CAPÍTULO TRÊS
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Bucareste
A cabeça de James Buchanan Barnes doía feito o inferno. Desde o momento em que a claridade o atingiu, uma pontada surgiu em protesto e resolveu lhe fazer companhia mais uma vez. Aquilo afetava diretamente seu humor, porém ele sabia muito bem pelo que estava sendo punido. Com certeza o motivo era o homem não ter dormido quase nada naquela noite, ou na noite anterior, e muito menos na seguinte.
O fato era que Bucky não lembrava da última vez que havia realmente conseguido fechar os olhos. Primeiro, porque temia não acordar como ele mesmo, e, segundo, porque o colchão do pequeno apartamento onde se abrigava era macio demais, por mais fino que fosse. Suas costas protestavam, James bufava de frustração e passava o resto da noite rolando de um lado para o outro, até desistir e iniciar mais um dia.
Não havia como negar, Barnes estava frustrado, assustado e paranoico, imaginando que a qualquer momento agentes o cercariam para começar mais uma vez seu inferno particular. A mistura de sentimentos não tornava nada fácil a tarefa de manter qualquer outra expressão que não fosse séria e contida em seu rosto, o que contrariava totalmente seus planos de ser mais agradável e quem sabe se estabelecer em algum lugar simplesmente porque Bucky estava cansado de fugir.
A quem ele queria enganar? Desde a primeira vez em que foi capturado pela HYDRA, James nunca mais teria descanso. Cada passo dado por ele era uma batalha, fosse por sua própria sobrevivência, ou para não ceder àquela coisa que tentava lhe consumir a cada segundo.
Bucky travava uma luta árdua pelo controle contra um pedaço seu forte demais, frio e implacável. Uma luta da qual ele sabia que, no fim das contas, não teria escapatória, mas ainda assim insistia, sempre buscando toda a força que existia em seu ser.
Era uma pena ter que se mudar em breve de Bucareste. Das cidades pelas quais já havia passado, aquela foi uma das mais tranquilas até então, porém não podia arriscar e, por esse motivo, nunca se permitia ficar à vontade onde se instalava.
Envolvido em tudo aquilo, Barnes já havia perdido a noção do tempo e por quantos lugares acabou passando, evitando ser encontrado por qualquer um. Não era seguro deixar que se aproximassem dele e tampouco queria aquilo. Não confiava em ninguém e menos ainda em si mesmo.
Toda vez que Bucky tentava entender algo sobre quem era, sua cabeça doía ainda mais e seu corpo se retesava, como se estivesse pronto para as consequências de qualquer lembrança que surgisse.
Mais uma vez, Barnes sabia bem o motivo por se sentir daquela forma, afinal, também perdeu as contas de quantas vezes a HYDRA o torturou com aqueles malditos eletrochoques e carregou consigo cada resquício de sua consciência.
James chegou a um ponto em que desejou várias vezes simplesmente não voltar mais, deixar o Soldado Invernal ficar totalmente no controle, porém, toda vez que aquilo acontecia, duas coisas o puxavam como um lembrete de que ainda havia pelo que lutar.
A primeira era a imagem de um homem, que lhe trazia uma sensação de irmandade, de lar.
A outra era um nome, que carregava uma mistura de sentimentos que Bucky não conseguia definir.
O nome era %Maeve%.
Era loucura repetir o nome de alguém mentalmente mesmo sem conseguir lembrar o rosto a quem pertencia, no entanto, Barnes sabia que sua cabeça era ferrada demais para qualquer coisa, então não se surpreendia.
Não sabia dizer qual dos dois veio primeiro, porém tinha certeza de que tudo aumentou quando uma base da HYDRA foi invadida e também quando James teve seu primeiro embate com um de seus alvos.
Droga, estava realmente cansado de cogitar as coisas e temer o próprio sono. Precisava entender quem exatamente era, arrumar a bagunça dentro de si e descobrir por que aqueles dois eventos haviam o afetado daquele jeito antes de qualquer outra coisa.
Sua intuição apontava para começar pelo homem, pela sensação de familiaridade trazida em todas as vezes que o encontrou. E a insistência dele em fazer Bucky lembrar de qualquer coisa que fosse só evidenciava ainda mais onde as respostas provavelmente estariam.
Steve Rogers, o queridinho da América, ou melhor, o cara conhecido como Capitão América.
Inimigo número um da HYDRA.
E, pelo que havia descoberto, seu melhor amigo.
