Capítulo 10
Naquela manhã Phoebe desejou que a mesma água que limpava seu rosto também pudesse limpar as lembranças da noite anterior. Droga, por que ela tinha ficado tão mexida com um beijo roubado? E o mais importante? Por que ela teve aquele impulso? O pior era que, bem no fundo, ela sabia muito bem a resposta. Ela não conseguia esconder de si mesmos o que o vice-diretor Justin Bieber havia despertado em seu coração. Era algo novo, ao mesmo tempo assustador e empolgante. Por muito tempo, o maior sonho de Phoebe foi se tornar uma dançarina profissional, essa mudança guiava sua vida, os treinos dobrados, as noites em claro costurando a sapatilha para que não fosse preciso comprar uma nova. Abrindo mão dos melhores anos de sua juventude, tendo em Chery sua única amiga e nos clientes da lanchonete seu único vestígio de vida social. Agora, quando finalmente estava vivendo o sonho de estrelar um espetáculo profissional, sentia seu coração vibrar em busca de algo mais, algo que não tinha nada a ver com ballet, mas sim com seu coração.
Desde a perda da mãe, Phoebe havia se tornado pé no chão, enxergando a vida somente como um lugar onde você precisava trabalhar duro para ter o mínimo de felicidade e realização. Então, por que aquele maldito beijo na bochecha de Max a havia feito se sentir mais viva e realizada do que nunca? Seria possível que a felicidade estivesse disponível a ela assim de forma tão fácil? Contrariando tudo em que vinha acreditando até aquele momento?
Bom, não era de forma assim tão simples, afinal havia tantos problemas que a impediam de sequer pensar na possibilidade de um relacionamento romântico com o vice-diretor Justin Bieber. Primeiro havia o regimento da escola, que proibia qualquer tipo de relação entre funcionários. Mesmo estando lá somente até conseguir o dinheiro necessário para se manter na Rússia, a garota de fios marrons não se sentiria bem quebrando uma regra tão clara e tão importante, até porque Chery a havia indicado e se por um acaso suas ações gerassem consequências negativas para sua única amiga, ela jamais se perdoaria. Segundo, havia sua identidade secreta “Rose”, um nome tão simples como o da flor, o primeiro a vir em sua mente ao ser interrogado pela irmãzinha de Max e o mesmo que usou durante a conversa com o jovem educador já fora do teatro. Por mais que no fundo de seu coração ela desejasse que o garoto com cabelos de pop star, se encantasse pela Phoebe professora de economia doméstica que trabalhava com roupas simples e não um lindo figurino branco cheio de brilhantes, esse sonho parecia cada vez mais distante.
Quando ele a observou dançar naquela noite em que limpavam juntos os corredores da escola, uma faísca de esperança havia se acendido em seu peito, porém, depois da noite anterior, a mesma se apagou de forma definitiva. Não havia como ele estar tão encantado por Rose, uma dançarina confiante e charmosa, e sentir algum tipo de atração por Phoebe, a professora desajeitada e reclamona. Dessa forma, só restava tratar a noite anterior como uma fantasia tola que não fazia parte de seu mundo real. Até porque, com a rejeição, ela duvidava que o vice-diretor Justin Bieber a procurasse de novo. Assim esperava. Ou melhor, era o que precisava acontecer para o bem de todos, mesmo que seu coração clamasse pelo exato oposto…
Durante a tarde, Phoebe deu suas aulas tentando manter a mente afastada de tudo. Os alunos eram divertidos e educados, o que tornava tudo mais fácil. Sua vida parecia estar entrando novamente nos eixos até aquele fatídico momento, o forno da sala havia pifado e ainda havia uma aula a ser dada com seu uso.
— É sério? — indagou para si mesma, enquanto limpava as mãos engorduradas no avental. — Bom, se você acha que vai me vencer, fogão, está muito enganado, eu sou Phoebe Thunderman, já consertei vários como você em horário de pico, isso aqui não é nada. Certo vamos lá.
Ela esticou os braços antes de começar o trabalho. O fogão usado pela escola, todavia era bem mais complexo do que o da lanchonete de Hank, havia vários botões diferentes cujas funções ela estava longe de conhecer.
— Droga, mas não é isso que vai me parar, vamos dar uma olhada…
Uma voz masculina conhecida, no entanto, a fez desviar o olhar do equipamento.
