3 • Independent Woman
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Londres - Mayfair, outono de 2022
Assim como para a filha, %Maggie% também enfrentava seu primeiro dia na nova cidade. Ainda no apartamento, manteve parte da manhã concentrada em entender a relevância de todos os documentos fornecidos pela irmã. Era alguém que por um tempo dedicou seus dias a administrar sua casa e cuidar da família, e agora precisava passar por grandes transformações internas com o propósito de adaptação à realidade.
E poderia se considerar jovem o bastante para não se frustrar com os tropeços pelo caminho.
Contudo, aquelas horas de trabalho não a mantiveram com cem por cento do foco, pois a cada informação nova sobre a galeria, sua mente se transportava para o jantar da noite anterior e a afirmação de %Charles% sobre manter-se longe de relacionamentos terceiros. Seu respirar ficou mais pesado quando uma sensação de angústia adentrou seu interior com agressividade a ponto de formar lágrimas no canto dos olhos.
— Por que ainda sinto a necessidade de chorar por sua causa? — indagou para si ao apoiar o corpo no beiral da mesa, mantendo o olhar na janela.
A luta contra as lembranças naquele dia estava a um passo de ser perdida. Até que seu celular tocou, uma ligação inusitada da irmã, que já havia enviado inúmeras mensagens com ideias para a disposição do layout. Algo que havia mudado diversas vezes por achar não estar bom o suficiente em âmbito de circulação e exposição das peças.
— Sim, Meredith — disse ao atender.
— Irmãzinha. — O tom amável saiu com descontração. — Achei que viesse para a galeria acompanhar as obras.
— Tirei a manhã para me atualizar sobre os gastos, orçamentos e das peças que estão em nosso acervo particular — respondeu prontamente.
— Hum… Ficou com alguma dúvida sobre minha administração? — instigou o assunto.
— Não, você é impecável quando se trata de planejamento financeiro — confessou a caçula. — Apesar de extrapolar em alguns casos específicos.
— Ninguém é perfeito. — A outra soltou uma gargalhada boba após o comentário. — Que tal almoçarmos juntas e visitar o ateliê de um amigo?
— E qual seria o propósito da visita ao artista? — perguntou.
— Conhecer seu trabalho — respondeu a mais velha, já imaginando as teorias da conspiração formando-se na mente da irmã.
— Apenas isso? — continuou a indagação, franzindo a testa.
— E o que mais teria além disso? — retrucou a outra.
— Tudo bem! — assentiu, não iria relutar.
Talvez uma tarde em ambientes inspiracionais poderia também lhe motivar a iniciar novas atividades que pudessem preencher ainda mais sua mente, ou apenas resgatar aquelas em que havia guardado tão bem no passado, que mal se lembrava da satisfação que lhe proporcionava.
E seu amor pela fotografia era uma delas.
— Muito bem! — exclamou Meredith. — Chego aí em vinte minutos, esteja pronta.
— Onde está? — perguntou curiosa pelo tempo demarcado.
— Próximo ao Hyde Park, em uma confeitaria — respondeu. — Vim comprar uma torta de amoras.
— Hum — murmurando de leve, %Margareth% encerrou a ligação.
%Maggie% olhou a roupa em seu corpo, não pareciam trajes adequados para uma visita a um artista que poderia ter influências no meio das artes. Estava há tanto tempo longe daquele mundo que não conhecia mais os nomes promissores e respeitados entre pintores, escultores e fotógrafos, tanto locais quanto internacionais. Era hora de mergulhar de vez no trabalho e voltar à ativa em grande estilo, o passado precisava ficar no passado.
Pelo menos durante o horário comercial.
— %Maggie%! — A voz entonada de Meredith lhe despertou a atenção.
A irmã manteve-se na porta de seu novo Porsche preto, em que dirigia com tamanha empolgação. Surpreendente para a caçula que sempre temeu andar com ela, devido suas imprudências ao volante. Uma onda de receio passou por seu corpo a cada passo que dava para mais perto do veículo.
— De onde saiu esse carro? — indagou.
— Do meu trabalho?! — A resposta soou mais como uma pergunta. — Acha mesmo que a mamãe iria me dar um carro desses?
Meredith soltou outra de suas gargalhadas exageradas.
— Meritocracia, lembra? É o lema da família — explicou ela com mais clareza, voltando aos ensinamentos que ficaram gravados em seu caráter. — Levei sete anos para juntar o dinheiro necessário, mas o
Shoto agora é o bebê que ocupa o espaço da minha vaga no estacionamento.