✪
Era difícil para Barnes se concentrar no que poderiam ser lembranças enquanto o sangue de suas vítimas escorria por entre seus dedos. A cada flash, gritos ecoavam em seus ouvidos, perturbavam sua mente e o faziam se encolher feito uma bola e ter a constante sensação de que se não estivesse em movimento, tudo o que havia feito voltaria para assombrá-lo. Era como um maldito looping o torturando sempre que encontrava uma brecha.
Naquela noite não foi diferente.
Um Steve magrelo aparecia comprando alguma briga com alguém forte demais para ele e Bucky precisava apartar, tentando não demonstrar ao melhor amigo a preocupação que tomava conta de si só de imaginar que o deixaria ali, à mercê de outras situações como aquela. O Sargento Barnes tinha um dever com sua nação, não podia voltar atrás e, honestamente, só havia cogitado a ideia naquele momento, temendo o que poderia acontecer a Rogers enquanto ele estivesse fora e…
Um lampejo vermelho mudou o rumo que sua mente tomava. Aquela dor excruciante estava de volta, seguida por aquelas palavras malditas e tudo o que o homem desejou foi poder cobrir as orelhas e conseguir abafar aquela voz ordenando ao Soldado Invernal que assumisse o controle.
No entanto, não importava o quanto tentava resistir, ele sempre era mais forte.
De repente, a noite escura era tudo o que os olhos de James viam, o vento batia contra seu rosto, jogava seus cabelos para trás, enquanto seu destino estava perfeitamente calculado. Não descansaria enquanto não cumprisse sua nova missão.
A violência tomava conta das próximas imagens. Violência proveniente de seus próprios punhos, das armas de fogo que carregava consigo, ou das facas que habilmente seu braço biônico atirava sem nunca errar o alvo. Não sabia qual era a pior parte. Se eram os gritos que ecoavam e pediam por misericórdia, ou se era o sangue que manchava tudo ao seu redor e trazia mais lampejos vermelhos que ele não conseguia apagar nem mesmo ao fechar os olhos.
Acordava com o corpo pingando suor, as mãos trêmulas e o maldito gosto do sangue na boca. Alguma coisa dentro de James alertava que um dia não aguentaria mais passar por aquilo, no entanto, sabia que era preciso. Se ele quisesse lembrar de tudo, tinha que suportar as consequências de toda a destruição e sofrimento que causou.
Resistindo o máximo que podia,, aos poucos, as lembranças boas foram marcando mais sua presença e prevaleciam com o passar dos dias. Barnes suspeitava que a maior contribuição daquilo vinha das suas visitas frequentes aos paineis de museus e arquivos históricos que contavam a história do Capitão América e, bem, a dele.
James Buchanan Barnes. O braço direito de Steve Rogers, a quem o Capitão foi até o inferno para resgatar. O homem que havia lutado ao lado de Rogers e no fim sacrificado sua vida à causa pela qual ambos lutavam. Uma incansável guerra contra a maldita HYDRA.
Como ele queria fazer cada um deles pagar por terem roubado sua vida.
Os olhos de Bucky se estreitavam diante das placas e dos livros, enquanto as palavras saltavam e praticamente dançavam ao seu redor, executando uma coreografia sincronizada com o seu próprio rosto reproduzido naquelas imagens. O suspiro de sempre ecoava dos lábios dele quando decidia dar a pesquisa do dia por encerrada, e Barnes guardava consigo os cadernos, onde fazia questão de tomar nota de tudo. Temia sofrer outras lavagens cerebrais e poderia usá-los sempre que as coisas ficassem confusas.
A mesma rotina se repetia até já não ser mais seguro para James permanecer ali e ele precisar mudar de cidade, então todo o processo reiniciava.
Como odiava aquilo.
Se perguntou se algum dia seria capaz de se estabelecer em um lugar sem precisar mais fugir e começar tudo de novo.
Com uma risada amarga, já sabia bem qual era a resposta.
Ele nunca teria descanso, afinal, James Barnes sempre seria o Soldado Invernal.
✪
Bufando baixo, frustrado com os próprios pensamentos, Bucky ajeitou o boné sobre a cabeça e torceu para que fosse o suficiente para esconder sua identidade, por mais que aquele acessório contribuísse em aumentar sua dor de cabeça. O casaco grosso e as luvas o protegiam do frio, e ao mesmo tempo cumpriam seu papel de esconder o braço de metal. A todo momento, Barnes conferia se nenhuma parte ficava à mostra, e a maior verdade naquilo tudo era que se envergonhava daquele braço. Era a marca de todas as mortes que carregava e a lembrança constante de que jamais seria aquele Bucky do passado novamente.
