Capítulo 2 • Bem-vinda, maninha!
— Aimi! — Acordei de um sonho extremamente maluco e sentei na cama, ofegante. Eu estou suando muito e estou bastante gelada. Credo, parece que estou morta igual no sonho, mas estou viva e respirando. — Quê? Trocaram a gente de quarto? — falei para mim mesma ao olhar ao redor e ver um quarto menor que o hotel que Aimi e eu estávamos.
É um quarto, aparentemente, de uma menina. Tudo decorado em tons de rosa e roxo, as paredes brancas realçam os enfeites da parede; tem uma escrivaninha com um notebook branco (da
Apple, rica!) em cima; algumas roupas espalhadas pelo chão. Nossa, que bagunça, parece até meu quarto (risos).
Levantei devagar e notei que eu estou de pijama. Mas espera aí! Por que estou de pijama em um quarto que nunca vi antes? E pior:
quem colocou o pijama em mim? Não me lembro de ter vestido isso. Até que é um pijama fofinho, tem unicórnios nele.
Espantei os pensamentos e calcei uma pantufa de unicórnio que estava ao lado da cama. Seja quem for, essa garota
ama unicórnios. Mais do que o normal. Tem um mural onde tem umas fotos, passei o olho rapidamente e algo nelas me assustou. Andei para trás, com as mãos na boca, e gritei, tropecei em um urso que estava no chão e caí de costas, ainda encarando o mural, assustada. O que está havendo?
— %Li%?! — Alguém gritou, ao longe, e a porta do quarto se abriu. Olhei de imediato para ela e vi o semblante da última pessoa que imaginei encontrar naquele momento.
—
Keigo?! — falei um pouco esganiçado demais e levantei, puxando meu pijama, envergonhada.
— O que houve, maninha? Você está bem? Te ouvi gritar. —
Maninha? O que está havendo? — %Li%… — Ele chegou perto, mas eu me afastei, ainda assustada.
— O que está havendo? Onde estou? E por que você está aqui, Keigo? E como está me entendendo?! — Soltei várias perguntas de uma vez. Ele me olhou muito confuso e se aproximou de novo. Me afastei novamente.
— Calma, minha irmã. Estamos em casa, você está segura. O que houve? — Keigo parecia tão confuso quanto eu. Keigo, se você não sabe o que está havendo, imagina eu. — Eu estou te entendendo porque falamos a mesma língua: japonês. Está ficando doida, maninha? — Espera, eu estou falando japonês? Fluente? Mesmo? Com o Keigo? E o que ele quer dizer com "estamos em casa"? De repente, me veio um estalo.
— Keigo, estamos no Japão!?
— Sim, chegamos ontem de viagem. Estávamos no Brasil, esqueceu? Teve um acidente horrível um dia antes do show, uma fã nossa faleceu, mas acabaram cancelando o show. Então voltamos para nossa casa — ele disse.
Sim, Keigo, eu sei sobre isso porque EU FUI A FÃ MORTA!
Eu vou surtar em instantes. — Ai, meu Deus… — eu disse me lamentando e sentei-me na cama. Keigo me fitava com um olhar tão meigo que eu mal conseguia parar de olhar para ele.
— Está tudo bem agora, maninha. — Ele se sentou ao meu lado e colocou a mão em meu ombro, devagar, talvez com medo de eu fugir dele. Mas eu não fugi, apenas deixei ele me consolar de alguma forma.
Eu não estou entendendo muita coisa, mas, pelo visto, eu morri e acordei em outra vida onde sou irmã de Kei. Que tipo de salto temporal maluco foi esse? O Keigo tem duas irmãs, mas nenhuma delas têm a minha idade. Pior:
nenhuma delas sou eu! Acho que vou enlouquecer ou desmaiar. Ou os dois. Senti tontura e pus a mão na testa, Keigo ficou preocupado.
— Você precisa descansar, mana — ele disse, carinhoso.
— Acho que estou cansada, realmente.
— Pois descanse... mais tarde os caras vão vir aqui pra gente terminar a reunião de antes da viagem.
— Espera! O
Kohshi vem? — eu disse, de repente, e segurei forte o braço dele.
