9 • Provas do Outono
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As duas semanas arrasadoras de provas haviam chegado, faltando apenas vinte dias para o recesso de Natal. Meu planner estava mais louco e em surtos do que eu, com trabalhos para entregar, artigos para ler, provas para fazer e resenhas para escrever. Com tantas coisas disputando a minha atenção, eu apenas ignorava as mensagens no grupo do whatsapp da fraternidade e tinha até silenciado ele.
E agora tinha a mais inusitada novidade: o coordenador do curso de jornalismo e editor chefe do jornal do campus havia me oferecido uma vaga na redação, pelo fato de simplesmente se apaixonar por meus artigos malucos exigidos pelo professor Brown, que periodicamente eram entregues para serem publicados na sua redação.
Era um fato que sua oferta pareceu mais uma intimação que um convite, mudando totalmente minha rotina e me forçando a deixar o trabalho na biblioteca. Um lado bom? Receberia meio salário como motivação e ajuda nas despesas estudantis. Em contrapartida, tinha que escrever três artigos especiais por mês para o jornal e ajudar nas matérias do dia a dia. Como se eu já não tivesse muita coisa para fazer.
Eu estava ficando mesmo popular em Princeton, mais do que gostaria, para ser honesta, entrei querendo ser o mais anônima possível e acabou acontecendo o contrário. Agora só desejava chegar viva ao final da minha graduação ou pelo menos com parte da minha sanidade mental intacta.
Em alguns momentos chegavam mensagens de %Demeter% perguntando sobre meu tornozelo e se estava tudo bem com a chuva de tarefas diárias que eu tinha. Era fofo ver sua preocupação comigo, principalmente quando se oferecia para me ajudar em atividades que certamente não fazia a mínima ideia de como executar. Um exemplo? As muitas maquetes físicas que a senhora Foster, professora de estruturas e representação tridimensional, inventava para os alunos.
Vou conseguir te ver hoje? Olhei para a tela do celular. Final da tarde de terça-feira e curiosamente o tempo estava fechado com uma leve camada de chuva. Não estava tão frio quanto imaginei, mas a brisa se mantinha gélida, dei sorte do ar condicionado do escritório do jornal estar estragado. Assim, não morreria congelada.
Infelizmente não.
O que faz aí?
Estou aproveitando o momento de silêncio no jornal para estudar
você realmente não descansa?
Princeton deixa?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
o que vossa majestade leonina está fazendo?
tive um almoço em família hoje
sobre o futuro
hum… futuro?
sou um veterano e logo vou me formar
meu pai acha que estou pronto para trabalhar na empresa da família
uau, um homem de negócios, king lion
Eu ri, voltando meu olhar para a porta, passavam algumas pessoas conversando no corredor. Me distraí um pouco, olhando as sombras por debaixo, até que voltei o olhar para o celular.
não exatamente,
nem só de nepotismo vive a família Dominos
Aquilo soou como uma brincadeira. Certamente pelo comentário que fiz bem no início quando nos conhecemos.
não entendi.
a empresa que vou trabalhar rege a meritocracia, digamos que vou começar como o garoto do café ou office boy
Ele mandou uma figurinha de um entregador de pizza que me fez rir. Por aquilo eu não esperava. Não da família dele, seus pais pareciam prezar muito pela aparência, deixar o filho iniciar sua carreira profissional tão baixo assim?
você disse a empresa que vou trabalhar
não é a do seu pai?
é sim, do meu pai
mas quem disse que é minha?
pelo menos é isso que ele declara todos os dias
nossa
não sei o que dizer
fique tranquila, para ser honesto não tenho mais nenhuma vontade de ser o presidente daquele lugar
por mais que minha mãe queira
e o que você quer?
você
Ele mandou uma selfie dele fazendo um coração com os dedos. Não me contive em rir novamente.
