas para ela. Ele se moveu entre as mesas, analisando com atenção cada um dos desenhos ainda em construção, até que, inevitavelmente, parou diante de %Evie%. Passou longos e torturantes minutos sem dizer uma só palavra, o que a deixava ainda mais agoniada. Os dedos dele roçaram nos dela quando ela, pelo ápice do nervosismo, deixou sua lapiseira cair de sua mão — um toque breve, quase imperceptível, mas que pareceu acionar alguma coisa.
%Lucas% arqueou uma sobrancelha, com aquele tom meio desafiador, meio provocativo que ela começava a entender como marca registrada dele.
— Você possui um traço firme, o que mostra que sabe dominar o instrumento em sua mão, porém… — A voz saiu mais baixa, a crítica pertencia apenas a ela. — As linhas estão pesadas e mais grossas do que deveria, precisa suavizar sua mão quando for reforçar a linha final.
Ela ergueu os olhos, mantendo a coluna ereta, tentando não transparecer sua ansiedade interna.
— Obrigada pelo apontamento — respondeu, seca, quase mordendo as palavras.
— Aconselho que rasgue essa prancha e comece tudo de novo — completou ele, sem nenhuma empatia pelo esforço dela. — Como disse, o professor Leather é bem exigente, mais do que possa imaginar.
Os olhos dele deslizaram pelo rosto dela, um segundo a mais do que seria educado, e então %Lucas% soltou um meio sorriso, quase irônico, e seguiu em sua jornada pelas mesas para avaliar o restante dos alunos. %Evie% tentou se concentrar, mesmo não querendo, seguiu seu conselho e rasgou a folha em A3 em sua mesa, num suspiro cansado iniciou pela quinta vez o mesmo desenho. Com a declaração final dele…
Aquela disciplina seria tudo, menos tranquila. Ao final da tarde, para relaxar da tensão das aulas, a jovem seguiu para seu melhor local de refúgio da universidade: a biblioteca. O cheiro de livros antigos a envolveu assim que empurrou as portas de madeira, um sentimento de acolhida e pertencimento que não sentia desde que chegou em Londres… Ou melhor, desde o dia em que descobriu a
Casa del Libro. O silêncio acolhedor e as janelas que deixavam a luz fria de Londres pintar manchas douradas nas estantes.
Aqui, pelo menos, eu entendo o que fazer... — pensou, passando os dedos pelas lombadas dos livros. Foi então que, ao dobrar uma das prateleiras, deu de cara com alguém.
Ombros bateram, cadernos quase caíram.
— Ops... — disse uma voz feminina, carregada de um humor fácil. — Acho que preciso parar de digitar enquanto caminho.
Ela soltou uma gargalhada boba e modesta, de alguém que não sabe o que deve fazer, mas não pratica. %Evie% piscou, surpresa, sua mente demorou para raciocinar as palavras dela. Porém, manteve a atenção na garota de cabelos castanhos ondulados e olhos castanho-mel diante dela, intrigada pelo fato dela exalar uma energia caótica, mas estranhamente acolhedora.
— Me desculpe, estava tão distraída quanto — respondeu, meio sem jeito.
— Isabella — continuou se apresentando, mesmo sem saber se era do interesse alheio. — Mas todo mundo me chama de Izzy.
Estendeu a mão, como quem já sabia que seriam amigas.
— %Evelyn%, mas pode me chamar de %Evie% — devolveu o cumprimento, um pouco acanhada pela aura da garota.
Mal havia se acostumado com o jeito extrovertido de Sophie, e agora estava conhecendo alguém ainda mais intensa que a amiga. Vagamente %Evie% se lembrava do seu rosto, junto a elite de membros, do grupo denominado Secret Circle.
— Prazer em conhecer a garota da biblioteca — brincou ela, lhe dando um apelido bem característico.
— Igualmente. — Com timidez e acanhada.
— Eu estava indo a cafeteria encontrar uns amigos… Como um pedido de desculpas por derrubar suas coisas. — Ela apontou para o chão. — Aceita vir junto?
— Hum?! — %Evie% se pegou sem resposta por seu jeito espontâneo.
— Vou levar isso como uma aceitação. — Rindo novamente, se abaixou rapidamente e pegou os cadernos caídos, entregando-os em seguida. — Vamos lá?
