3 • Piano Man pt. 1
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“Vou me apresentar,
Eu prefiro jeans ao invés de saias,
Mas os caras ainda se enlouquecem comigo.”
- Piano Man / Mamamoo
Demoramos mais do que deveríamos na cafeteria, a culpa era minha, assumo. Mas os donos eram tão animadores e fazia muito tempo que não me divertia tanto sem me esforçar. Experimentamos o café mais famoso do cardápio, acompanhado de um pedaço de torta de frutas, até mesmo após pagarmos a conta, os donos da loja ainda me elogiaram por ter dançado tão bem. Saí daquele lugar aos risos e agradecendo os elogios, %Taehyung% ficou calado todo o tempo, e deu um sorriso fraco quando a senhora lhe disse para aprender a dançar comigo.
— Pessoas animadas. — comentei enquanto caminhávamos pela rua.
— Sim. — concordou ele, permanecendo sério — Você parecia à vontade dançando com eles.
— É mais forte que eu. — ri um pouco — Não consigo ouvir uma batida que já me movimento como um ímã.
— Existe algo que te atrai na música?
— Sim. — ele desviou seu olhar para mim e depois voltou a olhar para frente — O piano.
— Não consigo ver um, que já quero tocá-lo. — admitiu.
— Bem, me parece que enfim, temos um sentimento em comum.
Ao contrário do que eu pensava, eu e ele tínhamos algo que nos ligava indiretamente: a música. Conversamos um pouco mais sobre suas composições e seu amor pela música, descobri que além de piano, ele tocava violão, violino, guitarra, violoncelo e harpa. O caminho da cafeteria até minha casa era um pouco longo, foi proveitoso pois pude analisar de perto meu provável futuro aluno.
— Não precisava me acompanhar até aqui. — disse ao chegarmos em frente ao prédio onde morava.
— Não foi trabalho algum, para uma pessoa sedentária, preciso mesmo caminhar um pouco.
— Bem. — como eu poderia falar sobre a aposta com ele — Sobre hoje.
— Ele me contou sobre sua aposta, e eu ser seu aluno. — ele desviou seu olhar para mim com naturalidade — Por isso me arrastou para aquele café.
— Então, você já sabe. — respirei aliviada — Bem, não se sinta obrigado a ajudar quem não conhece.
Me fiz de moça necessitada com o olhar.
— Dançar... Eu nunca me vi fazendo isso, mas pensei que pudesse ser uma forma de conseguir voltar a compor. — explicou ele.
— Acho que posso tentar fazer isso. — ele sorriu discretamente, desviando seu olhar para a rua — Não somente por você, mas por mim também.
— Ok, te vejo amanhã, às sete da manhã. — eu me virei para entrar no prédio.
— Espera, como assim às sete?
— Temos três meses até o final do ano, precisamos começar o quanto antes. — respondi ao olhar para ele — E aproveitando que esta é a última semana de férias, terei mais tempo para me dedicar a você.
— Às sete. — concordou não querendo concordar.
— Ah, venha com uma roupa mais confortável. — olhei novamente para aquele terno — Mais informal.
Antes que ele pudesse fazer alguma reivindicação, entrei no prédio indo direto para o elevador, não conseguia deixar de rir da cara dele, quando disse que nosso treino começaria às sete. Assim que entrei no apartamento, olhei para o sofá e lá estava Boris, dormindo o sono dos justos, como se o sofá fosse só dele. Fiquei alguns minutos o olhando dormir, e depois caminhei em direção ao quarto, joguei minha bolsa na cama e troquei de roupa.
Quando voltei para a sala, Boris já estava se espreguiçando no sofá, enquanto se preparava para pular na mesa de centro. Não dei muita atenção para ele e me dirigi para a cozinha, abri a geladeira e peguei uma garrafa de água, despejei um pouco no copo, comecei a pensar como eu poderia iniciar uma pessoa que nunca dançou na vida.
Eu era sim uma professora de dança, mas não dava aula para turmas iniciantes, era Lola que cuidava dos alunos novos. Minha especialidade era dar aulas para os alunos mais avançados, principalmente aqueles que queriam refinar suas habilidades em dança latina ou hip-hop. Dois estilos muito diferentes, que eu sempre conseguia unir em alguns momentos, fiquei pensando o que poderia ensinar primeiro para ele.
Clássico? Dança de salão? Ballet Moderno? Ajudaria um pouco se eu conhecesse mais seu estilo de vida. Tomei a água e depois me espreguicei um pouco, ainda sentia meu corpo cansado, como meu dia seguinte seria agitado, caí na cama e dormir novamente. Logo pela manhã meu celular despertou às cinco e meia, pensei por um momento em virar para o canto e dormir, foi o que fiz. Não me arrependi nenhum pouco, até que meu celular tocou, era %Taehyung%. Como ele tinha conseguido meu número?
— Alô. — disse com uma voz sonolenta.
— Você está atrasada. — disse ele.
— O quê? — tirei o celular do ouvido e olhei para o relógio — Me dê dez minutos.