Respirei fundo para digitar algo, porém ele foi mais rápido.
ando tendo outros planos para meu futuro
e meu irmão pensa o mesmo
vão montar a empresa de vocês?
serem livres?
sim, é a nossa meta
mas para saber gerenciar a nossa, precisamos começar de baixo
devo imaginar que seja um sonho de criança?
talvez, falta uma terceira parte
mas…
mas?
esquece, está ocupada agora?
não, estava apenas esperando a Marg para irmos embora.
sua amiga deve estar em um momento bem íntimo com o meu irmão no carro dele na garagem da mansão
sério?
Bufei irritada. Ela havia me feito jurar que esperaria por ela.
posso te dar uma carona
não vou te fazer sair de casa
moro há alguns passos do dormitório
quem disse que estou em casa?
Uma caixinha de surpresas tanto quanto o alpha.
Contudo, as mensagens da Isla brigando comigo por preferir ficar no meu quarto à participar das reuniões da fraternidade conseguiam ser ainda mais aterrorizantes que as notas das provas no final do dia. O que me deixava mais nervosa era a demora dos professores nas correções e os bugs que o sistema demonstrava quando se sobrecarregava com aflições dos alunos.
Por fim, tinha %Cedric%. Meu veterano com seus convites sugestivos para passeios noturnos pelo bosque, em que na maioria das vezes ele me carregava nas costas para assim evitar mais alguma queda de minha parte.
— Tem certeza que não estou pesada? — brinquei, sentindo meu corpo balançar suave, enquanto era carregada por ele em suas costas. — Sabe que posso andar, não é?
— Pare de me fazer mudar de ideia — reclamou ele, mantendo a seriedade e continuando a caminhar por entre as árvores. — Não vou te colocar no chão.
— Mas eu estou bem, meu tornozelo não está dolorido nem nada. — Retruquei.
— Não vou deixá-la se acidentar novamente, não no meu turno. — Ele se manteve firme em sua decisão.
Eu ri de leve pela forma que falou e assenti. Apoiando minha cabeça em seu ombro, olhei para o lado, contemplando a natureza à nossa volta. O último mês de outono sempre carregava a sensação do frio que viria na próxima estação e, após quase uma semana de chuva constante, ali estava o céu estrelado de sábado à noite. A natureza silenciosa e meu coração extremamente falante, enquanto me aninhava nas costas dele.
— Agora é você quem está calada — comentou %Cedric%, ao parar em frente ao lago Grovers Mill Pond. — Adormeceu?
— Bem que suas costas são convidativas, mas estou acordada — respondi prontamente.
Ele me colocou no chão e manteve o olhar sereno para o lago, então sentou no piso de um deck improvisado que tinha no local. De onde estávamos dava vista para uma casa do outro lado da margem, na qual sua atenção permaneceu.
— Posso saber seus pensamentos? — perguntei me sentando ao seu lado.
— Eles são bem caros, quer negociar? — brincou ele, voltando seu olhar para mim com intensidade.
Eu fiquei estática por uns segundos e ele percebeu minha falta de reação. Então riu baixo, voltando o olhar para frente.
— Penso no futuro — explicou ele.
— Você também? — Fiquei admirada.
— Não se espante, isso é bem comum entre os veteranos. — Ele riu baixo. — Principalmente quando estamos próximos a graduar.
— Está feliz com seu curso de arquitetura? — indaguei a ele.
Tinha que admitir que minha amizade tanto com ele quanto com o leão, era bem superficial; eu me intrigava com seus segredos de família, porém tinha curiosidade em conhecê-los melhor. Sua essência escondida da sociedade.
— Sim, não era a minha primeira opção, mas aprendi a gostar. — Ele inclinou o corpo se deitando, observando as estrelas.
— E qual era a sua primeira opção? — indaguei, curiosa.
— Acredite ou não, designer de games — contou ele, num tom saudoso. — Houve uma pequena época da minha vida que passava o dia jogando sem preocupações.
— Deixa eu adivinhar, seus pais não deixaram. — Minha suposição era certa.
— Não. — Confirmou ele. — Eu deveria seguir os passos do meu pai no ramo da construção civil, consegui me livrar da engenharia, mas acabei na arquitetura.