— Precisa de ajuda? — O vice-diretor Justin Bieber se encontrava na porta da sala e seu pedido parecia sincero.
Ótimo, como se já não bastasse o problema do forno, agora ela teria que lidar também com seu maldito coração acelerado.
— Não, imagina, eu tenho bastante experiência com esse tipo de problema. Está tudo certo. — Ela voltou mais que depressa sua atenção ao eletrodoméstico, a fim de não correr o risco de ser hipnotizada mais uma vez por aqueles malditos olhos brilhantes.
— Tem certeza? — Max insistiu, parecendo realmente interessado.
— Tenho, pode voltar para os seus afazeres e…
A fala de Phoebe foi interrompida por um barulho de explosão vindo do aparelho à sua frente.
— O que foi isso? — Ela saltou para trás como que por instinto.
Sem perder tempo indagando novamente se a garota teimosa de cabelos perfeitos precisava de ajuda, Max correu até ela e começou a mexer no fogão.
Phoebe engoliu seco tentando controlar suas reações. Por sorte, Max estava concentrado demais para perceber o quanto sua presença a deixava nervosa.
— Você sabe consertar fogões? — A garota não conteve a curiosidade.
— Claro — Max começou sem se desconcentrar nem por um segundo. — A escola nunca teve interesse em contratar um faz-tudo e não é a primeira vez que isso acontece.
— Mas você é o vice-diretor…
— Quando se trabalha em equipe, não podemos nos apegar a títulos.
A fala arrancou um sorriso sincero de Phoebe, Max realmente era do tipo trabalhador e pé no chão, assim como ela. E pensar que o havia chamado de “filhinho de papai” no primeiro dia, antes mesmo de conhecê-lo… Além de ofender sua solução para uma crise emergencial. Agora lá estava ele fazendo de tudo para ajudá-la sem pensar duas vezes. Sua atitude altruísta era admirável e o fazia parecer ainda mais atraente a seus olhos. Droga.
— Muito bem, acho que consegui, só preciso puxar e tudo certo!
— Ótimo, então já está consertado! — Em um impulso, Phoebe colocou uma das mãos em cima do aparelho.
Max, percebendo o gesto, gritou:
Porém, era tarde demais, a mão de Phoebe já estava queimada.
— Droga! — Ela não se preocupou em disfarçar a dor.
No mesmo instante, Max se aproximou com um olhar de preocupação.
— Vamos pra enfermaria. Eu vou fazer um curativo
Phoebe sentiu seu coração bater forte com a ideia de sentir novamente o toque das mãos de Max nas suas. Ela não tinha dúvidas de que a dor cessaria no mesmo instante, contudo era muito arriscado.
— Como não? Olha, você se queimou, se não fizermos um curativo agora, pode piorar.
— Imagina. Eu trabalho em uma lanchonete, isso já aconteceu várias vezes — explicou, tentando convencê-lo, mas sem sucesso, visto que o vice-diretor Justin Bieber continuou insistindo:
— Mesmo assim, vamos olhar isso, não seja teimosa.
A voz de Max soou tão firme que era impossível contrariar. Assim, Phoebe fez que sim com a cabeça e o seguiu até a enfermaria.
Phoebe se sentou na cadeira, enquanto Max procurava o kit de primeiros socorros. Segundos depois, já com a maleta em mãos, ele começou a enrolar a fita sobre a queimadura.
Phoebe o encarava com admiração.
— Quer dizer que além de consertar fogões você também sabe fazer curativos?
Max não tirou os olhos do ferimento, enquanto respondia:
— Bom, eu tenho uma irmã caçula bem travessa, então tive que aprender… — A bailarina sorriu ao se lembrar da pré-adolescente atrevida que havia envergonhado o irmão em seu camarim na noite anterior.
— Sim, deu para perceber — Phoebe soltou de forma automática e só se deu conta do erro quando os olhos brilhantes de Max a encararam surpresos.
— Você conhece a minha irmãzinha?
Phoebe engoliu seco, enquanto seu cérebro tentava criar uma resposta convincente.
