Capítulo 6
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O cheiro de café fresco e pão assado invadia o refeitório do acampamento, mas %Kacey% estava com o estômago fechado desde que acordou. Ou melhor, desde que a mãe de %Namjoon%
invadiu a cabana em plena madrugada e pegou os dois praticamente no ápice do beijo.
A sensação do beijo ainda estava ali. Nos lábios, na pele, na memória. E também nos olhos dele — que não paravam de fitá-la como se soubessem de um segredo. E sabiam. Porque o beijo tinha mudado tudo.
Mas o pior mesmo foi quando Eun-ha se aproximou logo cedo, com um sorriso
largo demais e um prato de panquecas nas mãos.
— Dormiram bem, meus queridos?
%Kacey% arregalou os olhos por um segundo antes de sorrir falsamente.
— Muito. Muito bem. Uma noite… abençoada.
%Namjoon% tossiu para não rir.
— Que bom! Porque eu estava orando ali de madrugada quando senti que devia visitar vocês. Deus toca o coração da gente assim, de repente. — Eun-ha olhou diretamente para %Kacey%, com os olhos brilhando. — E ouvir você chamando o nome do meu filho daquele jeito... foi muito emocionante. Senti mesmo a conexão espiritual entre vocês.
%Kacey% se engasgou com o café.
— Ahn... claro. A conexão. — ela pigarreou. — Espiritual. Intensa, né?
%Namjoon% olhou para o outro lado, lutando com todas as forças para não explodir de riso. O rosto dele estava levemente corado, e os lábios…
ainda vermelhos demais. — E sabe, querida — Eun-ha continuou, puxando uma cadeira para se sentar com eles — eu conversei com meu marido hoje cedo. E nós dois sentimos algo forte no coração. Vocês têm uma aura tão... cúmplice. Tão pura. E mesmo que o namoro seja recente, eu sinto que Deus uniu vocês por um propósito maior.
%Kacey% paralisou com o garfo no ar.
— Sim! — Eun-ha sorriu, tocando a mão dela por cima da mesa. — Eu vejo em você a futura esposa do meu filho.
%Namjoon% engasgou com o suco.
— Mãe! A senhora tá indo rápido demais…
— Que nada! — ela rebateu com um brilho nos olhos. — Quando é de Deus, tudo flui. E olha, se vocês pensarem em noivado, vamos organizar uma cerimônia simples, só pra família, aqui mesmo no acampamento. A gente tem véu, altar, violão... E a pastora Eunice ama fazer casamentos!
%Kacey% soltou uma gargalhada nervosa, colocando a mão no peito.
— A senhora é um amor, de verdade. Mas vamos com calma, né? Ainda estamos nos conhecendo. Tipo... muito. Mesmo. Todo dia tem uma coisa nova. Às vezes ótima, às vezes... preocupante. — ela lançou um olhar para %Namjoon%, que fingiu não ver.
— Claro, claro, minha filha. — Eun-ha sorriu de novo, como se já tivesse gravado o nome de %Kacey% em todas as toalhas da família. — Só quero que você saiba: se quiser voltar a se hospedar na nossa casa um dia... não vai nem precisar dormir no quarto de hóspede, viu?
%Namjoon% deixou o garfo cair no prato.
%Kacey% enterrou o rosto nas mãos.
Quando a senhora %Kim% se afastou para buscar mais café, %Kacey% olhou para ele, os olhos semicerrados:
— Aparentemente, a minha boca tem efeitos colaterais. — ele sussurrou, provocativo.
Ela tentou parecer irritada. Tentou mesmo.
Mas parte dela ainda sentia o gosto dele.
E o problema... era querer mais.
✨✨✨
Depois do devocional da manhã, todos estavam com o tempo livre para fazerem o que quisessem. Nada de %Namjoon%.
%Kacey% procurou por ele com os olhos até onde sua vista alcançava e não o encontrou. Resolveu procurar por ele nos arredores do acampamento, afinal de contas ela não queria ficar sozinha naquele covil correndo o risco de ter sua paciência testada e acabar colocando tudo a perder. Especial com Soyun.
As vozes não vinham de muito longe e então ela parou quando enxergou ele ajudando o pai com a lenha. Os músculos estavam de fora, a regata estava amarrada na cintura por cima da calça de moletom que ele usava, e %Kacey% quis, quis muito desviar os olhos do corpo dele de novo, mas não conseguiu.