— Shoto? — O olhar da mais nova ficou mais impressionado. — Você deu o nome de um personagem de
Boku no Hero para seu carro?
— Você conhece de anime? — Agora Meredith é que demonstrou surpresa.
— Eu tenho uma filha que gosta da cultura asiática — respondeu com serenidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Então sim, entendo de animes.
Por essa, a primogênita não esperava.
— Bem, entre aí que vou te apresentar um restaurante maravilhoso que descobri na semana passada — revelou a mais velha, já entrando no carro.
%Maggie% balançou a cabeça negativamente, soltando um suspiro cansado.
— E como encontrou esse tal restaurante? — indagou, adentrando logo atrás no banco ao lado.
— Digamos que tive um date perfeito lá. — Um olhar malicioso, o sorriso no canto do rosto deixava soar o mistério de uma noite de diversão.
— Certamente não vou querer saber sobre isso com riqueza de detalhes — informou %Margareth%.
— Sem graça. — Meredith fez uma careta, fazendo a irmã rir. — Deveria relaxar um pouco mais e abrir-se para novas experiências.
Ela deu a partida. Nem precisava de GPS, pois já sabia o trajeto até o local de cabeça, pela sua boa memória fotográfica e senso de localização.
— Novas experiências? — Uma risada sem graça.
— Sim… Afinal, seu ex-marido foi seu primeiro namorado, se casou cedo demais pela gravidez precoce e nunca conheceu outro homem além do %Charles% — esclareceu Meredith de forma argumentativa. — Não pode continuar alimentando essa fase depressiva de mulher abandonada.
— Não estou alimentando nada — retrucou, indignada pela suposição da irmã.
— Tem certeza? — Meredith olhou o reflexo da mais nova no retrovisor por um momento para conferir suas expressões faciais.
%Maggie% manteve-se inexpressiva quanto ao assunto.
Já havia chorado pela manhã e não queria repetir na frente dela.
— %Maggie%, já tem quanto tempo que estão separados? — questionou a mais velha.
— Ainda não assinamos oficialmente o divórcio, e eu não quero pensar em um novo relacionamento agora, quero focar em minha carreira, já que estive parada há tanto tempo. — O argumento de %Margareth% era válido e tinha fundamento sólido para ser expresso. — O fato de optar pela solitude não quer dizer que estou alimentando um estado depressivo.
O silêncio de reflexão veio do banco do motorista.
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou — desculpou-se Meredith a seu modo. — Mas saiba que está convocada para o encontrinho da Cindy na sexta à noite.
— Encontrinho da Cindy? Não estava sabendo disso. — O olhar voltou-se para a irmã.
— Estava sim — a repreendeu. — Não acredito que se esqueceu do aniversário da nossa amiga.
— Ah… — Sim, ela tinha se esquecido. — Ando com tantas coisas na cabeça… A mudança, a universidade da %Evie%, a galeria… Tudo isso além do divórcio.
— Te entendo! — Um toque de apoio. — E por falar em %Evie%… Como está minha sobrinha com a experiência de estudar fora de casa?
— A princípio, visivelmente insegura, mas com o tempo ela se acostuma — respondeu %Maggie%. — %Evie% precisa ter suas próprias experiências com o mundo para criar maturidade, ela não me terá eternamente, nem ao pai.
— E certamente também não vai ter amigos ou uma paixonite se escondendo dentro de casa — completou a irmã.
— Exatamente — concordou.
O cheiro de tinta spray, verniz e metal oxidado era a primeira coisa que atingia quem atravessava a porta de aço enferrujado. O ateliê do artista ficava escondido num galpão industrial revitalizado em
Shoreditch, onde paredes de tijolos expostos contrastavam com obras que gritavam crítica social em cada camada de cor, sendo contemplados por uma aura industrial e rústica, que se apresentava na arquitetura da edificação.
%Maggie% ajustou os óculos escuros no topo da cabeça, caminhando lado a lado com Meredith, que olhava tudo com aquele ar cético, típico de quem vivia da análise minuciosa de tudo que tinha relação com a arte. Entretanto, internamente, a primogênita sentia uma explosão de euforia a cada detalhe apresentado a ela, sem a necessidade de um guia formal.
— Esse lugar é incrível — sussurrou Meredith, enquanto se admirava com tudo ao seu redor, à medida que seus passos seguiam os da aprendiz que as conduzia.
— Sim… Impressionante mesmo. — Assentiu %Maggie%.
