13 • Best Friends Forever
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Para quem estava ávida pelos episódios de
Chicago Fire atrasados, meus planos foram por água abaixo e minha recepção de boa anfitriã foi uma negação. Após algumas discussões sobre o que seria visto, %Demeter% acabou vencendo ao indicar uma maratona de
O Senhor dos Anéis, o entusiasmo inicial deu lugar ao cansaço mental que estava sentindo e acabei adormecendo no início do segundo filme da franquia. Não sei de fato qual foi o ombro amigo que me sustentou boa parte da madrugada, contudo, em um leve despertar, me deparei com uma profunda conversa rolando entre meus veteranos, a qual não ousei atrapalhar e permanecendo de olhos fechados, insinuei estar ainda adormecida.
— Como estão as coisas? Com o James? — A voz de %Cedric% soou baixa, porém num tom de preocupação. — Soube que sua mãe não lidou muito bem com a notícia da gravidez.
— Lidar? — %Demeter% se remexeu no sofá, um riso baixo. — Lidar não é a palavra certa... Ela não aceitou o fato, e até ofereceu dinheiro para Margareth tirar a criança.
— Nossa... — %Cedric% pareceu chocado. — Não imaginava que estivesse neste ponto.
Nem mesmo eu, e fiquei em plena revolta interna agora.
— Às vezes minha mãe faz coisas que é difícil acreditar até pra mim que sou seu filho. — Soou como um desabafo vindo de %Demeter%. — Não sei como ainda somos considerados uma família.
— Seus pais nunca cogitaram a ideia da separação? — indagou %Cedric% e, suavizando as palavras: — O casamento deles sempre foi turbulento.
— E meu pai perder toda a grana com o divórcio? — %Demeter% respirou fundo. — Você sabe que o dinheiro sempre foi da minha mãe, o casamento deles é o tipo de relacionamento que jamais quero ter, puro interesse.
— É por isso que sua mãe sempre está no controle de tudo — constatou %Cedric%. — Por isso ela sempre controlou sua vida e a de James... Mas e agora com a Marg envolvida?
— James disse que não se importa se for deserdado, mas ter um bebê custa caro. — %Demeter% expôs sua opinião. — Tenho medo que ele não esteja preparado para essa responsabilidade e acabe tentando desistir no final por surtar com a pressão.
— Ele não deixaria a Margareth na mão, deixaria?! — supôs %Cedric%.
— Eu o mataria se fizesse isso — afirmou %Demeter%, ouvi o som de seus dedos sendo estalados. — Mas… Quem te contou sobre?
— A gravidez? — retrucou %Cedric%. — Metade do campus já sabe.
— A reação da minha mãe — explicou o leão.
— É imaginável, mas minha irmã comentou comigo — respondeu o Alpha com serenidade. — Parece que ela e a Marg se tornaram bem próximas por causa da nossa amiga em comum.
Ouvi de leve o soar de uma risada vindo de %Demeter%, era o ombro dele que eu estava apoiada naquele momento. Um ombro amigo perfumado, e que perfume.
— A propósito, agradeço por emprestar a casa para ele — disse %Demeter%, o que me surpreendeu. — Te devo uma.
Oi?! O rei leão em dívida.
— Não me deve nada. — %Cedric% em recusa. — Sabe que sempre pode contar comigo, apesar das nossas diferenças.
— Bom saber disso. — Ele se remexeu mais um pouco, soltando um suspiro fraco. — Apesar de não ser um felino, nunca deixei minhas considerações por você de lado.
— Digo o mesmo — retrucou %Cedric%, brincando. — Rei da Savana.
Quem são eles e o que fizeram com meus veteranos? Ok, ouvir aquilo já estava me deixando um pouco emocionada e já me matando por teoricamente estar entre essa amizade agora.
— Mas... Segundo as palavras do meu irmão, sua namorada ficou impressionada com a piscina aquecida — comentou %Demeter%.
— Ah, sim. — %Cedric% riu baixo. — Foi um desafio do professor Brown, achei que ficaria estranho, porém, no final, a piscina foi o charme arquitetônico da casa.
— Você realmente leva jeito para isso — comentou %Demeter%.
— Vou levar como um elogio. — %Cedric% riu. — Apesar de não ser inicialmente o que queria, arquitetura é legal.
— Administração também não é o que eu queria, mas não posso virar as costas para os negócios da família — confessou o leão. — James nunca me passou a confiança de alguém responsável.
