3 • Trilha do Coração
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Mais uma vez a dupla do Continuum Post estava desembarcando na ilha de St Andrews. Um respiro fundo e uma missão a cumprir, com muitas expectativas do editor chefe incluídas no pacote. Mais uma vez, recebidos por Kimberly que já os encaminhou para a cabana em que ficariam na primeira estação da
Trilha do Coração. Por mais que %Evelyn% confessasse estar tranquila com relação a estadia deles ali, internamente havia uma chuva de insegurança que a deixava inquieta.
— Cada minuto fico mais impressionado com a estrutura desse lugar — comentou %Oliver%, assim que o mordomo se retirou ao deixar suas malas na cabana.
— É, esse lugar é mesmo impressionante, devem ter gastado uma fortuna construindo — concordou ela, se aproximando de sua mala e a arrastando até o sofá. — Fico me perguntando como conseguiram dinheiro para isso.
— Economizando, talvez — supôs ele. — O que uma família da Continuum mais tem, são influências financeiras.
— Falou o fundador — brincou ela, soltando uma gargalhada boba.
Ele fez uma careta engraçada e voltou a atenção para a janela. Do lado de fora caia uma fina neve, quase imperceptível. Os dias estavam sendo contados para a data mais esperada pelos casais daquele lugar.
— Você tem alguma ideia de como vai ser essa tal trilha? — perguntou ela, ao abrir a mala e olhar superficialmente suas roupas. — Precisamos estar focados para descobrir o propósito deles.
— Talvez possam nos dar uma pista sobre. — Ele a olhou novamente. — Em alguma explicação das atividades, mas que tal a gente sofrer com isso amanhã?
Ele se espreguiçou um pouco.
— Amanhã? — Ela deu outra gargalhada. — Não se iluda, meu caro, enquanto você estava jogando charme para a camareira, a senhorita Kimberly me informou da nossa primeira atividade.
— Eu não estava jogando charme para ninguém, só estava sendo educado com a moça — explicou ele, dando um olhar inocente.
— Sei. — Ela se levantou após pegar algumas peças de roupa e se voltou para o banheiro. — Eu vou me trocar, sugiro que faça o mesmo, apesar do inverno estar no fim, ainda está frio lá fora.
— Hum… Quanta preocupação. — Ele sorriu de canto, com o olhar malicioso. — Você pode trocar de roupa aqui na minha frente, não há nada aí que eu já não tenha visto.
— Seu tarado. — Ela fechou a cara e seguiu para o banheiro. — Não há nada aqui que você tenha o privilégio de ver.
Ele soltou uma gargalhada boba, observando-a entrar e fechar a porta.
— Precisava mesmo trancar? — disse ele, ouvindo o barulho do trinco.
— Não confio em você! — gritou ela, do outro lado.
Ele continuou rindo por um tempo, até que caminhou até sua mala para escolher uma roupa para ele. %Oliver% podia não aparentar, e seu lado brincalhão o ajudava a esconder todo o seu nervosismo por estar ali. Assimilar que passaria sete dias ao lado da única mulher que fazia seu coração acelerar apenas com um sorriso, também o deixava assustado. No fundo, o supervisor sabia bem que assuntos inacabados uma hora poderiam causar estragos naquela viagem.
— Hum… — Após finalmente colocar a blusa, %Oliver% se virou deparando com a mulher encostada na porta do banheiro o observando. — Depois eu é que sou o tarado.
— O que eu fiz? — perguntou ela com um olhar inocente.
— Ainda pergunta. — Ele pegou seu casaco e riu. — Eu não posso te observar, mas você pode.
— Quem disse que estou interessada nisso? E como você disse, não há nada aí que eu já não tenha visto. — Ela adentrou um pouco mais e, passando por ele, pegou seu casaco que tinha deixado no sofá. — Vamos?
— Nossa, que ríspida — reclamou ele, num tom debochado que a fez rir.
Ambos se agasalharam bem, para a noite ao ar livre que daria início a
Trilha do Coração. Ao chegar no local indicado pelo mapa que receberam, havia já alguns casais sentados em troncos de árvores espalhados ao redor de uma singela fogueira. Foi inevitável para %Evelyn% não se lembrar do primeiro acampamento que participou após entrar na
Constance Elite High School e fazer amizade com Camile.
— Bem-vindos, casais, meu nome é Charlie — disse uma senhora de cabelos grisalhos, que se mantinha sentada em uma das toras, ao ajeitar seu xale no ombro. — Este é o primeiro dia de vocês no Paradise Kiss, e é aqui que iniciamos nossa
Trilha do Coração e a busca pelo propósito da estadia de todos aqui. Algum casal quer se apresentar primeiro?
Um casal levantou a mão juntos, pareciam empolgados.
— Se apresentem — assentiu a senhora.
— Meu nome é Thomas e esta é minha esposa Louise — iniciou o homem ruivo, ao olhar para a mulher ao lado com carinho.
— Nos casamos há três meses — completou a mulher, sorrindo com graça — e compartilhamos a guarda de um filhote de Dálmata.
— Estamos morrendo de saudade dele — completou o homem.
