4 • Piano Man pt. 2
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“Eu estou pronta para alguma ação,
Você está pronto para a perfeição?
Hey piano man
Hello, hmm.”
- Piano Man / Mamamoo
— Me desculpe. — disse ele ao parar de repente — Me empolguei um pouco.
— Não precisa se desculpar, acho que consigo de entender. — sorri espontaneamente o olhando, seu olhar estava fixo nas teclas do piano.
— Quando começo a tocar, sinto que posso fazer por horas sem me cansar. — ele riu de leve — Pode ser estranho, mas me sinto completo quando estou compondo algo.
— Acredite, compor uma música não é diferente de montar uma coreografia. — deu alguns passos até ele — Eu simplesmente finalizo o que você começa. — sorri de canto — Tocaria para mim?
— Com prazer. — ele voltou sua atenção para o piano e começou a dedilhar alguma coisa.
Não entendi, se estava se aquecendo ou ainda escolhendo o que tocar, porém aos poucos a melodia foi surgindo, após mais algumas notas reconheci, aquela música pertencia a trilha sonora de O Hobbit. Fechei meus olhos, sentindo cada nota que ele tocava, se estava voltando aos meus tempos de balé moderno, não sabia, mas cada músculo do meu corpo começou a reagir.
Aos poucos fui me movimentando de forma suave, leve e delicada como uma pena, mais que somente me mover, rodar ou até mesmo me jogar algumas vezes no chão. A cada instante que aquela melodia era tocada por ele, eu sentia como se não estivesse dançando sozinha, mas que %Taehyung% dançasse comigo. Novamente ele parou de forma repentina, que estranho, estávamos indo tão bem, eu me virei para olhá-lo, %Taehyung% estava me olhando fixamente, porém com serenidade.
— O que houve? — perguntei.
— Acho que perdi o foco. — ele riu envergonhado — Difícil não te olhar, enquanto está dançando.
— Vou levar como um elogio. — respirei fundo.
Aquilo era mesmo um elogio?
— Imaginei. — sussurrou ele se levantando.
— Hum, pelo menos agora eu sei como podemos começar.
— Já não começamos? Há algumas semanas?
— Não, aquilo foi só um aquecimento, agora eu sei o que devo fazer. — caminhei até ele e segurei sua mão, o trazendo para o centro da sala — Vamos começar juntos, eu sempre digo que se uma pessoa consegue dançar com um parceiro totalmente diferente dela, ela consegue dançar sozinha.
— Juntos. — a timidez voltou a estampar no rosto dele.
— Acho que tive uma ideia. — fui até minha bolsa, retirei minha echarpe xadrez de dentro e voltei — Quando um casal está dançando, eles devem sempre manter contato visual, serve como uma declaração de confiança, um no outro. — eu coloquei a echarpe sobre os olhos dele e amarrei — Então, até que você se sinta seguro o suficiente para me olhar nos olhos, terá que tentar confiar em mim, confiando em si mesmo.
— O que eu devo fazer? — perguntou ele.
— Encontre sua parceira. — deu alguns passos para longe dele — Movimente seu corpo em pequenos passos, dois para frente, um para trás e um para o lado, faça isso repetidamente até me encontrar.
— Mas, essa sala é grande. — ele riu não acreditando.
— Eu sei, por isso te dei um movimento básico. — eu ri junto me distanciando um pouco mais dele — Quando me encontrar, avançaremos mais.
Mesmo tímido, ele começou a se movimentar, sem música, sem barulho, era somente nossas respirações e o barulho dos passos dele. Me sentei no chão perto da janela e fiquei o olhando, era uma ideia diferente do tradicional, mas para alguém tímido como ele, teria que conquistar sua confiança aos poucos e fazê-lo se soltar mais. Era interessante ver ele fazendo aquilo, às vezes sorria, às vezes ficava sério, às vezes perguntava se eu ainda estava na sala, eu tinha que segurar o riso, como uma forma de incentivo.
Com o passar dos dias, eu percebi que mesmo que levasse mais de dois meses, ele jamais conseguiria me encontrar, e só faltava vinte e cinco dias para o evento, então tinha que avançar um pouco mais. Foi em um movimento dele, que me sincronizei com seus passos segurando em sua mão, colocando a outra dele em minha cintura.
