2 • A Proposta
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Manhã de sábado e, %Evelyn% que havia passado a noite em claro arrumando sua mala, acordou assustada com o alto som vindo do apartamento ao lado. Claro que era uma sutil provocação de %Oliver%, colocando no último volume um clássico do Queen para agitar a manhã. Ela bufou de leve e se cobriu um pouco mais com um casaco de tricô e saiu de seu apartamento para reclamar. Batendo na porta ao lado de forma agressiva e repetida, precisou de muita paciência para continuar até que ele abrisse.
— Bom dia, vizinha! — Assim que a porta se abriu, um largo sorriso de %Oliver% foi surgindo em seu rosto.
— Poderia abaixar o som, por favor?! — pediu ela, entredentes com o mínimo de educação que estava disposta a gastar com ele naquele dia.
— %Oliver%, é a pizza?! — Uma voz feminina soou do interior do apartamento.
Algo que deixou a jornalista em choque e raiva oculta. Entretanto, externamente ela manteve seu rosto suave e o olhar sério, demonstrando não se importar se seu vizinho estava ou não acompanhado.
— Não, é somente a vizinha do lado. — Ele continuou com o sorriso debochado no canto do rosto. — Me desculpe pelo som, é que eu gosto de uma boa trilha sonora pela manhã.
— Apenas abaixe — continuou ela, de forma firme. — E espero que o supervisor da Continuum Post esteja pronto até o meio-dia.
— Não está curiosa para saber quem é a dona da pizza? — brincou ele, surpreso pela reação desinteressada dela.
— Olhe para minha cara e veja se eu tenho tempo para você e seus romances. — Ela deu um passo para se afastar, porém foi parada por ele que segurou em seu braço.
— Não quer tomar café com a gente? — brincou ele, em provocação.
— Abaixe o som — reforçou ela, se soltando voltando ao seu apartamento.
Assim que ela fechou a porta, do lado de dentro soltou um grito de raiva pela provocação inimiga. O que ele tinha de irritante tinha de atraente, ainda mais quando estava sem camisa, e claro que %Evelyn% tinha reparado na falta de peças de roupa em seu corpo com todo aquele abdômen definido à mostra. O que a fez lembrar das muitas vezes que o viu treinar na academia próximo a universidade em que estudaram. Mas a pergunta instalada em sua mente era:
Quem era a dona daquela voz? — %Evelyn%, pare de pensar nele e volte à sua realidade — sussurrou ela, respirando fundo. — Preciso trazer esse artigo para o jornal.
Ela voltou para seu quarto e entrou no banheiro, já retirando o casaco e a camisola. Nada como uma ducha para relaxar o corpo e ao mesmo tempo acordar os músculos. Enrolada na toalha, ela retornou ao quarto e selecionou a roupa que vestiria, inicialmente seria algo formal e básico, entretanto seus sapatos tinham o estilo de uma típica mulher de negócios que a deixava ainda mais empoderada. Um coque bem feito, brincos discretos e a inseparável bolsa Chanel que lhe custou quase a metade do último salário. Ela estava pronta para o combate.
— Não acredito que ele vai atrasar — sussurrou ela ao olhar pela terceira vez para o relógio em seu pulso.
— Quem falou que eu me atrasaria?! — A voz de %Oliver% soou atrás dela e, em segundos, passou pela mesma parando em sua frente. — Se há uma coisa que sempre fui e sempre serei é pontual.
— Ah sim, o que me leva a ter certeza da sua ausência naquele dia. — Ela deixou seu pensamento escapar em voz alta.
— Olha só, quer entrar nesse assunto? Eu não me importo de discutirmos isso aqui e agora. — Ele colocou as mãos no bolso da calça, mantendo um olhar sereno.
— Eu não tenho tempo para falar de algo desnecessário, %Oliver%, e temos que ir agora para o aeroporto, senhor pontual. — Ela ajeitou a bolsa no ombro e segurou firme em sua mala.
— Por que você sempre foge quando se sente ameaçada? — questionou ele, não se dando por vencido.