As paredes estavam tomadas por telas enormes, algumas ainda inacabadas, outras cobertas com plásticos translúcidos, exibindo fragmentos de rostos pixelados, mensagens subversivas e ícones distorcidos da cultura pop. Figuras de políticos, magnatas, influenciadores — todos transformados em caricaturas mordazes. No centro, mesas caóticas com latas de spray abertas, estiletes, moldes de stencil empilhados, rolos de fita adesiva, laptops com as telas piscando entre softwares de edição e marketplaces de NFT.
— Bem-vindas ao caos. — A voz rouca e arrastada veio de trás de uma tela de dois metros, onde uma silhueta encapuzada surgiu, limpando as mãos manchadas de azul petróleo num pano velho.
Era Kai
Novak, nome que estourava nas manchetes culturais e nas capas da conceituada revista
Art Review. Mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, uma identidade semioculta que precedia uma fila de espera de dois anos para quem quisesse uma obra sua fora dos leilões da
Sotheby’s ou da
Christie’s. Puxando o capuz, revelou os cabelos descoloridos, com seus cachos impecavelmente modelados como se eles fossem a verdadeira pintura.
Um olhar desconfiado, porém, curioso.
— Devem ser as representantes da galeria de Mayfair — supôs o homem, ao observá-las com atenção, após assentir à aprendiz para se retirar.
Tentou disfarçar a preferência, contudo, seu olhar manteve-se a maior parte do tempo em %Maggie%, deixando-a levemente constrangida por tal profundidade, e que não demonstrava nenhuma cerimônia da parte dele. Com um respiro profundo, forçando uma ação com naturalidade, %Maggie% caminhou até uma das telas encostadas no chão, deslizando os dedos sobre a superfície onde a imagem de uma criança segurando um iPhone, enquanto bombas explodiam ao fundo, parecia pulsar.
— Não somos apenas representantes, somos as donas — corrigiu Meredith, não deixando-se intimidar pelo artista, e ao mesmo tempo notando o interesse por sua irmã.
Pois a acompanhava pelo olhar.
— Nos sentimos honradas por aceitar nos receber em seu habitat natural — continuou a primogênita, mantendo o profissionalismo.
Suas palavras arrancaram uma risada rápida e descontraída do artista.
Kai girou lentamente uma lata de spray entre os dedos, com aquele meio sorriso que era quase um desafio não o apreciar.
— Certamente não foi apenas para analisar minhas telas que pediram por essa visita — continuou ele, curioso. — E ao lembrar que a galeria de vocês está em reforma…
Ele já presumia o teor daquela conversa.
— Queremos seus quadros para a reinauguração de nossa galeria — disse Meredith, direto ao ponto.
— E por que eu deveria dar créditos a vocês? — indagou.
— Porque nossa galeria é conhecida por sua tradição em dar voz aos artistas locais e influentes do país, e estamos entrando em uma nova fase de modernidade e autenticidade que vejo se encaixar bem em sua arte — disse num tom firme, com argumento sólido e bem polido, sem rodeios, contudo, detalhado. — Também possuímos nossas influências e temos uma história.
Mesmo fascinado pela beleza e sutileza da Carter caçula, Kai era um jovem artista que sabia o valor de sua obra, assim como o peso social que a mesma carregava. Conhecido por ser um artista local bem influente no Instagram, utilizava de técnicas com stencil e spray para criar suas obras. Em sua maioria, frequentemente consideradas críticas sociais e políticas, suas obras já haviam sido expostas em galerias famosas da Europa, e também foram vendidas por milhões de dólares em leilões.
Além de ser colecionada por celebridades.
— Interessante… Sabem qual é a essência filosófica de minhas pinturas? — indagou ele, com a intenção de comprovar se fizeram o dever de casa.
— O mundo gosta de fingir que é feito de classe, elegância e méritos… Mas, no fim, tudo se resume a quem compra, quem vende e quem finge não ver o sangue na etiqueta — com um tom sereno, toque sutil e carregado de sentimentos, %Maggie% proferiu as palavras que ele sempre utilizava em suas entrevistas, sem dever nenhuma vírgula.
O que muito lhe impressionou.
Meredith manteve a postura firme, enquanto a irmã mantinha a atenção voltada ao quadro da criança que tanto contemplava.
— Vossa reputação o precede, senhor Novak — comentou, a primogênita, de olhar atento e tão analítico quanto o do artista. — É brutal, provocativo... e absurdamente verdadeiro em suas obras.
— Me impressionaram — assegurou Kai, com um discreto sorriso de canto.
— Isso é um bom sinal? — indagou Meredith.
