2 • Crazy
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“Yeah, eu sou o monstro feminino!
Você sabe disso
Todos vamos enlouquecer agora!
Vamos!”
- Crazy / 4minute
Foi uma longa e divertida noite, se tornou um pouco cansativa após meu sangue esfriar, e meu corpo se sentir meio cansado. Assim que cheguei em casa com o dia clareando, senti Boris passar por minhas pernas, de certo queria comida, meu lindo gato persa cinza era o único que, mesmo me desprezando em alguns momentos, eu sabia que me amava de verdade.
— Oi Boris, está com fome? — perguntei indo até a cozinha — Vamos resolver isso, seu gato manhoso.
Como todos os gatos, ele era exigente e sempre miava para eu renovar a sua comida da vasilha, assim que resolvi seu problema, trocando até mesmo a água que estava na outra vasilha, caminhei até o banheiro. Precisava relaxar meu corpo para conseguir dormir, tomei uma ducha quente, coloquei o pijama e me joguei na cama, só levantaria dela à tarde.
Não demorei muito para pegar no sono, as horas se passaram até que fui acordada pelo toque do meu celular, era Jiyong que me ligava. Tinha me esquecido que ele iria me apresentar seu amigo e me ajudar a convencê-lo a ser meu aluno, suspirei fraco ao atender a ligação.
— Jiyong, eu estava dormindo. — fui direta nas palavras.
— Imaginei. — ele riu — Mas, temos assunto para tratar, consegui convencer meu amigo a tomar um café.
— E o que eu tenho com isso? — perguntei, meu cérebro estava meio parado naquele momento.
— Lola vai passar na sua casa para te buscar.
— Jiyong, não dá para adiar isso? Estou morta. — reclamei um pouco.
— Não. — ele riu de novo — Assim, não tem como meu amigo desistir, vou desligar agora.
Não demorou nem cinco minutos e a campainha toca, me levantei da cama arrastando e fui abrir, como previsto era Lola, que sem esperar pelo convite, já foi entrando em direção ao meu quarto.
— Vamos, amiga, já estamos atrasadas. — disse ela.
— Atrasadas? Eu acabei de acordar da pior forma possível. — reclamei indo atrás dela.
— Você não quer ganhar do Dominic? — ela abriu meu guarda-roupa e começou a olhar entre os cabides — Seu primeiro desafio, conhecer seu aluno.
— Não é nada animador. — sentei na cama — O que está fazendo?
— Escolhendo uma roupa legal para você vestir. — ela pegou um vestido floral que eu não via a tempos — Percebi que você está usando muito jeans ultimamente.
— Com jeans ou sem jeans, continuo maravilhosa. — peguei o vestido da mão dela — Mas tenho que admitir que faz tempos que não coloco um vestido, mas não será hoje que vou usar.
— Desde quando eu preciso de um homem como pretexto para usar um vestido? — a olhei tranquilamente.
— E como pretende ir? — perguntou ela.
— O mais confortável possível. — desviei meu olhar para as roupas do cabide — Não quero impressionar ninguém, só preciso de um aluno e não um namorado.
— Nunca se sabe, vai que rola um clima.
— Lá vem a cupido. — brinquei enquanto separava a roupa que vestiria.
Minhas fases na dança sempre refletiam em meu estilo de vida, isso já era normal, principalmente nas roupas que usava, naqueles últimos meses eu estava me envolvendo bastante com o hip-hop, isso explicava porque tinha parado de usar vestidos. Não podia reclamar, quando tive minha fase dança latina, meu guarda-roupa só tinha vestidos. Expulsei Lola do meu quarto e fechei a porta, troquei de roupa, minha escolha do momento foi uma regata com jaqueta xadrez e um short jeans meio curto e rasgado na frente, após uma noite inteira dançando, era óbvio que minha escolha para os pés seria o all star preto, que comprei recentemente.
— Ainda se diz minha amiga. — reclamou Lola ao me ver com aquela roupa — Não sei como pode ser tão popular.
— Deixo meu lado fofa e feminina com você, ainda não cheguei na fase femme fatale. — brinquei rindo dela.
— Vamos, antes que Jiyong me ligue mais uma vez. — assim que ela fechou a boca seu celular tocou — Viu, falando nele.
