11 • Surpresas do Inverno
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Era tudo que eu queria e precisava, entretanto, precisava sobreviver ao inverno para chegar animada na primavera, afinal, meu segundo semestre letivo prometia mais correria e artigos de História da Arte para escrever. Por isso, já contava os dias para ter o ar puro de Wisconsin para respirar e finalmente recarregar as energias.
Sexta à noite recebi uma ligação da minha mãe, avisando que não poderia me buscar na estação de ônibus. Isso já me dava a ideia que teria que me virar para chegar em casa. Após meses fora e esta era a recepção dos meus pais para sua filha caçula. Voltei meu olhar para a cama de Margareth totalmente bagunçada, como de costume. Ela estava arrumando sua mala para passar o Natal com James em Chicago, na casa de uns amigos dele. Segundo o próprio, eles precisavam de um tempo longe de todos para definir o futuro dos três: os dois e o bebê.
Isso me deixou mais aliviada, em ver que inicialmente o filhote de leão tinha sim a vontade de ter aquele filho.
— Acho que é só — disse Margareth, assim que fechou a terceira mala.
Gostaria de entender quando foi que suas roupas se multiplicaram e como elas cabiam naquele guarda-roupa minúsculo.
— Você está levando 3 malas de roupas para passar duas semanas? — perguntei embasbacada.
— Sim, tenho que ter opções, apesar de ser inverno, existe uma piscina aquecida na casa onde ficaremos, quero aproveitar o momento — explicou ela com tranquilidade. — Não é todo dia que isso acontece, estou levando roupa de banho.
— Ok. — Me aproximei do meu armário e o abri, olhando as poucas roupas que tinha. — E como vai ficar agora? Você e James? Vai mesmo morar com ele?
— Sim, estamos cogitando a ideia, mas só vamos decidir isso em nossa viagem — assegurou minha amiga. — E fique tranquila que irei te manter informada de tudo.
— Acho bom. — A olhei séria. — Sabe que me preocupo com minha amiga.
Ela sorriu para mim e pegando o celular, mandou uma mensagem a James.
Não demorou muito até que o filhote de leão apareceu, curiosamente junto com %Cedric%. E por isso eu não esperava. Minha amiga ajeitou a colcha em cima de sua cama e, se despedindo de mim, seguiu para sua viagem com o namorado. Já o alpha permaneceu em silêncio observando-me arrumar a minha mala. Ele também parecia inconformado pela minha programação de retornar a Wisconsin para o Natal.
— Vai mesmo ficar me olhando assim? Inconformado? — Fechei minha mala e o olhei séria. — Deveria estar projetando suas festividades da próxima semana.
— Não terá graça nenhuma sem você — disse ele, permanecendo encostado na parede com as mãos nos bolsos da calça.
— Você não me tinha no ano passado — argumentei.
— Isso explica o motivo de até aqui todos os natais serem ruins. — Ele sabia contra-argumentar muito bem.
Ainda mais quando finalizava com aquele sorriso de canto.
— Não vai me convencer a ir com você para Londres — assegurei firme em minha decisão. — Por mais tentador que seja conhecer a Kings Cross Station.
— Malvada — reclamou ele.
— %Demeter% disse a mesma coisa. — Eu ri da sua careta.
— A parte boa é que não aceitou o convite dele — comentou %Cedric% com seu olhar presunçoso.
— É recíproco — disse %Demeter%, aparecendo da porta que estava entreaberta.
— Não tem mais o que fazer? — perguntou %Cedric%.
— Posso perguntar o mesmo, alpha? — %Demeter% o olhou atravessado.
— Ok, o meu quarto é a Suíça e vocês dois parem com isso ou serão expulsos daqui. — Olhei para eles séria e expressiva, com o tom firme. — Entenderam?
Eles assentiram e permaneceram em silêncio até que eu terminasse de juntar tudo. Então peguei minha mochila e a mala.
— Acho que estou pronta — disse ao respirar fundo.
— E quando vai voltar? — perguntou %Cedric% se aproximando de mim e pegando minha mala.
— Eu ainda não sei — respondi. — Talvez uma semana antes das aulas retornarem.
— Você não pode voltar logo na semana das festividades de retorno — disse %Demeter% ao pegar minha mochila que, particularmente, estava pesada com alguns livros. — Sua fraternidade não lhe disse isso? Precisa retornar quinze dias antes para a organização dos próximos calouros.
