10 • Chocolate
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Continental, Chicago
— Hill!? — disse assim que minha assistente atendeu o telefone, já era alta madrugada.
— Já disse para não se preocupar, o serviço de limpeza já fez a faxina na sua casa. — confirmou ela, antes mesmo de eu perguntar.
Eu me aproximei da janela e voltei meu olhar para %Alice%, que dormia tranquilamente na cama. Seu rosto tão suave e sereno que nem parecia ter passado por um momento de choque e desespero. Logo ela se remexeu um pouco, algo que fez Boris despertar. Meu gato estava deitado aos pés da cama.
— Notícias do John? — indaguei.
— Sua esposa está com a cabeça a prêmio e você ainda se preocupa com seu irmão? — seu tom parecia de choque.
— Força do hábito me preocupar com ele. — sorri de leve e mantive em olhar em %Alice% que despertava. — Continue monitorando os possíveis alvos e me avise.
— Tenha cuidado e não deixe que ela se mova do Continental. — alertou Hill.
— Não posso mantê-la aqui para sempre, preciso pensar em outra coisa.
— Falar diretamente com o pai dela seria o mais óbvio, não? — sugeriu ela.
— A não ser que ele também não a queira viva, o que pode piorar tudo. — soltei um suspiro cansado, observando %Alice% se aproximar de mim.
Logo ela se aninhou em mim, envolvendo seus braços em minha cintura. Tinha um olhar curioso e ainda amedrontado.
— Vou desligar, obrigado pela ajuda, Hill. — disse.
— Depois você me recompensa com algumas moedas. — brincou ela.
Assim que encerrei a ligação, coloquei o celular no bolso e mantive minha atenção em %Aly%.
— Te acordei? — perguntei.
— Não, não foi você. — respondeu ela. — Podemos conversar agora? Você me pediu para descansar primeiro e...
— Mas eu não descansei. — disse, tentando me desviar. — Não consegui parar de te observar.
— %Nate%... — ela emburrou a cara um pouco.
— Vamos conversar, sim. — eu a aninhei em meus braços.
— Podemos começar com você me dizendo o motivo do seu amigo tentar me matar. — iniciou ela.
— Então você terá que começar me dizendo quem são seus pais. — retruquei a pergunta. — Não foi por minha causa que ele foi atrás de você.
Ela se afastou um pouco de mim e permaneceu em silêncio reflexiva. Minha atenção continuou em suas expressões faciais fechadas.
— Até que parte você sabe sobre mim? — perguntou ela.
— Até que parte posso saber sobre minha esposa? — retruquei.
Me encostei na parede ao lado da janela e coloquei as mãos nos bolsos da calça, esperando por sua resposta. %Alice% respirou fundo e voltou para a cama, sentando-se na beirada. Eu não era o único com segredos em minha vida e um passado escondido na gaveta.
— Miller é o sobrenome de solteiro da minha mãe, meu registro conta apenas com os dados dela para minha proteção. — %Alice% manteve o olhar abaixado, parecia procurar pela melhor forma de explicar o que eu já sabia — Ela sempre me dizia que para o meu bem, era melhor nunca mencionar sobre meu pai.
— Você sabe quem é o seu pai? — indaguei a ela.
— Não o conheço pessoalmente, mas sei que é um homem importante e que muitos me matariam para que eu não me aproximasse dele.
— Entre viver e ter um pai, preferi não pagar para ver. — continuou ela. — Só não entendo como seu amigo...
— Ele não foi o único que recebeu pela sua cabeça. — eu não mentiria para ela. — E sendo honesto, eu fui o primeiro.
— Uma mulher chamada Lauren Height ofereceu uma significativa quantia em dinheiro pela sua vida. — fui direto e preciso. — A primeira pessoa a quem ela ofereceu foi eu, e como recusei, agora os melhores assassinos estão atrás de você.
— Essa é a sua profissão, por que não aceitou? — perguntou ela.
Eu sorri de canto e me aproximei dela. A pegando pela mão, puxei seu corpo para se aproximar do meu.
— A resposta é um tanto óbvia, não acha? — erguendo minha mão direita. — Matarei todos eles por você, sem hesitar.
— Preferiria que ninguém morresse por minha causa. — retrucou ela.
Me inclinei um pouco mais e a beijei com leveza, deixando a doçura por sua conta e mantendo a intensidade. Por mais que os problemas e preocupações se mantivessem do lado de fora daquele quarto. Naquela noite meu foco era somente amá-la e não haveria nada para atrapalhar. Nem mesmo Boris, que já havia se aconchegado na sua gaiola de transporte, forrada com uma manta quentinha.
Ao amanhecer, enquanto %Alice% dormia, desci para a recepção. Precisava conversar com o gerente.
— Ouvi falar sobre sua esposa. — comentou Fox.
— Não será nenhum problema nossa hospedagem aqui, não é? — perguntei a ele.
— Claro que não. — seu olhar se mantinha sereno e suave. — %Nathaniel%, você sabe que não vai poder mantê-la em um Continental para sempre.