— Quem disse que estou fugindo? — Ela o olhou séria. — Nós somos profissionais, temos um trabalho a fazer, podemos?
— Está na defensiva — retrucou ele. — Eu te conheço.
— Se me conhecesse mesmo… — Ela se calou por um momento e deu o primeiro passo para seguir na frente.
Ele apenas respirou fundo, ainda tinha várias coisas engasgadas para dizer, porém não era hora e nem lugar para isso. Eles seguiram para o aeroporto com as passagens de primeira classe em mãos e um objetivo a ser alcançado. %Evelyn% passou todas as horas de viagem em silêncio, concentrada em suas inúmeras anotações na agenda prateada que carregava consigo. Enquanto isso, %Oliver% mantinha seu olhar atento a ela, nem mesmo a sonolência causada pelo cansaço da espera conseguiu pesar suas pálpebras com sucesso.
Após algumas horas de voo, o avião pousou no aeroporto de Miami, de lá seguiram em um jatinho privado para St. Andrews, uma ilha particular pertencente à família Village, no qual se instalava o Paradise Kiss. Ao desembarcarem, foram previamente recebidos pela gerente do resort, a senhorita Kimberly.
— Bem-vindos ao Paradise Kiss, agradecemos a sua presença — disse ela, em cumprimento, já acenando para que o funcionário que a acompanhava, levasse as bagagens para o jipe.
— Nós agradecemos a recepção — disse %Oliver%, num tom firme. — Viemos para falar com o senhor Sullivan Village.
%Evelyn% continuou em silêncio apenas com um olhar contemplativo, olhando a paisagem que avistava ao seu redor. Uma natureza tão bela que parecia intocada desde a criação, o céu mais limpo e azul, o ar mais puro e até mesmo as cores mais vivas, todos harmonizados pelo som dos pássaros que sobrevoavam o céu.
— O senhor Village se encontra em uma atividade para casais no momento, mas ele já está ciente da chegada de vocês — respondeu Kimberly. — Me acompanhem até o jipe, por favor.
%Oliver% assentiu e tocando com suavidade no ombro de %Evelyn%, a despertou de sua contemplação ao horizonte. Seguindo pela trilha por mais alguns minutos, finalmente chegaram à instalação principal do resort, que ficava bem ao centro da ilha, em sua estrutura monumental. Além dela, o
Paradise Kiss também contava com outras cinco pequenas instalações espalhadas pela ilha, cada uma representando uma parada na
Trilha do Coração, a maior e mais bem sucedida atividade para casais que o resort oferece.
— O quarto de vocês já está pronto e Gonzales levará suas bagagens — reportou a gerente, mencionando o mensageiro.
— Agradecemos — disse %Evelyn%, finalmente voltando sua atenção para a mulher. — Você por acaso sabe quando o senhor Village poderá nos atender?
— Em alguns minutos acredito, contudo, queiram me acompanhar, vocês podem esperar no lounge do resort enquanto isso. — Ela estendeu a mão direita para indicar o caminho.
— Claro — %Oliver% assentiu prontamente.
Ambos não tinham muita opção a não ser esperar que o dono do resort aparecesse e aceitasse os argumentos ainda não construídos da dupla em questão. Sentados em uma área vip do lounge, em duas confortáveis Poltronas Mole, o design brasileiro assinado pelo arquiteto Sérgio Rodrigues. A princípio a colunista não conseguia controlar tamanha fascinação por um ambiente tão luxuoso, moderno e ao mesmo tempo aconchegante. Entretanto, quanto mais os minutos se passavam, ela o nervosismo ia crescendo dentro de ambos, até que finalmente o senhor Village apareceu com sua esposa.
— Bem-vindos ao Paradise Kiss — disse o senhor de cabelos grisalhos e um sorriso jovial, acompanhado de uma bela senhora ao lado. — Esta é minha esposa Penny.
— Senhor e senhora Village, prazer, somos do jornal… — %Oliver% se levantou da poltrona e esticou a mão em cumprimento já se apresentando.