Para %Evelyn%, faltou-lhe um pouco mais de determinação para reagir ao convite e fugir de uma programação totalmente fora do seu planejado para aquele dia. Entretanto, quando se deu conta, já estava em frente a cafeteria chamada
Café Tropicália. A construção transmitia a sutileza do estilo escandinavo, visivelmente sofisticada, mas com uma pegada jovial e contemporânea, desde a fachada principal até o último tijolo que compunha a adega privativa.
Um lugar bastante frequentado pelos estudantes universitários da elite londrina.
Discreto, porém magnético, o lugar se escondia entre as fachadas históricas de uma rua charmosa próxima à
King’s College. Ao cruzar a porta de vidro emoldurada por madeira clara, um perfume inconfundível de café recém-moído se misturava ao leve aroma de frutas tropicais — discreto, mas presente, como uma memória do verão caloroso do hemisfério sul. O espaço abraçava uma estética minimalista, com paredes em um bege claro perolado, concreto polido e móveis de linhas simples em carvalho claro e vime natural. Mas era nos detalhes que a brasilidade ganhava vida, as folhas de costela-de-adão e palmeiras espalhadas estrategicamente ao longo do espaço, quadros abstratos com paleta quente, as cores terracota, verde oliva e amarelo solar pontos estratégicos do ambiente, e peças de cerâmica artesanal que quebravam, com elegância, a frieza nórdica.
Uma estante aberta exibia uma curadoria de livros sobre arte, design, fotografia e cultura brasileira. À esquerda, a bancada de mármore travertino abrigava uma imponente máquina de espresso
La Marzocco, ladeada por baristas jovens, despojados, todos com aventais de linho cru e sorrisos gentis. As luminárias pendentes em palha trançada projetavam sombras geométricas sobre as mesas, criando uma atmosfera aconchegante, quase cinematográfica, especialmente nos fins de tarde. O som ambiente misturava indie britânico com discretas batidas de bossa nova eletrônica, jazz experimental e, às vezes, um Tom Jobim suave preenchendo os silêncios. Era o tipo de lugar onde conversas se alongavam, onde olhares se cruzavam de forma ensaiada, e onde cada mesa parecia contar sua própria história.
O
Café Tropicália não era apenas um ponto de encontro — era parte ativa do cenário social e emocional daqueles jovens. Refúgio, palco e, às vezes, testemunha silenciosa de paixões, segredos e promessas não ditas.
— Boa noite a todos… — cumprimentou Izzy, em seu bom humor de sempre.
— Como sempre, atrasada — reclamou uma garota de traços latinos, ao revirar os olhos impacientes.
— Não estou atrasada, apenas faço o meu próprio horário — explicou Isabella, em uma jogada de cabelo, demonstrando desinteresse pela alfinetada.
— Não liga pra ela, Izzy — disse a outra garota, de cabelos ruivos e sardas pelo rosto, em defesa da amiga.
— Os comentários de Judy não me afetam mais — declarou com confiança.
— E não vai nos apresentar sua amiga? — Uma voz sinuosa soou de trás delas, que fez %Evie% estremecer de leve.
Não por reconhecê-la, e sim pela entonação.
— Claro que vou… Aidan esta é minha nova amiga %Evie%. — E olhando para ela. — %Evie%, este é Aidan Partners.
— Prazer — disse ele ao pegar na mão da garota, e como um cavalheiro do século passado, beijar-lhe as costas. — Não é todos os dias que temos uma caloura interessante tendo acesso ao nosso grupo.
A mente da jovem parou por um tempo naquele sobrenome que lhe parecia familiar de alguma forma. Contudo, %Evie% apenas conseguiu ter reação para um sorriso curto, antes que seu olhar se voltasse para o monitor que lhe tirava o sono. Bennet permaneceu distante por um tempo, parecia em um assunto sério em meio a uma ligação. Ao acomodar-se na mesa do grupo, as risadas e conversas cruzadas foram preenchendo o espaço, deixando as xícaras de café meio vazias e migalhas de croissant aparentes nos pratos.
Tudo perfeitamente caótico. Tudo perfeitamente normal.
%Evie% fingia prestar atenção na conversa.
Ou tentava. Se esforçando para ignorar os olhares interessados de Aidan em sua direção. Izzy estava falando — algo sobre uma apresentação de ballet contemporâneo que tinham na sexta, e de sua rotina cansativa de universitária e bailarina ao mesmo tempo. Mas as palavras dela pareciam vir de muito longe, abafadas, como se houvesse um vidro invisível entre ela e o mundo.
