6 • Amor e Amizade
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Eu me afastei dele, assim que percebi que não podia me deixar render assim tão facilmente, e estava difícil controlar as batidas do meu coração. Não importa se na prática minha convivência era maior com o alpha, o que me deixava ainda mais desnorteada com tudo, eu não podia me permitir gostar dele. Não por causa da amizade que tentava estabelecer com %Demeter%, mas porque precisava entender primeiro os sentimentos que realmente tinha pelos dois.
— Por que você é uma incógnita para mim? — sussurrou ele, mantendo seu rosto próximo ao meu. — Ao mesmo tempo que me faz sentir que gosta de mim, me afasta no mesmo instante. Por quê?
Eu dei um passo para trás, mantendo meu olhar sereno, entretanto não sabia o que responder a ele.
— Eu já disse, não quero me apaixonar. — Dando mais um passo para trás, olhei para o relógio em meu pulso, para conferir o tempo. — Temos mais vinte minutos.
— Só vai dizer isso? — perguntou ele, mantendo o olhar sério e frustrado.
— O que mais quer que eu diga? — Cruzei os braços.
— Não quer se apaixonar por mim, porque gosta dele? — indagou se referindo ao leão.
— Não quero gostar de ninguém, não vim para Princeton para me apaixonar. — Fui sincera com ele, mesmo ainda tendo meu coração acelerado. — Honestamente, tudo isso… Tem me assustado.
Confessei. Nunca que no ensino médio em Wisconsin, minha vida social tinha sido tão agitada como tem sido agora, sempre fui a aluna destaque nas notas, que não fazia parte da turma dos populares. Isso eu deixava para a minha cunhada, que era líder de torcida. E ter dois garotos interessados em mim, isso sim era um surto.
— Me desculpe. — Ele não se importou com o meu afastamento, apenas se aproximou e me abraçou de forma reconfortante. — Você ainda tem que realizar um pedido meu.
— O quê?! — Eu tentei me afastar para questioná-lo, sem sucesso.
— Quero ficar vinte minutos abraçado a você. — Continuou ele, me aninhando mais em seus braços. — Esse é o meu pedido.
— Hum… — Eu segurei o riso, assentindo em partes. — Acho que posso realizar esse pedido, mas só terá 10 minutos.
— Por quê? — resmungou ele.
— Estou descontando o beijo que me deu. — Não consegui resistir ao meu tom debochado e ri de leve.
— Que mercenária. — Brincou ele, rindo junto.
Após os dez minutos, eu me afastei dele como premeditado e tentei me sentar no chão, sem sucesso. E não foi por causa do vestido em meu corpo, mas porque %Cedric% me puxou para caminhar de volta para a festa. Parte do caminho ficamos em silêncio até que…
— Você ainda tinha mais dez minutos. — Observei em sussurro.
— Vou descontá-lo de outra forma. — Disse ele.
Eu soltei uma gargalhada boba, ao finalmente começar a ouvir a música tocando ao longe. Mais alguns metros e chegamos no espaço da festa, não teve uma pessoa que deixou de olhar para nós naquele momento. Felizmente o jogo da discórdia já havia terminado, afinal, a diversão toda estava certamente baseada em me deixarem encurralada de qualquer forma. Ao me afastar de %Cedric%, caminhei novamente até a mesa de comidas, onde Marg estava se deliciando com os brownies de uma forma feroz.
— Uau, calma, senão vai ter uma overdose de chocolate. — Comentei rindo baixo, observando-a colocar mais um pedaço na boca.
— Bem, digamos que senti um leve desejo de comer isso. — Explicou ela, lambendo os dedos. — Não me reprima, geralmente eu nem como nessas festas.
— Boba você, porque o que eu mais faço é comer. — Eu peguei um petisco e joguei na boca, começando a mastigar.
— Isso que me deixa mais chocada. — Comentou ela, boquiaberta com minha forma descontraída de atacar a comida. — A única coisa que faz é comer e ainda assim, chamou a atenção dos dois mais cobiçados do campus.
