Capítulo 4
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Mais tarde naquele mesmo dia, depois do almoço coletivo servido em mesas longas cobertas com toalhas floridas e frases bíblicas bordadas, %Kacey% se afastou por alguns minutos para ir até o banheiro. O caminho era curto, ladeado por árvores e algumas barracas de atividades recreativas.
Ela estava distraída, refletindo sobre como o patriarca %Kim% havia sido... tolerável, até certo ponto, quando uma voz doce — doce demais — a chamou:
Ela se virou devagar e encontrou uma garota alguns anos mais nova, mas com um rosto perfeitamente maquiado, mesmo no meio do mato. Vestia uma saia longa até os pés e uma camiseta personalizada com um versículo que %Kacey% nem conseguiu ler direito, porque a garota já estava sorrindo grande demais para parecer sincera.
— Sou a
Soyun, prima do %Namjoon%. — disse, se aproximando como quem oferece um abraço, mas recuando antes do toque real. — Ou ex-prima, já que agora ele tem uma
namorada nova. — piscou, irônica.
%Kacey% manteve o sorriso no rosto.
— É que a gente era muito próximo antes. Muito mesmo. — Soyun riu com uma voz melosa e claramente treinada. — Mas aí ele começou a... mudar. Se afastar. Crescer.
%Kacey% entendeu imediatamente o que aquilo significava.
Soyun era uma daquelas. Uma daquelas que o %Namjoon% provavelmente beijou — ou mais — antes da conversão, e que agora olhava para ela como um tropeço em forma de mulher.
— E você tá com ele há quanto tempo mesmo? Dois meses? — Soyun perguntou, com a cabeça levemente inclinada como se realmente se importasse com a resposta.
— É. Pouco tempo. Mas tempo suficiente pra ele ter me escolhido pra estar aqui, né? — respondeu com um tom doce e venenoso, na mesma moeda.
Soyun riu de novo, mas o sorriso falhou nos cantos.
— Verdade. Bom, espero que aguente. Ele é meio... difícil. Sabe? Intenso. Quente demais pra quem não tem experiência.
%Kacey% piscou lentamente, mantendo o tom de voz sereno:
— Ah, eu me viro muito bem com homens quentes.
Soyun arqueou uma sobrancelha, surpresa com a resposta, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, %Namjoon% apareceu vindo pela trilha, os olhos imediatamente se fixando nas duas.
— Tá tudo bem aqui? — perguntou, com um tom casual, mas o maxilar tenso demais para alguém “relaxado”.
Soyun se virou para ele com um sorriso que poderia ser moldado em açúcar queimado.
— Claro, oppa. Só estava dando as boas-vindas à sua nova companheira.
%Kacey% sentiu os olhos dele a encontrarem de novo, como se perguntassem “
o que ela disse? tá tudo certo mesmo?”.
— Que bom. — ele respondeu com firmeza, colocando o braço ao redor da cintura de %Kacey% e puxando-a com naturalidade, como se fosse posse. — Vamos, amor. O pessoal tá esperando pra começar a trilha.
Soyun observou os dois se afastarem, ainda sorrindo.
E foi só quando estavam longe o suficiente que %Kacey% disse, num sussurro:
— A sua prima quer queimar incenso comigo. Ou me empurrar numa fogueira.
— Ela sempre foi assim. Não dava um passo sem tentar me pegar de volta. Mas você se saiu bem.
— Eu sempre me saio bem. — respondeu, embora sua garganta ainda estivesse seca.
%Namjoon% parou subitamente, segurou o rosto dela entre as mãos — do jeito que fizera no primeiro dia — e disse, com um sorriso que deixava tudo mais confuso:
— Você tá me dando orgulho, sabia?
O problema foi a maneira como ele a olhou depois disso. Um segundo a mais. Um segundo
demais.
E foi naquele instante que %Kacey% percebeu… talvez não fosse só Soyun que estivesse incomodada com o que estava acontecendo.
✨✨✨
A trilha era leve, com o sol já baixando e tingindo o céu de tons alaranjados. Alguns primos e tios mais animados caminhavam na frente, e os mais velhos iam atrás, em um ritmo mais calmo. %Namjoon% e %Kacey% ficaram no meio, cercados por árvores altas, e por uma brisa que carregava o cheiro de mato e terra molhada.