— Parabéns, você me achou. — disse o fazendo manter o ritmo dos passos.
— Mesmo? Ou foi uma trapaça sua?
— Eu sou a professora aqui, e estou afirmando que você me achou. — segurei o riso — Agora me guie.
— Como faço isso? — perguntou ele.
— Assim como no piano, apenas defina seus passos como uma nota musical, eu vou te seguir. — minha voz estava mais suave que o normal, acho que era proposital.
— Estou vendado, como vou saber que estou indo para o lado certo? — retrucou ele, parando.
— A questão não é saber para onde vai. — eu elevei minha mão do ombro dele até o echarpe e desamarrando retirei — Mas se pode me guiar até lá, agora olhe somente para mim.
— Isso vai dar certo? — seu olhar parecia inseguro.
— Apenas olhe para mim. — reforcei jogando a echarpe em cima do piano.
Ficamos ali parados por alguns instantes, nos olhando como se não tivesse mais nada ao nosso redor, eu esperava que desse certo, ele tinha que começar a confiar em mim e perder sua timidez. Então, depois de respirar fundo por umas três vezes, ele começou a me conduzir. Foram alguns tropeços e quedas, ele pisando no meu pé, até começarmos lentamente a conseguir sincronizar nossos movimentos, como eu imaginei, a suavidade dele em me guiar, era sim, a mesma suavidade em que tocava.
Eu estava iniciando ali, o primeiro estilo, dança de salão.
Até o momento, estávamos naqueles passos de forma seca e sem sentimento, isso me fez providenciar uma playlist especial para o momento, que foi de
Time After Time da
Cyndi Lauper a
Divine das
Girls’ Generation, com direito a movimentos complexos e alguns giros de minha parte. Ao decorrer dos dias, pude perceber que lentamente ele estava evoluindo, o que me deixou ainda mais motivada a experimentar novos estilos com ele.
— Está atrasada. — disse ele assim que eu cheguei na sala — Cinco minutos atrasada.
— Não diga. — relevei o comentário dele e joguei minha bolsa em cima do puff, já estava com o celular na mão — Hoje vamos tentar algo novo, vamos mudar de estilo.
— Ainda vamos continuar juntos? — perguntou ele se referindo a ser uma dança de casal.
— Sim, mas o ritmo será bem mais rápido e intenso, você irá evoluir para dança latina. — expliquei selecionando algumas músicas para a nova playlist.
— Bem, eu já vi alguns filmes de danças assim, mas. — ele parecia meio nervoso.
— Não se preocupe. — eu coloquei a primeira música para tocar e caminhei até ele — Bastar se mover um pouco mais rápido e não me apaixonar por mim. — brinquei um pouco, me referindo aos filmes de dança.
— Hum. — ele desviou o olhar, parecia meio desconfortável com minha brincadeira — Bem, dança latina é um pouco vasto, sei que tem muito ritmos nela.
— Olha. — estava surpresa — Vejo que alguém fez a lição de casa, vamos começar com a salsa, passamos para rumba, depois tango, te ensinarei o básico de lambada e no final, samba de gafieira.
— Tem certeza que preciso aprender tudo isso?
— O básico de cada coisa, é assim que um iniciante começa. — eu ri — No final, depois de ver todos os estilos mais conhecidos, você pode se especializar em algo.
— E qual é sua especialidade?
— Hum, eu sou a melhor em tudo. — respondi com naturalidade.
— Quanta modéstia. — comentou ele.
— Só disse a verdade. — eu ri novamente — Bem, eu geralmente tenho algumas fases no meu humor, que interferem na minha dança, atualmente minha fase está sendo hip-hop.
— E o que você gosta de dançar?
— Dança latina, mais particularmente a salsa. — respondi — Mas recentemente me apaixonei pela dança do ventre, é algo mais solitário, porém complexo.
— Compor também é assim, solitário e complexo. — concluiu ele — Vamos começar então.