— Talvez por você ser o mais velho, ele não se sinta obrigado a ser tão responsável. — Refletiu %Cedric%, os atos do felino caçula. — Eu também me sinto um pouco imaturo em alguns casos.
— Imaturo… — %Demeter% riu baixo. — Sempre temos um lado imaturo.
— Agora me lembrei, você sempre dizia que queria ser um médico cirurgião. — Relembrou %Cedric%. — Seus olhos brilharam quando ganhou aquele kit médico de Natal da Isla.
— Aquele que minha mãe jogou na lareira acesa? — Ele soltou um suspiro cansado, parecendo se lembrar do ocorrido. — Salvar vidas e seduzir as enfermeiras, acho que jamais saberei como é essa sensação.
— Imagine o King Lion de jaleco branco e estetoscópio no pescoço... — %Cedric% brincou. — Que sexy.
— Ficou interessando? — %Demeter% riu e brincou de volta. — Estou solteiro.
Eles soltaram uma gargalhada cada um e depois silenciaram, então deram mais algumas risadas baixíssimas, ao perceber que eu estava presente em meu falso sono. Me remexi um pouco, agora tomando minha cabeça para me apoiar em %Cedric%. Me segurando para não rir e surtar ao mesmo tempo, pois internamente meu corpo arrepiava só de imaginar o dono da Savana de jaleco branco com aquele olhar que somente ele sabia fazer. Logo senti um dos dois me cobrir mais um pouco com o cobertor que nos aquecia. Um longo momento de silêncio estabeleceu entre o ambiente, e só então pude notar que o filme ainda passava na tv, porém seu áudio estava quase imperceptível.
— Me pergunto como seria este ano sem a presença da %Annia%. — Saiu como um sussurro dos lábios de %Demeter%.
— Certamente seria mais pesado e monótono para nós dois — admitiu %Cedric%, em um soar reflexivo. — Não sei como começou, mas agora percebo que estar com ela é como se não existisse mais nada além do seu sorriso.
— E o mundo todo fica em câmera lenta, apagando todas as minhas preocupações que deveriam me afogar — completou %Demeter%, num tom baixo.
— Como nos apaixonamos pela mesma garota? — indagou %Cedric%. — Somos tão diferentes um do outro.
— Eu não sei... Mas sei que o que sinto por ela certamente não sentirei por mais ninguém — afirmou %Demeter%, com entonação.
— Todos os meus pensamentos têm sido tomados por ela... — %Cedric% também confessou de forma fluida. — Talvez a palavra correta seja... Amor.
Quanto mais eles declaravam seus sentimentos de forma aberta um para o outro, mais eu sentia meu coração acelerado e me reprimia para não alertá-los que já estava acordada. Um frio na barriga e arrepios pelo corpo.
Por que ambos tinham que ser tão profundos nas palavras e intensos no que sentiam? — Lembra-se de quando éramos criança? — perguntou %Demeter%, num tom de nostalgia. — Tudo parecia mais fácil.
— Tudo se torna mais complexo quando crescemos — concordou %Cedric%. — Mas... Sinto falta daquele tempo, da nossa amizade, de como você usava minha casa para se esconder da sua mãe.
%Demeter% riu baixo, parecia lembrar-se dos ocorridos.
— É louco como eu sempre venho fugindo da minha mãe — concordou, rindo mais um pouco. — Sua casa me transmitia paz... E agora só consigo sentir isso perto dela.
Certamente ele se referia a mim, o que me aqueceu por dentro.
— Mas… Eu também sinto falta da nossa amizade — sussurrou %Demeter%. — Espero um dia voltarmos ao que era antes… Ou pelo menos chegar próximo…
— Nunca deixamos de ser amigos — %Cedric% disse de forma serena e segura. — Apenas nos afastamos.
— Você quer me fazer chorar? — E brincando com ele: — Não vou me apaixonar, meu coração já está ocupado.
— Engraçadinho… — %Cedric% riu baixo. — Meu coração também já pertence a esta pessoa…
Mais alguns minutos de silêncio.
— Serei sincero com você — disse %Demeter%, num tom mais sério — eu não pretendo ser apenas um amigo para ela.
— Eu também não... — %Cedric% também se remexeu no sofá, certamente para olhá-lo. — Mas não forçaria nada, é ela quem escolherá no final.
— Independente da escolha de %Annia%… — %Demeter% respirou fundo, mantendo a seriedade. — Sempre vou te considerar meu melhor amigo.