— E já sabe o que vai fazer?
— Estou trabalhando nisso. — assegurei.
— Matar o interessado não está nos seus planos, não é? Lembre-se do seu irmão. — advertiu ele.
— Eu sei que não devo tocar na Alta Cúpula. — garanti, minha sanidade.
— Bem, para abater um tigre, você precisa de alguém mais forte e dominante, um leão talvez. — sugeriu ela enigmática.
— De quem fornece o status que o tigre tem.
Obviamente o marido de Lauren, o senhor Godric Height. Justo a pessoa que eu não queria envolver em tudo isso. Não sabia se a mãe de %Alice% tinha mesmo medo da Alta Cúpula, ou do próprio Gregori. Soltei um suspiro cansado, enquanto Fox se afastou de mim.
Precisava ser rápido em meu plano de ataque para devolver a liberdade à minha esposa.
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Já se contava uma semana hospedados no Continental.
Não era surpresa que o fluxo de hospedagem havia aumentado após boatos de minha presença lá. Esbarrar pelos corredores com alguns assassinos era a parte fácil. Estressante mesmo era ter que encarar seus olhares para minha esposa em nossos momentos de refeição no restaurante. A observavam como se estivessem prestes a dar o bote, como cobras.
Sexta pela manhã recebi uma ligação de Hill, para um serviço de última hora para o senhor Magnus. Ele havia sido tão cordial para mim que não tive como recusar. O lado bom é que pode ser um serviço de urgência, e por isso cobramos o dobro da taxa extra sem nenhuma objeção dele.
Após informar %Alice% sobre o serviço e pedir a Hill que a acompanhasse, embarquei no primeiro voo para a cidade de Austin. Rápido, silencioso e preciso, não demorei mais do que algumas horas para isso.
Entretanto, não foi o suficiente para impedir que contratempos acontecessem. Ao retornar para o Continental de Chicago, encontrei Hill em agonia me esperando na recepção. Loucamente, minha esposa havia saído do hotel para não sei onde, após receber um bilhete anônimo com a foto de sua amiga de Seattle sequestrada.
— Como pode deixá-la sair? — questionei com a Fox.
— Não a vimos, demos falta de um dos uniformes das faxineiras, certamente ela passou pela saída dos funcionários.
— Droga! — xinguei em voz alta e respirei fundo tentando pensar no que fazer.
Segui para o quarto e comecei a revistar as coisas, tentando encontrar algo que pudesse ajudar. Foi quando vi um pedaço de papel embaixo de Boris, que se mantinha deitado no chão. O empurrei de leve e lá estava o tal bilhete. Olhei atrás e de imediato identifiquei aquela letra. Somente uma assassina em específico teria coragem de planejar algo do tipo.
Coloquei o bilhete no bolso e voltei para a recepção. Peguei um carro de aluguel e segui em direção ao endereço, que curiosamente era o da cafeteria que eu havia comprado para ela.
Estacionei há duas ruas e continuei a pé. Me aproximando do lugar, avistei uma moto parada na frente. Dei a volta na edificação para entrar pelos fundos. Do lado de dentro, consegui ouvir algumas vozes vindas do salão.
—
Nunca mande um homem fazer o trabalho de uma mulher. — era mesmo a voz de Bridget.
—
Deixe minha amiga ir, já estou aqui. — a voz de %Alice% estava fraca e ofegante. —
Por favor. —
Se você for obediente, quem sabe? Me pagaram o dobro para te fazer gritar de dor, e eu vou adorar fazer isso. — ela soltou uma gargalhada.
Eu não tinha muito tempo, apenas uma chance para acertá-la da distância em que eu estava. Não sou adepto da violência com mulheres, mas para proteger minha esposa, se eu tiver que usar de força bruta...
Respirei fundo, apontei a mira e ao disparar, errei meu alvo por questão de segundos. Logo Bridget se virou para minha direção e disparou contra mim. Começamos uma pequena troca de tiros e, neste meio tempo, %Alice% se abaixou; ao tentar desamarrar sua amiga, Lola foi acertada propositalmente por Bridget.
— Vamos parar com o jogo. — ouvi ao longe.
A assassina pegou minha esposa como escudo e engatilhou a arma em sua cabeça.
— Eu só vou dizer uma vez, %Nate%, saia de onde está e jogue sua arma. — ordenou ela. — eu não sou como Hugh.
Sim, ela era mais perigosa e cruel em suas mortes. Assenti ao seu comando e me revelei com as mãos erguidas em rendição, jogando a arma para perto dela.
— Ter certeza de que quer fazer isso? — perguntei a ela, me aproximando mais de ambas.
— Amigos, amigos, negócios à parte. — disse ela.
