Paris In The Rain


Escrita porMeg Reis
Revisada por Mariana

Parte 2

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Ficando perdidos no meio da noite, sob as estrelas
Encontrando amor, ficando bem onde estamos

  O barulho do trem me faz despertar de repente, não conheço metade da paisagem que passa por meus olhos, eu só espero encontrá-la novamente.
  Essa é a única coisa que venho pensando ultimamente, na chuva de primavera de Paris, em seu vestido laranja e seu sorriso molhado.
  Estar aqui é mais difícil do que imaginei que fosse, espero não me arrepender de seguir mais uma vez a vontade que real pulsa em meu peito.
  Dar adeus nunca é fácil, mas às vezes é extremamente necessário.

Antes

  Confesso que não acreditei que, de fato, ela fosse aparecer naquela apresentação, mesmo que eu tenha esperado por ela estar ali, mas eu coloquei essas expectativas para trás para não ter que me sentir decepcionado caso não a visse lá.
  Ela nem entendia muito francês, e mesmo assim estava ela lá, parada do lado de fora do teatro me esperando.
  ㅡ Estou surpreso com a sua ilustre presença ㅡ sorri me aproximando dela que deu um pulo assustada ao ouvir minha voz, quando seus olhos encontraram os meus um sorriso se alastrou pelo seu rosto.
  ㅡ Eu não entendi metade do que foi apresentado, mas eu gostei muito.
  ㅡ Posso traduzir tudo pra você ㅡ começamos a caminhar pelas ruas da cidade.
  Belle comenta sobre a apresentação, e quer saber mais sobre a minha vida.
  ㅡ Hoje é a sua vez de se tornar um livro aberto ㅡ foi o que ela disse com um sorriso no rosto.
  Foi assim que acabamos no Bistrot Victories, perto do Louvre, um restaurante simples, poucos turistas o frequentam, trazendo a tranquilidade que eu tanto gosto. Ele é pequeno e acolhedor, diferente do que qualquer pessoa de fora de Paris iria querer experimentar, desafiada, ela quis ir até o meu restaurante preferido, e eu não me importei de levá-la, nem de promoter que mostraria o quão Paris era além dos pontos turísticos.
  Acho que foi bem ali que eu me apaixonei por ela, naquele restaurante em meio a risadas e vinho barato.

  Nos dias que se seguiram, nós nos encontramos em todos eles. Nós conversamos sobre tudo, íamos aos pontos turísticos que ela queria conhecer e íamos aos lugares escondidos de Paris que prometi mostrar a ela.
  Era o décimo dia de sua viagem, estávamos no jardin Alpin quando mais uma vez fomos surpreendidos pela chuva.
  Uma das coisas que mais odiava era a chuva, em Paris temos estações bem definidas, e mesmo que a chuva fosse prevista, os dias que ela dava as caras sempre foram os dias que eu mais detestava, até Belle chegar na minha vida num desses dias.
  Naquele dia quando a chuva começou nós corremos em busca de algum lugar para nos esconder, a princípio eu odiei que ela tivesse dado as caras bem naquele momento que ela me contava sobre suas pequenas aventuras quando mais nova, sobre o dia que caiu de uma árvore e precisou levar alguns pontos na perna, ou quando torceu o braço e precisou cortar a sua camiseta preferida porque a manga era justa e seu braço estava engessado.
  Eu adorava ouvi-la falar, a voz dela era como uma música suave aos meus ouvidos, a sua risada sempre preenchia o ar e a noite, quando me deitava para dormir era sempre esse o som que tocava em minha mente como uma canção de ninar.
  Encontramos uma mesa com um guarda sol, Belle correu se sentando sobre a mesa enquanto eu a abracei na intenção de protegê-la da chuva, mas o vento trazia os finos pingos de águas em nossa direção.
  ㅡ Acho que não adiantou muito.
  ㅡ Acho que não ㅡ concordei sorrindo.
  Estávamos tão próximos um do outro que nossas respirações se misturavam. Nossos olhos se encontram e grudaram feito imãs, eu não conseguia desviar dos seus grandes olhos amendoados, e nem queria.
  Sorrindo constatando o fato de que eu adorava tê-la por perto, mesmo que não nos conhecêssemos a mais de dez dias.
  Afastando alguns fios de cabelo do seu rosto, faço questão de perder longos minutos observando cada traço dele na intenção de memorizá-los até saber de cor cada uma das suas sardas.
  Nossos lábios se encontraram tão naturalmente que fez tudo parecer certo, o dia que acabava de ser arruinado pela chuva.
  Nosso desastroso encontro no meio da rua, sua animação ao comentar sobre a peça mesmo sem entender completamente, sua história e a minha história. Se tornando uma.
  Eu havia encontrado meu porto seguro, bem ali, com ela em meus braços.
  Não importava se estávamos encharcados pela chuva, nem que a pouca iluminação não me deixasse vê-la nitidamente, eu via o suficiente para saber que era ela.
  Era ela a garota que eu seria capaz de cometer as maiores loucuras para ter por perto, assim como minha mãe dizia ter feito por meu pai.
  E eu não queria deixá-la ir, nunca.
  Eu cometeria todas as loucuras possíveis se ela estivesse do meu lado.
  Foi por isso que a beijei aquela tarde chuvosa, porque finalmente eu havia encontrado o que tanto procurava.