— Bem… Podemos dizer que é uma abertura para as negociações — concluiu ele.
Uma conclusão que significava o início de uma parceria consistente entre eles.
— Já adianto que se quiserem algo seguro e bonito, procurem outro. — Não foi ríspido, nem rude, apenas sincero em proteger sua identidade artística. — Mas se querem que eu incomode, irrite e faça as pessoas saírem desconfortáveis... então podemos prosseguir com a conversa.
Meredith soltou um suspiro empolgado.
— Contanto que esse desconforto seja avaliado em pelo menos sete dígitos, não vejo problema — consentiu.
O artista sorriu, abriu uma geladeira industrial no canto — cheia de cervejas artesanais e latas de energético — e ofereceu às duas, tendo uma recusa dupla.
— Se aguentarem a feiura do mundo, eu lhes entrego a beleza no desconforto — completou, ao dar o primeiro gole da lata de energético.
%Maggie% finalmente voltou a atenção para ele.
— É exatamente o que viemos buscar.
O retorno de
Carter Fine Arts seria em grande estilo.
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— Nunca imaginei que uma reunião de negócios pudesse ser tão inspiradora assim — confessou Meredith, ao estacionar seu carro em frente ao prédio da irmã.
— Sim, ele me parece bem confiante com suas obras — murmurou %Maggie% com sua interpretação do momento.
— Não apenas com as obras — continuou a mais velha, deixando um pouco de malícia escapar. — Notei muito bem os olhares dele para você.
— Meri, não comece com suas insinuações — pediu %Margareth%.
— Só disse o que presenciei. — A outra riu.
— Nos vemos amanhã na galeria? — A mais nova mudou de assunto rapidamente, para evitar mais constrangimento.
— Sim, mas não prometo chegar cedo. — Assentiu. — Tenho um encontro hoje.
%Maggie% desceu do carro, evitando comentar o assunto.
— Cuidado e juízo — aconselhou a caçula.
— Eu sempre tenho, por isso não me casei até hoje — brincou Meredith, ligando o motor do carro.
O balançar negativo de sua cabeça, era sinal de que %Maggie% ainda se preocupava com as peripécias da irmã.
— %Evelyn%?! — Adentrou o apartamento, chamando pela filha. — %Evie%?! Já chegou?
O silêncio foi a sua resposta.
Seguindo para o quarto, começou a se despir pelo caminho, jogando as peças de roupas na cama quando passou por ela. Tomou um banho quente e relaxante, minutos sentindo as gotículas de águas caindo em suas costas como se fossem massageadores com o propósito apenas de levar-lhe ao bem-estar momentâneo.
Um sentimento de vitória preencheu-a por completo. Uma felicidade instantânea por trabalhar em um projeto apenas dela com a irmã, em algo que lhe brilhava os olhos, a fazia sentir-se viva novamente após tantos meses de lágrimas e frustrações que lhe tiravam o sono. Entretanto, todo momento de paz revela-se passageiro quando temos uma alma ferida, sem previsão de cicatrizar. E entre o vidro do box embaçado pelo vapor quente que se formou em todo o ambiente, as recordações dolorosas retornaram…
Como uma avalanche de sentimentos. Do lado de fora, a filha adentrava sua nova moradia, com inúmeros planejamentos de estudo e leitura sendo formulados em sua mente. Para um primeiro dia, havia recebido uma carga enorme de informações que foram distribuídas ao longo das aulas que teve no dia.
Sua parte favorita da Universidade? A enorme biblioteca em que poderia se perder dentro caso desejasse.
— Mãe? — chamou-a enquanto adentrava o corredor, então ouviu o barulho vindo do quarto de sua mãe.
%Maggie%, por sua vez, constatou que deveria ficar mais um pouco ali embaixo, para que as gotas de água do chuveiro pudessem se misturar com as lágrimas que desciam por seu rosto.
Sua terapia não estava em dia.
— Ela deve estar no banho — supôs %Evie%. — Acho que farei o mesmo.
Ao adentrar seu quarto, o som abafado da porta se fechando atrás de si ecoou mais alto do que deveria no silêncio do lugar. %Evie% deixou a bolsa deslizar dos ombros, caindo sobre a poltrona perto da janela, enquanto caminhava até a cama, se jogando em seguida, fora mesmo um turbilhão de emoções e sensações em menos de vinte e quatro horas. O teto branco parecia mais interessante do que nunca — ou talvez fosse apenas o único lugar onde seus olhos podiam repousar sem que sua mente a traísse.