— Fechado — concordou %Cedric%. — Faço das suas, as minhas palavras.
Eu não resisti a tentação e abri meus olhos, podendo presenciar ambos os cavalheiros em um aperto de mão amigável, cordial e cheio de cumplicidade.
— Olha só quem abriu os olhos — comentou %Demeter%, voltando-se para mim.
— Acordou tem muito tempo? — perguntou %Cedric%, me olhando sério.
Balancei a cabeça negativamente, recebendo mais olhares desconfiados.
— Acho que o ombro dos cavalheiros é bem mais macio que meu travesseiro. — Ergui meu corpo me espreguiçando. — Porém é melhor ir pra cama, antes que meus pais apareçam aqui.
— Falta menos de duas horas para o amanhecer — disse %Demeter%, ao olhar para o relógio em seu pulso.
— Piorou. — Me levantei do sofá e me afastei deles. — Eu deveria estar no meu quarto… E vocês, vão dormir, antes que fiquem com olheiras.
— Alguma programação para o nosso dia? — indagou %Cedric%, sério como sempre, porém sereno.
— Temos um luau na clareira — respondi prontamente, revelando as tradições dos jovens da cidade. — Todos os anos no dia seguinte ao Natal, os jovens de Wisconsin se reúnem na clareia para rever os amigos no recesso e se divertir um pouco longe do olhar dos pais.
— Em meio à neve? — %Demeter% fez uma careta estranha.
— Não se preocupe, terá chocolate quente, marshmallows e uma fogueira para aquecer os cavalheiros — brinquei ao me aproximar da escada. — Vocês vão gostar.
Mesmo com o olhar desconfiado de ambos, segurei o riso e segui subindo os degraus da escada.
O dia pareceu empurrado e dei graças a Deus que tinha minhas visitas para me distrair com o passar das horas. Finalmente chegando ao final da tarde, nos aprontamos e seguimos para a clareira de Gail, ao sul da floresta local e bem próximo à cabana do velho Smith, o zelador da escola secundária. Beth e meu irmão seguiram na frente, indicando o caminho pela neve e apesar do gelo, tinha que admitir que este ano tinham caprichado na trilha deixando totalmente limpa a ponto de vermos o solo.
— Vamos conhecer muitos amigos seus? — indagou %Demeter% com seu tom curioso.
— Eu nunca fui popular, se é o que estão pensando. — Já me adiantei na explicação, com o coração acelerando ao avistar Collins ao longe. — Minha única amiga era a Beth.
Foi apenas fechar a minha boca e nos aproximar do local, que todos os olhares se voltaram para nós e as pessoas presentes começaram a vir me cumprimentar, puxar assuntos sobre Princeton e algumas até dizer que estavam com saudades de me ver na cafeteria do Louis. Afinal, passei meu ensino médio trabalhando meio período para juntar uma grana para faculdade.
— Tem certeza que você não era popular? — perguntou %Cedric%, num tom irônico.
— Hum… — Eu me encolhi um pouco. — Bem, tem muita diferença entre ser popular e ser a vice-presidente do grêmio estudantil.
Eu não tinha outra explicação óbvia para dar aos olhares desconfiados deles.
— Tive um mandato bem satisfatório e os alunos gostavam das minhas propostas, então… — Mantive meu olhar distante, disfarçando estar procurando por alguém.
— Se você era a vice, obviamente o presidente era o popular — concluiu %Demeter%, voltando o olhar para frente. — Aposto que ele era do time de basquete.
— %Annia% não tem cara de quem se envolve com um atleta — supôs %Cedric%, entrando no jogo do leão, olhando para o grupo dos ex-jogadores do time da escola.
— Ambos têm razão… — a voz grossa e rouca de %Jeremy% soou atrás de nós, fazendo meu coração esquecer de bater por alguns segundos. — Eu era popular, mas não era do time de basquete…
Assim que nos viramos, meu olhar se encontrou com o dele. O garoto por quem fui apaixonada desde a quarta série, e misteriosamente foi meu namorado no ensino médio.
— Fui editor-chefe do jornal da escola — completou ele, com um sorriso de canto e o olhar intenso fixo em mim. — Oi, %Annia%.
— %Jeremy%. — Respirei fundo, tentando voltar ao meu equilíbrio. — Veteranos de Princeton, este é o presidente do grêmio estudantil e orador da minha turma de formandos… %Jeremy%, estes são %Cedric% e %Demeter%, meus veteranos de Princeton.
