Capítulo 3
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%Kacey% e %Namjoon% chegaram ao acampamento faltando uns quinze minutos para a primeira oração em grupo começar. E %Kacey% achou ótimo, eles teriam tempo apenas de serem apresentados para os pais de %Namjoon% e para o restante da família, e: oração.
Ela teria mais um respiro antes de mergulhar de vez naquela farsa mal feita.
Quando desceram do carro, %Namjoon% deu a volta e parou ao lado dela, estendendo a mão.
— Agora, baby, vamos precisar começar. Tem que me dar a mão.
— Baby é a sua avó! Cláusula número 4.
%Namjoon% revirou discretamente os olhos enquanto a mãe se aproximava dos dois.
— Já estamos em público bebê, então eu não descumpri nada. Aceita. Minha mãe tá vindo, relaxa esses ombros.
%Kacey% assim o fez, mesmo que algo dentro dela gritasse: perigo! Os ombros relaxaram e ela colocou o melhor sorriso que conseguiu no rosto. O sorriso de namorada feliz e ansiosa para conhecer os “sogros”.
A senhora %Kim% se aproximou deles com um sorriso gentil nos lábios e seus olhos desceram para as mãos dos dois, atarracadas uma na outra.
Meu filho! Que benção receber você aqui hoje. — Ela abriu os braços e então %Namjoon% soltou a mão de %Kacey% apenas para abraçar a mãe, que pequena, batia no peito dele.
%Kacey% se permitiu observar aquele momento sem nehum julgamento dentro do peito. O abraço de %Namjoon% com a mãe pareceu cheio de afeto genuíno, não só da parte da senhora %Kim%.
Olhando para ele ali agora, ele realmente parecia “o garoto da mamãe”, bem diferente do garanhão arrogante e cheio de piadinhas que %Kacey% estava acostumada a enxergar nele nas festas, ou nos corredores da faculdade.
%Namjoon% parecia nutrir um carinho verdadeiro pela mãe. Quem diria que um brutamontes como ele seria realmente capaz de amar alguma figura feminina. Mesmo sendo a mãe, %Kacey% sentiu que ele só estava lá pelo testamento, pela grana dos pais empresários. Mas agora parecia que não.
Aquilo a desconcertou brevemente. Mas ela logo se recompôs quando o olhar da senhora %Kim% voltou a cair sobre ela.
— Então essa é a famosa %Kacey% %Monroe%? — O sorriso da senhora se alargou e %Kacey% sentiu o estômago revirar.
Ela ergueu a mão na direção da mulher de estatura baixa e rosto rechonchudinho. %Namjoon% era a cara dela e isso fez o sorriso de %Kacey% aumentar, quase virando uma risada.
— Isso mesmo senhora %Kim%. É um prazer conhecê-la. Confesso que estava ansiosa por esse momento!
A senhora %Kim% segurou a mão de %Kacey% com as duas mãos, apertando com carinho, os olhos brilhando como se estivesse diante de um milagre — ou, no caso, da mulher perfeita que orava há anos para que o filho encontrasse.
— Me chame de Eun-ha, querida. Nada de formalidades aqui no acampamento. Aqui, somos todos irmãos e irmãs em Cristo.
%Kacey% sorriu, quase sentindo a alma sair pela boca.
— Você é ainda mais bonita do que nas fotos que ele me mostrou. E seu vestido é tão… comportado! Uma moça recatada, como eu gosto. — A senhora %Kim% deu um tapinha leve no braço de %Namjoon%. — Achei que você nunca fosse se aquietar, meu filho.
— Pois é, mãe. O impossível aconteceu. — Ele deu um risinho e puxou %Kacey% com delicadeza pela cintura. — Essa aqui me laçou
%Kacey% travou por um microssegundo com a mão dele em sua cintura, mas rapidamente lembrou que estavam em território hostil. O olhar da mãe dele ainda estava cravado em cada gesto, então ela apoiou a mão no peito de %Namjoon% com naturalidade ensaiada, como se aquele toque fosse comum e rotineiro. Como se o conhecesse mesmo.
— E não foi tão difícil assim, viu? Ele só precisava de alguém com pulso firme.
A senhora %Kim% gargalhou, encantada.
— Essa menina é uma benção! Já gostei dela. — Depois, voltou o olhar para %Namjoon%, mais séria. — Só espero que estejam andando no caminho do Senhor. Nada de se entregar aos pecados da carne, %Namjoon%. Vocês estão se respeitando, certo?
%Kacey% teve que virar o rosto por um segundo para não rir. %Namjoon%, por outro lado, respondeu com uma seriedade impecável:
— Estamos sim, mãe. Nossa relação é baseada em respeito, oração… e propósito.
%Kacey% tossiu para disfarçar a risada que subia. “Propósito”? Ele tinha mesmo decorado a cartilha inteira.