— Acredite, também gostaria de saber como. — Eu soltei um suspiro, percebendo o olhar fixo de %Demeter% para mim.
— Mas é divertido, as coisas que tem acontecido com você. — Ela soltou uma gargalhada maldosa.
— Fale por você, sua mercenária, tem certeza que é uma felina? — brinquei com ela.
— Desculpa, mas é engraçado vendo tudo isso de fora. — Ela riu mais um pouco. — Agora… Você sabe de quem gosta mais?
— Eu só sei que não quero gostar de ninguém. — Assegurei a ela. — Olha, estou começando a considerar a proposta do Finnick.
— Qual? — perguntou intrigada.
— De sair com ele amanhã. — Respondi com um tom de brincadeira.
— Que dó do garoto, não o coloque no meio do fogo cruzado. — Aconselhou Marg.
— Mas seria engraçado. — Eu ri de leve, voltando meu olhar para os Titãs que mantinham sua atenção em mim.
Eu me afastei um pouco de Marg e comecei a dar alguns passos pela área da festa, realmente tinha que admitir que havia sido um excelente trabalho toda a decoração. Meu esforço para acompanhar o ritmo de Isla valeu a pena, assim como todas as suas dicas relacionadas a planejamento de eventos. Com certeza que ajudaria em algum momento daquele curso. De repente, eu parei ao lado de uma árvore e me encostei de leve, mantendo um olhar observador em todos na pista de dança.
— Um chocolate por seus pensamentos. — A voz de %Demeter% soou do outro lado da árvore.
Eu tombei a cabeça para frente para olhá-lo, o King estava escorado como eu, com as mãos no bolso e um olhar bobo para mim.
— Então você descobriu meu ponto fraco. — Ri baixo, voltando o olhar para frente.
— Para ser honesto, fiz um teste — brincou ele —, já que não posso oferecer meus beijos.
— Seu bobo. — Eu ri junto.
Uma pausa para o silêncio e eu percebi uma inquietação vindo dele.
— O que foi? — perguntei. — Estou estranhando o seu silêncio.
— Não consigo deixar de pensar na sua resposta. — Respondeu ele.
— Qual delas? — indaguei.
— A que diz estar atraída por ele. — Comentou — Então é isso…
— Tanto quanto estou por você. — Disse com naturalidade.
— O quê?! — Ele pareceu estático.
— Por que é tão complicado para vocês dois aceitarem minha amizade? — perguntei.
— Então você também está atraída por mim?! — Ele me olhou com uma pitada de malícia.
— Nem me olhe assim, isso não quer dizer nada. — O repreendi.
— Como não? — Seu olhar demonstrou indignação. — Significa que tenho chances.
— Não significa nada. — Retruquei. — Já disse, a única coisa que posso lhe oferecer é minha amizade, tanto a você, quanto ao Alpha.
— Estou confiante nas palavras da minha avó, que sempre me disse que a amizade caminha ao lado do amor. — Ele piscou de leve e sorriu de forma fofa.
Depois da festa de Halloween, eu me mantive alheia a qualquer assunto sobre o beijo do Alpha ou os comentários enciumados do King Lion. Enfim, as folhas do outono já começavam a cair das árvores assim como minhas forças para aguentar a rotina de estudo. E agora, estava eu fazendo um pequeno serviço voluntário na Biblioteca em troca de meio salário e um pouco de paz e tranquilidade. Aquele lugar era a minha Suíça, onde ninguém poderia me importunar com rivalidades, fraternidades e tudo incluído no pacote de surtos.
— Olha só quem está aqui. — A voz de Isla soou da porta da Biblioteca, o que me fez despertar minha atenção dos livros em que separava do carrinho.
— O que faz aqui? — Retirei o celular do bolso para olhar as horas, ainda eram oito da noite.
— Estava te procurando, minha caloura não pode simplesmente faltar na reunião da fraternidade. — Ela cruzou os braços, fazendo cara feia. — Além de não atender às minhas ligações.
— Tecnicamente, eu não sou a sua caloura, sou do Alpha. — Eu a corrigi, voltando minha atenção para meus afazeres. — E você já sabe que me tornei voluntária da Biblioteca.