— Bem-vindos — disse Charlie.
— Tá explicado o porquê estão felizes — comentou um homem sentado ao lado de %Evelyn%, num tom baixo.
— Nós também já fomos assim antes — reclamou a mulher ao lado dele, mantendo o olhar de frustração.
— O casal à direita gostaria de se apresentar? — Charlie olhou para eles, com serenidade.
— Bem… — a mulher se pronunciou. — Meu nome é Judy, e este é…
— Roy, somos casados há 13 anos — completou ele. — Temos três filhos.
— Que interessante, e já sabem o propósito de vocês aqui? — perguntou a senhora.
— Para ser honesta, nem sabemos o motivo de termos casado — respondeu Judy, olhando atravessado para o marido.
Aquilo deixou %Evelyn% um tanto chocada.
— Tenho certeza que até o final da trilha, descobrirão — continuou Charlie. — Próximo casal, os jovens jornalistas.
— Ah não, não somos um casal — %Evelyn% se adiantou em negar e corrigir a informação.
— Eu sei que não, mas o
Paradise Kiss somente hospeda casais, então, enquanto estiverem aqui, serão um casal — retrucou Charlie com uma doçura na voz que constrangeu a jornalista. — Se apresentem.
O Tenebrae tossiu um pouco, em choque também.
— Eu sou %Oliver% e esta é %Evelyn% — respondeu rapidamente. — Quase nos casamos uma vez.
A frase final soou de forma espontânea dele, e com um tom de humor.
— Poderia ter omitido a última parte — sussurrou ela, meio envergonhada pelo olhar de interesse da senhora.
— Olha só, são mesmo um casal — brincou Charlie. — Bem, cada grupo de trilha possui uma guia, no caso, eu. E vou levá-los aos cinco pontos durante esses sete dias.
— Não acredito que sua mãe nos obrigou a fazer isso — reclamou Roy num tom baixo, parecia arrependido.
— Ou era isso, ou coisa pior. — Judy bufou um pouco. — Nosso casamento está falido, não há conserto.
— Nem tudo está perdido, minha cara — Charlie voltou o olhar para a mulher amargurada —, para enxergar um futuro, precisamos voltar ao passado.
Passado. A palavra que assombrava Moore.
— Tenho certeza que antes de toda turbulência, havia algo especial entre vocês. — Charlie respirou fundo e continuou. — O que temos aqui, um casal falido, um casal em negação e um casal desnorteado para lidar com o futuro a dois… Esta turma é mesmo interessante.
— Você falou em passado, o que vamos fazer? — perguntou %Oliver%, curioso.
— Neste primeiro dia, vocês contarão a história de como se conheceram — respondeu Charlie com um olhar animado. — Quero conhecer mais vocês e saber se realmente se conhecem.
Foram mais algum tempo de comentários e reclamações vindos do primeiro e segundo casal, até que o silêncio retornou ao grupo.
— Louise e Thomas, podem começar — disse a guia.
— Você conta ou eu conto? — perguntou Louise ao marido, sentindo seu rosto corar de vergonha.
— Eu conto. — O homem sorriu animado. — Nos conhecemos em uma lavanderia pública.
— Inusitado — disse Charlie.
— Sim, eu sou meio distraída, acabei colocando minha roupa na mesma máquina que ele e foi uma confusão. — Louise riu baixo.
— No final, uma calcinha dela foi pra casa comigo e… — O homem apenas levantou a mão esquerda mostrando a aliança, com um olhar orgulhoso. — Nossa lavanderia da sorte.
— Uau, e quanto tempo se conhecem? — perguntou %Evelyn%, curiosa pela história.
— Cinco meses — respondeu Louise.
— O quê? — Judy entrou na conversa. — Vocês se casaram com cinco meses?
— Eles já estão há três meses casados. — Roy riu dela, e num tom debochado completou: — Faça as contas.
— Babaca. — Judy fez uma careta de nojo para o marido. — Quem em sã consciência se casa com dois meses que conhece o outro?
— Pois é, por isso estamos aqui, os pais do Thomas nos obrigaram a vir para cá, senão ele perde a herança — contou Louise.
— Está explicado, ela é golpista — disse Roy.
— Como ousa falar assim da minha esposa? — Thomas se levantou no rompante para socá-lo, entretanto, impedido por %Oliver%.
— Calma, não vale a pena bater nele — disse o jornalista.
— Ele está certo, amor, isso é inveja da nossa felicidade — concordou Louise, ao segurar a mão do marido, então olhou para Roy. — E fique sabendo que eu somente descobri a origem do Tom depois que nos casamos, eu nunca soube que ele era de família rica.
— Verdade — concordou Thomas, se acalmando.
— Conte-nos mais sobre isso — incentivou Charlie.
— Eu saí da casa dos meus pais porque queria viver a minha vida — explicou o rapaz, se sentando novamente. — Por isso, fui morar sozinho sem depender deles e acabei conhecendo a Lo, foi amor à primeira lavagem.
— Espero que vocês possam encontrar o propósito de ambos estarem juntos — disse Charlie, sorrindo gentilmente. — Agora vamos a Roy e Judy, como se conheceram?