— Continuum Post — disse o homem o interrompendo, porém aceitando o cumprimento ao apertar sua mão. — Sei muito bem quem são, a colunista e o supervisor, recebi uma ligação do seu pai há dois dias falando da visita de vocês.
O olhar da dupla ficou espantado, aumentando mais a ansiedade interna.
— Bem, o que mais o senhor Tenebrae lhe disse? — perguntou %Evelyn%, ao se levantar também, curiosa.
— Que ambos iriam me convencer a aceitar a matéria sobre meu resort. — Ele riu de leve e olhou carinhosamente para sua esposa. — Estou curioso para saber como farão isso.
— Querido, não os deixe mais nervosos que já estão — disse a mulher, num tom doce e suave.
Seu olhar era meio e sutil, que de forma curiosa transmitia uma certa afeição a Moore.
— Bem… — %Evelyn% respirou fundo e retirou seu tablet da bolsa, já ligando a tela. — Podemos começar mostrando-lhe os benefícios que o senhor terá com uma matéria em nosso jornal, principalmente se tratando do marketing do seu resort…
— Ah não, eu sei que você fez bem seu trabalho de casa e irá apresentar possíveis números de encher meus olhos, dizendo que financeiramente uma matéria aumentará meus lucros e tudo mais incluso no pacote — Sullivan a interrompeu já premeditando as palavras dela.
— O senhor nem mesmo a ouviu, tenho certeza que vai se surpreender — interviu %Oliver%, confiando na capacidade de sua colunista.
%Evelyn% voltou seu olhar para ele, surpresa pelas palavras.
— Não temos dúvidas disso — Penny se pronunciou, mantendo a sutileza. — Mas, meu jovem, a vida é muito curta para se gastar o pouco tempo que temos com conversas como essas. Não é, querido?
— Como assim? Estamos falando de um patrimônio de vocês, algo que gastaram tempo investindo — argumentou %Evelyn%. — Não entendo.
— Sim, nós investimos tempo e dinheiro aqui, e nosso
Paradise Kiss tem cumprido bem o seu propósito, não precisamos de marketing para transformar nosso sonho em um tipo de comércio barato, não são quaisquer pessoas que se hospedam aqui — explicou o Village. — O que minha esposa quis dizer é que estamos em lua de mel e não vamos desperdiçar nosso tempo com algo que segue como planejado.
— Senhor, não é nossa intenção… — %Oliver% interviu.
— Senhor Tenebrae, por mais que vosso pai seja um amigo muito estimado, não abrirei exceção, não haverá matéria sobre o nosso resort. — As palavras saíram de forma suave dos lábios de Sullivan.
Entretanto, %Evelyn% não havia se dado por vencida naquele e não levou sua entonação como uma palavra final. Assim que o homem se impulsionou para se retirar com a esposa, a colunista agiu de imediato sem pensar nas consequências da sua impulsividade.
— E se eu te fizer outra proposta? — disse ela, ainda construindo seu contra-ataque.
— Como? — Sullivan a olhou confuso, porém sua esposa do lado lançou um olhar intrigado e curioso.
— Prossiga, minha jovem — disse Penny.
— O senhor Village disse que o resort tem cumprido bem o seu propósito, mas nunca disse abertamente aos seus clientes qual é exatamente — continuou ela, mantendo a voz mais baixa, controlando suas mãos trêmulas de ansiedade. — O que o Continuum Post quer não é transformar seu resort em uma matéria comercial, muito pelo contrário, a nossa proposta é contar finalmente a história do Paradise Kiss, com palavras que se alinhem ao propósito do hotel.
— Bem, para isso a senhorita deverá descobrir qual é o propósito, não é? — retrucou Sullivan, atento às intenções dela.
— Sim, e vou ter o maior prazer em passar uma tarde refrescante com o casal que projetou esse lugar — continuou ela. — Eu não lhes darei apenas imagens comerciais, mas apresentarei o sonho de vocês ao mundo, a única coisa que peço é que me contem a história de vocês.
