Capítulo 8
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O primeiro raio de sol entrou tímido pela fresta da cortina, iluminando o quarto com uma luz dourada e suave. %Kacey% abriu os olhos devagar, como se o corpo ainda estivesse preso em algum tipo de transe.
O lençol cobria apenas até a cintura. A pele ainda sentia o toque dele. As pernas entrelaçadas, o cheiro de %Namjoon% grudado no travesseiro, na cama, em cada parte dela.
Ela piscou algumas vezes, tentando lembrar se havia sido mesmo real.
%Namjoon% estava acordado, deitado de lado, observando-a com aquele olhar calmo e intenso que parecia atravessar qualquer armadura que ela tentasse usar.
— Bom dia. — ele disse, com a voz baixa e rouca de sono. Ou talvez ainda de desejo.
Ela demorou dois segundos para responder.
— A gente... — começou, mas a frase morreu no ar.
Ele se aproximou e passou os dedos com delicadeza pela bochecha dela.
— A gente aconteceu. E foi bom. — completou por ela. — Foi o que você queria saber, né?
%Kacey% respirou fundo e desviou o olhar, apoiando o braço no travesseiro.
— Foi bom demais... pra continuar sendo mentira.
%Namjoon% permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Depois, se sentou na cama, os cabelos bagunçados, o lençol caindo da cintura para baixo, revelando parte do corpo ainda nu.
— Então deixa de ser. — ele disse simplesmente. — A gente pode parar de fingir, se você quiser. Não pra eles. Pra gente.
Ela se sentou devagar, puxando o lençol para cobrir o corpo.
— Isso aqui... foi uma exceção. Uma fuga.
— E se tiver sido o começo?
O quarto ficou em silêncio.
Ela não soube o que responder. Não ainda.
E como se o universo conspirasse com sua dúvida, a batida na porta veio firme.
— Filhos, hora do café! — a voz de Eun-ha ecoou pelo corredor. — Se atrasarem vão perder os versículos da manhã!
%Kacey% fechou os olhos e suspirou. Era o lembrete de que estavam no meio de um cenário montado. Um teatro. Uma mentira com script e plateia.
Mas o que ela viveu naquela cama... não tinha sido atuação.
%Namjoon% levantou-se, pegou a camiseta e vestiu sem pressa. Depois olhou para ela, que ainda permanecia sentada, pensativa.
— Eu vou esperar você lá fora. — disse. — Mas não com os outros. Com você. Quando você estiver pronta... pra parar de fugir.
Ela ficou ali por um tempo, abraçada ao lençol, o corpo ainda quente, os pensamentos em turbilhão.
Porque o problema não era mais fingir.
Era o medo de admitir que
o que mais parecia mentira… podia ser exatamente o que ela sempre quis.✨✨✨
%Kacey% desceu para o café da manhã com os cabelos presos em um coque bagunçado e a pele ainda sensível sob a roupa. A blusa larga e o short confortável não escondiam o calor que insistia em permanecer no corpo, muito menos a bagunça que era a sua mente.
%Namjoon% já estava sentado à mesa, cercado de primos e tias. E quando os olhos dele encontraram os dela, o mundo pareceu silenciar por um segundo.
Ele não sorriu. Só olhou.
Como se dissesse:
ainda estou aqui. Ainda sinto tudo. Sentou um pouco distante, cumprimentou educadamente quem estava por perto, sorriu quando alguém comentou sobre como o casal parecia cada vez mais apaixonado. E fingiu. O tempo todo.
Durante o almoço, sentou-se ao lado dela, e mesmo entre todos, manteve a mão repousada na parte de trás da cadeira — um toque quase acidental na cintura dela, mas que parecia incendiá-la.
Em determinado momento, durante a sobremesa, pegou um pedaço de bolo e ofereceu diretamente à boca dela, diante da mesa inteira.
— Amor, você precisa experimentar isso. — ele disse, a voz mansa, o olhar provocativo.
%Kacey% semicerrou os olhos, mas abriu a boca com relutância, tentando manter o sorriso no rosto. Ele colocou o pedaço entre os lábios dela, e o polegar roçou suavemente o canto da boca. Depois limpou, devagar.
— Pronto. Não podia deixar nada escapar. — murmurou, tão baixo que só ela ouviu.
Ela tossiu. Literalmente.
— Tá tudo bem, querida? — uma tia perguntou.
— Tudo. Só engasguei… um pouco com a doçura
exagerada.
%Namjoon% disfarçou a risada, mas ela o chutou por baixo da mesa. E ele respondeu com um olhar que dizia:
você vai me pagar.
Mas o pior era que parte dela queria mesmo pagar. Com juros.
