8 • Biblioteca à noite
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— Aqui — disse %Cedric% ao se abaixar e me entregar um lenço que retirou do bolso da jaqueta.
— O que fazemos agora? — perguntou %Demeter% me olhando de forma caridosa. — Ela parece pior do que eu imaginei.
— Nunca mais eu deixo minha irmã te arrastar pra essas festas do pijama. — %Cedric% manteve um tom baixo em sua voz, visivelmente preocupado.
— Nunca mais eu deixo a sua irmã e a minha cunhada se aproximarem dela — disse %Demeter%, enquanto me ajudava a ficar de pé.
Eu limpei minha boca com o lenço, totalmente envergonhada por aquela noite. Que loucura da minha parte achar que sairia intacta daquela festa do pijama após vai saber quantas doses de tequila foram. Eu respirei fundo e guardei o lenço sujo no bolso, fiquei com dó de jogar fora por achar fofo as iniciais do nome do Alpha bordadas no canto do tecido.
— Eu vou te levar para a mansão dos lobos, posso pedir a minha prima para olhar seu tornozelo. — Disse %Cedric% ao segurar em meu braço para que eu me apoiasse nele.
— Não mesmo, ela não vai com você, ainda mais que foi a sua irmã que a deixou nessa situação. — %Demeter% segurou na mão dele, para que me soltasse.
— Quem pensa que é para me impedir? Eu sou o veterano dela e minha fraternidade é a família dela. — %Cedric% tentou segurar seu olhar raivoso de lobo, mas consegui notar.
— Bela família essa que não protege seus calouros. — %Demeter% também estava com o olhar afiado para ele. — Ela vai comigo.
— Não vai mesmo — retrucou %Cedric%.
— Parem os dois, já disse. — Eu me soltei de ambos e felizmente consegui me manter em equilíbrio.
Com um suspiro cansado, mantive minha atenção nos dois.
— Ambos só estão me deixando pior com essa troca de farpas entre vocês — fui dura e firme com eles. — Se continuarem assim, eu chamo um táxi e nunca mais dirijo a palavra a nenhum dos dois, sendo da minha fraternidade ou não.
Claramente pude ver ambos engolindo seco. Nunca imaginei que fosse uma dor de cabeça ter dois garotos gostando de mim, e por mais que meu ego gostasse, minha sanidade mental ia ao fundo do poço com isso.
— Vamos fazer assim, eu vou de carro com %Demeter% para o meu dormitório — iniciei meu plano de contingência, então olhei para o Alpha. — E você busca sua prima da mansão das najas, ela também estava na festa do pijama.
— Se ela também estava na festa do pijama, não terá nenhuma condição física e mental de nos ajudar. — Argumentou %Demeter%.
— O que sugere então? — perguntou %Cedric%. — Conhece mais alguém de medicina?
— Por acaso conheço. — King Lion sorriu de canto. — Você leva ela para o dormitório e eu consigo um residente.
— Não demore — disse %Cedric%, tentando controlar o tom de ordem.
%Demeter% apenas ignorou essa parte e me deu um beijo suave no rosto em provocação e piscou de leve antes de partir. Precisei me esforçar para não rir daquilo. Então %Cedric% me ajudou a dar os primeiros passos para seguir até seu carro que estava próximo, porém não sendo tão paciente como das outras vezes, ele apenas me pegou no colo para ser mais rápido. Permaneci em silêncio durante todo o caminho, assim como ele.
O problema do meu estômago se resolveu com o vômito, entretanto minha mente se mantinha latejando de dor. Essa era a consequência para minha ousadia com a bebida, eu nunca fui tolerante, deveria ter sido mais cautelosa. Quando chegamos no prédio do dormitório, nem tive a chance de ir caminhando até meu quarto, apenas assenti que o senhor Baker me conduzisse em seu colo com muitas testemunhas pelo caminho.
— Chegamos — disse ele ao me colocar ao lado da minha cama.
— Obrigada. — Falei em um sussurro.
Ele respirou fundo e encostou no beiral da janela colocando as mãos nos bolsos da calça, parecia relutante em me encarar e totalmente pensativo. Aquilo me dava certa raiva, ele tinha muitas semelhanças comigo em manter seus pensamentos para si e apenas observar. Certamente se fosse %Demeter% já tinha me enchido de perguntas, ou estaria fazendo algum comentário malicioso sobre estarmos ali sozinhos.