%Oliver% olhou para Moore impressionado. Como ela havia elaborado um plano B em um curto espaço de tempo, se o plano A nem havia sido planejado.
— Suas palavras são muito interessante… — disse Penny. — Mas me deram uma ideia, então agora eu falarei a minha proposta… Se você descobrir o propósito do
Paradise Kiss e escrever a nossa história a partir do seu ponto de vista, nós permitiremos a publicação da matéria.
Antes que %Evelyn% se impulsionasse para responder, a senhora Village continuou.
— Contudo… Para descobrir o nosso propósito, ambos terão que permanecer sete dias hospedados no
Paradise Kiss e passar pela
Trilha do Coração, nossa mais importante atividade para os casais.
— O quê? — %Evelyn% e %Oliver% disseram em coro, ambos estáticos com a proposta dela.
— Mas é claro que eles não irão conseguir descobrir, minha querida. — Sullivan riu de leve, ao segurar a mão de sua esposa entrelaçando seus dedos. — Para isso, precisam ser um casal, algo que não são.
— Ah, é uma pena então — disse Penny.
— Bem, acho que já perdemos muito tempo com vocês, agradecemos pela estadia em nosso resort e tenha um bom retorno ao Continuum Post — disse Sullivan ao se deslocar para sair com a esposa o seguindo.
A dupla continuou imóvel, apenas olhando os donos se afastaram cada vez mais. %Evelyn% estava se sentindo um fracasso internamente, não apenas por perder a maior oportunidade da sua carreira profissional, mas também pela realidade de sua vida sentimental. As palavras da senhora Village a haviam atingido negativamente mais do que ela imaginava que pudesse. Já %Oliver% apenas engoliu seco o gosto amargo da verdade, ele e sua companheira de viagem já não eram mais um casal há tempos.
— Contra fatos não há argumentos — disse ele, num tom baixo. — Vou pedir à recepção para descer com as malas.
Ele deu um passo para se retirar.
— Espera! — Ela segurou em seu braço no seu rompante de sempre. — Não acredito que você vai mesmo aceitar esse “não”.
— Não temos mais nada a fazer aqui — explicou ele, continuando seus passos.
— %Oliver%, é sério isso, vamos mesmo voltar assim? Sem contestar? — Ela o seguiu em revolta pela forma em que ele aceitou a derrota. — Quem é você e o que fez com o %Oliver% Tenebrae que eu conheço?
Ela o segurou mais uma vez pelo braço o parando no caminho, então se colocou em sua frente com o olhar incrédulo.
— Não entendo sua insistência, por acaso o que ele disse é mentira? Não somos um casal. — Ele controlou seu tom de voz na medida do possível, porém a atenção de algumas pessoas que passavam se voltou para ambos, após breves segundos %Oliver% respirou fundo e continuou: — Os Village deixaram bem claro que não querem a matéria a menos que concordemos com a proposta da senhora Penny, então vamos voltar para casa, a menos que você queira passar por cima do nosso passado e pelos próximos sete dias ser um casal feliz de revista.
As palavras finais foram cuspidas praticamente, pois o Tenebrae apenas conseguia pensar na última vez que a viu antes de deixá-la no altar. Ambos estavam alterados naquele dia, em plena discussão que resultou em dois corações partidos e muitas lágrimas. %Evelyn% sentiu seu corpo gelar com o choque de realidade, no fundo ela sabia que não tinha argumentos para fazer o casal Village mudar de ideia.
E pior, por mais que fosse a melhor profissional do mundo, ela não tinha estruturas físicas e emocionais para viver tal situação.
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Mesmo com o final do inverno, a neve continuava a cair do lado de fora. Em seu apartamento, %Evelyn% permanecia enroscada em um cobertor e encolhida em sua poltrona ao lado da varanda. Silencioso e frio, esta era a classificação para o seu domingo, entretanto, internamente ela estava a todo vapor. Seus pensamentos fervilhando com o som das palavras da senhora Village martelando em sua mente. Moore não acreditava que se daria por vencida apenas por causa do seu passado, não queria sair mais uma vez derrotada nessa história. Mas o que ela poderia fazer?
