7 • Cheesecake
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Hotel Continental, Vegas
Talvez eu estivesse tão maluco como meu irmão. Havia contatado John por alguns valiosos minutos e lhe contado sobre meu relacionamento inesperado com %Alice%. Seu conselho imediato de aproveitar a oportunidade, pois a vida é realmente muito curta, me fez refletir um pouco e tomar a decisão mais louca e assertiva da minha vida. Após deixar Boris sob os cuidados de um hotel para animais de Chicago, viajei para Vegas acompanhado de %Alice% que não conseguia entender todo o meu silêncio a respeito de tudo. Sua ficha caiu quando entramos em um cartório de registro civil e eu a pedi em casamento da forma mais inusitada possível.
— Você é louco? — disse ela, abrindo um sorriso leve e surpreso.
— Não, você disse uma vez que tinha um desejo estranho de se casar em Vegas. — respondi a ela. — Aqui estamos. Está arrependida de querer entrar em minha vida?
— Não, eu só não esperava com tanta rapidez. — alegou ela, voltando o olhar para a certidão em nossa frente.
— A vida é muito curta para esperar tanto. — argumentei. — Não se sinta pressionada se não quiser, mas depois de completarmos um ano…
— Não vai se ver livre de mim assim tão fácil. — ela manteve o sorriso e se voltou para o tabelião. — Onde assino? Este homem aqui achou que eu ia ficar assustada com seus atos e desistir, ele tem feito isso com bastante frequência sabe, mas eu vou assinar.
Eu ri baixo. Assim que ela assinou o documento, fiz logo em seguida.
— Agora não tem mais volta, senhor Wick. — disse ela, segurando em meu terno e me puxando para perto.
— Eu não quero que tenha volta, senhora Wick. — assegurei a ela, sorrindo de canto.
Sob a autorização do tabelião, a beijei de leve, selando nossa união. Voltei meu olhar para a concierge, de nome Louise.
— Agradeço por me conseguir o tabelião tão prontamente. — disse a mulher, que assentiu com o olhar, ajeitando discretamente o terno feminino em seu corpo.
— O prazer é nosso poder hospedá-lo, senhor Wick. — disse ela, indo auxiliar o tabelião para que se retirasse.
— Eu posso entender a dinâmica desse lugar? — perguntou %Alice%, observando a funcionária. — Tudo o que você pedir eles conseguem pra você?
— Nem tudo, depende do que eu quero no momento. — eu segurei em sua cintura. — Por exemplo, agora eu queria me casar com você, e consegui.
Ela manteve aquele olhar de: Sua explicação continua vaga demais para mim. O que me fez rir de leve.
— Que tal deixarmos esses detalhes de lado e partir para a melhor parte? — sugeri.
— Qual? — ela me olhou franzindo a testa.
— A noite de núpcias. — pisquei de leve, arrancando risos baixos dela.
— Seu bobo. — ela se afastou de mim e voltou o olhar mais para frente.
Pareceu reconhecer alguém. O que foi novidade para mim. %Alice% continuou dando passos para mais longe o que me fez segui-la. Logo meus olhos avistaram um rosto realmente conhecido. Igor Magnus, o homem que tentei matar para meu amigo. Era só o que faltava para estragar meus planos de recém-casado.
— Senhor Magnus. — disse %Alice% ao se aproximar dele.
— Oh, a jovem confeiteira. — o homem sorriu para ela, ainda não tinha me visto. — Fiquei preocupado, não houve notícias suas após aquele tumultuado evento e não se candidatou ao estágio em nenhum de meus bistrôs. Mas, o que faz aqui em um Hotel Continental?
Percebi sua surpresa naquele instante.
— Bem, a história é um pouco longa… — ela riu de leve e me puxando para perto dele, ao perceber minha aproximação. — E acabo de me tornar uma mulher casada.
O olhar dele veio para mim.
— Interessante. — disse Magnus, fixando mais o olhar. — Nos vemos outra vez.
— Senhor Magnus, espero que não tenha ressentimentos entre nós. — disse mantendo a serenidade.
— Oh, claro que não, são só negócios, não é? — ele riu. — Estou mais curioso em saber como conquistou essa linda jovem.
— Acredite, eu me pergunto isso todos os dias quando olho para este sorriso. — voltei meu olhar para ela, que de imediato sorriu com timidez. — Minha luz no fim do túnel.
— Meus parabéns ao casal. — disse ele, com entusiasmo. — Que tal celebrarmos o momento com um jantar digno desta bela noiva? Não aceito não como resposta.
%Alice% me olhou, parecia receosa. Porém, demonstrou confiar na minha decisão. Assenti para ele e seguimos para o restaurante do hotel. Mesa VIP da casa e com cardápio especial. Igor Magnus fez questão de deixar que ela escolhesse o menu do nosso jantar.
— Ando curioso pela história de vocês. — comentou Igor ao saborear o vinho em sua taça.
— Deixe-me adivinhar, está pensando que ela fazia parte dos meus atos no concurso? — mantive o olhar sério para ele.
— Seria um pensamento lógico, não acha? — questionou ele. — Um ano depois vê-los nesta situação e com alianças nos dedos.