As imagens vieram sem pedir licença. O cheiro amadeirado da livraria, a textura das prateleiras antigas, o sussurro do livro de capa dourada que a puxou como um ímã.
Seu inesperado amparo que a salvou do breve deslize dos próprios pés no chão polido da sessão reservada. A lembrança do breve desequilíbrio, aquele segundo suspenso no tempo — e, de repente, as mãos dele.
Firmes e quentes. Segurando-a pela cintura, como se o mundo inteiro pudesse desabar e, ainda assim, ela não cairia se ele estivesse ali.
Seu coração acelerou como se revivesse novamente a cena, com ainda mais entonação e precisão. A riqueza de detalhes em que sua mente emanava as informações vividas, fazendo-a sentir uma breve falta de ar por prender a respiração quando a imagem do sorriso dele a preencheu por completo. Aqueles lábios destacados por um carisma enigmático e sutil.
Bennett! — era a única coisa que sabia sobre ele.
O sobrenome pelo qual foi chamado pelo dono da livraria.
Cuidado... — a voz dele ecoou na memória, rouca, baixa, quase cúmplice.
O toque, mesmo se prolongando, não foi invasivo. Era como se, por um instante absurdo, o universo inteiro tivesse apertado o pause — apenas para que ela sentisse o calor da pele dele contra a sua. E agora, deitada no próprio quarto, ela não sabia o que fazer com isso, era uma nova informação, um novo sentimento que precisava encarar. A ponta dos dedos roçava, distraída, o tecido do próprio moletom, como se buscasse ali a lembrança daquele contato, algo que nunca tinha sentido antes.
Nunca realmente havia se interessado por alguém dessa forma.
Principalmente devido a sua timidez e escolha pela educação em casa.
O peito parecia pequeno demais para comportar aquela mistura desconfortável de ansiedade, curiosidade e um entusiasmo quase infantil. Era ridículo. Patético, até. Mas inegavelmente real. Mordeu o lábio inferior, franzindo as sobrancelhas como se isso pudesse conter o sorriso bobo que ameaçava escapar.
— Isso não pode estar acontecendo... — sussurrou para si mesma, apertando um travesseiro contra o rosto na tentativa falha de sufocar o próprio coração, que parecia bater alto demais.
Pela primeira vez na vida, %Evie% estava tropeçando — não em livros, nem em escadas — em algo muito mais complexo: o desconhecido território de se apaixonar.
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Mãe e filha apenas se encontraram horas mais tarde.
O céu de Londres estava encoberto, mas a vista da varanda continuava deslumbrante devido a presença do parque. O silêncio as rodeava enquanto %Margareth% servia chá em uma porcelana antiga, pintada à mão, uma herança que vinha da avó dela. Ambas sentadas nas cadeiras suspensas que penduraram no teto, um cantinho preparado com todo o zelo, para lhes proporcionar momentos de comunhão e conforto.
— Lembra de quando você achava que chá de verdade era só aquele de saquinho? — comentou %Maggie%, enquanto sorria, ao entregar uma xícara à filha.
%Evie% riu, levando a xícara aos lábios.
— Derbyshire não era exatamente o centro da sofisticação, mãe — comentou a realidade de uma cidade do interior.
%Margareth% ajeitou os cabelos com aquele gesto elegante e delicado que parecia automático.
— Não, mas era nossa zona de conforto — respondeu, voltando o olhar para o horizonte, enquanto se acomodava na sua cadeira. — Sabe, às vezes me pergunto se fiz certo em aceitar a proposta de sua tia, combinada à insistência do seu pai… E nos mudarmos para Londres.
%Evie% abaixou a xícara, apoiando-a no joelho.
— Como disse em nossa vinda de carro para cá, precisávamos de um recomeço. Respirar o ar poluído de uma cidade como esta... viver algo a mais — completou %Evelyn%.
%Margareth% assentiu, apertando a mão da filha.
Um olhar de ternura e cumplicidade.
— Você tem razão. — Respirou fundo, o ar pareceu fazer seus pulmões exalarem uma sensação dolorida, decorrência do choro no banheiro. — Às vezes a vida exige que a gente se jogue no desconhecido, sem saber qual alvo vai acertar… Mas o que importa é que estamos juntas.
%Evie% sorriu, e por um instante, não eram mãe e filha — eram duas mulheres, duas almas, se protegendo do mundo.
Os sentimentos que eu tenho escondido
Ainda permanecem como uma memória dolorosa
E nosso relacionamento se transformou
Apenas em uma história triste.”
- Goodbye Summer / F(x) (feat. D.O)