— Você ainda pode virar o jogo, a arquitetura está bem em alta nos games, você já jogou Assassin's Creed? — argumentei, tentando motivá-lo a voltar-se para o que gosta. — O cenário é impecável.
— Gosto de como você enxerga as coisas — comentou com um sorriso de canto. — Queria ser otimista assim.
— Nem sempre fazer o que nossos pais querem é o certo, se eu pensasse assim não teria vindo para Princeton… Eles queriam que eu fizesse medicina veterinária — argumentei com propriedade. — É melhor trabalhar com aquilo que te dá alegria do que ver a vida passar fazendo o que não gosta.
— E quando foi que resolveu ir para o design? — perguntou ele, voltando o olhar para mim.
— Hum… Não sei dizer, sempre gostei de desenhar, mas… Acho que fui sendo conduzida pelas oportunidades até chegar aqui. — Contei. — Apesar de ainda não me decidir pela especialidade.
— Você tem muitas opções — assegurou ele, erguendo o corpo e me olhando fixamente.
— Sim, design de moda, joias, mobiliário, interiores, de serviços, gráfico, produto, jogos… — eu suspirei rindo. — Todos possuem seu ponto de destaque e em alguns existe algo chamado representação técnica, que odeio.
Nós rimos juntos, com ele assentindo.
— Pelo menos agora você sabe pelo que passei — comentou ele.
— Saiba que meu sofrimento é maior por não conseguir me decidir pela especialização, o diretor fez questão de me matricular em todas as aulas técnicas, como se minha carga horária não tivesse superlotada — desabafei um pouco.
— Como tem sido o estágio no jornal? — perguntou ele.
— Não levo como um estágio e sim como um trabalho forçado. — O corrigi.
Ele riu de imediato, mantendo aquele olhar profundo em mim. O que me deixava ainda mais desnorteada.
— Eu realmente estou desapontada com você, %Annia% Fletcher. — Isla entrou no meu quarto e cruzou os braços lançando um olhar desaprovador.
Em plena terça-feira de manhã, eu não tinha forças para criar argumentos para ela e, para ser honesta, ninguém nunca terá argumentos válidos para Isla Baker. Eu estava refugiada em meu quarto, aproveitando que não tinha aula naquele dia e já havia feito prova de Linguagens Visuais. Somente desejava paz e tranquilidade, por pelo menos aquela manhã.
— O que eu fiz agora? — Coloquei o marcador de páginas dentro do livro e o fechei, então olhei para ela.
— O que você fez? — Ela soltou um suspiro cansado. — Por que não foi na reunião de hoje?
— Pelo que soube era uma reunião administrativa e somente para altos cargos, eu sou uma aprendiz de caloura — expliquei a ela.
— Você é minha assistente e a partir de hoje é obrigada a comparecer. — Reforçou ela, não dando importância ao meu argumento.
— Ok — suspirei fraco —, mais alguma coisa?
— Hum… — ela me olhou como se me analisasse. — Que cara é essa?
— De cansaço — respondi voltando meu olhar para o livro fechado. — Tive seminário hoje, prova ontem e amanhã, a pedido do coordenador do curso de moda, vou organizar um workshop sobre desenhos à mão, croquis e técnicas de colorir.
Respirei fundo, tentando não descontar meu estresse nela.
— Uau, sua agenda está andando mais cheia que a minha. — Brincou ela ao se sentar na minha cama. — E qual o motivo do meu coordenador de curso te escravizar assim?
Ela parecia em total surpresa.
— Isso que dá não definir sua especialização e ser uma boa aluna — expliquei sem detalhes a ela.
— Uau, não sei como te consolar, amiga. — Seu olhar estava mesmo empático.
— Acho que estou me acostumando, dias piores estão batendo na minha porta, pois acabando as provas desta semana, tenho apresentação de trabalhos e resenhas para a próxima — comentei com ela, tentando não surtar. — E para completar com chave de ouro, nosso amado professor, senhor Brown, me pediu outro daquele artigo extremamente complexo e detalhado….
