Capítulo 2
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O contrato tinha as seguintes regras:
Nada de beijos fora de público.Se não tiver ninguém olhando, não encoste. Isso inclui lábios, pescoço, e qualquer região
“suspeita”. Beijos são exclusivamente para efeito dramático diante dos seus pais.
Toques limitados e previamente combinados.Nada de improvisos. Nada de
“escorregar a mão”. O ombro é seguro. A cintura, só com permissão verbal. Coxa, nem pensar.
Nada de dormir juntos.Mesmo que só exista uma cama no lugar. Mesmo que a fogueira apague e a barraca voe. Mesmo que chova granizo. Cada um no seu espaço — ou eu durmo no carro.
Sem apelidos carinhosos no privado.“Amor”, “vida”, “princesa” ou qualquer outra palavra que eu nunca deixei ninguém me chamar: proibidos. Fora do alcance dos ouvidos alheios, me chame de %Kacey%. E apenas %Kacey%.
Proibido se apaixonar.Regra número um de toda comédia romântica. A gente já viu o que acontece com quem quebra essa.
Nada de treinar cenas íntimas.Eu sei que você vai propor. E a resposta será sempre não.
Multa por descumprimento:Uma semana inteira de exposição pública no grupo de amigos com apelidos constrangedores + a famosa história do “banheiro da festa da Marina” contada com riqueza de detalhes.
%Kacey% assinou o contrato com um floreio dramático, empurrando o papel para ele com uma sobrancelha arqueada e um olhar de desafio.
%Namjoon% o leu com atenção, rindo em silêncio em alguns trechos, e depois pegou a caneta, escrevendo em letras garrafais:
ASSINADO: %Kim% %Namjoon%, o Falso Namorado mais grato do mundo. — Você é maluca. — ele comentou, guardando o papel na mochila.
— E se eu quiser adicionar uma cláusula?
— Pode tentar. Mas eu vetarei.
Ele ficou em silêncio por um segundo, e depois disse com a voz mais tranquila — e insinuante — que ela já tinha ouvido sair da boca dele:
— Cláusula 8: Se em algum momento você quiser quebrar qualquer regra... tem minha permissão.
%Kacey% riu. Mas o riso foi curto. Porque parte dela odiou o fato de ter achado a ideia... quase tentadora.
✨✨✨
— Tá então nada muito novo? Nos conhecemos na faculdade, estamos namorando há pouco tempo, mas tempo suficiente para você já querer me apresentar aos seus pais, pois eu sou bela, recatada e do lar, bem o estilo que pais cristão e de bem como os seus aprovariam. Tá certo né? No máximo dois meses de namoro.
— Isso! E nesses dois meses que estamos juntos, nada de álcool, nada de farra, nada de sexo. Nós dois só vamos transar depois do casamento.
%Kacey% soltou uma gargalhada alta. Daquelas que faziam seu corpo inclinar levemente para frente. Ela levou a mão à barriga enquanto balançava a cabeça, ainda rindo.
— Ai, %Namjoon%... você é mesmo um comediante frustrado, né?
— Eu tô falando sério! — ele rebateu, tentando manter o semblante firme, mas os cantos da boca já ameaçavam ceder. — Você não imagina o quanto minha mãe vai amar ouvir isso.
— Claro, e depois ela vai tentar me convencer a fazer um voto de castidade. — %Kacey% revirou os olhos, ainda com o sorriso debochado no rosto. — Acorda, %Namjoon%. Você me chamou pra ser sua namorada falsa, não sua santa padroeira.
— Padroeira %Kacey%... até que soa bem. — Ele provocou, encostando-se na cadeira com os braços cruzados e um brilho sapeca nos olhos. — Tem uma certa autoridade angelical no nome.
Ela riu de novo, mas dessa vez o riso foi mais contido, enquanto o encarava.
— Me admira você achar que consegue fingir tudo isso sem rir na frente deles. E mais ainda: me admirar achando que eu vou conseguir olhar na cara dos seus pais e dizer que estamos “guardando nosso corpo pro casamento” sem vomitar de tanto rir.
%Namjoon% sorriu, mas havia um pequeno traço de preocupação em sua testa.
— É por isso que a gente vai ensaiar. Ensaiar tudo. Beijos, toques, como nos olhamos. Vamos ter que ser convincentes, %Kacey%. Muito convincentes.
— Lá vem você com essa ideia de ensaiar de novo...
— Não estou propondo nada demais. Só... alguns momentos bem cronometrados de afeto. Você me beija na testa, eu seguro sua mão, encosto a cabeça no seu ombro. Coisas assim. — Ele falou com naturalidade, como se aquilo não fosse a receita perfeita para acabar com o tal
“sem envolvimento”. — Hum. E os tais
“momentos bem cronometrados” vão acontecer em quais horários mesmo? Só para eu programar meu desespero.
— Pela manhã, após o devocional. À tarde, durante as caminhadas. E à noite, depois das orações em grupo, quando estivermos à sós na cabana.
— %Namjoon%… — ela o interrompeu com um olhar sério — isso tudo tá parecendo menos uma viagem e mais uma armadilha.
Ele deu de ombros, sorrindo.
— Bem-vinda ao meu inferno particular. Agora dividido por dois.
%Kacey% suspirou, fechando os olhos por um instante. E quando os abriu, estava decidida:
— Ok. Mas uma palavra, um toque, um olhar fora do script e eu me demito, me despeço dos seus pais e saio desse acampamento com meu salto cravado na lama, mas com minha dignidade intacta. Estamos entendidos?
— Claríssimo. — ele disse, levantando as mãos como quem se rende. — Sem beijos fora do combinado. Sem mãos fora do lugar. Sem sentimentos.
Eles se encararam por um segundo longo demais.
Até que ele disse, quase num sussurro:
%Kacey% fingiu que não ouviu o modo como ele disse aquilo. E fingiu mais ainda o arrepio que correu pela sua espinha.