Senti a indireta para o alpha. %Cedric% se moveu para a direção dele, porém eu o barrei no caminho.
— Eu estava planejando burlar as regras, obrigada por mencioná-las na frente do presidente da minha fraternidade — argumentei mantendo o clima mais tranquilo. — Belo amigo é você.
— Não quero que leve uma advertência — brincou ele, ainda em provocações.
— Ela não levaria e, se fosse preciso, eu mesmo a buscaria. — %Cedric% me defendeu.
Eu ri de ambos e saí primeiro do quarto.
Após trancar a porta, segui até o táxi que me esperava. E sim, dispensei a carona dos dois para não dar oportunidade de brigas desnecessárias. Me despedi rapidamente dando um beijo na face de cada um e segui para a rodoviária. Louco pensar em todas as coisas que vivi nesse primeiro semestre em Princeton, mas minha mente ao longo do caminho para casa começou a reviver todos os acontecimentos. Desde o primeiro momento em que esbarrei no Alpha, a aproximação do King Lion, até a despedida deles.
Quando cheguei em minha pacata cidade de
Middleton no dia seguinte, após horas de estrada, para minha surpresa, meu irmão estava na estação esperando-me.
— O que faz aqui? — perguntei ao vê-lo.
— Nosso pai me mandou vir te buscar, a princesinha dele. — Ele fez uma careta com o olhar revoltado.
— Hum… — dei de ombros para sua reação e lhe entreguei a minha mala.
— Você não tem mão, não? — perguntou, revoltado, se afastando e indo até o carro.
— Que falta de cavalheirismo — resmunguei pegando minha mala novamente. — Em Princeton eu tinha dois disputando para carregar.
Segui para a velha caminhonete do meu pai, atrás dele. Com a cara emburrada.
Era um pouco estranho estar de volta, pelo fato de ter me acostumado com a agitação do campus, mas feliz por estar novamente em casa e poder descansar minha mente dos estudos e todo o caos envolvendo as fraternidades. Assim que entrei em nossa casa, no rancho da família, Beth veio logo me abraçar com muita animação.
Estava tão feliz em vê-la.
— Que bom que está de volta! — disse ela, toda empolgada. — Temos muitos assuntos para colocar em dia.
— Concordo — eu disse, retribuindo o abraço. — Senti sua falta naquele lugar.
— Só vão fofocar depois que a mocinha der um abraço em seu pai — protestou meu pai ao aparecer na porta da cozinha com a minha mãe.
— Claro que darei. — Segui até eles e os abracei. — Estava com saudades de vocês também.
— Como foram os estudos? — perguntou minha mãe ao me apertar de leve. — Fiquei preocupada com sua mensagem da semana de provas, você está magra demais, querida. Tem comido direito?
— Correu tudo bem, mãe, sua filha é a melhor da turma, como o esperado — assegurei a ela. — E eu estou me alimentando bem sim.
É o que mais faço naquelas festas. Pensei comigo.
— Quanto orgulho temos de você, querida. — Ela sorriu para mim.
— Hum… Estou morrendo de saudade da sua comida — disse com um olhar choroso.
— Que bom, pois preparei um jantar para minha filha querida. — Ela segurou em minha mão me arrastando para a cozinha. — Fiz o risoto de frango que tanto gosta.
Estar em casa me transmitia uma sensação maravilhosa e aconchegante. Beth resolveu dormir em nossa casa, ela estava mesmo é curiosa para descobrir as novidades sobre os dois amigos que arrumei em Princeton. E com razão, já que minha vida não era tão agitada assim em Wisconsin.
— Ok, deixa eu ver se entendi… — Beth sentou no beiral da janela e me olhou. — Tanto o Alpha quanto o King Lion estão interessados em você; ambos são bonitos, atraentes, beijam bem e são os presidentes das duas maiores fraternidades, além da rivalidade entre ambos que aquece o campus, tem mais alguma informação??
— Eles já foram amigos no passado — completei.
— Ah sim, a história da tal Louise — completou ela, mantendo seu olhar analítico para mim. — E como você está diante de todo esse turbilhão de sentimentos e acontecimentos?
— Eu não sei… Eu não… Eu não quero me apaixonar por ninguém, não foi para isso que segui para Princeton, menos ainda para ficar dividida entre os mais cobiçados do campus — soltei um suspiro cansado. — Eu só queria me manter invisível a todos e seguir com meu curso, me formar e ser uma boa profissional, sem chamar atenção.