Eu queria jogar uma bomba nele? Sim, queria.
— Já não me bastava ter que aceitar forçadamente o convite do professor Juan e me juntar ao jornal da do campus. — Terminei meu desabafo.
— Nossa, mas pelo menos você tem a Margareth para te ajudar no jornal — disse ela, tentando suavizar a situação. — Pense pelo lado bom e olhe o copo meio cheio.
Eu lancei meu olhar atravessado para ela, de quem queria matar alguém.
— Calma, amiga, só tentei levantar sua motivação. Mas se tratando do professor Brown, estou em choque. É o quê? A terceira vez só nesse semestre? — perguntou ela.
— Quarta. Quarta vez em menos de quatro meses como se fosse mesmo fácil escrever um artigo. — A olhei, uma indignação me consumindo por dentro. — Ele quer me ferrar, eu já entendi, e já nem sei quantos favores estou devendo para Joy.
Ela soltou uma gargalhada boba de forma espontânea, pareceu nem se segurar.
— Pode acreditar que meu irmão não vai te deixar pagar nenhum favor a ninguém daqui. — Ela me olhou com mais serenidade. — %Cedric% já percebeu a implicância do senhor Brown com você.
— Olha, se o problema é a Louise, eu entrego seu irmão de bandeja para ela — confessei me sentindo um pouco alterada pela irritação daqueles dias acadêmicos, precisava me controlar mais. — Quantas vezes tenho que dizer que não quero me envolver com ninguém?!
— Então eu virei um objeto para ser entregue assim? — A figura de %Cedric% apareceu na porta, de braços cruzados e me olhando com seriedade.
Voltei meu olhar para a janela, numa mistura de raiva e vergonha.
Confesso que me esforçava bastante para não encará-lo em alguns momentos, principalmente quando estava sob o estresse da graduação. Ainda mais depois do nosso último beijo. Tantas coisas estavam acontecendo entre nós, que me deixava ainda mais confusa e indecisa. Seria tão mais fácil se fôssemos apenas bons amigos, sem segundos interesses e nem aquela atração física que bagunçava tudo internamente.
— Bem, eu tenho que ir, preciso me preparar para apresentar um trabalho de superfícies amanhã, e ainda não terminei de montar os slides. — Isla se levantou da minha cama e seguiu para porta. — Seja menos frio e mais cavalheiro, quem está sob pressão aqui é ela, não você.
Minha veterana disse em alto e bom som, para que eu ouvisse, então saiu fechando a porta.
— Posso perguntar se está tudo bem? — Ele deu alguns passos se aproximando, permanecendo de pé.
— Sim — assenti —, estou bem, só cansada.
Continuei olhando para a janela. Logo ele pegou em minha mão e me fez olhá-lo.
— Agora é você quem está me ignorando — reclamou ele, com razão.
— Não estou te ignorando, só preciso de espaço, tenho muitas coisas para… — respirei fundo, me sentindo levemente sufocada.
A pressão de Princeton estava sendo maior do que imaginei que seria. Querendo ou não, metade era por sua causa. %Cedric% me puxou para ele, me fazendo levantar da cadeira e me abraçou forte, algo que me fez sentir segura e confortável.
— Me desculpa, sei que tenho parte nisso — confessou ele, com um tom frustrado e amargurado. — Queria poder fazer algo para te ajudar.
— Graças a você, me tornei muito próxima da Joy — brinquei em sussurro. — Eu estou bem, vou ficar bem.
— Não está. — Ele segurou em minha mão. — Vamos dar uma volta.
— Eu tenho um workshop amanhã — o alertei dos meus compromissos acadêmicos.
— Prometo te devolver a este quarto antes do amanhecer — brincou ele.
— Estou falando sério. — Reforcei minhas responsabilidades.
— Eu também. — Ele sorriu, tomando impulso para me beijar.
Porém, o barrei no meio do caminho com minha mão sobre seu tórax.