— Já disse, tudo que é do meu irmão é meu, o que inclui a senhorita. — Ela descruzou os braços e deu alguns passos se aproximando, dava pra ouvir o barulho do seu salto.
Eu parei e a olhei séria.
— E você está trabalhando aqui porque quer. — Continuou ela, num tom brando, porém com traços de repreensão. — Sabe que se quiser posso te conseguir algo bem melhor.
— Não, obrigada. — Mantive minha atenção nos livros. — Gosto de alcançar meus objetivos com esforço próprio e pretendo levar essa graduação sem dever favor a ninguém.
— Credo, eu não sou tão mercenária assim, sabia? — Senti um soar ofendido vindo dela. — Somos amigas.
— E por sermos amigas que espero compreensão da sua parte. — Eu parei e a olhei. — E quanto à reunião, seu irmão disse que estava tudo bem, porque era somente a diretoria da fraternidade.
— O meu irmão não ajuda também, ele deveria ter te obrigado a ir. — Ela cruzou os braços novamente, agora emburrada.
Eu segurei o riso de leve, não entendendo tamanha revolta.
— E por qual motivo eu precisava estar lá? — perguntei curiosa.
— O professor Brown estava presente. — Respondeu ela, com um sorriso maquiavélico. — Seria legal ver você lá.
— Você me choca, e que bom que eu não estava lá. — Me virei e voltei a separar os livros.
— O que está fazendo aí de tão entediante? — Senti que ela estava espichando seu pescoço.
— Estou separando os livros que foram devolvidos por categoria para colocá-los no lugar. — Expliquei a ela.
— E você faz isso todos os dias? — Continuou a indagação.
— Sim, todos os dias. — Segurei o riso, esperando a reação dela.
— Socorro, isso é uma tragédia pior que as que Shakespeare escrevia. — Comentou.
— No seu ponto de vista. Eu gosto muito, sempre fui voluntária na biblioteca quando estava no ensino médio. — Contei com naturalidade.
— Não entendo a graça que você enxerga nesse lugar. — Ela bufou.
— É tranquilo, me sinto bem aqui, em paz e longe das preocupações do meu curso, além de ser um bom lugar para estudar. — Expliquei a ela.
— Se você diz. — Ela se afastou um pouco e puxou uma cadeira para se sentar. — Vou te fazer companhia.
— Tem certeza? — Eu ri baixo. — Eu costumo ficar em silêncio quando estou concentrada.
— Ahhh, que chata, vamos conversar um pouco. — Reclamou ela.
— Puxa o assunto então. — Sugeri ao pegar a primeira leva de livros da seção de medicina.
— Chester me chamou para passar o recesso de final do ano na casa de campo dos pais dele ao norte do Canadá. — Iniciou ela, com um comentário pessoal. — Ainda não me decidi, mas acho que será romântico conhecer meus sogros e ao mesmo tempo ficar juntinha com ele na época mais fria do ano…
Ela foi falando mais algumas coisas sobre como ele fez o convite, acompanhado de uma caixa de bombons e uma rosa vermelha. Sua voz estava numa altura bem razoável que dava para ouvir nitidamente, pois o lugar estava vazio. Afinal, que universitário iria se preocupar em visitar a biblioteca em dia de reunião de fraternidade? E sim, havia um dia específico do mês em que as reuniões aconteciam simultaneamente em todas, tudo milimetricamente definido de acordo com o cronograma de aulas e festas para não haver divergências de eventos.
Algo que eu nunca imaginei é que eles fossem tão organizados e pontuais com os cronogramas, principalmente quando o assunto eram as festas. Todos sabiam na ponta da língua quando seria a próxima festa, que fraternidade iria organizar, e qual o tema possível. Claro que para os desinformados como eu, sempre tinha anúncios antecipados pelo pessoal do jornal do campus. E eu tinha um contato infalível ali: Margareth. Quando retornei para o carrinho, consegui notar um brilho nos olhos dela ao falar do quão fofo seu namorado era.