Eu ri, a seguindo para fora do apartamento, enquanto ela falava no telefone com Jiyong. Entramos no seu carro e seguimos para a tal cafeteria, foram alguns minutos até que Lola estacionou em frente ao que seria a fachada do lugar, que para minha surpresa era uma cafeteria mexicana, chamada
El Nacho Coffee. — Por essa eu não esperava. — sussurrei olhando para a vidraça do lugar.
— Inusitado. — segurei o riso — Como descobriu esse lugar?
— Em dias de chuva, você entra em qualquer lugar para se esconder e acaba encontrando lugares fascinantes. — respondeu ela de forma poética.
— Parece ser um ambiente legal. — comentei indo com ela até a porta.
— E é, super acolhedor e descontraído, os donos são mais loucos que você, quando se trata de dança.
— Não brinca?! — a olhei.
— Em alguns momentos, ou datas comemorativas, eles tiram os clientes para dançar, é bem engraçado.
Aquele lugar estava se tornando ainda mais interessante ao meu olhar. Assim como a fachada, toda a parte interna tinha cores vibrantes e alegres, fiquei olhando ao meu redor, até que meu olhar chegou a uma mesa mais no fundo do lugar. Jiyong todo despojado, estava sentado com seu amigo ao lado, a primeira impressão eu estava certa, ele realmente parecia um poeta incubado, com seu terno cinza e óculos de nerd.
— Hello, boys. — Lola sorriu de leve já se sentando na ponta ao lado de Jiyong — Demoramos?
— Não. — Jiyong sorri e deu um selinho nela — Acabamos de chegar também.
— Para ser sincero, vocês demoraram cinco minutos. — disse o poeta incubado.
— O quê? — estava estática com aquele comentário.
— É brincadeira. — Jiyong tossiu um pouco — %Taehyung%, esta é %Amelia%, e %Amelia% este é meu amigo que te falei, %Taehyung%.
Ah, outro coreano. Pensei comigo.
— Oi. — ele me olhou discretamente debaixo para cima, depois desviou o olhar para o cardápio.
— Oi. — sussurrei — Eu preciso.
Me virei de imediato, já planejava sair daquele lugar, o mais rápido possível, foi quando Lola segurou no meu braço e deu a desculpas de que iríamos no banheiro. Foi uma estratégia legal para me tirar dali.
— Eu estou ferrada. — era a única coisa que consegui dizer ao entrarmos — Eu… Ele… Não dá.
— Ei, calma. — ela começou a rir — Onde está minha amiga super otimista, aquela que não se intimida.
— Não me intimido mesmo, mas ele não tem nada… — eu já nem sabia que palavra associar ao meu caso — Você viu, nós não combinamos, e existe uma coisa até mesmo na dança que se chama química.
— Eu não vejo isso nele. — minha voz estava mais alta que o normal.
— Lembre-se que você tem uma aposta para vencer. — disse ela sabiamente.
— Ah. — quase gritei — Eu mato o Dominic.
Era um pouco decepcionante, imaginar que teria que transformar uma pessoa que não tinha nem um pingo de liga com a dança, simplesmente surreal para mim. Mas não podia perder o foco, Lola me lembrou de algo importante, eu tinha uma aposta para vencer, e transformar aquele poeta incubado em um dançarino, era minha próxima meta profissional.
— Voltamos. — Lola sabia mesmo sorrir com naturalidade.
— Está tudo bem? — perguntou Jiyong.
— Sim. — respondi de imediato sentando na outra ponta ao lado de %Taehyung% — Eu ainda estava meio sonolenta.
— Nós realmente, exageramos desta última vez. — comentou Lola me olhando, com aquele olhar de fala com ele.
— Hum. — eu juro que estava tentando pensar em algo.
— Então, eu estava dizendo ao %Taehyung% que ele podia escolher a dança como uma atividade física. — Jiyong me salvou.
— Oh, mesmo? — deu um sorriso falso de surpresa, olhei para %Taehyung% — Você gosta de dançar?
— Não, exatamente. — ele parecia evitar me olhar — Tenho uma vida um pouco sedentária.