— Prazer. — %Jeremy% manteve as mãos nos bolsos da calça, sem a menor vontade de cumprimentá-los com um aperto de mão. — Imagino que sua companhia tenha sido mais do que especial para trazê-los para casa.
— %Annia% é nossa caloura. — %Demeter% manteve o tom seco e olhar avaliativo.
— E pertence à minha fraternidade, então… — %Cedric% continuou. — Quisemos fazer uma surpresa.
— Sejam bem-vindos à nossa clareira e aproveitem o luau. — %Jeremy% se moveu para se retirar, contudo, me lançou uma piscada rápida, daquelas que tinha significado.
E qual era? Ele queria falar comigo em particular. E não sairia daquela clareira sem conseguir fazer isso. Tentei agir com naturalidade diante da pequena situação inesperada, então olhei para ambos que me encaravam discretamente pedindo por uma explicação.
— Não é da nossa conta, quem ele é… — disse %Cedric%, controlando o olhar frustrado e chateado. — E não precisa dizer se não quiser.
— Fale por você — %Demeter% interviu com seriedade. — Eu quero saber quem é ele e o que você dois tiveram além do grêmio estudantil.
— Ele foi meu namorado no ensino médio. — Rápida e honesta. — Não terminamos de uma maneira legal, então, se eu desaparecer durante o luau… Não me procurem.
— Você ainda gosta dele? — %Cedric% se rendeu à curiosidade e indagou.
— Da mesma forma que gosto de vocês — declarei em alto e bom tom. — Como um amigo.
Não houve nenhum suspiro de alívio de ambos, e talvez lá no fundo eles desconfiassem que %Jeremy% provavelmente não teria dado por terminado nosso namoro. As coisas foram conturbadas entre nós ao longo dos dois últimos anos de colegial, a ideia do grêmio havia partido dele, como uma desculpa para ficarmos mais tempo juntos na escola sem que ninguém desconfiasse. Por mais que a abelha rainha tivesse terminado com ele no primeiro ano do ensino médio, não ficou nada satisfeita quando todos descobriram sobre nossa aproximação.
— Desfaçam essa cara emburrada e vamos nos divertir, a noite está estrelada apesar do inverno e quero apresentar a vocês algumas pessoas — disse a eles, abrindo um largo sorriso.
— E ainda diz que não é popular. — %Cedric% arqueou a sobrancelha.
— Depois não diga que só vai pela comida — alertou %Demeter%, rindo baixo —, pois nunca mais vou acreditar.
— Mas eu realmente só vou pela comida. — Ri junto, fazendo-os rirem mais.
Seguimos mais pra frente, próximo à fogueira, e os apresentei à equipe do jornal da qual me aproximei por causa do editor chefe. Eram as pessoas mais legais e comunicativas da escola, pois cada membro fazia parte de um grupo diferente. Minha cunhada, Beth, das líderes de torcida, Jorge dos atletas, Kimberly das góticas, Charles dos nerds gamers e Hill dos químicos do MIT. E foi mesmo uma conversa bem legal que levou %Cedric% a trocar contato com Charles, graças ao interesse em comum deles com os cenários dos jogos.
Aproveitei a deixa para me afastar deles discretamente e seguir por algumas árvores, sabia que %Jeremy% entenderia a referência e me seguiria até o local previsto. Me posicionei em frente ao lago iluminado pela lua, lembrando do meu último dia na cidade e de como conduzimos a nossa conversa de término. Mesmo a decisão sendo unânime, lá no fundo parecia que nenhum de nós dois queria aquilo.
— Você em Princeton e eu em Yale… — Sua voz quebrou o silêncio e logo uma brisa fria passou por mim. — Nunca saberemos se realmente daria certo um namoro à distância.
A noite, mesmo gelada, parecia suportável até aquele momento.
— Nós crescemos. — Mantive meu olhar para o lado, vendo o reflexo a lua nele. — Nossos pensamentos mudam constantemente e…
— Qual dos dois? — indagou ele.
— O que? — Me voltei para %Jeremy%.
Pude ver um leve desespero em seu olhar.
— Por qual dos dois você se apaixonou? — repetiu ele, de forma clara e objetiva.
Eu quero você sintonizada em meus olhos
Sim, você está me fazendo ser um garoto apaixonado.
- Boy With Luv (작은 것들을 위한 시) / BTS feat. Halsey