Voltei meu olhar para %Alice%, em um instante de distração de Bridget, pisquei para minha esposa. %Alice% pisou no pé e deu uma cabeçada nela, tonteando um pouco, correu para meus braços. Envolvi minha esposa, a protegendo ao ouvir o primeiro tiro. Corremos para o balcão e nos abaixamos, mais alguns disparos soaram até que percebi sua arma silenciar. Sua arma descarregada foi a deixa para que eu me aproximasse dela e tentasse desarmá-la. Bridget tentou me acertar com alguns golpes de soco, entretanto, consegui me defender, quando seu olhar se voltou para minha arma no chão, percebi suas intenções.
Bridget lançou sua perna esquerda me acertando e se levantou primeiro, mais que depressa eu me levantei para impedi-la. Lutamos pela arma com muita insistência de ambas as partes até que um disparo soou entre nós.
— %Nate%! — a voz de %Alice% soou ao longe.
Senti um frio passar por meu corpo e meu coração acelerar. Em instantes o corpo de Bridget caiu diante de mim.
— %Nate%?! — %Alice% se aproximou em desespero, me abraçando forte.
Foi neste momento que senti uma ponta de dor no ombro direito.
— Ai. — reclamei em sussurro, então ela se afastou de leve.
— O que foi?! — %Aly% percorreu seus olhos por mim e abrindo um pouco minha jaqueta, vi a mancha de sangue na blusa.
Certamente fruto do primeiro disparo de Bridget contra nós, não tinha sentido na hora pela adrenalina, mas naquele momento a dor começava a dar sinais em meu ombro.
— Está tudo bem. — assegurei a ela. — Eu vou ficar bem.
— Tem certeza? — seu olhar se mostrou amedrontado.
— Sim, eu prometo. — garanti, lhe dando um selinho rápido.
Então, retirei o celular do bolso e liguei para a equipe de limpeza. Minutos depois, Steve apareceu com seus homens para os procedimentos devidos e deixar o lugar organizado novamente. Guiei minha esposa até o carro e voltamos ao Continental. %Alice% se manteve em silêncio, pois ainda estava em choque com tudo que havia ocorrido e pela perda de sua amiga.
Assim que descemos do carro, outra surpresa veio quando cinco colegas de profissão nos abordaram em frente ao hotel. Eu já estava cansado pelos últimos ocorridos e agora teria mais isso.
— Boa noite, Wick. — cumprimentou Kim.
— Boa noite, senhores. — disse num tom frio e firme. — Algum problema?
— Acho que não poderemos deixar sua esposa entrar. — continuou Kim.
— Não estamos no Continental, foi seu erro deixá-la sair. — completou Moose, mostrando sua arma na mão esquerda, por ser canhoto.
— Vocês, realmente... — eu ri um pouco, me colocando na frente de %Alice% e fazendo nossos corpos recuarem para perto do hotel.
— Boa noite senhores, temos algum problema aqui na frente do meu hotel? — perguntou Fox.
— Estes senhores estão dizendo que minha esposa não está no Continental. — aleguei a ele.
— Bem, pelo que sei, a senhora Wick está localizada na escadaria do Continental de Chicago que pertence ao hotel, portanto, ela está no Continental e sob a proteção do mesmo. — assegurou Fox ao segurar de leve no braço de %Alice% a puxando para perto dele — Mais alguma dúvida, senhores?
— Eu tenho. — voltei meu olhar para Fox. — Eu estou no seu hotel?
— Não, %Nathaniel%. — respondeu ele.
— E estes senhores estão? — continuei.
— Não, %Nathaniel%. — mais uma vez.
Ao final de sua resposta, em um piscar de olhos e sem deixá-los reagir, cinco disparos foram feitos com precisão de minha arma.
— Obrigado, senhor Fox. — segurei a mão de minha esposa e me voltei para entrar no hotel. — Coloque o serviço de limpeza em minha conta.
— Como desejar. — assentiu ele.
Estava tudo parcialmente resolvido. Só faltava um último detalhe, fazer o tigre cair. Eu liguei para Hill e pedi que marcasse um jantar com o senhor Height; relutante, dentro de mim seria melhor enfrentar rei de Copas de uma vez. Assim que o encontro foi confirmado, nos reunimos no restaurante do Continental de Chicago. O olhar de surpresa de Lauren para minha esposa foi impagável.
— Senhor Godric, muito obrigado por ter aceitado meu convite. — nos sentamos à mesa com eles.
— Eu que agradeço e estou muito curioso para saber o motivo. — comentou ele. — E para saber quem é esta jovem bonita ao seu lado.
Eu sorri de canto e olhei para %Alice%. Hill tinha pesquisado sobre o passado de minha esposa, sobre sua mãe e a relação que tinha com Godric. Eu não apresentaria ela se soubesse que teria algum perigo.
— Gostaria de te apresentar minha esposa, %Alice% Miller, filha de Meredith Miller, acho que se lembra da mãe da sua filha. — disse em alto e bom tom.
Consegui perceber naquele instante o olhar desesperado de Lauren por minhas palavras. Um leve sorriso de canto transbordando deboche surgiu em meu rosto.
O jogo estava apenas começando para mim.
"You can call me monster."
- Monster / EXO
Fim