— Muito bem. — A senhora %Kim% assentiu, satisfeita. — Agora vamos! A oração vai começar. Depois quero que vocês conheçam todos os seus tios e primos. Já espalhei para a família inteira que %Namjoon% trouxe a namorada pela primeira vez! Todos estão ansiosos.
— Todos? — %Kacey% murmurou, sorrindo, mesmo que por dentro só conseguisse pensar em uma coisa:
isso vai ser um inferno.
%Namjoon% segurou a mão dela de novo, sussurrando baixinho no ouvido dela conforme seguiam atrás da mãe:
— Coragem, baby. Ainda faltam só seis dias e meio.
— Eu vou te matar antes disso. — ela respondeu, sem soltar a mão dele.
Mas quando os dedos se entrelaçaram com mais firmeza do que o necessário, %Kacey% se deu conta de que... estava começando a se acostumar.
✨✨✨
O céu já começava a mudar de cor quando %Kacey% e %Namjoon% se acomodaram em um dos bancos de madeira ao ar livre, dispostos em semicírculo ao redor de uma fogueira recém-acesa. A grama ainda estava úmida do sereno da tarde, e uma leve brisa atravessava os galhos das árvores com um sussurro que misturava paz e desconforto.
— Isso aqui tá me dando flashback de acampamento de infância. — %Kacey% sussurrou no ouvido de %Namjoon%, com um leve sorriso debochado nos lábios.
— Pelo menos você não tá vestindo camiseta personalizada com versículo bíblico. — ele rebateu, apontando discretamente para os primos, todos padronizados com camisetas
“JESUS SALVA – João 3:16”. Ela teve que se conter para não rir alto. Mas seu humor evaporou no instante seguinte, quando %Namjoon% passou um dos braços pelas costas dela e pousou suavemente a mão em sua cintura, puxando-a levemente para mais perto. O movimento foi sutil, discreto… e completamente fora do combinado.
%Kacey% endureceu por instinto.
— Mão fora do lugar. — sibilou pelos dentes, sem virar o rosto.
— Estamos em público. Relaxa. Eles estão olhando. — ele sussurrou de volta, o que só piorou a situação.
Ela fingiu ajustar o cabelo curto e, com o cotovelo, cutucou suavemente a costela dele. %Namjoon% engoliu um riso.
— Que casal bonito! — uma voz feminina comentou à esquerda. Era uma das tias, provavelmente. — Vocês têm uma energia tão… pura.
%Kacey% sorriu falsamente e encostou a cabeça no ombro de %Namjoon%, desejando internamente que uma força divina a levasse dali.
A oração começou com uma canção suave sendo tocada por violão. Todos fecharam os olhos e alguns ergueram as mãos aos céus. %Kacey%, mesmo alheia àquela rotina, fechou os olhos também — mais para evitar as expressões dos outros do que por fé. Mas então ela sentiu.
O polegar de %Namjoon% roçando devagar nas costas da sua mão.
Era um gesto pequeno. Inofensivo. Mas íntimo. Íntimo demais.
Ela abriu um olho devagar e olhou para ele. %Namjoon% ainda tinha os olhos fechados, mas havia um pequeno sorriso em seu rosto. Como se aquilo tudo não fosse apenas uma farsa. Como se ele estivesse confortável ali, ao lado dela. Como se... gostasse.
O estômago de %Kacey% revirou de novo, mas por um motivo diferente agora. E aquilo a irritou.
Quando a música terminou, um silêncio profundo pairou por alguns segundos, até que um dos pastores começou a falar sobre
“pureza no amor” e
“a importância dos relacionamentos abençoados”. %Kacey% quase gargalhou quando ouviu as palavras:
— O amor verdadeiro se mostra nos gestos simples. Num carinho no meio do silêncio. Num olhar de respeito. Num toque casto.
Ela olhou de canto para %Namjoon% e sussurrou:
— Se ele soubesse o que você já fez numa escada de incêndio, ele engolia esse discurso rapidinho.
%Namjoon% riu baixinho e virou o rosto até colar os lábios no topo da cabeça dela.
— Você prometeu que nunca contaria sobre aquilo.
— Então se comporta. — ela respondeu, mesmo ficando ligeiramente sem ar com aquele beijo no cabelo.
A oração terminou com um “amém” coletivo e algumas palmas discretas. Todos começaram a se levantar, prontos para o jantar comunitário.
Mas antes que pudessem sair, Eun-ha se aproximou outra vez, as mãos unidas em frente ao peito.
— Vocês parecem tão conectados… o Senhor realmente sabe o que faz. Estou tão feliz por você, filho.