James iniciou uma caminhada, como vinha fazendo em todas as manhãs. O ar fresco lhe trazia uma certa calmaria e aquela era uma forma de se acostumar a conviver com outras pessoas, quem sabe até mesmo interagir com elas. Ainda era difícil para ele, principalmente se fosse manter algum contato visual com qualquer um, porém precisava tentar, e a cada dia mais um passo era dado, o que lhe trazia um certo conforto.
Ao parar diante de uma banca de frutas, Bucky demorou seu olhar em algumas ameixas e lembrou de uma matéria em um programa de televisão qualquer que falava sobre aquelas frutas em especial e em suas propriedades benéficas para pessoas que possuíam Alzheimer ou sofreram perda de memória.
Um meio sorriso irônico se formou em suas feições. Todos aqueles anos o tornaram cético quanto a várias coisas, a ciência em si o deixava extremamente desconfiado, porém não custava tentar, não é? Sem falar que comer frutas também era mais saudável do que qualquer outra porcaria, então mesmo se a história da memória fosse pura balela, ao menos estaria criando hábitos melhores.
Quem sabe ele também começasse a correr no dia seguinte?
Decidido a tentar e até se sentindo um tanto animado com a ideia, James começou a escolher algumas ameixas para levar até o pequeno apartamento onde estava em Bucareste. Não lembrava se já havia comido aquilo antes, era bem provável que sim, porém ele não lembrava de várias outras coisas e, pela aparência da fruta, imaginou que iria gostar.
Trocou algumas palavras rápidas com o dono da banca e sorrir para alguém era estranho, os músculos de seu rosto definitivamente não estavam acostumados com aquilo, porém, ao mesmo tempo, era aliviador. Trazia uma certa paz… normalidade. No entanto, de certa forma, Bucky já sabia que aquilo não duraria muito.
A paz não era algo para ele.
James sentiu que alguma coisa estava errada quando um incômodo em sua nuca denunciou que era observado. Normalmente, as pessoas faziam aquilo mesmo, porém, de alguma forma, ele soube que daquela vez era diferente.
Ao puxar o ar com uma expressão resignada, Barnes se virou da forma mais discreta possível, afinal, não era sua intenção assustar ninguém. Porém, imediatamente deu de encontro com o olhar apavorado do dono da banca de jornais, onde também costumava ir todos os dias. As pupilas dilatadas do homem oscilavam entre o seu rosto e algo posto sobre a bancada.
James não conseguiu evitar que seu cenho se franzisse, enquanto já imaginava do que aquilo se tratava, e quando fez menção de ir até a banca, no entanto, o senhor de meia idade saiu correndo como se sua vida dependesse daquilo, lançando alguns olhares para trás como se esperasse uma perseguição.
Então Bucky teve a confirmação de que havia mesmo algo errado.
Poucos passos o aproximaram do local e assim que puxou o exemplar de um jornal e seus olhos bateram na manchete da capa, não lhe restaram dúvidas quanto ao que estava acontecendo.
Havia ocorrido um atentado em Viena e causado a morte de várias pessoas reunidas em uma conferência da ONU, incluindo o rei de Wakanda. Aquela notícia em si já era terrível, porém o pior estava estampado em uma foto que ocupava quase metade da folha.
Ele havia sido filmado em um veículo próximo ao local. O mesmo veículo que explodiu minutos depois.
Merda.
Mas que porra estava acontecendo?
Obviamente, não havia sido Bucky, afinal, ele estava na Romênia, então alguém estava se passando por ele. Seu intuito era incriminá-lo, não havia outra explicação.
Porra… Barnes sequer havia passado por Viena!
Ser reconhecido por aquele homem era a última coisa que precisava e, ao pensar nisso, o sargento entendeu que havia, sim, uma outra explicação.
O objetivo daquele desgraçado era expor Bucky. Revelar exatamente onde estava, já que a repercussão daquilo deixaria todos em alerta e faria o mundo todo procurar por ele.
Talvez não houvesse uma escapatória daquela vez, porém James não deixaria de tentar. Não sabia quanto tempo tinha, mas precisava dar o fora daquela cidade e agir rápido era crucial, não podia desperdiçar um segundo sequer cogitando as coisas.
Disparou pelas ruas sem aquela preocupação em assustar alguém ou ser reconhecido, e, enquanto corria, tentava espantar qualquer pensamento que pudesse atrapalhá-lo ao voltar para o lugar que durante algumas semanas chamou de lar. Havia coisas ali que precisava buscar, seus cadernos com todas aquelas anotações cruciais feitas em prol de sua memória, entre outros itens pessoais.
A euforia em fugir logo dali se dissipou quando James escutou passos dentro de seu apartamento e deu lugar ao desespero.
Pôde jurar que naquele momento seu coração parou.