A discreta atenção de %Evie% estava mesmo no rapaz que se aproximava da mesa deles.
Suas mãos suando frio a cada passo mais de perto.
— Querido! — Em um piscar de olhos, Izzy levantou-se da cadeira e o abraçou, envolvendo seus braços no pescoço dele, roubando-lhe um beijo modesto.
Foi neste momento que o coração de %Evie% esqueceu-se de bater, assim como a respiração que se prendeu no ímpeto da ação alheia. Ele tinha uma namorada… Era a garota extrovertida, gentil e simpática que havia compartilhado seus amigos com ela. A garota que tinha passado todo o caminho até a cafeteria dizendo o quanto seria legal ter uma amiga caloura, vinda do interior.
— Quero te apresentar minha nova amiga… — Um sorriso largo surgiu no rosto de Izzy, com os olhos brilhando. — Esta é %Evie%, caloura de Derbyshire.
— Eu já a conheço — disse rasgando a empolgação da namorada. — Sou monitor em sua turma.
Seu olhar estava tão frio que nem pareceu ser o rapaz gentil que havia lhe ajudado na livraria, segurando-a com firmeza e lhe transmitindo conforto através de um sorriso acolhedor. A atenção de %Lucas% permaneceu na caloura, não com um olhar casual, socialmente educado, pelo contrário, foi um olhar que durou um segundo a mais do que deveria
.
— Sim. — Assentiu a garota, desviando seu olhar, sem graça pela situação. — História da arte e desenho técnico.
Como ela havia deixado passar este detalhe? Talvez pela empolgação de Isabella, contando os inúmeros casos de seus amigos, que a fez esquecer que já tinha visto Bennett interagindo com eles.
— Já que tocou no assunto… — A entrada de Aidan na conversa quebrou a leve tensão oculta no ar. — Como é viver a vida em uma cidade como Derbyshire e depois se mudar para a loucura de Londres?
A resposta também deveria ser, contudo, %Evie% nunca tinha vivido uma situação como aquela, menos ainda a chuva de sentimentos que enfrentava internamente. Havia uma pausa entre a pergunta e o iniciar de sua reação. Uma leve inclinação da cabeça de Aidan, e um meio sorriso que não era só simpatia para descontrair o momento — era estudo.
%Evie% se ajeitou na cadeira, tentando parecer natural.
— Como bem colocou, tem sido uma loucura — respondeu, mantendo o olhar no resto de líquido em sua xícara, mas não por muito tempo.
Havia algo em Bennet que, alheio ao assunto, obrigava-a a olhá-lo com o máximo de discrição.
— Imagino. — Ele assentiu, e mordeu de leve o lábio inferior, como quem segura um diagnóstico de informação que não deve ser dito. — Londres pode ser intensa e perturbadora, às vezes.
Por que aquela palavra soou diferente? Tanto que parecia martelar em sua mente. O nervosismo interno de %Evie% levou-a a perceber tarde demais que estava segurando com alta violência, a alça da própria bolsa, a ponto dos nós dos dedos embranquecem.
— Tenho certeza que sendo amiga da Izzy agora ficará ainda mais agitado. — Finalmente uma pronúncia vinda de %Lucas%, um comentário descontraído do qual não teve nenhum controle por fazê-lo.
O que atraiu o olhar da jovem. Uma onda de risos e gargalhadas soou entre os integrantes da mesa, com novos comentários concordando com ele. %Lucas% desviou seu olhar dela por um tempo, porém, quando voltou a encará-la, havia algo nos olhos dele. Algo mais quieto, mais escuro.
Quase como se dissesse:
“Eu também penso em você.” E o peito dela apertou. Não de forma doce, mas desconfortável, e forçando um sorriso, desviou os olhos para qualquer outro lugar distante dele.
Mas mesmo sem olhar, ela sentiu que não havia apenas um a lhe observar como quem analisa seu objeto de estudo. Eram dois cavalheiros emanando uma sutil intensidade apenas percebida por ela, algo que prensava sua respiração, deixando-a em agonia interna.
Eu reconheci você assim que lhe vi
Como se estivéssemos chamando um ao outro
O DNA no meu sangue me diz
Que é você quem eu venho procurando.
- DNA / BTS