— Vai mesmo evitar me olhar? — perguntei, permanecendo de pé. — Foi tão nojento assim me ver vomitando?
Inesperadamente eu arranquei alguns risos dele e ri junto. Com certeza foi nojento aquela cena e se eu pudesse apagaria totalmente da memória.
— Foi engraçado — ele levantou o olhar, estava sereno mesmo com a face séria.
— Que vergonha — sussurrei, levando a mão no rosto.
— Ainda está doendo? — perguntou do tornozelo.
— Está latejando. — Respondi prontamente.
Já tinha passado por um desentendimento da última vez que disse estar bem e não estava, não ia passar por isso novamente.
— Por que não senta? É melhor, assim não força seu tornozelo. — Sugeriu ele.
— Não sei se quero — recusei. — Minha cabeça também não está legal, posso ficar zonza se eu me sentar agora.
— Não deveria ter bebido. — Disse ele.
— Eu sei, mas… — mesmo não sendo forçada, era meu orgulho em jogo.
Ele voltou o olhar para a janela. O que me fez indagar se ele ainda estava incomodado com mais alguma coisa.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. — Ele voltou o olhar para mim. — Por que teria algo?
— Porque está se forçando a não me olhar. — Expliquei o ponto da minha indagação, dei alguns passos para me aproximar dele.
— Estou intrigado com uma coisa — confessou ele.
— Você mandou mensagem pra nós dois. — Agora seu olhar tinha ficado um pouco distante e inexpressivo.
— Acredite, eu também não sei o porquê — assegurei a ele. — Tenho vocês dois como amigos que posso contar a qualquer momento.
— Esse é o problema… Não queremos apenas amizade, você já deve saber isso. — Sua sinceridade e franqueza sempre me impressionavam.
— Sim, mas é o que posso oferecer — disse a ele, sentindo-o tocar seus dedos da mão direita nos meus. — %Cedric%.
— Eu não vou te beijar, você não está sóbria. — Garantiu ele, com um sorriso malicioso escondido no rosto.
— Acho bom. — Dei um passo para trás, que para minha infelicidade foi justo com o tornozelo ruim.
O que ocasionou no meu desequilíbrio, o fazendo me segurar pela cintura, trazendo de forma involuntária o meu corpo mais pra perto do dele. Uma troca de olhares inesperada e meu coração acelerado, até nossa respiração parecia sincronizada. Em movimentos lentos e precisos, ele foi se inclinando para mais perto.
— Eu não estou sóbria — sussurrei ao sentir seus lábios bem próximos os meus.
— Eu sei. — Ele riu baixo e, no susto, me pegou no colo. — Vou te colocar na cama, senhorita teimosa.
Uma fração de segundos para que %Demeter% entrasse no quarto sem bater e acompanhado por um homem de jaleco que certamente não parecia ser um aluno ainda em curso, talvez fosse um veterano já na residência.
— O que está acontecendo aqui?! — perguntou King Lion, com o olhar atravessado para meu veterano.
— Quer mesmo saber? — %Cedric% manteve o sorriso de canto.
— Não está acontecendo nada — disse de imediato ao sentir a tensão no ar, olhando para o Baker. — Me coloque logo na cama.
Ele assentiu segurando o riso. Logo o homem se aproximou de mim e pediu permissão para olhar o estrago no meu tornozelo. Fiquei chocada ao saber que se tratava de um professor da Universidade, ele era tão bonito e de olhar acolhedor, que não tinha cara de professor.
Será que ele era o tal de medicina que Isla teve sua aventura? Se foi, tá explicado o motivo.
— Então, professor Scott, como estamos? — perguntei, cautelosa.
Esse tornozelo já tinha me dado muito trabalho em um pequeno espaço de tempo.
— Não está tão inchado como imaginei, mas você vai precisar ir ao hospital amanhã para fazer um raio x, assim teremos um diagnóstico mais preciso. — Respondeu ele, imobilizando a região com uma tala e faixa. — %Demeter% irá te levar até o Hospital Universitário, eu mesmo vou acompanhar e após os exames colocaremos uma bota imobilizadora.