— Por isso deveria começar a se exercitar. — Jiyong estava mesmo me ajudando, ou simplesmente queria ver o circo pegar fogo mesmo.
— Você acha que eu posso aprender? — %Taehyung% me olhou, mesmo sério sua face estava suave.
— Qualquer pessoa pode aprender, mas são poucos que conseguem chegar à perfeição. — respondi tranquilamente — Estes são chamados de…
— Nascidos de um boombox. — completou Lola rindo.
— Bem isso. — concordei de imediato.
— A conversa está muito boa, mas esqueci que eu e a Lola tínhamos que ir a um lugar. — Jiyong se levantou.
— Como assim? — %Taehyung% se levantou também.
— O quê? — dissemos eu e Lola juntas.
— Mas vocês podem continuar aqui, o lugar é muito bom e vocês ainda não tomaram o café daqui. — Jiyong bateu no ombro de %Taehyung% o fazendo se sentar novamente e pegou na mão de Lola — Nos falamos depois, vamos, querida.
— Sim, vamos. — Lola me olhou como se ela não soubesse daquela saída estratégica dele.
— Até. — sussurrei quase estática.
Eu não era tímida, mas não conseguia pensar em como me aproximar de uma pessoa tão diferente de mim. Segundo o relatório de informações que Lola me passou pelo caminho, ele era tímido e muito calado. Jiyong era um dos poucos amigos que tinha e para terminar, a noiva largou ele quase no altar. Esse era um dos motivos para seu bloqueio criativo.
— Jiyong me disse que está com bloqueio criativo. — comentei tentando puxar assunto.
— Bem, acontece muitas vezes comigo. — o tom da sua voz não era baixa, tinha um toque de firmeza, mesmo para uma pessoa tímida.
— O que você faz? — agora estava curiosa.
— Faço aquilo que te acompanha. — resposta enigmática — Música.
— Música?! — me surpreendeu, jurava que ele era daqueles escritores que se trancavam em uma cabana nas montanhas.
— Sou compositor, mas não consigo escrever nada a mais de um ano. — ele deu um suspiro fraco, parecia frustrado.
— Lamento, nunca passei por isso. — acho que não tinha coisa melhor para falar.
— Hum. — ele desviou o olhar para frente, me fazendo olhar junto.
— Oh, sejam bem-vindos. — um senhor grisalho se aproximou de nossa mesa, bem empolgado — Clientes novos.
— Obrigado. — dissemos juntos.
— Sempre que um cliente novo nos visita, o recebemos com muita festa. — uma senhora apareceu ao lado sorrindo, ela olhou para trás e acenou a cabeça, como um sinal para a música começar a tocar.
— E muita dança. — completou o senhor pegou em minha mão me levantando — Senhorita, nos dá a honra?
— A honra é toda minha. — disse me levantando.
— E o cavalheiro? — a senhora pegou na mão dele o levantando.
— Ah, não, eu não danço. — ele se encolheu meio sem graça.
— Não seja tímido. — a senhora o arrastou para o centro do lugar.
Eu acompanhei o senhor, um pouco animada e rindo de tudo aquilo. Aos poucos comecei a me movimentar acompanhando o senhor em seus passos tradicionais. Algumas pessoas se juntaram a nós, %Taehyung% ficou parado vendo a senhora se mover ao seu redor. Em um dado momento uma pessoa o empurrou para mim, foi neste breve momento em que nossos olhos se encontraram que pude ver o quanto ele estava desconfortável e envergonhado. Ele engoliu seco e sem saber o que fazer e se afastou, voltando para a mesa.
Juro que queria ajudar, mas fui puxada por um dos garçons e comecei a dançar com ele, as pessoas se empolgaram ainda mais, quando trocaram as músicas mexicanas tradicionais para as latinas modernas. Me senti em casa, o garçom era um ótimo parceiro, tinha um estilo próprio e cheio de gingado, fiquei impressionada e motivada a dançar sem moderação. Os poucos momentos que consegui desviar meu olhar para %Taehyung%, ele estava de pé perto da nossa mesa me olhando fixamente.
“As pessoas ao redor me chamam de louca
Você me olha e me chama de louca também
Eu entendo, também acho que sou louca
Eu danço no ritmo como se eu fosse louca!”
- Crazy / 4minute