Desliguei o celular e coloquei na mesa ao lado da cama, aqueles dez minutos era somente para trocar de roupa, joguei minhas coisas dentro da bolsa, troquei a comida do Boris e saí correndo. Quando cheguei na rua, ele estava parado em frente me olhando, seu olhar desceu até o relógio e depois voltou para mim, aquilo me fez respirar fundo, notei que estava segurando dois copos térmicos nas mãos.
— Bom dia, é para mim? — disse pegando um dos copos.
— Imaginei que precisasse. — disse ele com razão.
— Preciso mesmo. — tomei um gole do café, olhando para as roupas dele, estava com um conjunto de moletom de marca famosa — Vejo que está vestindo algo mais leve hoje.
— Não gosta de roupa social? — perguntou ele confuso.
— Nada contra, mas existem momentos que não são apropriados para ela. — ri de leve — E esse é um deles, sempre venha assim. — respirei fundo — Gostei do all star.
— Obrigado. — ele desviou o olhar para o lado envergonhado.
Será que não estava acostumado a ser elogiado?
Ele me seguiu até a academia, consegui convencer o porteiro a não deixar mais ninguém entrar na
InH, principalmente Dominic, assim ele não poderia me atrapalhar, ou pior prejudicar meu aluno. Assim que entramos na sala, %Taehyung% olhou um pouco admirado com o tamanho do espaço, fechei a porta e coloquei minha bolsa no puff.
— E como começamos? — perguntou ele.
— Com alongamentos, seus músculos precisam acordar. — disse o posicionando em frente ao espelho, me coloquei ao seu lado — Farei uma série de alongamentos, só seguir.
Poderia dizer que foi tranquilo, mas logo no começo, percebi o quanto era sério aquela história de sedentarismo e pior, o quanto seria trabalhoso para mim. O que deveria ter sido dez minutos, acabou sendo quarenta pela falta de hábito dele em se exercitar. Quando terminamos, fui até minha bolsa e peguei meu celular, selecionei uma playlist de músicas mais lentas e com ritmo mais suave e fácil, para que ele pudesse começar a entender e sentir a batida da música.
— Eu sei que nunca dançou, mas isso é só uma forma de você começar a se soltar, então tente seguir a melodia com seu corpo.
— Seguir… Com meu corpo. — ele parecia tentar decifrar o que eu falava como se fosse um código.
— Simples, apenas movimente seu corpo, ok?
A primeira tentativa foi frustrada, ele não conseguia se mover, somente olhava para meu reflexo no espelho. Passamos mais de cinco horas naquele método para iniciantes tímidos, até que ele conseguiu começar a se mover junto comigo. Eu já tinha percebido que precisava trabalhar um pouco com sua timidez, ou então poderia desistir de passar para a próxima etapa.
Fizemos uma breve pausa para o lanche, liguei para um disk fast food e pedi dois sanduíches caprichados com suco natural, vinte minutos após comer, voltamos para frente do espelho. Paciência era o que deveria reinar dentro de mim, mas a cada vez que tentava fazer ele se mover por conta própria, tinha que prender um grito de raiva, parecia que ele não queria fazer o que eu pedia.
E assim foi se arrastando ao longo da semana toda.
Já se fazia sete dias, passando o dia todo trancados na sala de ensaio e nenhum progresso da parte dele. As aulas começariam naquela segunda-feira, então nosso tempo junto seria reduzido pela metade, e pior só poderia dar aulas para ele à noite, já que tinha pegado duas turmas pela manhã.
— Assim não dá. — disse num tom meio alterado — Não estamos evoluindo.
— Me desculpe. — ele suspirou fraco olhando para o chão — Eu pensei que conseguiria.
— Eu também. — concordei.
Assim que ele levantou seu olhar para mim, a porta se abriu, era meus alunos da primeira turma da manhã que tinham chegado. %Taehyung% se virou e saiu sem dizer mais nada, fiquei um pouco indignada com a atitude dele, mas não tinha tempo para dar importância a ele, cumprimentei alguns alunos que já conhecia de outras turmas e dei boas-vindas aos alunos transferidos para a turma especial.
— Para os novos nesta turma, sempre começamos a aula com dez minutos de alongamento, após isso façam um círculo grande e se apresentem entre si mostrando seu estilo de dança.
Eles assentiram sem nenhum problema, saí da sala para ir atrás de %Taehyung%, mas fui parada no corredor por Dominic, que me pegou pelo braço rodeando meu corpo, me fazendo para em frente a ele.
— Passo novo?! — brinquei.
— Só funciona com você. — ele piscou de leve e sorriu de canto — Se está atrás do seu aluno, ele já se foi.
— Porque o cara que passou por mim, era o único que não tinha cara de quem frequentava a InH. — ele riu debochadamente — Vejo que está com problema, ainda pode desistir.
— Nunca. — me afastei dele — Só me parou para isso?
— Não, para te lembrar do festival, temos pouco tempo para ensaiar.