— Você me prometeu que seria uma amizade saudável e sem beijos — o lembrei do nosso trato de dias atrás. — Eu não quero me...
— Tudo bem. — Assentiu me interrompendo. — Me desculpe, prometo que vou me comportar.
Saímos do quarto e seguimos a pé para o bosque. Novamente nossa caminhada noturna em meio às árvores foi silenciosa, porém relaxante, apesar dos ventos frios do final de outono.
— Eu não aguento mais isso. — Disse desabando no chão da biblioteca segurando as lágrimas.
É claro que o senhor Brown usaria todas as suas armas para me perseguir naquela última semana de estudos do semestre letivo. Além da prova de segunda-feira, que parecia um absurdo cair tanto conteúdo em apenas 20 questões, e havia sido adiada na semana passada propositalmente, também teria que lhe enviar o bendito artigo até sábado pela manhã. O tema?
Processo criativo da Bauhaus e sua contribuição para a metodologia do ensino do design autoral atual. É claro que eu seria a única aluna a escrever isso.
E eu tinha como contestar? Não, claro que não.
Eu estava ficando maluca com tudo isso. E correndo riscos de odiar a Bauhaus.
— Vai deixar Princeton te vencer? — A voz de %Demeter% soou ao meu lado.
Levantei a cabeça e o olhei desanimada, com lágrimas se formando no canto dos meus olhos.
— Não imaginava que ser um lobo seria tão pesado assim — disse com um suspiro fraco. — Não quero mais isso.
— Ei — ele se agachou e me olhou com ternura, secando com o dedo indicador a primeira lágrima que ousou cair —, essa não é a caloura de Wisconsin super forte e determinada que conheci na Fire Party.
— Ela foi fuzilada pela semana de provas e só estamos na quinta-feira. — Expliquei em minha defesa, tentando me recompor.
— Olha, até que não seria uma má ideia você se desligar dos lobos, eu poderia te conceder abrigo político — brincou ele. — Mas fraternidade é para a vida toda, como uma família, se escolheu eles, deve permanecer com eles mesmo sendo atacada por isso.
— Estou surpresa por suas palavras. — E estava mesmo.
Ele sorriu de canto e, pegando em minha mão, se levantou me puxando consigo.
— Que tal esquecermos um pouco essa pressão toda de ser um lobo e ter que lidar com o professor Brown, e nos divertimos um pouco — sugeriu ele.
— Eu tenho um trabalho de desenho técnico para entregar amanhã de manhã — disse a ele. — Além do artigo daquele que não deve ser nomeado.
— Eu sei que é a melhor aluna da sua sala — contra argumentou pegando os dois livros da minha mão. — E sei que seus desenhos são tão bons que nem precisa caprichar muito.
— E para onde pretende me levar?! — perguntei intrigada.
— Não se preocupe, não será para meu quarto. — Brincou ele.
— Considerando você, até a biblioteca da pedra do rei é um local perigoso — assegurei.
Nós caímos na gargalhada e seguimos até a senhora Hana.
Desta vez ela quem estava no comando da biblioteca e não Lin, sua estagiária. Esperei até que ela registrasse no sistema os livros que estava pegando, então guardando na mochila, saímos do lugar. O carro de %Demeter% nos aguardava na porta, assim como os olhares curiosos e alguns celulares discretos que tiravam nossas fotos às escondidas. Tentei não me importar. Se tinha uma coisa que comecei a praticar nas últimas semanas é fingir que não sou o assunto principal do ano e seguir com minha vida acadêmica.
Para minha surpresa, King Lion me levou em uma arena de paintball, algo que nunca imaginei ter perto do campus. Segundo ele, eu precisava me desestressar e relaxar antes de voltar à rotina de trabalhos, resenhas e artigos do professor Brown. Me desliguei de tudo e entrei no clima de diversão proposto por ele. Trocamos de roupa, ele com um macacão azul e eu com um laranja. Após uma breve explicação do funcionário sobre o funcionamento das armas, seguimos para o campo de batalha.