Mas o que pesava no ar mesmo era o silêncio entre eles.
Depois do encontro com Soyun, %Kacey% estava inquieta. E %Namjoon% parecia... observador demais. Cada vez que ela tropeçava em uma pedra, ele estendia a mão. Quando ela tentava puxar conversa com alguém da família, ele permanecia em silêncio, como se estivesse a analisando. Como se estivesse pensando demais.
— O que foi? — ela perguntou, quando já estavam um pouco mais afastados do grupo.
%Namjoon% demorou dois segundos para responder. Dois segundos longos o suficiente para que ela soubesse que vinha bomba.
— A gente não tá convincente o bastante.
%Kacey% arqueou uma sobrancelha, rindo de leve.
— Eu tô falando sério. — ele parou de andar, fazendo com que ela parasse também. — Hoje de manhã meu pai me puxou de canto e perguntou se você tava forçando o sorriso. Disse que parecia tudo muito... ensaiado.
—
E não é? — ela retrucou, cruzando os braços. — Estamos fingindo, %Namjoon%. Não somos um casal de verdade. É natural que nem tudo soe espontâneo.
— Mas precisa
parecer. — ele deu um passo em direção a ela, mais próximo do que o necessário. — É isso que tô tentando dizer. A gente não tá... entrosado. E isso pode pôr tudo a perder. Se um único parente duvidar, minha mãe vai perceber. E ela tem um faro melhor que o FBI.
— Tá. — %Kacey% bufou, desviando os olhos. — E o que você propõe? Que a gente passe a noite vendo doramas de romance e lendo o Kama Sutra?
Ele riu com a provocação, mas não desviou o foco.
— Eu proponho que a gente ensaie. Algumas cenas. Alguns toques. Beijos. Nada fora do que já
precisamos fazer aqui. Mas com intimidade suficiente pra parecer real quando tiver plateia.
%Kacey% o encarou com descrença.
— Você quer que a gente... treine beijos? Tipo peça de teatro?
— Se pensar assim, fica menos esquisito.
—
Nada disso é menos esquisito! — ela respondeu, se afastando um passo e passando a mão nos cabelos, inquieta. — Você quer que a gente fique se tocando nos bastidores pra parecer natural no palco?
%Namjoon% suspirou, frustrado, mas manteve o tom calmo.
— Eu tô falando sério. Já percebeu como você ainda trava quando eu pego na sua cintura? Ou quando você encosta em mim, parece que tá segurando uma panela quente. A gente precisa fazer isso parecer
nosso. E pra isso, a gente precisa se acostumar. Com o toque, com o cheiro, com a proximidade.
%Kacey% odiava quando ele falava assim. Racional, objetivo, convincente. O tipo de argumento que fazia sentido — mesmo que tudo nela gritasse que era cilada.
Ela desviou o olhar e cruzou os braços com força.
— E você? Tá tão tranquilo assim com essa ideia?
%Namjoon% a olhou por um momento. Depois sorriu. Devagar.
— Eu acho que você me subestima.
E foi aí que ela percebeu. O problema não era ele estar confortável demais. O problema era que
ela estava começando a não estar mais. Havia algo nos olhos dele, no tom da voz, na forma como se aproximava sem medo... que mexia com os limites que ela mesma tinha traçado.
E pela primeira vez, os tais
ensaios pareciam um caminho perigoso. Não pelo que mostrariam… mas pelo que poderiam
despertar.
— Isso quebra uma das cláusulas, lembra? Ah, mas é claro que você não lembra de nenhuma cláusula. A cláusula 6. Vou precisar negar, docinho de coco.
%Namjoon% fechou os olhos, bufou alto, começando a demonstrar uma certa impaciência.
— Não bote tudo a perder, esqueceu que posso contar aos seus pais sobre eu ser um demônio tentador? Nada de bufadas quando eu falar sobre as cláusulas.
— Isso não está nas cláusulas %Kacey%! — Ele falou entre os dentes.