Só de pensar nela sozinha com %Oliver%, seu corpo já entrava em choque e sua mente fundia. Se realmente havia uma linha tênue entre o amor e o ódio, ela não conseguia nem mais discernir em qual dos dois lados ela terminaria após o tal experimento. E sim, %Evelyn% tinha lá no fundo medo de ao menos pensar no assunto, medo de se machucar novamente, medo de ter a confirmação de que o Tenebrae nunca a amou.
— Por que a vida é tão difícil? — sussurrou ela, em um longo suspiro. — Por que ainda me sinto atraída por você? Seria tão mais fácil se eu somente te odiasse.
Ela manteve o olhar fixo na porta da varanda em direção ao céu. Algum tempo depois, o barulho de batidas na porta a despertou, uma visita inesperada para lhe tirar a breve e ilusória paz. Ao abrir…
— %Oliver%? — disse ela, num tom baixo porém surpreso.
— Posso entrar?! — perguntou ele, seu olhar sério e a expressão fria.
— Sim. — Ela abriu mais a porta para que ele adentrasse, apenas o observou de início e fechou-a. — O que você quer? Achei que estivesse com o seu pai, soube que é aniversário da sua madrasta.
— Sim, eu estava — assentiu ele, dando curtos passos até o centro do apartamento. — Até que ele mencionou sobre o fracasso da nossa missão.
— Devo me preocupar com meu emprego e já pensar em atualizar meu currículo? — perguntou ela, tentando não levar para o lado brincalhão, mas arrancando uma risada boba nele.
— Não, não é por isso que você vai ser demitida, se fosse o caso, eu não iria permitir a não ser que meu pai quisesse ficar sem supervisor também — admitiu ele, com segurança no olhar.
Algo que estremeceu Moore.
— Não esperava tanta sinceridade — comentou ela, se esforçando para agir com naturalidade diante de suas palavras.
— Me dói admitir, mas você é a melhor funcionária do meu jornal. — Claro e direto.
— Vou ganhar um aumento? — perguntou segurando o riso.
— Não. — Ele riu com mais leveza e colocou as mãos nos bolsos da calça.
Aquele era seu charme, a postura que deixava %Evelyn% sem foco e dependendo da situação, desnorteada.
— O que veio fazer aqui? — Ela desviou o olhar para o lado, respirando fundo com discrição.
— Bem, um vizinho não pode lhe fazer uma visita aos domingos? — brincou ele, fazendo-a rir de leve.
— Não quando o vizinho é você. — Ela continuou rindo, até parar e manter o rosto suave.
Era nítido seu esforço para não encará-lo.
Ainda mais depois de uma semana trabalhando em silêncio e estresse na redação, após um funcionário do RH descobrir sobre o passado de ambos e os cochichos se espalharem pela redação. O único sentimento que %Evelyn% conseguia ter era de vergonha e frustração por novamente se sentir tão afetada e machucada por uma ferida que já deveria ter sido cicatrizada.
— Mas falando sério? O que o traz aqui? — Ela o olhou de forma séria por um momento.
— Vim conversar sobre o Paradise Kiss — respondeu.
— Achei que o assunto já estivesse encerrado quando informamos ao seu pai que não haveria a matéria. — Ela se virou com suavidade, dando alguns passos até a porta para a varanda. — O que mais temos para falar sobre isso?
— Sei que vai parecer uma loucura, mas… — Ele deu uma pausa, juntando suas forças para continuar. — Eu quero aceitar.
— Aceitar o quê? — indagou.
— A proposta da senhora Village — explicou ele suas intenções.
Ela o olhou de imediato, surpresa.
— Quero passar uma semana com você no Paradise Kiss — completou ele.
— Você ficou louco? — Ela tossiu de leve, incrédula.
— Não, apenas estou sendo o %Oliver% que você conhece — respondeu ele, dando um sorriso de canto. — Você tem razão, eu nunca fui de desistir tão facilmente.