— É tão grave assim? — perguntou %Cedric%, mais uma vez com o olhar preocupado.
— Não posso mensurar agora, mas pelo que pude perceber, não é a primeira vez que esse tornozelo sofre alguma lesão, não é? — O professor me olhou com seriedade.
— Sim, não é a primeira vez — confessei abaixando o tom da minha voz. — Eu sofri um acidente quando criança e ocasionou em uma lesão nesse tornozelo, tive uma boa recuperação, mas com pequenas sequelas.
— Imaginei. — Disse o professor. — Quando você força demais, corre o risco de se deslocar.
— Isso ocorre quando o socorro demora para ser realizado — explicou ele, se levantando da cama. — Vejo a senhorita amanhã no hospital.
Assenti com a cabeça, eu sabia de tudo a respeito daquilo, mas não queria preocupar os dois enfermeiros que eu tinha arrumado para minha vida. Porque sim, eu já imaginava que sabendo disso, eu não teria paz. Ele retirou um bloco do bolso do jaleco e escreveu algumas coisas.
— O tornozelo dela está inchado, este remédio é para dor e este é para o inchaço — ele explicou ao entregar o papel para %Demeter% e olhou para %Cedric%. — Se certifique que ela não fará nenhum esforço sem propósito até amanhã, ou pode piorar o inchaço.
— Pode deixar, professor — assegurou %Cedric%.
— Estarei no hospital às sete para uma demonstração aos alunos internos, leve ela até oito e meia, o laboratório já estará preparado. — O professor Scott deu suas recomendações para %Demeter% e depois se retirou.
Ambos ficaram me olhando por um tempo, pareciam digerir todo o ocorrido, principalmente o lance do meu acidente.
— Está tudo bem com vocês? — perguntei tentando extrair alguma reação deles.
— Claro que está. — %Demeter% se adiantou na resposta e esticou o papel para %Cedric%.
— Por que está me dando isso? — perguntou ele ao pegar, a expressão confusa.
— Eu busquei o médico, agora você se encarrega dos remédios — explicou o Dominos, com seu argumento simplório.
— Faz sentido. — sussurrei, percebendo que tinham ouvido.
Então os olhei novamente me encarando.
— O que foi? — perguntei inocente.
— Vai logo da matilha, antes que ela sinta mais dores. — Disse %Demeter%, implicando com ele.
— É alcateia, seu selvagem. — %Cedric% manteve a compostura e voltou o olhar para mim. — Eu já volto.
Como sempre, segurei o riso e assenti com a cabeça. Assim que ele se retirou, ignorando as provocações de %Demeter%, eu voltei meu olhar para o leão esperando algum comentário bobo vindo dele.
— Posso me juntar a você? Ou é zona proibida? — brincou %Demeter% ao se aproximar da cama.
Eu ri um pouco e assenti.
— Você pode apenas se sentar aos pés da cama — o alertei.
— Sério? Eu já estava sonhando com você aninhada em meus braços e eu sendo seu enfermeiro sexy o resto da noite. — Instigou ele, com um sorriso malicioso.
— Desculpe atrapalhar seus desejos ocultos, mas você sabe muito bem as regras — o relembrei de nossa amizade apenas.
— Nunca gostei de regras. — Ele deu mais alguns passos e se sentou no meio da cama. — Posso saber a história por detrás desse tornozelo?
Ele tocou de leve, então me olhou.
— Não tem nada demais — respondi. — Eu era apenas uma criança medrosa perdida no meio da floresta em seu primeiro acampamento de verão.
— Uau. — Ele demonstrou surpresa.
— Foi uma fase em que eu queria ser escoteira — expliquei a ele —, mas descobri que os livros da biblioteca eram mais inofensivos.
— Então descobriu que ler sobre aventuras era mais seguro que viver uma aventura. — Concluiu ele, rindo de leve.
— Basicamente isso. — Eu ri junto. — Mas eu ainda me arrisco na floresta, sou uma loba agora.
— Poderia ter esperado mais um ano, te garanto que a savana é mais segura — disse ele ao segurar minha mão e entrelaçar nossos dedos.
— O que eu tenho? — perguntei a ele.
— Como assim? — Ele me olhou confuso.