Era tarde demais, haviam o alcançado antes mesmo que tivesse alguma chance.
No entanto, algo lhe dizia para avançar, tentar ao menos resgatar seus cadernos, e, por isso, Barnes se esquivou da forma mais silenciosa possível ao analisar quem seria o invasor e acabou por não se surpreender ao dar de cara com Steve Rogers. De alguma forma, havia sentido que o encontraria e isso o inclinava a acreditar em tudo que havia visto a respeito da ligação dividida com ele.
Saber que o capitão estava procurando por ele, talvez desde o último encontro que tiveram, trazia uma espécie estranha de conforto, Bucky não poderia negar, e essa sensação era mais forte do que qualquer desconfiança, porém realmente não podia perder tempo tentando entender os motivos de Steve estar ali ou buscando qualquer memória que fosse.
Rogers segurava um dos cadernos de Barnes aberto em mãos, analisava o conteúdo com cuidado, lia os fragmentos de memórias anotados ali e respondia alguém através do comunicador. James permaneceu o observando até o capitão se dar conta de sua presença e então se virar devagar para o encarar de forma minuciosa, enquanto tentava decifrar se falava com Bucky ou com o Soldado Invernal.
— Você me conhece? — Rogers tentou disfarçar com um olhar sério, porém a esperança conseguia ser detectada em suas feições.
— Você é o Steve. — James sentiu que devia falar a verdade e assim o fez, sem desviar o olhar do loiro à sua frente. — Eu li sobre você em um museu.
Não era apenas aquilo. A certeza de quem o Capitão era estava impregnada em seus pensamentos, e, por isso, Bucky precisou desviar o olhar por breves segundos, torcendo para que o outro não percebesse, sem exatamente entender o porquê.
— Eles estão cercando o perímetro. — A voz de Sam Wilson ecoou pelo comunicador de Steve, e Barnes sabia que já não teria mais tempo algum para discutir qualquer coisa. Olhou para a janela e planejou se jogar por ela, porque sabia que não se machucaria muito ao aterrissar.
Ainda assim, Rogers deu um passo na direção dele.
— Olha, eu sei que você está nervoso, Bucky. E tem vários motivos para estar. Mas também sei quando está mentindo.
James engoliu a seco com aquilo, uma parte sua já sabia daquela informação, e, de repente, ele se praguejou mentalmente por estar dando aquela abertura ao homem.
Por mais que desejasse resgatar suas memórias, Bucky era instável e estava sendo perseguido. Não era seguro para Steve estar com ele. Tinha que sair dali o mais rápido possível e dar um jeito de se livrar do Capitão América ao mesmo tempo.
— Eu não estava em Viena. Não faço mais essas coisas. — Mais uma vez, não entendeu o motivo, porém as palavras escaparam de seus lábios antes que pudesse refreá-las.
— Estão entrando no prédio — Wilson tornou a falar para Rogers, em tom mais urgente, no entanto, o loiro continuou focado em seu amigo.
Era nítida a confusão nas feições de Bucky. Ele precisava ajudá-lo, jamais o abandonaria, tinha prometido aquilo.
— Bom, as pessoas que acreditam que foi você estão a caminho e não planejam te manter vivo. — Steve odiou ter que dizer aquilo, mas era necessário, e ele queria que James soubesse que não estava mais sozinho.
— Bem pensado. Eu não me manteria vivo se fosse eles também. — Barnes foi sincero mais uma vez e tentou esconder o quanto ouvir aquilo o abalava.. — Boa estratégia. — Engoliu em seco.
Suas mãos trêmulas talvez o denunciavam, mas estava impossível controlá-las e, de qualquer forma, não importava naquele momento. Seu foco precisava ser dar o fora daquele prédio, então passou a de fato tentar se concentrar naquilo.
— Eles estão no telhado. Já me viram. — Sam se preparou para o que estava por vir, assim como o Capitão América, que se silenciou por alguns segundos, a fim de ouvir o que acontecia do lado de fora do apartamento.
Passos no corredor denunciaram o tempo se esgotando. Barnes olhou mais uma vez para a janela, mas, de alguma forma, sabia que o loiro tentaria segurá-lo no exato momento que saltasse.
Suspirou derrotado. Não teria escolha.
— Ouça, Bucky. Isso não precisa acabar em luta. — Steve atraiu sua atenção novamente, como se ouvisse seus pensamentos.
James fez uma careta, soltando o ar que havia puxado e caminhou em direção à porta ao notar os sons dos passos cada vez mais nítidos.
Então, resignado, começou a puxar os dedos das luvas para se livrar delas.
