9 • Manjar Turco
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Continental, Manhattan
Eu não sabia o que pensar e ainda seguia atordoado com as palavras de Lauren Height. Sua ameaça final ainda martelava em minha mente:
“—
Pode ser por suas mãos de forma rápida e indolor, ou da forma mais agonizante por outra pessoa.” Por dentro a raiva ardia dentro de mim, assim como o medo. Não conseguia deixar de me culpar por tê-la exposto desta forma. Talvez no anonimato %Alice% nem se mostraria uma ameaça a Lauren. Entretanto, isso não importava agora, somente a segurança da minha esposa. E sim, eu faria o que fosse preciso e mataria quem fosse necessário pra garantir sua segurança.
Era um tanto óbvio minha resposta a Lauren.
Se fosse em outra época, em que %Nathaniel% Wick era somente um homem de sangue frio e coração fechado, não seria uma dificuldade realizar tal trabalho. Eu nunca me importei com meu próximo, apesar de minhas muitas cortesias profissionais. Aprendi com minha mãe a confiar apenas em mim e razoavelmente na família. Amigos, jamais, são leais até a vírgula que os separa da ambição e da ganância.
Olhei para a janela e senti o celular vibrar no bolso da calça. Era uma rara ligação do meu irmão. John estava tão ferrado quanto eu, e possivelmente mais.
— Ainda está vivo. — brinquei ao atender.
— O único que deixarei me matar é meu irmão. — afirmou ele.
— Então viverá por muito tempo. — eu ri de leve e perguntei. — A que se deve sua ligação?
— Ainda me preocupo com meu irmão caçula, ouvi boatos da cabeça de sua esposa estar a prêmio. — respondeu ele.
— Quem disse isso? — indaguei, me preocupando.
— Winston me ligou, não foi ofertada em público, mas alguns dos melhores foram convidados. — explicou ele. — Posso estar com a corda no pescoço, mais ainda tenho contatos… Não aconselho que fique mais tempo longe de casa.
— Já estava retornando, pedi a Hill que cuidasse da segurança dela. — informei a ele, sentindo alegre por meu irmão se preocupar ainda que tenha que lidar com seus problemas.
— Tenha cuidado e não cometa o mesmo erro que eu. — aconselhou.
— Não era somente um cachorro John, era a memória da sua esposa. — argumentei o confortando. — E não se preocupe, eu vou proteger a minha.
Desliguei o celular e peguei minhas coisas.
Ao passar pelo hall do Continental, fiz o checkout e segui para o aeroporto.
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Chegando em Chicago, a caminho para casa liguei para Hill a fim de me certificar da segurança de %Alice%. Queria fazer uma surpresa a minha esposa, com uma chegada silenciosa. Entretanto, minha assistente não atendeu a ligação, caindo na caixa postal. Aquilo me deixou intrigado. Pedi ao taxista para me levar diretamente para casa. Quando cheguei, meu corpo gelou de imediato ao ver minha casa totalmente revirada.
Engoli seco e saquei a arma, adentrando um pouco mais. Tudo silencioso e escuro, já era noite e as luzes apagadas me ajudariam a manter o elemento surpresa. Ouvi uma voz masculina vindo do quarto, e segui na direção. Foi rápido o reconhecimento do intruso que invadiu minha casa.
— %Alice%, eu prometo que será rápido, não quero que meu amigo sofra ao ver sua esposa deformada no caixão. — a voz de Hugh soou mais uma vez.
Intensificando minha raiva guardada, afinal, eu já sabia que ele era o assassino da minha mãe, informação esta revelada por Magnus. Dei alguns passos precisos e silenciosos para perto dele, que estava de frente para o closet e apontei minha arma para sua cabeça.
— Você matou minha mãe, não deixarei que encoste na minha esposa. — preparei o gatilho.
— Vai mesmo fazer isso com seu melhor amigo? — Hugh ergueu as mãos se virando para mim, seu olhar tinha traços de sarcasmo que me fervia o sangue. — Então é isso o que a senhora Height quer? Eu mato sua esposa e você me mata?