— Não… — começou, sua voz saiu trêmula. — Mas para você conseguir fazer um curativo tão bem feito e tão rápido, eu posso imaginar. — Ela exibiu a mão agora já enfaixada, torcendo para que o elogio tivesse sido suficiente para afastar qualquer suspeita da mente do jovem educador.
Max, por sua vez, abriu um sorriso sincero, enquanto sentia suas bochechas se avermelharem em questão de segundos. A professora de Economia Doméstica tinha o seu chame, aquele sorriso meigo, olhos expressivos. De alguma forma o vice-diretor já os tinha visto em algum lugar, mas não sabia dizer onde… Se pelo menos ele imaginasse…
— Imagina, nem ficou tão bom…
— Mas foi o bastante. Obrigada… — Ela se levantou.
— Imagina, não fiz mais do que a minha obrigação! — o garoto se justificou, tentando acreditar nas próprias palavras, mesmo sabendo que era inútil, pois no fundo ele sabia muito bem que, enquanto Phoebe estivesse ali, ele a trataria de forma especial… De toda forma, era preciso evitar qualquer tipo de suspeita acerca de segundas intenções, então ele completou: — Quer dizer, você se machucou em um ambiente de trabalho, e como vice-diretor e o único presente no momento do ocorrido, era meu dever prestar o socorro.
Phoebe sentiu seus lábios murcharem, enquanto sentia qualquer expectativa que tivesse sobre os sentimentos do vice-diretor Justin Bieber desaparecer.
— Claro… Agora eu já vou indo, porque ainda tem outra aula para dar, afinal era para isso que eu estava arrumando o fogão. — Phoebe caminhou para a porta
— Quem? — Max indagou, imaginando se a jovem professora por algum motivo sabia sobre seu interesse na bailarina misteriosa. Contudo, para seu alívio, ela respondeu:
Max sorriu, ele sempre tentava dar o seu melhor a fim de suprir a ausência do pai. Mesmo assim, às vezes parecia nunca ser o suficiente. Era bom escutar que alguém reconhecia seu esforço. Ele não podia negar que de certa forma se sentia atraído por Phoebe, ela parecia inteligente, determinada e sem medo de dizer o que pensava. Ele riu ao se lembrar de quando a pegou criticando seu plano de colocar os professores na faxina. Se as circunstâncias fossem diferentes… ele com certeza gostaria de conhecê-la melhor, contudo, havia a maldita regra de conduta da escola que não permitia relacionamentos entre funcionário, mesmo sendo o vice-diretor, ele não tinha poder para mudar o decreto. Além do mais, havia Rose, a dançarina hipnotizante de olhos verdes… se o plano de Chloe desse certo, talvez ele tivesse uma chance.
Depois das aulas Phoebe correu para casa a fim de se arrumar para o segundo dia de espetáculo. Dessa vez ela esperava não ter nenhuma surpresa. Ela sorriu, enquanto passava os dedos pelo curativo feito por Max. Como ela havia se enganado sobre o vice-diretor Justin Bieber, ele havia sido tão gentil, porém deixou claro que teria essa atitude se visse qualquer professor ferido em sua frente. Ela não poderia culpá-lo… Era hora de aceitar que ela e o jovem educador nunca teriam nenhuma chance de dar certo. Não importa se seu nome fosse Phoebe ou Rose… até porque ela havia recusado o convite… O arrependimento muitas vezes batia em seu peito e a curiosidade a fazia imaginar inúmeros cenários. Para onde ele a levaria? Seria cavalheiro? De toda forma, essas ideias ficariam apenas em sua imaginação. Afinal, o vice-diretor Justin Phoebe não voltaria mais ao teatro. Dessa forma, a garota tratou de deixar os pensamentos intrusos de lado e se concentrar em seu sonho.
O espetáculo foi perfeito. Phoebe acertou todos os passos e foi aplaudida de pé. Em alguns momentos ela se permitiu olhar para a plateia, a ausência dele lhe causava um misto de alívio e tristeza.
No camarim, ela renovou o coque e se sentou à espera dos primeiros espectadores VIPs que viriam cumprimentá-la. Dessa vez, só desconhecidos preencheram seu tempo com elogios e pedidos de fotos. Tudo parecia ter entrado nos eixos como deveria ser, até o momento em que, ao pendurar a máscara, ela se deparou com uma rosa vermelha atrás da porta acompanhada de um bilhete.