— Sempre acaba em luta — por fim, rosnou entre dentes, sabendo que a raiva estava nítida, simplesmente porque não conseguiu controlá-la. Era para ele estar bem longe dali, mas não estava.
Por que Steve Rogers tinha aquele efeito sobre ele?
— 5 segundos.
— Você me tirou do lago — Rogers acusou, e Barnes ergueu o olhar até ele, que precisou conter a expressão incrédula. — Por quê?
Bucky odiou aquilo ainda mais.
Era sério que o homem queria debater aquilo naquele momento? Eles estavam cercados, pelo amor de Deus!
— Eu não sei. — Se controlou para não bufar, porque sabia que as intenções do capitão eram boas, Steve só queria ajudá-lo.
E, na verdade, aquele era o problema. Ninguém podia ajudá-lo, não sem se comprometer com algo muito maior e arriscar a própria vida.
James não deixaria ninguém se sacrificar por ele.
— 3 segundos.
Honestamente, não sabia o que estava lhe tirando mais do sério, se era a contagem de Sam Wilson, ou os questionamentos de Steve.
— Sabe, sim — Rogers insistiu, se aproximou mais e o encarou de uma forma que trouxe mais um lampejo em sua memória.
“Porque eu estarei com você até o fim”.
Ou talvez fossem aquelas lembranças que surgiam nos momentos mais aleatórios e insistiam em confundir ainda mais seus pensamentos.
James não teve chance de responder.
Uma granada atravessou o vidro da janela, enquanto palavras foram gritadas no comunicador de Steve, mas dessa vez Bucky não conseguiu entender nada do que diziam, ou parar para pensar de fato no que havia acabado de ecoar em sua mente.
Imediatamente, Rogers se colocou diante de Barnes, usou o escudo para protegê-los e acertou a granada, que acabou por rebater em uma cadeira e voltar para sua direção.
Bucky arregalou os olhos quando a viu diante de seus pés, se abaixou rapidamente e, com o braço metálico, rolou aquilo para longe. Então, como se os dois tivessem ensaiado o tempo todo, Steve usou o escudo para cobri-la.
James levou cerca de três segundos para entender que aquilo se tratava de uma granada de fumaça, o suficiente para sentir estilhaços de vidro baterem contra seu rosto e ouvir o barulho de algo socar a porta atrás dele, numa tentativa quase bem sucedida de arrombá-la.
Tiros vieram em sua direção.
Sem parar para pensar direito sobre aquilo, ele pegou a primeira coisa que apareceu em sua frente para usar como proteção, então jogou de qualquer jeito e se esquivou até a mesa no centro do cômodo.
Dois segundos foram o suficiente para o braço metálico erguer o objeto e ele o jogou com toda a força na direção da porta, o que travou o corredor e impediu que conseguissem derrubá-la.
Mais estilhaços de vidro voaram, e dessa vez um policial se lançou em cima de Bucky.
Ele não lhe deu tempo. Socou seu rosto com toda a força e sabia que havia o nocauteado.
Outra sequência de tiros ricocheteou e parecia que aquilo vinha de todos os lados.
James empurrou outro corpo que se lançou contra ele e olhou para o lado. Steve se embolou com mais um policial e, em outro movimento quase ensaiado, o segurou para Bucky chutá-lo.
Ele avançou na direção do homem com a fúria nítida em meu rosto, então Rogers o segurou pelo braço metálico.
— Bucky, não. Você vai acabar matando alguém! — Não olhou direito para seu rosto, mas pôde jurar que a preocupação se estampou ali.
Barnes torceu seu braço de volta e reverteu o golpe contra ele, então o jogou no chão e lhe lançou uma careta incomodada.
— Eu não vou matar ninguém — o grunhido ecoou incerto de seus lábios, embora aquele fosse seu maior desejo. Daria tudo para não ter mais o sangue de ninguém em suas mãos.
Novamente, não teve tempo para pensar sobre mais nada, muito menos para responder aos questionamentos do Capitão.
Desferiu um soco contra o assoalho ao lado da cabeça de Steve, onde ironicamente havia escondido uma mochila com suprimentos e seus cadernos, então a pegou e jogou pela janela, como planejava fazer desde o momento em que encontrou Rogers em seu apartamento.
Para falar bem a verdade, Bucky já tinha pensado naquele tipo de fuga vários dias antes e sempre deixava tudo de forma estratégica, era o tipo de coisa que se aprendia sendo um fugitivo.
Os policiais, por fim, conseguiram arrombar a porta e, quando se deu conta, o escudo estava sobre Barnes outra vez, enquanto mais tiros eram disparados em sua direção.