%Namjoon% sorriu e agradeceu. %Kacey% também. Mas por dentro, a única coisa que passava na cabeça dela era:
essa história tá indo longe demais. E estamos só no primeiro dia.✨✨✨
Depois do devocional da manhã, %Namjoon% voltou a segurar as mãos de %Kacey%, enquanto caminhava com ela em direção ao pai.
— Agora se prepara, que meu pai, mesmo convertido, é mais direto e bruto que minha mãe umas doze vezes.
%Kacey% fitou a figura alta a qual eles caminhavam em direção e percebeu que %Namjoon% havia herdado a altura do pai, ele parecia ter quase dois metros de altura e aquilo fez %Kacey% suspirar profundamente, sabendo que não estava nenhum pouco preparada para encarar o patriarca.
— Pai! — %Namjoon% chamou e depois pigarreou. — Ainda não tive tempo de te apresentar a %Kacey%.
Os olhos do homem deixaram a madeira que ele cortava por alguns segundos e passearam por %Kacey%. Milimetricamente. Como se estivesse procurando alguma rachadura, algum defeito que pudesse ser visto a olho nu para comentar.
A boca de %Kacey% amargou e ela engoliu o fel garganta abaixo enquanto tentava sorrir para o pai de %Namjoon%.
O senhor %Kim% limpou as mãos com um pano encardido e largou o machado ao lado da tora de madeira, os olhos ainda nela. Não sorria. Nem disfarçava.
— Então essa é a tal moça? — disse, com uma voz grossa e grave, que parecia reverberar até na espinha.
%Kacey% se adiantou um pouco, estendendo a mão.
— Isso mesmo, senhor %Kim%. %Kacey% %Monroe%. É um prazer conhecê-lo.
Ele apertou a mão dela com firmeza, por tempo demais. O suficiente para deixar claro quem estava no comando da situação. Depois soltou.
— E você trabalha com o quê, senhorita %Monroe%?
— Estudante de Comunicação. Último ano. — respondeu com um sorriso gentil. — Também faço estágios em produção de conteúdo digital e pesquisa.
O senhor %Kim% apenas assentiu lentamente, como se ainda analisasse cada palavra, cada vírgula, cada célula do corpo dela.
— Hum. Comunicação. — murmurou, quase como se o nome do curso tivesse gosto ruim. — Hoje em dia ninguém quer mais trabalhar com coisas de verdade, só ficar atrás de tela, falando com câmera, escrevendo bobagem.
%Kacey% travou o maxilar por um instante, sentindo a resposta afiada coçar a língua. Mas se conteve. Não era o momento de ser ela mesma. Era o momento de ser a doce e respeitável “namorada cristã do %Namjoon%”.
— Na verdade, senhor %Kim%, é um campo bem exigente. Especialmente quando lidamos com grandes empresas e com o público em geral. Comunicação é uma ponte. — respondeu com doçura, mas com firmeza suficiente para não parecer submissa.
%Namjoon% apertou um pouco a mão dela, em apoio — ou talvez em alerta para ela segurar a língua, o que fosse mais urgente.
O pai ergueu uma sobrancelha.
— Fala bem. Tem lábia. Isso pode ser bom… ou pode ser perigoso. — virou-se para o filho. — E você? Ainda firme naquela promessa?
— Sim, senhor. — %Namjoon% respondeu rapidamente, o corpo rígido como o de um recruta. — A %Kacey% também compartilha da mesma visão. Estamos guardando nosso relacionamento para o momento certo, com respeito e propósito.
%Kacey% teve que respirar fundo para não tossir de riso.
O senhor %Kim% a encarou mais uma vez, dessa vez com os olhos semicerrados.
— Então você é dessas que acredita em compromisso? Em família?
— Sim. Acredito, sim. — %Kacey% respondeu, surpresa consigo mesma por não soar irônica. — E acredito que respeito é a base de tudo.
Um silêncio breve se formou, até que o senhor %Kim% assentiu com a cabeça.
— Hum. Pelo menos não é uma daquelas meninas de Instagram.
%Kacey% sorriu. Falsa, mas graciosa.
— Ainda bem que meu perfil é fechado.
%Namjoon% tossiu para disfarçar o riso. O pai não percebeu. Ou ignorou.
— Certo. — murmurou por fim. — Vamos ver se aguenta o resto da semana.
E sem dizer mais nada, voltou a cortar madeira, como se tivesse acabado de carimbar o passaporte dela para o acampamento.
%Namjoon% soltou o ar com força e inclinou-se para sussurrar:
— Parabéns, você sobreviveu ao chefe do clã. Acho que ele não te odeia.
— Eu ganhei ou perdi pontos quando quase respondi que “lábia boa é só no quarto”?
%Namjoon% arregalou os olhos e soltou uma gargalhada abafada, puxando-a para longe do machado do pai.
— Mulher doida. Vai me matar ainda antes da fogueira de sábado.