A concentração dele estava boa, a cada passo novo que mostrava ele fazia o máximo de esforço para gravar e praticar. Descobri com Charlie que %Taehyung% estava praticando pela manhã, até a hora do almoço sem minha presença. Em todo aquele tempo de ensaios, já tínhamos passado por vários estilos, ballet clássico, ballet contemporâneo, salsa, rumba, tango, lambada, samba de gafieira, forró, bolero, foxtrot, sapateado, valsa, porém ainda faltava um, que eu insistia em deixar por último.
Fiquei impressionada em ver que sua dedicação só aumentava com o passar dos dias, mas uma coisa ainda estava me chateando nele, sua obsessão por pontualidade e hora. Descobri que para ele tudo tinha que ser milimetricamente calculado em minutos.
— Está atrasada. — desta vez ele estava perto da janela, olhou para o relógio e depois olhou para mim — Quinze minutos.
— Já chega, vou te ensinar uma coisa. — caminhei até ele, retirei o relógio do seu pulso e sem remorso joguei pela janela — Eu não me atraso, simplesmente chego na hora que devo chegar.
— Você é louca? — ele me olhou sem reação — Esse relógio era novo.
— Tem algum valor sentimental? — perguntei aleatoriamente.
— Se não tinha valor sentimental, não reclame. — peguei o celular da bolsa e a joguei no puff, voltando minha atenção para o celular — De agora em diante, sem cronômetros, horas estipuladas, seja um pouco mais livre.
— Livre? Ser pontual não é ser acorrentado. — retrucou ele.
— Eu só quero que você esqueça o tempo. — coloquei uma playlist nova para tocar e deixei o celular em cima da bolsa, depois e voltei para ele — Quando você dança deve esvaziar sua mente e sentir o momento, aproveitar cada segundo como se fosse o último.
— Precisava jogar meu relógio pela janela para depois me explicar isso? — ele ainda parecia chateado.
— Só assim você iria entender. — eu sorri querendo rir — Ficou até mais bonito assim sem relógio.
— Brincadeira. — ele resmungou um pouco, me fazendo rir.
— Pare de reclamar, hoje vamos radicalizar e mudar totalmente o ritmo. — disse me alongando um pouco.
— Acha mesmo que estou pronto para mudar?
— Sim, ontem você conseguiu dançar com a Charlie sem pisar nos pés dela. — respondi tranquilamente.
— Acha mesmo que não sei que anda praticando aqui pela manhã? — eu ri de novo — Ela me contou.
— Aish, ela não sabe mesmo guardar um segredo. — ele desviou seu olhar para o espelho, começando a se alongar junto comigo — E o que irei aprender hoje?
— Bem, estamos há alguns dias do evento da InH, então eu tenho pouco tempo para te ensinar o último estilo e te ensaiar para a apresentação.
— Como assim, apresentação? Faz parte da aposta? — sua cara era de uma pessoa confusa que foi enganada.
— Digamos que sim, apesar da aposta ser transformar o pior no melhor, até o festival de conclusão do ano. — eu olhei para o reflexo dele no espelho por um momento — Como você não é um aluno da InH, tenho que te apresentar para a academia como o meu “projeto profissional pessoal” do ano, onde irei mostrar a fusão da minha capacidade de professora e coreógrafa.
— Eu… — ele desviou o olhar para o chão — Não sei se vou conseguir fazer isso, uma coisa é dançar com você, aqui sozinhos, outra é…
— Não fiquei nervoso antes da hora. — eu toquei de leve no ombro dele e brinquei com meus dedos, sobre a pele dele, como se estivesse tocando um piano — Agora vamos ao último estilo, hip-hop.
— Estarei solo agora? — perguntou ele voltando a olhar para meu reflexo no espelho.
— Não por muito tempo. — eu ri — Mas vamos começar com algo leve e fácil, você ainda tem dificuldades de sentir a música e se mover conforme o que ela transmite.
Eu tentei começar com algo básico, como a coreografia de Gimme That, do Chris Brown, mas só depois que ele trombou nas próprias pernas e caiu, que eu percebi que era muito avançado para ele. Foi então troquei para Killa, da Cherish, uma música que eu poderia deixá-lo sozinho e ao mesmo tempo dançar algumas partes junto com ele. Como era sexta-feira, eu não precisava me preocupar em dar aula no dia seguinte, então passamos a noite inteiro ali no estúdio praticando, logo pela manhã Charlie apareceu de surpresa, trazendo nosso café da manhã.
