Parte 1
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Tudo o que eu sei é
Nós poderíamos ir a qualquer lugar, nós poderíamos fazer
Qualquer coisa, garota, seja lá o clima que estivermos
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Ela chegou na minha vida com um furacão, eu deveria ter percebido que o jeito que nossas vidas haviam colididos muitas coisas iriam cair.
Eu fui iludido e esperançoso demais quando as coisas começaram a flutuar quando a sua risada preencheu o ar, aliviando o peso que eu carregava nas costas há tanto tempo.
Eu deveria estar acostumado com as partidas.
Mas acho que nunca estamos preparados para dar adeus e seguir a vida como se uma parte nossa não fosse se perder ao fazer isso.
Porque foi isso o que ela se tornou em tão pouco tempo, uma parte de mim.
Em alguns dias, ela fez uma diferença imensa na minha vida, porque com seu jeito estabanado e otimista me fez perceber que a vida é muito mais do que decepções, que nós somos capazes sim de sorrir e nos alegrar mesmo depois de uma tragédia.
Parece idiotice o que estou falando, mas só quem viveu o que eu vivi, esteve onde eu estive, consegue ver o que eu vejo e sentir o que eu sinto: um imenso buraco no peito por estar sendo obrigado, mais uma vez, a seguir em frente, a conviver com mais um adeus.
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Antes
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Estamos acostumados com a chuva de primavera, mas fazia dias que nenhuma gota caia do céu deixando os dias mais quentes do que o usual no mês de abril.
Eu estava sentado num café observando sua chegada, as pessoas começaram a se apressar para debaixo da marquise, Pietro gritou algumas palavras para seu único garçom e os dois correram para o lado de fora recolhendo cadeiras e mesas.
Os clientes entraram no café, deixando o ambiente cheio, quase claustrofóbico, ainda mais quando mais água caiu e os turistas buscaram proteção dentro das cafeterias.
Parecia que finalmente a barreira que não permitia que a água que era esperada para o início do mês houvesse se rompido.
Depois de mais uma xícara de café, a agitação da chuva não prevista já começava a passar, os casais começam a deixar o pequeno café do Sr. Pietro deixando uma boa gorjeta sobre a mesa antes de sair.
Do lado de fora, a umidade amenizou o calor que fazia antes, deixando o clima mais agradável, olhando para o céu esperava que os raios de sol saíssem novamente, mas não parecia provável, uma imensa nuvem escura ainda pairava lá em cima.
Como se lesse meus pensamentos, algumas gotas começaram a cair, não era forte, mas era o suficiente para deixar alguns pequenos pontos escuros em minha camisa.
Apertei o passo olhando o chão, o teatro não fica muito longe do pequeno café que frequento desde que cheguei à Paris e esperava chegar antes que a chuva caísse novamente, acredito que isso aconteceria se eu não fosse impedido por uma espécie de raio alaranjado que se colidiu comigo vindo de uma ruela à minha esquerda.
ㅡ Désolé (desculpa) ㅡ ela disse com os olhos perdidos em confusão, seguro seus ombros me certificando de que está tudo bem com ela. Seus cabelos estão colados em seu rosto e seu vestido laranja encharcado.
Mas ela não parecia se importar muito, com um sorriso contido nos lábios ela olhou para o céu e ao sentir os pequenos pingos de água e fechou os olhos.
Era nítido que ela não era dali.
Mais uma turista para o dia chuvoso de Paris, esses são os piores dias.
ㅡ Désolé ㅡ murmurei em resposta, seus olhos voltam até mim ㅡ Il ne pouvait pas échapper à la pluie? (não conseguiu fugir da chuva?) ㅡ perguntei, ela balançou a cabeça, mas não sei se de fato me entendeu e torceu a saia do vestido na intenção de amenizar seu estado. Sentindo novamente os chuviscos, ela secou os braços e fez uma careta soltando um suspiro que me fez sorrir achando graça.
Ela percebeu isso, mas antes que pudesse soltar qualquer resposta a chuva começa novamente, num impulso, puxei seu braço levando-a para baixo da marquise.
ㅡ Il y a un café à proximité, on peut y rester jusqu'à ce que la pluie passe (tem um café aqui perto, podemos ficar lá até a chuva passar) ㅡ olhei sobre meu ombro para ela, que apenas balançou a cabeça concordando acompanhando meus passos.