— Em uma festa de aniversário de um amigo em comum — respondeu Judy. — Esse babaca apostou que me conquistaria e conseguiu.
— Você bem que gostou de ter me beijado naquela noite — retrucou Roy, destilando seu mau-humor. — E olha que eu nem pedi.
Ela o olhou atravessado, arrancando risos dos outros.
— Vocês são engraçados, certamente já descobri o propósito de vocês aqui — comentou Charlie rindo baixo. — E agora, nosso último casal.
— Ainda insiste em nos tratar como casal — sussurrou %Evelyn%, tentando não se incomodar com essa volta ao passado.
— Contem-nos como se conheceram? — reforçou a senhora.
— Primeiro ano do ensino médio, ela conseguiu uma bolsa de estudos na Constance, uma escola de elite que pertence à Continuum — iniciou %Oliver% a história.
— Vocês são da Continuum? — O olhar de Judy tinha traços de surpresa.
— Ele é, um Tenebrae — respondeu %Evelyn%.
— Uau… Eu já conheci um Tenebrae, Andrei Tenebrae — comentou Judy.
— Desde quando conhece alguém dessa família? — questionou Roy, com um olhar reprovador pela descoberta.
— Não lhe interessa, ele pelo menos é um cavalheiro, coisa que você nunca foi — respondeu ela, sem gentileza nas palavras.
— Vamos nos acalmar — disse Charlie, tentando apaziguar a situação entre o casal. — Que tal continuarmos, vocês se conheceram no colegial e se apaixonaram?
— Não exatamente. — %Oliver% riu. — Éramos muito competitivos e sempre queríamos ser os melhores da turma.
— Continuamos sendo competitivos — corrigiu ela, rindo com leveza.
%Oliver% apenas parou por um momento para admirar aquele riso espontâneo que tanto o deixava hipnotizado. O olhar atento de Charlie, fez a jornalista perceber a intensidade que emanava do homem ao seu lado. Deixando-a um pouco constrangida.
— E quando foi que esse brilho no olhar acabou? — A senhora foi direta e precisa, queria instigar um confronto de ambos com o passado.
— Quando ele me deixou na porta do altar — assim que %Evelyn% terminou a frase, seu corpo tomou impulso e se levantou, saindo em direção ao cabana privativa de ambos.
%Oliver% apenas engoliu seco ao se lembrar daquele dia, como se fosse ontem. De como ficou olhando para o relógio do aeroporto vendo o ponteiro passar até chegar no horário em que deveria estar dizendo sim no altar. De como sentiu seu coração amargurado enquanto se assentava na poltrona do avião. De como passou noites e mais noites procurando esquecer a mulher da sua vida no corpo de outras.
O olhar de todos continuou espantado em sua direção.
— E eu achando que a gente tinha problemas — comentou Judy.
Antes mesmo que mais algum comentário pudesse ser soado, %Oliver% também se levantou e seguiu seu caminho. Ao chegar na porta da cabana, ficou parado por um tempo encarando a porta, até que deu um passo para trás e desviou-se para uma clareira bem próxima ao lugar onde estavam. Nem mesmo a fina camada de neve e a brisa gelada conseguiram superar o iceberg em seu coração. Um grito preso em sua garganta e o desejo de sufocar toda dor que retornou a sua ferida chamada passado.
— Não se preocupa em pegar um resfriado?! — A voz de %Evelyn% soou atrás dele.
— E você se preocupa com isso? — Ele se manteve de costas para ela.
— Não quero que pegue um resfriado e me contamine com seus germes — disse ela, inventando qualquer desculpa para não admitir sua preocupação com ele.
— Fique tranquila. — Ele se virou para ela, com tom amargo na voz. — Já te machuquei o suficiente para uma vida.
Ele deu impulso e caminhou em sua direção, ao passar por ela, foi barrado pela mão da jornalista que segurou a sua.
— Espera — sussurrou ela.
— O que mais você quer? — perguntou ele, controlando suas emoções e a aspereza em sua voz.
— Por que está me tratando assim? — indagou.
— De forma rude, agora é você quem está na defensiva.
— Não me vejo na defensiva. — Ele soltou sua mão. — Acho melhor você entrar, tem a saúde mais frágil e não quero ser o culpado se pegar um resfriado… Já me culpa por tantas outras coisas.
— Quer falar sobre isso então? — Ela colocou a mão na cintura.
— Você quer? Desde que voltei está fugindo — retrucou ele — E agora quer falar?
— Não fui eu quem quis vir.
— Eu não te obriguei a vir.
— Achei que pudesse ser profissional.
— Você está sendo? — retrucou ele.
%Oliver% respirou fundo e se afastou dela. %Evelyn% moveu seu olhar para o lado até que ele desapareceu do seu campo de visão, por mais que tentasse reprimir seus sentimentos, as lágrimas apenas rolaram por seu rosto.
Ao voltar para o quarto, %Evelyn% se deparou com a cabana vazia. Ela apenas se trocou e sentou em frente à escrivaninha, com o tablet na mão, ficou encarando a tela por um longo tempo.