— Às vezes parece uma pegadinha, você e %Cedric% interessados em mim — disse abertamente meus pensamentos sobre aquilo. — Louise disse que ambos me tinham como diversão, um escape para as pressões do último ano de graduação.
— Não ligue para o que a Louise fala, ela sempre quer gerar intrigas. — %Demeter% suavizou seu olhar e sorriu de forma fofa. — Eu não posso dizer pelo %Cedric%, mas posso te assegurar que não é por distração, menos ainda competição, eu não sei o que fez comigo… — Ele se aproximou um pouco mais, como se fosse me beijar. — Mas tenho certeza que meus pensamentos estão se resumindo a você.
— %Demeter%… — Eu tentei repreendê-lo pela aproximação, já fechando meus olhos.
— Eu sei, %Annia%. — Sussurrou ele, em seguida se afastando. — Amigos.
Eu abri os olhos, percebendo com nitidez seu olhar frustrado e ao mesmo tempo desejoso para mim.
— Amigos — concordei, mantendo meus dedos entrelaçados aos dele.
Não demorou muito até que %Cedric% retornou com os remédios e uma garrafinha de água. Sob a vigilância dos dois, tomei com precisão ambos dando um espaço de vinte minutos entre um e outro. Eu queria tê-los expulsado do quarto, mas ambos se negaram a me deixar sozinha, parcialmente inválida, cada um com um argumento mais inacreditável que o outro. Apenas consegui emancipação de poucos minutos para me trocar e colocar o pijama, algo que fiz com certas dificuldades.
— Como conseguiu a ajuda do professor? — perguntou %Cedric%, intrigado.
— Digamos que ele é do bando — respondeu %Demeter% à sua maneira.
— O professor Scott é um leão? — O olhei admirada.
— Os lobos não são os únicos a terem representantes docentes. — Explicou o leão, com uma piscada boba para mim. — E claro que ele será bastante discreto.
— Imagino que sim — comentou %Cedric%.
— Vocês têm certeza que vão mesmo dormir aqui? — perguntei ao olhar para o leão que estava sentado na cama de Marg e depois para o lobo que se mantinha sentado na cadeira da minha escrivaninha. — Se vocês prezam mesmo pela minha imagem, seria estranho e causaria um alvoroço eu passar a noite com os dois.
— Por mais que minha mente fértil esteja imaginando coisas agora, diante de suas falas, podemos deixar a porta aberta. — %Demeter% falou com naturalidade.
E do pouco que eu o conhecia, já poderia mensurar a verdade de suas palavras.
— Ou ambos podem ir embora e me deixar aqui, na tranquilidade do meu quarto. — Argumentei novamente.
— Não vamos te deixar sozinha. — %Cedric% me olhou com tranquilidade. — Odeio concordar com ele, mas podemos deixar a porta aberta, assim, não teria boatos infundados.
— Só de estarem aqui já terá boatos. — Retruquei. — Eu estou bem, não é a minha primeira vez com alguma parte do corpo enfaixada.
Meu olhar sério para eles durou pouco tempo, até que a porta se abriu sozinha, revelando Marg sendo amparada por seu namorado. Algo que não nos chocou nem um pouco.
— Opa, não sabia que o quarto estava superlotado. — James brincou um pouco, pegando sua namorada no colo para acomodá-la na cama.
— O que aconteceu com ela? — perguntou %Demeter% se levantando e ajudando o irmão.
— Não me pergunte, eu só recebi uma mensagem da Joy me pedindo para ir buscá-la. — Explicou James, ao cobri-la com carinho.
— Essas festas do pijama das garotas me deixam em choque — comentou %Cedric% num tom baixo, certamente imaginando como estaria a sua irmã.
— Ela não está em nenhum tipo de coma alcoólico não, né? — perguntei erguendo meu corpo preocupada.
— Não, minha garota é resistente, precisa de muitas doses para derrubá-la — brincou James, rindo. — Mas pelo que entendi, elas misturaram tequila com outras bebidas.
— Isso foi depois que eu saí, com certeza — comentei.
— Quando você foi embora? — James me perguntou curioso.
— Elas estavam jogando Eu Nunca — respondi, me lembrando da tragédia que foi minha ousadia.