✨✨✨
Mais tarde, quando o sol já tocava a linha das árvores, %Kacey% saiu sozinha em direção ao lago. Precisava respirar. Pensar. Ou talvez... fugir mais uma vez.
A brisa era leve, e a água refletia o céu em tons de dourado e laranja. Ela se sentou perto da borda, abraçando os joelhos. Ficou ali em silêncio por alguns minutos, até ouvir passos atrás de si.
— Achei que fosse só eu que gostava de fugir. — a voz dele soou suave atrás dela.
— Não estou fugindo. — respondeu, sem virar. — Estou... tentando não me perder.
Ele se sentou ao lado. Não tocou. Apenas ficou ali.
— Eu sei o que você está sentindo. — ele disse. — Porque eu também estou. E isso me assusta. Mas… ao mesmo tempo, me faz querer ficar.
— Isso nunca foi pra ser real, %Namjoon%. Você precisava de ajuda, e eu... eu não tinha nada melhor pra fazer.
— Agora... eu penso em você quando deveria estar pensando em como sair disso. Eu me lembro do seu toque quando estou tentando manter distância. Eu me pego sorrindo com suas provocações, mesmo quando eu quero te socar.
— Amor costuma parecer loucura mesmo.
Ela virou o rosto para ele, os olhos finalmente encontrando os dele.
— Você quer mesmo isso, %Namjoon%? Quer continuar comigo... quando tudo isso acabar?
— Quero você mesmo quando não tiver mais acampamento, nem fingimento. Mesmo quando você estiver irritada, bagunçada, e me odiando um pouco. Porque no fundo... eu nunca estive tão certo de alguém quanto estou de você.
%Kacey% sentiu o coração apertar. Não era uma declaração dramática. Nem exagerada. Mas foi sincera o suficiente pra desmontar todas as defesas.
Ela se aproximou, devagar, e encostou a testa na dele.
— E se eu ainda estiver com medo?
— Então eu espero. — ele disse. — Mas vou continuar te lembrando, todos os dias, que vale a pena tentar.
✨✨✨
O silêncio após a conversa à beira do lago ficou mais confortável do que %Kacey% esperava. Eles não disseram mais nada, mas andaram de volta de mãos dadas, sem esconder, sem disfarçar. E pela primeira vez desde o início daquilo tudo...
eles não estavam interpretando. O jantar foi simples, como sempre — sopa quente, pão fresco e chá. Mas havia um peso no ar quando os dois chegaram juntos, com os dedos entrelaçados à mostra. Os olhares se voltaram para eles. E não havia mais nada nos rostos além de
verdade.
Soyun percebeu primeiro. Cruzou os braços, a boca curvada em um sorriso forçado. Eun-ha, no entanto, soltou um gritinho de alegria.
— Eu sabia! Eu sabia! — ela levantou, batendo palmas discretamente. — O brilho nos olhos não mente. Vocês... estão mesmo juntos, não é?
%Namjoon% sorriu, sem hesitar.
— Estamos, mãe. Agora de verdade.
%Kacey% olhou para ele, e depois para Eun-ha, assentindo com um sorriso tímido, mas cheio de significado.
— Sem contratos. Sem teatro. Só... nós dois.
A mãe correu até ela e a envolveu em um abraço apertado. Vários primos aplaudiram, algumas tias suspiraram alto, e Soyun revirou os olhos com tanta força que quase caiu da cadeira.
Mas quem não reagiu... foi o pai.
O senhor %Kim% apenas os observava do fundo da mesa, com o copo de chá entre as mãos e o maxilar rígido.
%Namjoon% viu. %Kacey% também.
E mais tarde naquela noite, ele chamou o filho para uma conversa.
%Kacey% ficou do lado de fora da cabana, o peito apertado, escutando apenas murmúrios abafados. Até que %Namjoon% saiu, o semblante sério, os passos lentos. Ela se aproximou.
— Que eu deveria ter vergonha de transformar uma farsa em sentimento. Que se eu comecei mentindo, então nada disso pode ser verdadeiro.
%Kacey% baixou o olhar, o coração afundando.
— E você... acredita nisso?
%Namjoon% puxou a mão dela, apertando com firmeza.
— Eu acredito no que eu vivi com você. No que você me fez sentir. No que eu quero construir com você fora daqui. — fez uma pausa. — Mas ele vai precisar de tempo. E tudo bem. Eu não estou mais fazendo nada pra convencê-lo.
— Está fazendo por você. — ela completou.
E então, mesmo ali no escuro, mesmo com o pai deles observando da varanda, %Namjoon% a beijou.
Um beijo sem culpa, sem segredo, sem farsa.
O tipo de beijo que termina um teatro. E começa uma história real.
Fim