— E o que te faz pensar que eu vou embarcar nessa loucura com você? — Ela cruzou os braços, olhando-o curiosa.
— Eu tenho certeza que você vai porque somos idênticos nesse quesito, não desistimos com facilidade. — O argumento dele parecia plausível para ela. — Se lembra daquele trabalho sobre a guerra fria que fizemos?
Assim que ele perguntou, %Evelyn% soltou uma gargalhada automática pela lembrança vívida em sua mente. De forma involuntária seu corpo se locomoveu, aproximando um pouco mais dele, sem que a mesma notasse.
— Até a senhora Finley achou que nós dois nos mataríamos no processo. — Ela continuou rindo. — Quase colocamos fogo naquela biblioteca.
— Mas no final, foi o melhor artigo da escola e levamos o prêmio — completou ele com um tom saudoso.
— Você realmente quer fazer isso? — indagou ela, achando uma loucura.
— Não podemos deixar nosso passado ou as indiferenças atrapalhar o nosso trabalho — disse ele, mantendo a firmeza no olhar. — Acho que podemos fazer isso sem explodir o resort.
— E nos matarmos no processo — completou ela, já sentindo-se parcialmente convencida. — Acho que… Hum… Podemos fazer isso.
— Então faremos isso. — Ele retirou o celular do bolso.
— O que você vai fazer? — perguntou ela.
— Vou ligar para o senhor Village e dizer que vamos aceitar a proposta — respondeu ele, começando a buscar o número na lista de contatos.
— Que tal ligar depois? — Ela pegou o celular da mão dele.
— Ei. — Ele a olhou curioso e intrigado. — O que está pretendendo fazer?
— Tenho minhas condições, então você só vai formalizar nosso acordo com o senhor Village depois de me ouvir. — Ela guardou o celular dele no bolso de trás da sua calça.
— E o que você quer? — Ele deu um passo para mais perto dela, ficando em sua frente.
%Oliver% manteve o olhar suave, com um sorriso de canto discreto.
— Você tem que me prometer que não vai mais tocar naquele assunto — pediu ela.
— Que assunto? — perguntou ele.
— O nosso passado. — Ela respirou fundo.
Seu corpo pareceu cansado por um breve momento, talvez pelo desgaste emocional da semana, ou pelas muitas preocupações e pensamentos que ocuparam sua mente na última madrugada.
— Queria entender o motivo de não querer falar sobre — comentou ele.
Se ainda havia vestígios do passado de ambos, %Oliver% queria colocar um ponto final nisso, e só conseguiria se ambos discutissem o que havia ocorrido, para finalmente virar a página.
— Você ainda se sente ferida, não é? — insistiu ele, sentindo o silêncio da parte dela.
%Evelyn% voltou o olhar para o lado, evitando encará-lo.
— Eu te conheço, %Evelyn% Moore. — Ele tocou suavemente no rosto dela, fazendo-a olhá-lo. — Tudo bem… Seremos profissionais lá.
— Agradeço a compreensão. — Ela deu um passo para se afastar, pois tinha finalmente percebido a pequena distância entre ambos.
— Espera… — Ele a puxou de leve, como se fosse abraçá-la, então pegou seu celular no bolso dela. — Isso é meu!
Brincou.
— Ei! Quem disse que podia pegar de volta? — ela reclamou tentando pegar o aparelho dele.
%Oliver% se esquivou um pouco de sua investida, então, com um passo em falso, %Evelyn% se desequilibrou. Seu corpo, ao tombar para trás, foi amparado pela mão esquerda do Tenebrae, que a ajudou a manter o equilíbrio; o físico, pelo menos, pois internamente o coração de ambos estava em ritmo de aceleração, principalmente pela troca de olhares há muito tempo não tida entre ambos.
Aquele olhar de amor e desejo que %Evelyn% se lembrava bem.
O olhar que fez com que aceitasse o famigerado pedido de casamento.
O olhar do qual ela sente seu corpo se arrepiar.
Eu preciso de você, garota
Por que eu me apaixono e
Digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?
- I Need U / BTS