Pietro me cumprimentou, novamente, com um sinal peço que nos sirva dois cafés.
ㅡ Merci ㅡ a moça agradece depois de se sentar e sorriu arrumando os fios molhados atrás da orelha, enquanto Pietro se aproximava com duas xícaras de café e sorri para a mais nova cliente.
ㅡ Que veux-tu de plus? (O que mais desejam?) ㅡ ela mantém o sorriso no rosto e me olha.
ㅡ Merci, Pietro ㅡ digo para meu velho amigo apoiando os braços sobre a mesa, algo na mulher sentada à minha frente me deixou incrivelmente curioso, algo nela me parecia familiar.
ㅡ Nous attendons cette pluie depuis un certain temps (estamos esperando essa chuva faz tempo).
ㅡ Sorry, i don’t speak french very well (desculpe, eu não falo francês muito bem).
Aquela foi a segunda vez que ela me surpreendia, em apenas um dia. Eu já imaginava que ela não fosse de Paris, mas ainda assim me sinto surpreso.
ㅡ Where are you from? (De onde você é?) ㅡ perguntei feliz em saber falar pelo menos o básico de inglês, que também não é minha língua nativa.
ㅡ Brazil.
Ao ouvir tal palavra, fiquei sem reação, minha mente processa a informação, e ela me lança um sorriso afetado percebendo minha surpresa, mas não diz nada levando a xícara quente novamente aos lábios.
ㅡ Already been there? (já esteve lá) ㅡ ela pergunta depositando a xícara com delicadeza sobre a mesa.
ㅡ Actually, i'm from there (na verdade, eu sou de lá) ㅡ respondo enquanto me pergunto se devo me aventurar na língua que não falo há por muito tempo, além das curtas ligações que faço à minha irmã mais velha.
ㅡ Sério? ㅡ ela sorri, animada.
ㅡ Sim, mas faz anos que não vou lá ㅡ digo pensando bem em minhas palavras, achei que não fosse possível desaprender a falar minha língua nativa, mas as palavras soam estranhas aos meus ouvidos, mas ela parece entender.
ㅡ Isabelle ㅡ ela me estende a mão direita com um sorriso colado no rosto.
ㅡ David ㅡ aceito seu cumprimento, e logo um silêncio incômodo surge entre nós dois.
Ela olhou pela janela do seu lado direito, a chuva ainda era forte e não parecia que ia cessar tão cedo.
ㅡ Você não me parece com um turista, então, há quanto tempo você mora aqui?
ㅡ Faz alguns anos.
ㅡ Pensa em voltar para o Brasil?
ㅡ Pra falar a verdade não, e faz tempo que não encontro ninguém de lá, devo pedir desculpas pelo meu português enferrujado, eu acho.
ㅡ Está ótimo, eu não achei que fosse encontrar alguém de lá aqui, pra falar a verdade eu não achei muita coisa quando resolvi vir pra cá.
Ela me contou sobre os dias que sucederam sua vinda, sobre seu ato impulsivo após ver pela milésima vez a mesma propaganda na TV.
Eu achei curioso o fato dela sorrir e ser tão leve, mesmo que tivesse acabado de perder o emprego.
Naquele café, com a chuva caindo do lado de fora eu sentia que já sabia tudo sobre ela.
Quando tive que deixar o café, eu a fiz um convite sem muitas intenções, a convidei para ir no teatro no final de semana, com um sorriso no rosto ela o aceitou e foi aí que as coisas começaram a dar errado para mim.
Entende, eu estava bem vivendo meus dias em Paris, atuando em peças no pequeno teatro, indo beber algumas cervejas com meus poucos amigos e voltando para a antiga casa da minha família e acordando no dia seguinte para repetir tudo de novo.
Eventualmente eu telefonava para minha irmã no Brasil, na verdade, a maiorias das vezes era ela quem ligava e nós trocamos poucas palavras.
E mesmo assim, dois dias depois de tê-la encontrado e a convidado para assistir Hamlet, eu me perguntava se o raio alaranjado iria aparecer, e ele apareceu.
Com roupas e cabelos devidamente secos e um sorriso que iluminava todo seu rosto enquanto aplaudida ao fim da peça.