Me deu um leve frio na barriga, quando o apito soou e a partida começou.
King Lion tinha reservado aquele tempo especialmente para nós dois, e me perguntava quanto tinha saído do seu bolso para isso. Era surreal conviver com os herdeiros de Princeton e suas facilidades em conseguir as coisas através da fortuna e prestígio de suas famílias. Agora eu entendia a frustração de Margareth quando dizia que seu sonho de consumo era apenas ter grana para morar na mansão de sua fraternidade.
Deixei minha mente relaxada e me diverti bastante ao longo daqueles 40 minutos de caçada ao leão.
Posso dizer que foi um inusitado safari em cidade grande? Foi engraçado quando ficamos frente a frente e %Demeter% se rendeu me deixando ganhar. Não foi muito justo, mas bem cavalheiro de sua parte. Do paintball, ele me levou ao Starbucks e pedimos dois frappuccinos de chocolate acompanhados de fatias de torta de limão holandesa. Uma boa combinação na opinião dele.
— Obrigada — disse ao terminar de mastigar o último pedaço da torta. — Foi realmente uma tarde divertida, superou minhas expectativas.
— Olha só, então estou no caminho certo, te surpreender é meu novo objetivo de vida. — Disse ele com um sorriso simples no rosto.
— Oh céus, acho que você pode ter objetivos melhores que impressionar uma loba, ainda mais caloura — brinquei, o olhando.
— Eu gosto da sua companhia e estou aprendendo a gostar da sua amizade. — Confessou ele ao terminar a sua bebida. — Só não vou me contentar apenas com ela.
— Bem, acho que já posso voltar para a realidade. — Disse ao terminar minha bebida também.
— Não, só irá retornar para aquele estresse todo amanhã, eu sei muito bem que pode entregar seus desenhos no final da tarde. — Ele se levantou da mesa e deixou uma gorjeta para a atendente debaixo de seu prato. — Agora vamos apreciar o horizonte.
— Apreciar o horizonte? — Olhei curiosa.
Não faria nenhum esforço para recusar, internamente estava mesmo querendo ficar longe de todas as minhas responsabilidades acadêmicas.
— Se os lobos têm o bosque, os leões têm a savana inteira. — Ele piscou de leve e estendeu a mão para mim. — Vamos lá?
— Hum… — sorri de leve e segurei em sua mão.
Nosso destino misterioso? O terraço verde da mansão da fraternidade Theta Nu Gama.
E sim, a vista da cidade proporcionada naquele lugar era única e impressionante. Olhar para o horizonte, fim de tarde ao pôr-do-sol era como estar em Wisconsin de novo, me trazendo lembranças de casa com sensação de aconchego. Me peguei um pouco emotiva no momento, percebendo meus olhos marejados.
— Está tudo bem? — perguntou ele, ao segurar em minha mão.
— Sim. — Desviei meu olhar para cima, vendo o céu escurecer. — Só me lembrei de casa.
— Está com saudades? — perguntou ele.
— Nunca passei tanto tempo longe assim, mas já sabia que isso aconteceria. — Confessei.
— Como se sente agora em relação a Princeton? — indagou ele.
— Mais relaxada e motivada. — Me virei para ele com um sorriso no rosto. — Obrigada por hoje, tem sido um bom amigo para mim.
— Sabe que gostaria de ser mais que isso. — A sinceridade na sua voz me estremecia um pouco.
— Não posso dar mais que isso — fui sincera também.
Ele se calou por um tempo, até que seu beijo desesperado veio de repente, assim como seus braços me trazendo para mais perto dele. Senti um frio estranho na barriga, com meu coração acelerado pela adrenalina da intensidade que ele colocava no beijo.
Doce e ao mesmo tempo aquecedor.
Quanto mais eu te conheço, meu coração estremece,
Tudo que eu consigo fazer é sorrir,
Será que devo tentar te roubar um beijo?
Isso vai me fazer ficar mais perto do seu coração?
- Stand By Me / Boys Over Flowers OST (SHINee)