— Tá explicado. — %Cedric% me olhou de imediato.
E notei que %Demeter% fez o mesmo.
— Eu perdi alguma coisa aqui? — perguntou James, segurando o riso.
— Não, mas sua chegada vai ajudar muito — desconversei e sorri gentilmente. — Gostaria, por favor, de acompanhar ambos os cavalheiros até a saída e levá-los embora?
— Hum… — James olhou para um e depois para o outro. — Eu já ia perguntar se poderia passar a noite aqui para cuidar da minha garota.
— Parece que vamos todos passar a noite aqui. — %Demeter% piscou para o irmão, como se fosse um gesto de agradecimento.
— Nisso eu concordo, não vou deixar minha caloura sozinha com um selvagem. — Disse %Cedric%, em seu momento de sutil concordância.
— Eu desisto. — Me virei de leve e afofei o travesseiro, então me deitei melhor e cobri mais meu corpo. — Só não façam barulho.
Cobri minha cabeça e fechei os olhos, só me restava apenas dormir e absorver a loucura que tinha sido aquela noite.
— Hum?! — Meu sono foi despertando aos poucos pela manhã.
Ao abrir meus olhos, de imediato notei o olhar curioso de minha amiga para mim.
— Bom dia, Margareth. — Sussurrei ao erguer meu corpo, me sentando na cama.
— Bom dia. — disse ela, mantendo sua atenção em mim. — Não está sentido falta de nada não?
— Hum… — Eu levei a mão no pulso do braço esquerdo e confirmei minha correntinha nele. — Não, acho que não?
— Ah… Deixe eu refrescar sua memória, dois homens charmosos e atraentes de um metro e setenta de altura — disse ela num tom bobo e sarcástico.
— Ah, meus enfermeiros — ri baixo. — Verdade, eles estavam aqui quando adormeci.
— Pois é, eu acordei no meio da noite com James ao meu lado e seus enfermeiros sentados no chão acordados e conversando. — Contou ela, parecia mais chocada do que eu naquele momento.
Leão e lobo conversando civilizadamente.
— Por essa eu não esperava — confessei.
— Nem eu. — Ela riu. — E você estava totalmente apagada.
— O que aconteceu?! — perguntei curiosa.
— Expulsei os três do nosso quarto. — Foi tão natural da parte dela.
— Obrigada, eu juro que tentei, sem sucesso — disse em minha defesa.
— Eu imaginei que a preocupação deles fosse com excesso. — Ela riu e, se levantando de sua cama, veio sentar na minha. — Qual é o lance com o seu tornozelo de novo? Parece até novela mexicana.
— Nem me fale, pisei em falso de novo e deu problema mais uma vez — expliquei a ela. — Preciso me atentar mais aonde piso.
— Bom, pelo menos não estava sozinha — comentou ela, demonstrando alívio. — E o que aconteceu depois que saiu da festa? Algumas fotos suas sendo carregada pelo Alpha nos corredores do dormitório começaram a circular no celular de geral.
— Nem me fale sobre isso e não quero falar do assunto. — Adiantei antes que ela pedisse por detalhes. — Só quero ter um pouco de paz antes da semana de provas.
— Nem fale sobre isso — disse ela, se levantando.
Dois toques soaram da porta de repente. Marg caminhou até lá e abriu, um passo para trás e meu leão enfermeiro entrou. Estava ali para me levar ao hospital como ordenado pelo professor Scott. Eu o fiz esperar do lado de fora por alguns minutos enquanto me trocava com a ajuda de minha amiga.
— Obrigada — disse assim que ele me ajudou a encaixar o cinto de segurança.
— Não há de que. — Ele sorriu gentilmente e fechou a porta, então entrou no lado do motorista.
— O que aconteceu com o outro enfermeiro? — perguntei curiosa.
— Que garota gananciosa, um só não é o bastante?! — perguntou ele, ao ligar o carro demonstrando estar chateado.
— Só estou curiosa, ambos estavam tão solícitos comigo ontem — expliquei a ele.
— Seu veterano teve outros assuntos para tratar. — Agora tinha traços de ciúmes vindo dele. — Desculpe se minha presença a desaponta.
— É claro que não, eu também gosto muito da sua companhia — assegurei a ele. — É o meu enfermeiro sexy — brinquei.