— Ela não me conhecia naquela época. — assegurei.
— Hum… — %Alice% se pronunciou. — Acho que em partes…
Ambos os cavalheiros voltamos nosso olhar para ela.
— Eu já tinha visto ele em Seattle, onde morava. — começou ela a contar sua versão da história. — O atendi algumas vezes na cafeteria em que trabalhava até que ele dormiu com minha amiga e desapareceu no dia seguinte.
A forma como ela contou fez Igor soltar uma gargalhada alta e empolgada.
— Ele dormiu com sua amiga e você se casou com ele agora? — ele riu mais um pouco. — Curioso.
— Digamos que tem algo nele que me atrai. — explicou ela. — E não me importa o quão obscuro seja algumas partes de sua vida.
Eu ainda não tinha dito com exatidão a minha profissão. Mas ela sabia que minha casa era repleta de armas e eu carregava sempre suas comigo. Que tinha um valor considerável de dinheiro no banco e muitas moedas em meu cofre pessoal. A parte rasa do submundo ela conhecia, mas o resto…
— Estou impressionado com sua forma corajosa de dizer. — Magnus olhou para mim com preocupação. — E mais ainda com você por tê-la exposto ao se hospedar no Continental.
— Este é o lugar mais seguro para ela. — afirmei.
— Sério? — %Alice% me olhou. — Do que ele está falando?
— Precisamos nos retirar. — disse a ela me levantando. — Agradeço o jantar, senhor Magnus, mas terá que ficar para uma próxima oportunidade.
— Vamos? — insisti estendendo minha mão.
Ela assentiu com um olhar confuso e segurou em minha mão. Seguimos para o hall e pegamos o elevador. Ela permaneceu pensativa e em silêncio por todo o trajeto, contudo, assim que entramos em nossa suíte, seus questionamentos ganharam voz.
— O que aconteceu lá embaixo? — perguntou ela, um olhar sério de quem não aceitaria mais segredos.
— Algo inesperado. — me aproximei da cama e retirei minha maleta debaixo.
Ela sabendo o que tinha dentro, se aproximou de mim e tocou em minhas mãos para que parasse.
— %Nathaniel%, olha para mim. — seu tom foi de ordem.
— Por que ele disse que eu estaria em risco vindo aqui, e por que este lugar é o mais seguro para mim? — ela reforçou seu tom firme. — Nada de explicações vagas dessa vez.
— Eu não deveria ter feito isso com você, te envolver e ainda… — passei a mão no rosto e me sentei no chão, mantive o olhar para frente.
Procurava as palavras na minha mente para construir a melhor explicação que não a deixasse assustada ou com medo de mim.
— Eu te disse que tenho um lado… — iniciei.
— Sem rodeios. — ela me cortou se sentando no chão também, de frente para mim.
— Eu não sou um cara bonzinho, não sou um agente secreto como você imaginou uma vez… Não trabalho para o governo e nem sou segurança particular. — continuei baixando mais a minha voz — Sou o cara mal…
— Você é um assassino profissional. — concluiu ela, antes que eu terminasse.
Meu olhar ficou confuso e surpreso ao mesmo tempo.
— Não me olhe assim… — pediu ela.
— Como sabe sobre isso? — perguntei.
— Eu poderia dizer que foi pela lógica, já que você atira muito bem para uma pessoa que não é da área militar. — ela riu baixo. — Mas, há uns dois meses eu… Não foi proposital, mas você deixou o celular na cozinha e eu atendi, tive uma conversa enriquecedora com a Hill enquanto você estava no banho.
— A Hill sabe sobre você? — franzi a testa.
— Sim, para ser sincera ela sabe sobre mim desde o início. — assentiu ela, voltando o olhar para o teto, segurando o riso desta vez. — Acabei descobrindo também que ela sempre enviava alguns seguranças extras para me vigiar quando você saía em viagem.
— Ela fez isso? — perguntei e ela assentiu com a cabeça.
Por essa eu não esperava. %Alice% se aproximou mais de mim e aninhou seu corpo ao meu.
— Confesso que fiquei desnorteada inicialmente, imaginando você executando seus trabalhos... Então me lembrei de como de protegeu no dia do concurso. — ela manteve o tom baixo, quase em sussurro — Você pode ser um monstro para os outros, mas não é para mim.
Se remexendo um pouco, ela se virou para mim com um olhar sereno, tinha um brilho incomum.
— Meu coração sempre acelera quando está perto e eu realmente te amo. — ela se declarou abertamente para mim.
— Idem. — sussurrei sorrindo de canto.
Joguei meu corpo um pouco mais para o lado, me inclinando para iniciar o beijo. A sinceridade de %Alice% tinha causado grandes efeitos sobre meus sentimentos. Se ainda existia resistência de minha parte, não teria mais. Apenas deixaria seu amor me guiar para mais perto dela, envolvendo-a em meus braços deixando minha mente livre das preocupações com o futuro.
Mantendo nossa noite mais intensa e maliciosa.
Pele com pele
Meu coração se desarma
Você me faz bem
Acendes luzes na minha alma.
- Creo en Ti / Reik