— Estou surpresa por não conhecer os pais do Chester, vocês namoram há quanto tempo? — perguntei.
— Três anos. — Respondeu ela.
— Bem, ainda não tivemos a oportunidade, como os pais dele moram longe e sempre é complicado eu não passar os eventos com minha família, mas este ano eu dei um basta e decidi que passarei o final do ano bem longe da alcateia. — Explicou ela, objetivamente.
— Hum… Interessante. — Peguei mais uma remessa de livros para a subseção de história moderna.
— E você? Onde pretende passar? — perguntou ela, num tom ansioso pela resposta.
— O final do ano? — Elevei um pouco mais a voz para que ela me ouvisse bem.
— Sim, onde passará as festividades? — repetiu.
— Em Wisconsin, bem óbvio. — Eu ri de leve.
— Bem chato e tedioso, todos os anos da sua vida até aqui você passou em casa, deveria fazer diferente esse ano. — Sugeriu ela com empolgação. — Só se vive a vida acadêmica uma vez, deveria aproveitar e passar em Manhattan.
— Dispenso. — Ri um pouco mais ao retornar novamente. — Se eu não passar pelo menos o Natal em família, minha mãe surta, ela já quase morreu quando eu contei que viria para Princeton.
— Você tem pais coruja? — Brincou ela.
— Sim, muito. — Assenti em riso. — Mas pretendo não passar a virada lá, não sei, ainda estou pensando no que fazer.
— Por quê? — perguntei ao notar seu olhar de frustração. — Você, pelo que entendi, vai estar bem longe daqui.
— Sim, mas não quer dizer que você tenha que ir pra longe também. — Ela tentou se explicar.
— O que você sabe que eu não sei?! — Coloquei a mão na cintura, mantendo um olhar sério para ela.
— Não sei de nada. — Ela piscou de leve, meio travessa e soltou uma gargalhada boba. — Agora foco no seu trabalho e termine isso logo.
— Fala como se tivéssemos algum compromisso. — Soltei um leve suspiro.
— Mas é claro que temos. — Ela se remexeu na cadeira, segura do que dizia.
— O que você está aprontando agora? — perguntei já temendo a resposta.
— Hoje teremos uma festa do pijama surpresa, noite das garotas na mansão das serpentes. — Revelou ela, já deixando transparecer sua animação. — Algo bem leve para aliviar a tensão das famigeradas reuniões e a preparação para a Semana Acadêmica.
— Semana Acadêmica? — Eu ainda não havia ouvido sobre isso e já comecei a me perguntar o quanto eu trabalharia nesse evento.
— Sim, mas isso não vem ao caso agora, vamos deixar essa preocupação para depois e seguir com o cronograma para o nosso Pijama Party. — Ela se levantou da cadeira. — Leve logo esse restante, que eu vou te esperar no carro lá fora, te dou dez minutos.
— Nossa, que garota mandona. — brinquei.
Ela me olhou com seriedade.
— Tem certeza que é só as meninas, né? — indaguei.
— Está com medo dos holofotes? — brincou ela em risos. — Fique tranquila, os garotos devem estar reunidos em algum bar da cidade ou coisa pior…
— Ah… — eu me encolhi um pouco, tentando não pensar muito naquela informação.
— Ficou curiosa para saber onde foram? — Provocou ela.
— Claro que não. — Disfarcei minha curiosidade.
— Pois saiba, amor, que a noite das garotas consegue ser mais louca que qualquer festa do campus. — Ela deu o primeiro passo para se retirar. — Dez minutos.
Eu engoli seco com aquele olhar ameaçador dela. Ainda mais temerosa do que poderia acontecer naquela tal festa do pijama. Se já rolou altas faíscas na festa de Halloween, imagino o que pode rolar quando se junta várias garotas em um único ambiente.
Notas podem ser altas e baixas, mas e daí!
Apresentações podem ser boas ou ruins, isso é algo que acontece
Às vezes é bom apenas parar pra relaxar e descansar
Porque tudo tem seu te-te-te-te-tempo.
- Mr. Simple / Super Junior