De fato, não queriam tirá-lo de lá com vida.
Por intermináveis segundos, Steve Rogers se manteve firme ao protegê-lo, mas James não suportava aquilo.
Ninguém podia ajudá-lo, por que ele não entendia?
O empurrou e avançou com o braço biônico estendido e a palma da mão aberta na direção do policial. Os tiros ricochetearam ao atingi-lo, mas Bucky não se deixou abalar e chegou perto o suficiente para socá-lo com força.
Estavam cercados, o que significava que não importava quantos policiais eles derrubassem, vários outros surgiriam e aquela batalha, como qualquer outra que Barnes já lutou, parecia nunca ter fim.
Havia homens demais do lado da janela, o que significava que precisaria improvisar e sua melhor opção de fuga seria por um outro andar.
Bucky derrubou a porta e seguiu em direção às escadas, sem se importar com quantos precisaria esmurrar para conseguir chegar ao seu destino. Conseguia ver Steve o tempo todo ao seu lado, garantindo que nada o atingisse, e de novo aquilo o incomodou.
A oportunidade perfeita surgiu aos seus olhos quando Barnes se pendurou pelo corrimão das escadas e se lançou em um forte impulso, acertando a cara de mais um homem com um chute.
O rosto de James se contraiu em determinação, ele apressou o passo, enquanto corria em direção à janela e, sem ninguém para atrapalhá-lo daquela vez, conseguiu pular por ela e aterrissar na cobertura do prédio ao lado sem nenhuma dificuldade.
A mochila aguardava ali paciente e bastava pegá-la para dar o fora dali.
— Isso. — Não teve certeza se aquilo ecoou de seus lábios, ou se apenas pensou, mas não importava.
Bucky correu na direção do objeto e o pegou sem nem parar, porque precisava de outro impulso para pular para o próximo prédio. No entanto, antes mesmo que sequer tentasse, algo o atingiu com toda força nas costelas.
Devia saber que não seria tão simples.
O ar fugiu ligeiramente de seus pulmões e seu corpo foi lançado ao chão, porém ele conseguiu manter a mochila presa entre os dedos.
James tomou impulso para se levantar, então outro golpe o atingiu no peito e, quando olhou para cima, a sombra de uma silhueta tomou seu campo de visão.
Uma sensação engraçada na boca do estômago insinuou que ele sabia a quem pertencia.
— Ah, qual é. Achei que você fosse um desafio, bonitão. — Bucky franziu o cenho ao escutar aquela voz feminina, então %Maeve% %Hofstader% se aproximou e o agarrou pelo colarinho da camiseta.
Algo naquela voz lhe soava extremamente familiar, e uma tontura o atingiu ao constatar aquilo.
Barnes não era de trocar muitas palavras, mas ainda assim se viu sem fala, e %Eve% percebeu aquilo porque uma risadinha irônica escapou de seus lábios. Risada essa que fez algo nele se agitar outra vez.
— Patético, Barnes. Mas não posso deixar você desaparecer outra vez.
Ela o conhecia?
James recobrou os sentidos ao se irritar com aquilo. Por que ele tinha aquela sensação de que também a conhecia muito bem? Por que sua voz despertava nele o desejo desesperador de conseguir suas memórias de volta?
Não podia se distrair com aquilo e não iria.
Decidido a não dar mais ouvidos aos próprios pensamentos, desferiu um chute para afastá-la e tentou se esquivar para continuar fugindo, porém %Maeve% ignorou a dor que sentiu na lateral do quadril, onde foi atingida, e logo voltou a se aproximar.
Já havia convivido tanto com a agonia que nunca se deixava abalar sem lutar com todas as forças antes.
Bucky ficou um tanto surpreso pela agilidade dela, então aparou um soco que quase atingiu o lado de seu rosto e segurou a mão de %Maeve%, porém, mais uma vez, não a viu se abalar e, quando se deu conta, estava caído no chão novamente.
Segundos depois, a sombra de Rogers aterrissou bem ao seu lado e um segundo som deixou claro que aquilo não era tudo. Havia mais outra pessoa ali e não parecia ser o Falcão.
Ótimo. Tinha virado a droga de uma festa.
%Venus% não queria a interferência de Steve. A ideia de tê-lo ali, de ver que havia chegado antes dela e %Maeve%, fazia seu sangue ferver, e por isso a mulher não hesitou em avançar para cima dele assim que seus pés tocaram o chão.
Seu olhar ardia de raiva e Rogers sentiu seu queixo estalar quando um chute dela o acertou ali.
Com a força aplicada, um ser humano normal provavelmente teria caído, se não apagasse com o impacto. %Faulkner% era muito bem treinada, ele havia percebido aquilo em seus encontros anteriores.