— Não foi ela quem me contou, mas obrigado por confirmar. — eu passei a arma para a mão esquerda e fechando meu punho direito, soquei a cara dele. — Você não vai sair daqui vivo, mas antes, vai sentir a dor que minha mãe sentiu.
Eu continuei a socá-lo mais um pouco, até que Hugh reagiu e me derrubou, senti a arma soltar de minha mão e ele se mexeu para pegar. Joguei meu corpo em cima dele e tocamos mais socos, até que Hugh pegou algo e me acertou na cabeça, o que me deixou desnorteado.
Logo senti Hugh socar meu rosto, enquanto se gabava que mataria dois coelhos com um único tiro, assim sua dívida seria paga.
— Você até foi um bom amigo, Wick, mas não há amizade em nossa profissão. — disse ele.
Mesmo com dificuldade, forcei minhas pálpebras para se abrirem e vi seu punho levantado para me socar mais uma vez. Em instantes o som de um tiro soou pelo quarto, o rosto de Hugh se desfigurou um pouco e traços de sangue evidenciaram no canto da boca. Não demorou até que a sua mão abaixasse e seu corpo desfaleceu ao meu lado.
— %Nate%. — a voz de %Alice% veio seguida da de Hill.
Ainda confuso, fui amparado pelas duas que me ajudaram a levantar. No impulso abracei minha esposa de forma apertada e carinhosa. Temia que Hugh tivesse lhe causado algum mal. Então olhei para a minha assistente.
— O que faz aqui? — perguntei a ela.
— Um muito obrigado bastaria agora. — Hill com sua forma debochada voltou o olhar para o corpo de Hugh. — Não foi essa a educação que a senhora Wick te deu.
— Hill?! — deixei minha voz mais entonada.
— Eu tinha enviado alguns seguranças à paisana para cá, quando um deles me informou que seu amigo estava rondando o lugar. — iniciou ela sua explicação. — Ele nunca foi de te fazer visitas, principalmente quando não está em casa, foi então que descobri sobre...
Ela deu uma pausa mantendo o olhar fixo em mim. O que me fez saber sobre o que mencionava.
— Sobre o quê? — %Alice% perguntou com um olhar inocente e preocupado.
— Prometo que depois te explico. — voltei meu olhar para Hill. — Quando chegou aqui?
— Minutos antes de você. — ela olhou para minha esposa.
— Hugh veio em nossa casa com a desculpa de nos fazer uma visita pelo nosso casamento. Como ele era seu amigo, não me importei em deixá-lo entrar. — %Alice% iniciou sua versão da história — Foi quando percebi sua real intenção e só tive tempo para pegar o celular, liguei para Hill e ela me orientou a me esconder no porão com o Boris.
— O resto você já presenciou. — completou Hill.
— O que faremos agora? — Perguntou %Alice%.
— Vou deixá-la em segurança novamente. — assegurei.
— Só conhecemos um lugar capaz disso. — comentou Hill.
Sim, só havia um lugar que pudesse levá-la. O
Continental de Chicago. Foram poucas as vezes que me instalei nele, mas, devido às circunstâncias, era necessário. Assim que juntamos algumas peças de roupa na mala e pegamos o Boris, seguimos no carro de Hill até lá. Minha assistente poderia ser considerada mesmo uma amiga, meu anjo da guarda nas horas vagas.
— Agora que a Hill foi embora, poderia me dizer o que está acontecendo? — %Alice% trancou a porta do quarto em que nos instalamos e me olhou seriamente. — Por que seu amigo tentou me matar?
Eu soltei um suspiro cansado, ao deixar Boris que estava em meu colo na poltrona ao lado da janela, caminhei até ela. Então peguei em sua mão e a abracei forte. Ela precisava de resposta e eu não negaria, entretanto, naquele momento só desejava tê-la em meus braços sendo protegida por mim. Sendo honesto, eu precisava mais dela do que o contrário.
Seu amor me daria forças para garantir a sua segurança.
— Eu te amo. — sussurrei em seu ouvido, percebendo ela sentir um leve arrepio em seu corpo.
Creio em você
E neste amor
Que me fez indestrutível
Que deteve minha queda livre.
- Creo en Ti / Lunafl