— Não diga essas coisas, machuca meu coração saber que suas palavras são apenas brincadeira — resmungou ele.
— Foi você quem começou. — Retruquei, rindo discretamente.
Assim, seguimos para o Clive Medical Center University, o hospital universitário que tinha afiliação com Princeton, no qual muitos de seus internos e residentes eram alunos da universidade. O professor Scott já estava à nossa espera e apresentou meu caso à professora Fallin, a responsável geral pelas cirurgias ortopédicas e residente chefe do hospital.
— Entre mortos e feridos, salvaram-se todos — brincou a professora Fallin. — Você terá que ficar mais algumas semanas utilizando a bota até tudo normalizar com seu tornozelo, mas pelo menos não está tão inchado quanto imaginei.
— E vou precisar tomar alguma coisa? — perguntei.
— Apenas os comprimidos que o doutor Scott te receitou com precisão — respondeu ela, se afastando da cama em que eu estava. — Se sentir qualquer desconforto, não hesite em me ligar.
— Pode deixar que eu vou cuidar muito bem dela. — Assegurou %Demeter%, se aproximando de mim.
Seu olhar de criança sapeca me deixava fascinada, era divertido.
— Assim espero, King — disse ela.
Com a ajuda do meu amigo, deixamos o hospital. Felizmente sem dores, mas comigo totalmente sem saber o que fazer. Eu tinha uma vida acadêmica para seguir adiante e não podia paralisar tudo por causa do meu tornozelo imobilizado. Um par de muletas canadense para minha liberdade, foi um empréstimo da professora para que eu não dependesse tanto dos meus enfermeiros voluntários. Se ela sabia ou não da história toda eu não sei, mas agradeci muito por isso.
Ao ser deixada em frente ao prédio de Ciências Sociais, %Demeter% me fez prometer que ligaria para ele caso sentisse dores. Assenti e segui para minha aula de Expressão Gráfica. Não que eu fosse me esconder dos olhares ao longo do dia, mas já estava cansativo os cochichos por onde eu passava, então só me restava um lugar para passar meu tempo em repleto sossego: A Biblioteca.
E lá se foram algumas horas do final da minha tarde, comigo fazendo meu trabalho de estagiária dos livros, lenta e despreocupadamente, enquanto minha chefe, Hana, me deixou com as chaves do lugar.
— Nem de muletas você deixa esse lugar. — A voz de %Cedric% soou da porta, admirado por me ver trabalhando.
— Não estou totalmente inválida, ainda tenho uma perna e duas mãos — disse a ele, enquanto empurrava com dificuldade o carrinho.
— Que tal pedir ajuda? — disse ele ao adentrar mais e se aproximar. — Duas mãos e duas pernas a mais é bem melhor.
— Eu estou bem, tem pessoas em situações piores que fazem bem mais que isso — argumentei.
— Verdade, mas não muda o fato de que eu vou te ajudar — disse ele, pegando dois livros.
— Ok. — Assenti sem reclamar.
Realmente, com ajuda tudo fica mais rápido, foi questão de minutos para todos os livros devolvidos estarem novamente em suas respectivas estantes. Ao final, eu me sentei em um dos corredores da sessão de romance e peguei um livro aleatório, sempre fazia isso para passar meu tempo ali.
— Finalmente cansou? — perguntou ele, ao perceber meu repentino desaparecimento e me encontrar ao chão.
— Confesso que sim. — Estiquei minha perna um pouco incomodada por estar coçando e não poder fazer nada.
— E o que faremos agora? — perguntou ele, ao se sentar ao meu lado. — Você sempre lê algo após terminar?
— Geralmente sim, quando não tenho que estudar. — Respondi. — Eu deveria por causa das provas da próxima semana, mas não quero me desesperar antes da hora.
— E nem deve, você é uma ótima aluna. — Disse ele, seguro no olhar.
— Adoraria que entregasse uma carta de recomendações para o professor Brown. — Brinquei um pouco com a situação.
— Me perdoe por todo o transtorno — disse ele, num tom mais baixo.
— Não é culpa sua, acho que já até me acostumei com as implicâncias dele. — E de fato estava mesmo já acostumada.