— E, no entanto, acabou chamando a atenção de dois gladiadores, perfeita fúria de Titãs — brincou ela, de forma boba. — Essas coisas só acontecem com você mesmo.
Ela finalmente riu de mim.
— Você não imagina o quanto isso é cansativo, principalmente pela perseguição que estou sofrendo com o professor Brown. — Eu joguei meu corpo sobre a cama e fiquei olhando o teto. — Você não tem noção de quantos artigos eu tive que escrever só esse semestre. Dois de 20 páginas e 3 de cinco páginas, isso tudo me deixou esgotada e desgastada com os estudos… Além de agora estar trabalhando no jornal do campus, ser assistente da Isla e ter que saber sobre tudo que envolve a fraternidade e as festas, estar sempre com o calendário de eventos em dia gravado na minha cabeça…
— Calma, amiga — disse ela, parecia ter se cansado só de saber minha rotina pesada. — Lamento que tenha que enfrentar tudo isso.
— E por mais que eu tente não culpar %Cedric% por isso, acabo sempre chegando à conclusão que eu deveria me afastar dele — suspirei fraco. — E saber que o %Demeter% também tem uma ligação com a Louise e todo esse drama by casos de família.
— E você quer? Se afastar de algum dos dois? — indagou ela, com o olhar atento.
— Não… É curioso, mas eu me divirto tanto com ele e com o %Demeter%, o pior é que é na mesma proporção e isso é surreal. — Ergui meu corpo e a olhei. — Eu gosto dos dois e não tenho forças para me afastar deles, mas sinto que até mesmo minha amizade com %Demeter% possa vir a ser um problema, agora por causa da sua mãe.
— Pela atitude dela com a sua colega de quarto?! — supôs Beth.
— Sim, olha o que ela tentou fazer com a Margareth, imagina como reagiria se soubesse que o filho está disputando com outro garoto para conquistar uma reles plebeia como eu. — Fui realista. — O que ela faria contra mim?
— Bem, realmente, as coisas estão malucas para você — admitiu Beth, com um olhar generoso.
— Nem me fale. — Eu ajeitei a almofada no encosto da cama e me encostei nela. — E olha que eu tentei ser o mais discreta possível.
— Amiga, você sempre teve esse charme de chamar atenção sem fazer esforço — confessou Beth, seu olhar parecia sincero. — Acho que eu só conquistei seu irmão porque ele é seu irmão.
— Deixa de ser boba, Beth. — Eu sorri para ela. — Você é linda e muito inteligente, não sei como meu irmão conseguiu te fazer gostar dele.
— Ele é chato, é bruto, mas eu amo ele — ela falou de uma forma tão fofa que quase me fez chorar.
Eu sorri para ela, com o olhar emocionado.
— Mas me conta mais sobre o resgate deles com você na festa do pijama — pediu ela.
— Bem… Você sabe que eu tenho um fraco com bebidas e meu problema do tornozelo também não me ajuda — confessei a ela. — A louca aqui acabou pedindo socorro aos dois.
— Ai, queria ser uma mosca para te ver bêbada. — Beth riu da minha cara ao se aproximar mais e sentar na cama também.
— Bela amiga é você. — Eu cruzei os braços. — Se lembra de quando fizemos uma festa na fogueira no ensino médio e você teve que tomar uns cinco copos.
— Amiga, eu achei que você nunca iria se recuperar depois — comentou ela, me olhando com malícia. — Principalmente porque você beijou o Colins naquela noite, zerou a vida.
— Confesso que aquela noite foi o ápice da minha vida no colegial, principalmente por ter beijado ele — assenti, meio envergonhada. — Mas ainda assim, depois passei um ano sendo infernizada pela abelha rainha por ter beijado o namorado dela.
— Ela tinha terminado com ele, amiga, só não queria perder — retrucou Beth, a verdade nua e crua.
— Não importa, o fato é que meu histórico com populares nunca foi fácil, então… Princeton está me assustando de uma forma transcendental — desabafei por completo.
— E piora o fato de não saber qual seu favorito — observou ela. — Bom, você pode promover a poligamia e fazer seu próprio harém.
Ela soltou uma gargalhada maldosa.
— Beth?! Não está me ajudando. — Me senti um pouco indignada com as palavras dela. — Estou falando sério sobre isso.