— Ah, então você sabe o que está nas cláusulas? — Ela colocou uma das mãos na cintura, como se o desafiasse.
— Pelo amor de Deus, %Kacey%! Eu estou propondo uma quebra de regras pelo bem do projeto como um todo, e você prometeu me ajudar. Tem que cumprir, ou não é uma mulher de palavra?
Foi a vez dela bufar alto o suficiente para atrair atenção de alguns tios e tias. Disfarçou dando um beijo rápido e casto na bochecha dele.
— Tem razão, meu amor! Vamos quebrar as regras. Mas só essa, me ouviu? — Ela ergueu o dedo na direção dele quando os tios e tias desviaram os olhos.
%Namjoon% sorriu, aquele sorriso presunçoso que ela conhecia bem demais. O tipo que ele dava quando conseguia exatamente o que queria — mesmo que isso significasse passar por cima de um pequeno tratado de guerra assinado por ambas as partes.
— Só essa. Prometo. — disse, levantando as mãos em rendição, mas com os olhos brilhando de malícia contida. — Vamos chamar de…
ensaio técnico.
— Vamos chamar de
última vez que você me convence a fazer alguma coisa com essa sua carinha de golden retriever arrependido. — ela rebateu, já se arrependendo pela metade, mas com o orgulho sustentando a pose.
✨✨✨
A noite caiu rápido no acampamento. Depois de mais uma rodada de louvores à beira da fogueira, todos começaram a recolher-se para as cabanas. %Kacey% já estava se preparando psicologicamente para dormir numa beliche apertada ao lado de uma tia fanática, quando Eun-ha se aproximou com o olhar sereno e um tapinha no ombro dela.
— Querida, tivemos um pequeno erro na logística. O número de hóspedes ultrapassou o previsto, então vamos precisar juntar alguns casais nas cabanas de casal mesmo. Já coloquei suas coisas junto com as do %Namjoon%, tudo bem?
%Kacey% congelou por dentro.
— Claro! Tudo ótimo! — ela respondeu com um sorriso que parecia colado com fita dupla face.
%Namjoon% apareceu logo em seguida, os olhos um pouco arregalados.
— Cabana de casal? Sério?
— A vontade de rir é grande, mas a de chorar é maior. — %Kacey% murmurou entre os dentes, já entrando no quarto com passos firmes.
A cabana era simples, com uma cama de casal no centro, duas janelas pequenas com cortinas floridas e um armário de madeira que já rangia mesmo fechado. No criado-mudo, uma bíblia aberta no Salmo 91 e um aromatizador de lavanda.
— Pelo menos é cheiroso. — ele comentou, largando a mochila no canto.
%Kacey% cruzou os braços, encarando a cama como se fosse uma armadilha.
— Se você encostar em mim enquanto eu durmo, eu enfio esse abajur na sua testa.
%Namjoon% deu de ombros, tirando a camisa para trocar por uma camiseta de dormir, sem cerimônia. O movimento fez %Kacey% virar de costas no mesmo instante.
— Avisa quando for seguro olhar de novo, seu exibido.
— Se a gente vai treinar, você vai ter que se acostumar com minha beleza natural.
— Ou eu posso treinar minha paciência pra não te sufocar com um travesseiro.
Quando finalmente estavam prontos para “ensaiar”, %Kacey% sentou na beira da cama, pernas cruzadas, braços também. %Namjoon% sentou ao lado dela.
— Ok. — ele começou, com um tom mais leve agora. — A gente pode simular alguns momentos que poderiam acontecer durante o dia. Um carinho no rosto. Um beijo na testa. Um abraço meio longo.
— Sem beijos na boca. Sem mãos nas coxas. Sem aproximação corporal indecente.
— Tinha mesmo que dizer “indecente”?
— Sim. Porque eu sei exatamente como sua mente funciona.
%Namjoon% deu um risinho baixo e então, devagar, levou a mão até o rosto dela, passando a ponta dos dedos pela lateral da bochecha.
Foi suave. Inofensivo. Mas o coração de %Kacey% falhou um batimento.
Ela manteve os olhos nos dele, sentindo aquele toque simples como um terremoto interno.