Os músculos dele se contraíam a cada movimento, os braços expostos e ligeiramente suados sob o sol da manhã. Ele ria de algo que o pai dizia enquanto segurava um pedaço de tronco largo demais para ser carregado por um ser humano comum. A regata amarrada na cintura deixava o tronco à mostra — definido, sem exagero, mas forte o suficiente para fazer %Kacey% esquecer temporariamente como se respirava.
Ela ficou parada ali por alguns segundos, escondida atrás de uma árvore, tentando decidir se aquilo era uma cilada, um castigo divino, ou apenas
testes severos para o autocontrole humano.
— Tá admirando a criação divina? — a voz doce e venenosa de Soyun surgiu ao lado, e %Kacey% teve vontade de morder o próprio braço.
— Só observando um homem suando com lenha, nada demais. — respondeu sem tirar os olhos dele. — Relaxa, não pretendo montar um altar nem sacrificar uma ovelha.
— É que parece que você tá mais apaixonada do que diz. — Soyun comentou, com um sorrisinho enviesado. — Ou talvez esteja
mesmo fingindo e esse olhar aí seja parte do teatro. Nunca se sabe, né?
%Kacey% a olhou de lado, com um sorriso gentil e uma leve inclinação de cabeça.
— Você fala demais pra quem perdeu a vaga.
Soyun ia responder, mas o barulho de lenha caindo atraiu a atenção das duas. %Namjoon%, agora sozinho, havia deixado cair algumas toras e xingava baixinho. O pai já havia se afastado para conversar com outros parentes.
%Kacey% não hesitou. Desceu a pequena trilha de grama e caminhou até ele, que enxugava o suor da testa com o antebraço. Quando a viu, abriu um sorriso genuíno — o tipo de sorriso que fazia os joelhos dela falharem por dentro, ainda que se recusasse a demonstrar.
— Fiquei com medo de você ter fugido. — ela disse, se aproximando, ainda olhando o peito dele, mas tentando se manter focada no rosto.
— Fugir? Com uma sogra tão amorosa? Nunca.
Ela riu, mas havia algo nos olhos dele. Um brilho. Um desafio. Como se ainda se lembrasse da noite anterior com cada detalhe.
— Precisa de ajuda com isso aí?
— Quer fingir que é minha noiva e também me ajudar a carregar lenha? — ele provocou. — Você tá se superando.
— Só estou me certificando de que a senhora %Kim% não nos separe com base em pecado da preguiça.
Ele largou a lenha de novo e limpou as mãos na calça, aproximando-se. Estavam sozinhos agora. Ninguém por perto.
— Você tá diferente hoje. — ele disse, os olhos buscando os dela. — Mais inquieta.
— E você tá diferente também. Mais… convencido.
— É que você me beijou ontem. Isso muda qualquer homem.
%Kacey% deu um passo pra trás, só por segurança emocional. Mas ele a acompanhou, devagar.
— O que a gente fez... não devia ter feito. — ela disse, ainda que a voz não saísse tão firme quanto gostaria.
— Eu discordo. Acho que foi o primeiro momento verdadeiro desde que chegamos aqui.
— Foi impulso. Isolado. Acabou. — mentiu.
%Namjoon% sorriu, se aproximando o suficiente para ela sentir o calor do corpo dele, mesmo com a manhã ainda fria.
— Então por que você não consegue parar de olhar pra mim como se quisesse de novo?
%Kacey% sentiu o estômago revirar. O corpo se acender. Mas antes que pudesse dar qualquer resposta — um passo pra frente, uma provocação, ou mesmo uma fuga — a voz da senhora %Kim% ecoou do alto da trilha:
— %KACEY%, QUERIDA! O PASTOR VAI FAZER UMA ORAÇÃO ESPECIAL PELOS CASAIS JOVENS, VOCÊS PRECISAM VIR!
%Kacey% fechou os olhos por um segundo e bufou.
— Salva pelo sino... — ela murmurou, antes de virar de costas.
%Namjoon% ainda a segurou pelo pulso, devagar.
Ela não respondeu. Mas ele sabia. E ela sabia também.
E isso era o pior de tudo.