— Sim, ele também faz parte da banda, não é? — Kei riu da própria colocação.
— A banda toda vai estar aqui???!! — Eu vou surtar, já disse isso?
— %Li%, minha irmã, estou preocupado com você — repetiu ele e eu tentei me acalmar. Preciso entender o que está havendo, e logo.
— Por que está me chamando de irmã?
— Porque você
é minha irmã, ora essa! — Ele faz uma expressão, agora, de estar mais confuso que antes. Ele deve achar que estou louca. É, eu também estou começando a achar o mesmo.
— Então eu sou sua meia irmã??? — questionei.
— %Li%, mamãe e papai ficariam bravos se te ouvissem falar assim.
— Temos os mesmos pais? — perguntei boquiaberta.
— Claro que temos, sua boba. — Ele riu e completou: — O que houve? Entrou num buraco de minhoca e caiu em outra vida que não sabe nada sobre? — É, acho que foi isso aí mesmo, Keigo.
— Não. — Eu ri sem graça — Desculpe. Eu vou dormir mais um pouco. Não se preocupe, Keigo. Acho que foi o longo fuso — falei num tom mais tranquilo. Ele sorriu e me abraçou. Tão gostoso esse abraço...
— Está bem. Descansa. Eu vou ao mercado comprar tempero, pois acabou e eu não vi. Me desculpe. Vou fazer nosso almoço, descanse bem. — Me deu um beijo terno na testa e eu me senti muito amada com aquele gesto.
Keigo caminhou para fora do meu provável quarto e foi até a sala. Eu o segui, me despedi dele e fiquei na sala, observando as coisas. O notebook de Keigo estava na mesinha de centro, aparentemente moramos em um apartamento tipicamente japonês em tamanho e decoração. Na estante que tem próxima à saída, tem alguns porta-retratos, as fotos mostram Keigo e eu vestidos com roupas de neve em um ambiente que parece ser uma estação de esqui. Incrivelmente, eu estou com a minha aparência de sempre, não sou nem um pouco parecida com o Keigo, mas para ele deve ser normal este fato, não sei.
Enquanto olhava as fotos, lágrimas se formaram em meus olhos. Eu não me lembro de nada disso. Como pode? Como eu posso ter fotos tão íntimas com Keigo e os demais membros da banda, sendo que eu não me lembro de nada disso?
[⏰]
Após um banho muito quente, me aqueci vestindo uma calça e um moletom. Faz frio no Japão, deve ser inverno por aqui, já que no Brasil era verão antes. É estranho falar do Brasil como se fosse um país onde vou às vezes e não como minha terra natal.
Resolvi, agora que estou mais calma e relaxada, procurar por mim. Basicamente, vou pesquisar sobre minhas redes sociais e notícias sobre o acidente. Sentei-me na cadeira em frente à escrivaninha e abri a tela do notebook. Pediu uma senha. E eu lá sei?! Parei alguns segundos e digitei o nome do Kohshi. Para minha surpresa, ou não, o computador aceitou a senha e ligou. Está tudo em japonês aqui e ainda me surpreende eu estar entendendo tudo. Meu japonês não estava num nível tão avançado assim antes de… bom, antes de tudo
mudar.
Consegui acessar uma VPN do Brasil e acessei minhas redes sociais. Para minha surpresa, ou não, elas não existem. Nem as da Aimi. Que estranho. Tudo é estranho demais. Ignorei isso e abri os principais sites que falavam sobre o acidente. Realmente ele aconteceu ontem e o show foi cancelado, as matérias mostram também que o nome da fã que morreu era Sarah Santos. Oi? Junto com as matérias tinha uma foto da menina e, definitivamente, não era eu. A cada minuto isso tudo está ficando mais confuso, mas vamos enumerar os fatos:
Eu fui toda feliz para o show ver meus boys do Flow;
Algum imbecil me atropelou e eu morri;
Eu acordo num apartamento DO OUTRO LADO DO PLANETA como irmã do meu ídolo, Keigo (melhor pessoa, inclusive);
A pessoa que morreu não fui eu e sim outra fã da banda.
Com todos esses fatos, eu só acho cada vez mais que a teoria do buraco de minhoca é real. E eu sinceramente não sei se quero que isso mude.