— Bom dia, para aqueles que passaram a noite acordados. — ela riu colocando as sacolas em cima do outro puff — Como estão as aulas?
— Ruins. — disse %Taehyung% ao mesmo tempo que eu.
— Não. — eu o olhei meio ofendida — Estamos com muito progresso, ainda não confia na sua professora?
— Claro que confio. — respondeu ele desviando o olhar para Charlie — O que faz aqui?
— Vim buscar uns documentos, então o vigia me disse que ficaram trancados aqui a noite toda. — ela sorriu com gentileza — Aí, pensei em trazer o café.
— Você é maravilhosa. — disse caminhando até ela — Estava mesmo sentindo que deveria recarregar as energias.
— Ainda não acredito que já é manhã, não vimos a hora passar. — ele me olhou ainda remoendo o relógio perdido — Literalmente.
— Bem, bon appétit. — disse Charlie saindo pela porta enquanto ria, ela já sabia do episódio do relógio.
— Vamos para uma pausa então, quando voltarmos, começamos a praticar a coreografia para o festival.
— Já? — ele se sentou no chão ao lado do puff com a sacola de comida — Não está cedo demais?
— Não, se contarmos com hoje, só temos uma semana para praticar. — respirei fundo e o olhei — Em uma semana terei que fazer um milagre, com você.
Tinha que admitir que queria mais tempo, não por causa da aposta, mas porque já estava habituada a vê-lo todas as noites, mesmo que irritante, era divertido ter ele me dizendo que eu estava atrasada, mesmo sem relógio no pulso. Era a primeira vez que eu estava concordando com minha mãe, ela sempre dizia que a dança conectava corações, desde que eles realmente fossem compatíveis.
Me perguntava como uma pessoa tão diferente de mim, conseguia se encaixar nos meus defeitos e nas qualidades com precisão, mesmo que ele não fosse tão bom ainda dançando, meu corpo já conseguia senti-lo como se ele fosse uma música. A dança entre um casal é mesmo traiçoeira, consegue te fazer sentir atração por alguém sem você nem perceber, e eu acho que isso estava acontecendo comigo, nesses dois meses praticando com ele todas as noites.
Nossa pausa para o descanso foi mais longa que imaginei, mas tinha um motivo, nossos corpos estavam cansados de praticar a noite toda. Enquanto %Taehyung% ficou tocando no piano, eu comecei a pensar na nossa coreografia, tinha que ser algo complexo, bem finalizado, criativo, mas que tivesse nossa essência, foi então que uma luz se acendeu em minha mente.
— Tive uma ideia. — disse o fazendo parar de tocar.
— Tive uma ideia, para nossa apresentação. — me levantei do chão e caminhei até ele.
— Preciso que você componha, melodia, arranjo, não precisa de letra. — fui direta — Algo que possamos colocar como introdução.
— Não vai dar. — ele desviou o olhar — Tem um ano que não consigo compor nada, não será agora que vou conseguir.
— Tenho certeza que vai. — eu peguei na mão dele e o levantei — Agora você tem a melhor de todas as inspirações, coisa que não tinha antes.
— E qual seria minha inspiração? — ele parecia não acreditar em mim.
— Eu. — minha resposta final, eu era a melhor inspiração de todas — Você sempre diz que não consegue focar em mais nada quando eu danço, então apenas olhe para mim e componha.
— Não entendo, como consegue confiar em mim.
— Da mesma forma que deve confiar em mim. — respirei fundo levando ele para o centro da sala — Como eu disse no início, duas pessoas só conseguem dançar juntas quando tem confiança.
— E se eu errar, mesmo que eu consiga compor, se eu errar algum movimento? — seu olhar inseguro ainda estava fixo em meus olhos.
— Apenas sinta a música como vem sentindo todo esse tempo, ela faz parte de você — meu olhar também estava fixo em seus olhos — E toque em meu corpo, como se eu fosse um piano.
"Quando os seus dedos roçam as chaves
Eu não paro de ter pensamentos perversos
Meus pensamentos cardíacos entram em staccato
Ei, sr. Ambíguo
Toque no meu corpo como se fosse um piano."
- Piano Man / Mamamoo