Sem lhe dar tempo para pensar, %Venus% desferiu uma série de socos, os quais Steve conseguiu aparar, porém hesitou muito em revidar. Não queria machucá-la, sentia que não deveria, por mais que ela estivesse determinada àquilo.
— Revide, Rogers. Não seja covarde! — a mulher rosnou e aplicou um gancho de direita que o Capitão amparou, se aproximou um pouco mais do que o recomendado e sentiu a respiração furiosa dela vir de encontro ao seu rosto.
— Não vim aqui lutar com você hoje, %Venus%. Eu quero a mesma coisa que você. Tirar Bucky daqui em segurança.
Porém aquilo só a irritou mais, e %Vee% não deu trégua, se afastou, grunhiu irritada e voltou a atacá-lo.
— Pelo jeito, vou ter que apagar o queridinho da América então. — O comentário dela soou carregado de ironia, embora sua voz estivesse ofegante devido ao esforço da luta.
— É sério? Eu posso fazer isso o dia todo, querida, mas até gostaria de vê-la tentar. — Steve não tinha a intenção de soar debochado, porém as palavras dela haviam despertado aquilo nele.
Não conseguia entender por que %Venus% o odiava tanto e aquilo já estava o incomodando muito mais do que imaginava.
Barnes ainda tentava se desvencilhar de %Hofstader%.
Algo lhe disse que ela tinha um ponto fraco e se apoiava um pouco mais na perna esquerda. Não fazia ideia de como sabia daquilo, mas, no momento em que lhe aplicou uma rasteira, a mulher desabou ao seu lado e grunhiu alto, porque ainda não estava totalmente recuperada do tiro de dias atrás.
— Fala sério! — %Maeve% resmungou irritada, e foi a vez de Bucky deixar a sombra de um sorriso irônico se formar nos meus lábios.
— O quê? Não gosta de resistência? — rosnou de volta para ela, que bufou e, no instante seguinte, já estava em pé, pronta para bloqueá-lo.
Ele não se intimidou com aquilo e avançou em sua direção, bloqueou a maior parte dos golpes dela e tentou acertá-la para que o deixasse em paz.
%Venus% havia ficado ainda mais furiosa com a resposta de Steve e desferia os socos com cada vez mais gana, em uma agilidade impressionante, porém a forma como lutava era um tanto familiar a Rogers. Nat havia observado a mesma coisa, e aquilo só poderia significar que realmente %Faulkner% havia trabalhado para a SHIELD.
Por ter se perdido em pensamentos, o capitão se distraiu por tempo o suficiente para que a mulher o acertasse com um upper na costela e, se aproveitando da falta de fôlego dele, %Vee% o chutou na perna e fez Steve desabar no chão, para logo em seguida pisar em seu peito.
— Nem fodendo que vou ficar o dia todo lutando com você.
A forma como ela disse aquilo, o encarando daquele ângulo, despertou outras sensações em Rogers e ele precisou ignorar tudo para, em um movimento rápido, atingi-la na perna com o escudo, o que fez %Venus% despencar ao seu lado.
Uma lufada de ar bem ao lado do rosto de Bucky deixou claro que, por muito pouco, outro golpe de %Maeve% não o acertou, e ele acabou soltando o ar sonoramente em resposta.
Usou o braço biônico para aparar mais um e aproveitou uma pequena brecha para chutar uma das coxas dela, que gritou de dor enquanto desabava, sentindo que provavelmente seus pontos quase curados haviam se rasgado. Ao vê-la cair, Barnes encontrou a chance perfeita para virar na direção oposta e correr até a beirada do prédio, enquanto ignorava a vontade esquisita que sentiu de ir até a mulher para ajudá-la.
No entanto, pela milésima vez, Bucky foi interrompido ao ser atingido na cabeça, o que o fez rolar em direção ao chão. O golpe o deixou tonto, mas ele ignorou porque tinha plena consciência de que, por causa daquilo, sua mochila foi parar do lado oposto de onde se encontrava.
— Ah, pronto. E quem é o gatinho agora? — O grunhido de %Maeve% deixou claro que não havia sido ela, e James levou poucos segundos para detectar a presença de mais alguém ali.
Pelo menos daquela vez ele não teve sensação alguma de que conhecia aquela pessoa porque, quem quer que fosse, tinha sua identidade preservada pela roupa que cobria até seu rosto.
Era alguém que não estava nem um pouco disposto a conversar, pelo visto. No instante seguinte, avançou na direção de Bucky, e ele precisou desviar de garras afiadas que quase o acertaram no rosto.