  ㅡ O que a gente está fazendo? ㅡ ela me perguntou com seus braços em volta da minha cintura enquanto observámos uma das obras expostas no museu de Orsay.
  ㅡ O quê? ㅡ questiono sem entender - Estamos no museu.
  ㅡ Não, o que a gente está fazendo, David ㅡ ela se solta de mim colocando um passo de distância entre nós ㅡ Você sabe, isso aqui vai acabar no dia que eu voltar pro Brasil ㅡ ela diz apontando para mim e depois para ela repetidas vezes.
  ㅡ Não tem que acabar quando você voltar ㅡ digo segurando seu braço na intenção de trazê-la mais para perto. Ela me abraça novamente, mas sei que ainda não está convencida das minhas palavras.
  ㅡ Acho melhor encerramos a noite por aqui ㅡ ela se ajeita de pé na minha frente.
  ㅡ Mas é?
  ㅡ Não ㅡ ela diz saindo me obrigando a segui-la.
  ㅡ Hey ㅡ toco seu braço a fazendo parar no caminho.
  ㅡ Vamos para casa, amanhã você tem que ir ensaiar cedo ㅡ ela diz e continua a caminhar.
  ㅡ Pode me dizer o que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? ㅡ pergunto me apressado para ficar na sua frente.
  ㅡ Não.
  ㅡ Belle ㅡ peço num suspiro, ela cede, percebi pelo jeito que me olhava. Ela pega minhas mãos e não diz nada por um bom tempo até tomar a coragem que precisa e me olhar nos olhos.
  ㅡ Eu não sei, David, mas parece que estamos desperdiçando nosso tempo numa coisa que a gente sabe que não vai durar.
  ㅡ Como assim? Você está falando de nós dois? Porque se está, eu já te disse ㅡ me aproximando coloco alguns de seus fios revoltos atrás da orelha ㅡ, quando chegar a hora a gente vai decidir o que fazer, como fazer pra dar certo. Você disse que queria aproveitar os dias antes de voltar para o Brasil, antes de voltar pras suas responsabilidades e eu estou fazendo o que posso para que isso aconteça, eu não estou apressado as coisas.
  ㅡ Eu não tenho sorte em nada mesmo, por que você não podia ser um brasileiro que de fato mora no Brasil? Isso facilitaria tanto as coisas ㅡ ela soa como uma criança birrenta segurando minha mão para voltar a andar.
  ㅡ Então só se eu morasse no Brasil estaríamos num relacionamento pra valer?
  ㅡ Sim.
  ㅡ Então não estamos num relacionamento de verdade mesmo depois dos últimos dias? ㅡ tento soar ofendido, mas sei que falho, porque quando ela me olha ela está segurando uma risada.
  ㅡ Estamos mais pra um desses amores de verão, no nosso caso de primavera.
  ㅡ Como naqueles filmes? Que as coisas acabam quando cada um volta pra vida normal e percebem que não era nada passageiro e vão atrás um do outro pra não ser mais só um amor de verão?
  ㅡ É, quase isso ㅡ ela franze a testa, pensando.
  ㅡ Por mim tudo bem, se no final a gente for acabar junto ㅡ dou de ombros.
  ㅡ Como se fosse fácil assim ㅡ ela me empurra outra com os ombros sorrindo, por um momento me perco em seu sorriso, em suas feições. Com certeza ela seria a pessoa que eu iria atrás. Quando ela nota meu olhar sobre ela, seus olhos vêm de encontro ao meu, seu sorriso se enlarguece e eu sorrio mais ainda desviando meu olhar e faço uma promessa a mim mesmo de nunca perde-la. Eu arrumaria um jeito de fazer dar certo quando seus dias em Paris acabassem, estávamos na cidade da luz e do amor, faríamos dar certo.

Parte 2
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