— Ainda assim — ele esticou a mão e pegou o livro que eu tinha apoiado em meu colo. — Como Eu Era Antes de Você. – Sussurrou ele o título. — Não acha que está muito tarde para chorar? — perguntou. — Para quem não quer pensar no desespero das provas.
— Você já leu? — retruquei. — Porque eu não.
— Não, mas já vi o filme. — Respondeu ele com naturalidade.
— E você gosta de filmes de romance? — Aquilo me surpreendeu.
— Eu tenho uma irmã muito persuasiva. — Explicou ele, não me convencendo.
— Não é vergonha um homem gostar de romances e chorar às vezes — assegurei.
— %Demeter% me disse mais cedo que tinha coisas para resolver — comentei.
— Sentiu minha falta? — Ele me olhou.
— Hum… — Eu preferi não responder. — Está tudo bem?
— Posso te perguntar uma coisa?! — Eu o olhei.
— Diga. — Sua atenção se manteve em mim.
— O que existe entre você e a Louise?
Não era exatamente aquilo que eu queria perguntar, mas não podia apenas chegar e dizer que sabia do segredo dos outros.
— Por que a pergunta? — Mesmo com o olhar sereno, seu rosto permaneceu sério.
— Curiosidade. — Voltei o olhar para a capa do livro. — Vocês são bem próximos e é bem óbvio que ela sente ciúmes da nossa amizade.
— Somos amigos, nada mais que isso. — Respondeu ele. — Nos conhecemos desde pequenos e por isso somos próximos.
— Entendo. — Respirei fundo. — Você também parece conhecer bem o %Demeter%, por mais que não sejam tão próximos assim.
— Já fomos amigos um dia. — Confessou ele. — Se é isso que queria saber…
Ele se inclinou um pouco mais e ficou me encarando.
— O que de fato você quer perguntar? — insistiu.
— Eu só queria entender o universo de vocês. — Iniciei minhas teorias da conspiração. — Soube de algo que certamente não deveria saber, mas que implica na vida de muitas pessoas…
— O que você soube? — indagou ele.
— Que a Louise é irmã do %Demeter%. — Respondi sem rodeios.
— Foi a Isla, não foi? — perguntou.
— Esse é o segredo mais complexo da minha família. — Ele riu baixo. — Bem, o segredo nem é nosso.
— Como é conviver com toda essa loucura? — Estava curiosa.
— Acredite, mesmo não estando diretamente envolvido, não é fácil. — Confessou ele. — Quando criança, eu e %Demeter% éramos inseparáveis, como irmãos, até que o tempo da inocência acabou quando ele ouviu meus pais falando sobre o assunto… Era dia de ação de graças e eu o tinha convidado para dormir na minha casa, eu pedi para que ele não contasse a ninguém, como irmão mais velho era o seu dever guardar o segredo da família dele, mas…
— Não exatamente. — %Cedric% voltou o olhar para frente. — Ele confrontou sua mãe pedindo uma explicação... Não sabia que o irmão estava em casa… James, ao ouvir, contou para Louise e o caos se instalou. O casal Dominos culpou meus pais por toda a confusão e nós apenas nos afastamos. — Continuou a história. — Eu não sei como é a relação dele com a Louise, mas sei que ela mudou muito depois que descobriu.
— Mudou como? — perguntei curiosa.
— Ficou mais insensível. — Respondeu. — Mas, mesmo assim, não deixei de ser seu amigo, um dos poucos que ela tem desde criança.
— A Isla não gosta muito dela — comentei.
— Você nunca pensou em voltar a ser amigo do %Demeter%? — Voltei meu olhar para ele.
— O que está querendo, me juntar a ele? — brincou %Cedric%.
— Dá pra perceber o quanto se divertem juntos, mesmo quando estão trocando declarações de amor. — Brinquei ao me referir às farpas entre eles.
%Cedric% apenas sorriu com o olhar aparentemente de alguém que estava refletindo. Então, remexendo um pouco, deitou em meu colo, apoiando as costas no chão e ficou me olhando em silêncio.
— O que está fazendo? — perguntei.
— Me aconchegando para te observar a ler — respondeu ele.
Aquele lobo era inacreditável.
Eu preciso de você, garota
Por que eu me apaixono e
Digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?
- I Need U / BTS