Ele, por sua vez, pareceu notar o efeito.
— Tá vendo? Nem foi nada demais. Mas já pareceu… nosso.
Ela engoliu em seco, tentando disfarçar o leve tremor nos dedos quando segurou a mão dele.
— Vamos continuar. Quero terminar isso antes que eu cometa um pecado de verdade.
— Tipo se apaixonar por mim?
Ela o olhou de lado, séria.
— Tipo te dar um soco na boca.
%Namjoon% riu. Mas seu sorriso era diferente agora. Mais silencioso. Mais atento.
E conforme os toques seguiam — um carinho na mão, um abraço breve, um beijo na testa que durou um pouco demais — %Kacey% percebeu que não era só o ensaio que estava funcionando.
Era o problema dele funcionar. Porque se aquilo era só o começo… ela temia o que viria quando eles parassem de fingir.
✨✨✨
Depois dos toques, dos sorrisos disfarçados e de uma tensão tão densa que parecia ter preenchido o ar da cabana, um silêncio se instaurou entre os dois. %Kacey% deitou primeiro, de costas para ele, com a coberta puxada até a altura do peito, tentando manter o corpo imóvel, como se isso a impedisse de sentir qualquer coisa. Mas cada célula parecia em estado de alerta.
%Namjoon% demorou mais um tempo organizando coisas desnecessárias — a mochila, o celular desligado, a camiseta que ele tirou e dobrou mesmo sem precisar — como se estivesse criando tempo.
Quando finalmente se deitou, o colchão afundou um pouco, fazendo o corpo de %Kacey% se mover em direção ao dele. Ela prendeu a respiração, e depois soltou com um suspiro impaciente.
— Se você atravessar essa linha imaginária no meio do colchão, eu grito "
fogo" só pra causar pânico moral. — murmurou, ainda de costas.
%Namjoon% riu baixinho, a voz abafada pelo travesseiro.
— Eu tô no meu canto, %Monroe%. Nem respirei pro seu lado ainda.
— Só estou avisando. — rebateu, mas sua voz estava mais baixa agora. Menos convicta. Mais... distraída.
Um silêncio caiu entre eles de novo. Mas não era desconfortável — era carregado. Um silêncio que dizia tudo que eles não podiam dizer em voz alta. %Kacey% fechou os olhos e tentou dormir. Mas o corpo ainda sentia os toques dele. O polegar roçando o dorso da sua mão. O beijo na testa. O cheiro dele tão perto.
E então, como se o universo conspirasse para o caos, ele falou:
%Kacey% virou o rosto no travesseiro, confusa.
— Sua pele. É quente. Sabe quando você encosta em alguém e sente aquele calor? A sua é assim. É... reconfortante.
— Isso não é uma cantada, né?
— Não. — ele respondeu rápido demais. — É só uma constatação biológica. Como quando dizemos que a água ferve a 100 graus.
— A água não treme quando você encosta nela.
Ela odiou que ele tivesse percebido. E mais ainda odiou que não fosse mentira.
%Kacey% se virou devagar para encará-lo. Ele estava de lado, o rosto parcialmente coberto pela sombra, mas os olhos estavam fixos nos dela. Havia algo ali. Algo que não fazia parte do acordo. Nem do ensaio. Nem das cláusulas.
— %Namjoon%… — ela começou, mas a voz saiu baixa demais.
— Eu sei. — ele respondeu antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. — Eu também tô tentando fingir melhor do que consigo.
Ela engoliu em seco. E pela primeira vez, o que a assustou não foi a ideia de fingir.
Foi o medo de não conseguir parar de sentir.
Um silêncio pesado caiu entre os dois, e quando %Kacey% voltou a se virar, desta vez não ficou de costas. Ficou de lado, olhando para o teto, com os olhos abertos e os pensamentos em turbilhão.
Minutos depois, ela sentiu a ponta dos dedos dele tocarem os dela por baixo da coberta. Foi um toque simples. Silencioso. Como se dissesse:
tô aqui, mesmo quando não devia.
Porque naquele momento, as regras pareciam tão frágeis quanto o autocontrole deles.