Barnes tentou atingir um soco em seu estômago, porém o golpe foi aparado de imediato, e mais uma vez as garras vieram ao seu encontro.
Um vulto o lançou para longe dele, o que o fez arregalar os olhos um tanto admirado, embora %Maeve% tivesse feito aquilo com ele momentos antes.
— Se não vai responder, cai fora. Ele é meu.
Bucky teria rido daquilo, porém, de novo, ali estava a chance que precisava para fugir, e foi exatamente o que ele fez.
Se lançou pela lateral do prédio, usou o braço metálico para diminuir a velocidade e o impacto, escutou gritos e tinha certeza de que o seguiriam, porém Barnes evitou olhar para trás.
Quando seus pés atingiram o chão, voltou a correr determinado e seguiu pela avenida sem ter ideia de qual seria o seu rumo, desde que fosse para bem longe daquela confusão.
Ele conseguia sentir os carros passarem ao seu lado e tiros ricochetearem atrás de si, sem o atingirem por muito pouco. Apertou a mochila em um dos ombros e o som das sirenes se fez mais alto.
— Renda-se! — Uma voz que ele não conhecia ecoou em um alto-falante, mas Bucky ignorou completamente e pulou por cima de um carro.
Olhou por cima do ombro e notou a pessoa com a roupa de felino vindo determinada a alcançá-lo. Logo atrás, estava Steve, que lançou o escudo contra um carro, o fazendo parar para tirar o motorista de dentro dele e ocupar seu lugar.
Barnes não conseguiu evitar pensar que talvez o melhor fosse simplesmente se entregar, dado a quantidade de pessoas o perseguindo, porém ele não faria aquilo.
Então apressou o passo e constatou que havia mais carros da polícia se juntando à perseguição. Por hora, Rogers dava conta do felino, então ele focou no que poderia ajudá-lo em sua fuga.
Avançou em direção a um motoqueiro na pista e, num movimento rápido, arrancou o veículo do homem, pulou em cima da moto e seguiu na direção oposta, trocando de pista para atrasar seus adversários.
Aquilo, de fato, teria funcionado se o felino não desse um jeito de desviar de Steve e vir para cima dele.
Bufando irritado, Bucky puxou uma granada de um dos bolsos da mochila e a atirou em sua direção. Errou por pouco, mas a explosão bloqueou mais alguns carros.
Pisou o acelerador com mais determinação, então foi arrancado da motocicleta, e o impacto do asfalto o fez grunhir de raiva e dor.
Não havia tempo para levantar e lutar.
Bucky simplesmente continuou correndo. Notou Steve Rogers se lançar contra o felino para impedi-lo de o alcançar, enquanto Sam Wilson vinha ao seu encontro para tentar pará-lo.
A cada segundo, aparecia mais alguém. Que circo de horrores era aquele?
Barnes desviou do homem ao socá-lo com o braço biônico e de repente viu um fio de esperança de que conseguiria escapar.
No entanto, havia esquecido de %Faulkner% e %Hofstader%, e descobriu aquilo da pior forma.
%Venus% saltou de cima de um carro e aterrissou em posição de ataque, ergueu uma sobrancelha e inclinou o rosto como se desafiasse a quantidade absurda de agentes que foram parando ao redor deles.
Antes que Bucky reagisse ou pensasse no paradeiro de %Maeve%, percebeu o mesmo vulto felino avançar para cima dele e ser parado no ar quando um raio azulado o atingiu. Não foi o suficiente para deixar a pessoa agonizando, mas ao menos a atrasou.
Então a silhueta que lhe era absurdamente familiar se pôs diante dele, como se formasse uma barreira para impedir qualquer um de chegar perto de Bucky.
Ela estava o protegendo?
O brilho das sirenes denunciou que estavam ainda mais cercados, e Barnes se surpreendeu quando não apenas Steve Rogers também se posicionou em defesa dele, %Venus% havia feito o mesmo, assim como o Falcão.
Do outro lado, estava o felino, que recuou apenas porque sabia que não poderia matá-lo naquele momento. Precisava deixar as autoridades tomarem conta do Soldado Invernal por hora.
James, no entanto, voltou seu olhar mais uma vez para a mulher à sua frente. Estava comovido com o ato dela, embasbacado. A voz dela era familiar demais, tudo nela era familiar demais.
De onde ele a conhecia?
Nota da autora: Se quiserem receber avisos de quando a fic atualizar, bem como spoilers ou informações sobre minhas outras histórias, além de interagir com essa autora meio doida, me sigam no instagram e entrem nos grupos do whatsapp e facebook!
Beijos e até a próxima!
Ste