— E desde quando alguém tão bom quanto você precisa ensaiar? — essa foi com ironia.
— Não por mim, mas por você. — ele sempre devolvia na mesma moeda.
— Acho que tenho um tempo sobrando de manhã antes das aulas.
— Combinado então. — ele deu dois passos em direção a escada — Boa sorte com seu aluno.
— Guarde para você. — eu sorri — Não preciso disso para ganhar.
Voltei para minha sala e iniciei minha aula, todas as turmas que tinha pegado naquele semestre, eram de alunos que estavam no seu último ano para se formar. Como sempre separaria primeiro por estilo de dança e ritmo, algumas pessoas nasceram para dançar com um parceiro, já outras nascem para brilhar solo. Minha tarefa era identificar e guiá-las da melhor forma possível.
Os dias foram se passando e %Taehyung% não aparecia para as aulas. Aquilo já estava me dando mais raiva ainda, pior do que uma pessoa que não consegui, é uma pessoa desistir sem tentar ao máximo. Por outro lado, meu tempo livre para ensaiar com Dominic, teve seu lado divertido, afinal nossas alfinetadas eram engraçadas, me faziam esquecer um pouco nossa aposta louca.
No dia do festival, fiquei um pouco ansiosa minutos antes da apresentação, felizmente deu tudo certo, Dominic e eu fomos harmoniosamente sincronizados em todos os momentos da coreografia. Lola e Jiyong estavam na plateia, a presença do diretor Francis era prevista, reconheci Joe da
Moonlight acompanhado de sua esposa, até mesmo o fã clube, que dizer, a Nalla, foi nos prestigiar. Mas a surpresa mesmo, foi quando eu desci do palco e vi um rosto que não via há dias, mas queria matar.
— Ah, hoje você veio. — disse ao me aproximar dele e empurrá-lo de leve — O que está fazendo aqui?
— Vim pedir desculpas. — disse ele, olhando para o chão, daquele jeito tímido que já estava me dando raiva.
— Desculpas não vai resolver, muito menos compensar o que fez. — joguei o que estava entalado na garganta.
— É por isso que estou aqui, para compensar os dias perdidos. — reforçou ele.
— Não quero desistir. — completou desviando o olhar para mim — Farei o que você mandar.
— O que te fez voltar? — ainda não estava convencida.
— Seu amor pela dança, me fez lembrar que eu amo a música, mais que tudo. — ele respirou fundo, como se pensasse em suas próprias palavras — E a música é o que nos une.
Ainda faltava dois meses para a festa de encerramento da
InH. Eu ainda poderia fazer o impossível acontecer, peguei ele pela mão e o arrastei para fora da área onde estava acontecendo o festival. Parei um táxi que passava na hora e entramos nele, peguei seu celular emprestado e liguei para Charlie, uma amiga da minha mãe, ela tinha um estúdio de ballet onde eu sempre ia para ensaiar minhas coreografias mais preciosas.
Seria naquele estúdio que eu ensinaria ele, tinha um valor sentimental para mim, e a dança era assim, uma onda de sentimentos que movia meu corpo ao som da música. Charlie já estava nos esperando na porta quando chegamos, ela me entregou a cópia das chaves, era um antigo, porém recém-reformado prédio de três andares na área mais nobre da cidade, tinha reservado a sala do último andar para mim.
Como era de se esperar, ela me desejou sorte antes de entrar no seu carro. Estar ali naquele estúdio, me fez recordar algumas memórias da infância, minhas aulas de balé foram com a própria Charlie. Mais uma surpresa nos aguardava na sala, Charlie havia deixado um piano de cauda, me lembrava daquele piano, talvez eu tenha comentado com ela que %Taehyung% tocava.
— Que lugar é esse? — disse ele indo em direção ao piano.
— É aqui que vamos nos encontrar agora, será nossa sala de ensaio. — expliquei.
— Por que não mais na InH?
— Acho que precisamos de um lugar mais tranquilo, que possa inspirar a nós dois. — expliquei a ele.
— Hum. — logos seus dedos tocaram algumas notas, parecia mesmo um ímã.
— Então todos os dias à noite, vamos ensaiar aqui, e como eu tenho a chave, nos finais de semana também. — fiquei o observando alisar as teclas — Você quer tocar?
— Posso? — ele me olhou, seus olhos brilharam um pouco.
— Fique à vontade. — estava curiosa para vê-lo tocar.
Ele se sentou no banco e esticou um pouco seus braços, fazendo alguns movimentos com os dedos, parecia um alongamento ao meu ver. Suavemente o som das notas começaram a surgir, espalhando pela sala numa onda serena e tranquila, ele era preciso em seus movimentos com os dedos. Aos poucos fui reconhecendo a melodia, era Lacrimosa de Mozart, mesmo sendo um pouco triste, eu ouvia muito nos meus tempos de ballet.
“Um pianista que não se encaixa neste lugar
Quando os dedos deles tocaram nas chaves
Os meus olhos se abriram.”
- Piano Man / Mamamoo