— Desculpa, não pude perder o comentário. — Ela riu mais. — Olha, conheço amigos do seu irmão que fazem isso na cara dura.
— Eu não sou os babacas dos amigos do meu irmão — retruquei. — Além do mais, já disse que não quero relacionamentos agora.
— No entanto, a vida está te oferecendo dois — argumentou ela. — Você poderia listar o que gosta e não gosta em cada um… Ver quem tem mais vantagens na seleção.
— E eu lá tenho cara de Maxon por acaso? — Olhei séria para ela.
Minha amiga sabia bem a referência.
— Que os jogos comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor — retrucou ela, num tom descontraído.
— Se for olhar minha situação, realmente estou mais para a Katniss Everdeen — confessei. — Princeton tem sido o verdadeiro Jogos Vorazes.
Passamos a noite aos risos com ela me contando as aventuras que teve com meu irmão tentando se esforçar com a faculdade de veterinária. Na manhã seguinte, segui para o centro comercial com meus pais para as compras da ceia do Natal. Foi legal rever alguns rostos conhecidos e acolhedores. Passamos na loja de roupas da senhora Kilby, minha mãe fez questão de me comprar um vestido novo para a ocasião.
Como se minha intenção fosse mesmo participar da recepção da família.
Eu já estava preparada para ficar de pijama com minha maratona de
Chicago Fire.
— Eu te dou cinco minutos para desligar esse notebook, se levantar dessa cama, colocar o vestido que te comprei e comemorar a manhã de Natal com sua família — disse minha mãe em tom de ordem e repreensão ao abrir a porta e me encarar com rigidez.
— Mãe… — A olhei com os olhos de criança abandonada.
— Mãe nada, você me passa meses longe e agora quer permanecer trancada no quarto, todos da família estão lá embaixo e querem te ver — argumentou ela com um olhar curioso. — Além do mais, não vou ficar fazendo sala para as suas visitas.
— Minhas visitas?! — A olhei confusa. — Quais visitas?
Será que o pessoal do ensino médio estava lá embaixo? %Jeremy% Colins? Mesmo com as farpas e boicotes da abelha rainha, meu último ano do colegial não tinha sido tão ruim assim, e com um namoro escondido, tudo havia se tornado ainda mais divertido e emocionante.
De repente, senti meu coração pulsar um pouco mais forte.
Uma ansiedade em saber quem estava no andar de baixo.
— Levante, troque de roupa e desça em cinco minutos — ordenou novamente ao abrir mais a porta para se retirar. — E não me faça voltar aqui.
— Tudo bem, mãe — disse, observando-a se retirar.
Suspirei fraco ao olhar para o vestido que estava no encosto da cadeira à minha espera. Me levantei espreguiçando da cama e troquei de roupa. Eu não iria desligar o notebook, pelo contrário, minha estratégia seria mostrar as caras, cumprimentar a todos, descobrir quem eram as tais visitas e quando minha mãe se distraísse, voltaria para o quarto. Deixei o cabelo solto, somente passando os dedos entre os fios para ajustar o volume causado pelo travesseiro.
Meu corpo estremeceu e meu coração acelerou assim que terminei de descer os degraus e dar de cara com a realeza de Princeton sentada no sofá da sala, ambos com um pacote embrulhado nas mãos.
O que %Demeter% e %Cedric% faziam aqui na minha sala, em Middleton? Queria mesmo me enlouquecer.
E pior? Com o clima e o olhar de velhos amigos em dia de Natal, esperando a abertura dos presentes.
— Depois quando digo que são parecidos, querem brigar — disse ao me colocar na frente de ambos,
“minhas visitas” nas palavras da minha mãe. — O que fazem aqui?
— Desejei passar o Natal com você — respondeu %Cedric%, com um olhar sugestivo para mim.
— E curiosamente tivemos a mesma ideia — concordou %Demeter%, disfarçando seu sorriso de canto malicioso. — Então… Viemos te desejar um feliz Natal.
— Jura? — A ironia misturada ao deboche soou de meus lábios.
Chocada eu estava e com toda razão.
Com ambos me olhando da forma mais serena e tranquila possível, agindo praticamente como verdadeiros amigos de infância.
Mal eles sabiam que internamente eu estava em surto com meu coração acelerado.
O olhar intenso de ambos causavam impacto em mim na mesma proporção igualitária.
Eu tento lutar, mas, eventualmente,
A resposta é o amor
It’s the love shot.
- Love Shot - EXO