CAPÍTULO IV
Tempo estimado de leitura: 6 minutos
Os últimos dias após o meu aniversário foram totalmente sem explicação. Eu finalmente deixei que o %Harry% enfim conseguisse me tirar um pouco da minha realidade, não que agora eu estivesse indo para festas, passeios e afins, mas pelo menos alguns minutos de conversas no apartamento dele ou no meu. %Harry% não era uma pessoa ruim, pelo contrário, ele era paciente, muito legal, e fazia de tudo para que eu me sentisse bem, e isso era o meu maior medo, me sentir bem queria dizer superar, superar algo que eu não queria, de maneira alguma, e por esse motivo eu sempre me privava, me privava de tudo e todos, mas isso estava meio impossível, contudo, enquanto fosse apenas eu e o %Harry%, eu ainda tentaria.
- Chá de boldo ou camomila? – ele perguntou saindo de minha cozinha.
- Existe alguma diferença entre os dois?
- O gosto, talvez, não sei, escolhe um.
- Camomila, tem o nome mais legal.
- Tomara que o gosto seja ruim, aí você aprende a não ir pelo nome. Nunca julgue o livro pela cara, %Paper% %Rose%.
- Nunca julguei, mas no caso do chá eu posso ir pelo nome.
- Depois não vá se arrepender.
- Esse chá por acaso é tão ruim assim?
- Não sei, nunca provei chás. Para ser sincero, eu nem gosto de chá, mas como a senhorita não aprecia um bom café, tenho que embarcar nessa de fazer chá.
- Primeiramente, eu nunca te falei que ao invés de café preferia chá, na verdade eu não sou nem fã de café, muito menos de chá.
- Então por que você me deixou comprar esses chás?
- Eu achei que você gostava, estava tão interessado em escolher eles, eu só queria vir embora, então não liguei muito no que você comprava.
- Ótimo, eu gastei dinheiro à toa.
- Não seja por isso, se você comprou chá, então tomaremos chá, assim podemos relaxar um pouco. – e ele não falou nada, apenas voltou para cozinha.
Depois do meu aniversário, meu nível de aproximação com o %Harry% aumentou gradativamente. Ele já frequentava a minha casa, e eu, só as vezes, aparecia pela casa dele. Não posso dizer que as coisas estão melhores, mas posso afirmar que estão melhorando aos poucos, talvez seja preciso eu me acostumar com o vazio, até que um dia ele seja preenchido.
[•••]
Esperar e se esconder é o que eu mais faço, não está sendo fácil, cada dia que passa minha vida perde mais um pouco de sentido, eu já nem sei mais o que é viver.
- O que temos para hoje é... Ghost? Esse filme é de que ano, mil novecentos e bolinhas? Acho que ainda nem era nascido.
- Ele é de 1990, era o filme preferido da minha mãe.
- Como você sabe que era o filme preferido dela?
- Meu pai quem me contou, a gente costumava assistir juntos quando sentíamos falta dela.
- Então ele está descartado, não precisamos desenterrar lembranças hoje.
- Não se desenterra o que nunca foi enterrado.
- Você e suas frases melancólicas.
- Não são melancólicas, são realistas.
- Acho que você deveria enxergar ao seu redor. Sua vida não acabou, %Paper%, você precisa parar com isso, você pode desencadear até uma depressão.
- Desencadear, é? A minha depressão já é comprovada.
- E qual foi o médico que deu este diagnóstico?
- E precisa? Tenho todos os sintomas.
- Você poderia calar a sua linda boquinha e só abrir ela quando for para falar algo produtivo.
- Não me ocupo em falar nada não produtivo.
- Tá bom, cale a boca e venha assistir antes que eu desista e te deixe sozinha.
- Acho que já estou acostumada a viver sozinha mesmo.
- Você não tem jeito mesmo, %Paper% %Rose%.
[•••]
Um beijo seria capaz de mudar uma vida? Talvez sim, talvez nada e nem ninguém poderia explicar o quão confusa eu estava a uns 30 minutos atrás. Na verdade, eu ainda estou. %Harry% havia me beijado, assim, do nada e sem nenhum motivo aparente, foi uma coisa boa, mas ao mesmo tempo ruim. Naquele momento eu me perdi, eu esqueci todos os meus problemas e me limitei a viver apenas aquele momento, mas não durou muito tempo e a minha ficha caiu, agora me sinto completamente perdida, perdida e trancada em meu quarto, tudo que eu mais queria agora era estar no colo da minha mãe, contando para ela como foi o meu primeiro beijo, pois é, foi o meu primeiro beijo, por isso que eu fugi, por isso que eu estou aqui, sem saber o que fazer. É incomum uma garota de 19 anos nunca ter beijado, mas saibam que não é impossível, o meu nível de socialização era bem baixo, então não tive muitos índices de interesse masculino pela minha pessoa, acho que sempre passei despercebida, até o %Harry% resolver me notar, e isso tinha que acontecer justamente agora.
- %Paper%, eu já pedi desculpas, sai daí. – Já fazia um tempo que ele estava do outro lado da porta do meu quarto implorando para que eu saísse de lá. – %Paper%, é sério, se você não sair, eu vou entrar.
- Eu não vou sair.
- Então eu vou entrar.
- A porta está trancada.
- Por que você não saí? Me desculpa, se você não gostou ou aconteceu alguma coisa, eu não sei, mas eu juro que não vou mais tentar nada, só saia daí, por favor.
- %Harry%, vai embora, por favor.
- Não, até você sair daí e me falar que está tudo bem.
- Está tudo bem, agora só me deixa sozinha, por favor.
O silêncio que se apossou alguns minutos depois do meu pedido, só poderia significar que ele havia ido embora, eu não podia falar o que eu estou sentindo, um relacionamento nessa altura do campeonato está fora de cogitação para eu, %Harry% está sendo o cara mais legal que eu já conheci, mesmo que no início eu tenha relutado bastando para me manter longe dele, mas no final eu não consegui, ele só estava tentando cumprir a promessa que fez para o meu pai, e no finalzinho ele quase conseguiu, mas as coisas foram tomando outros rumos, eu não posso dizer que estou apaixonada por ele, até porque isso não seria justo comigo agora, e eu realmente espero que ele também não esteja, porque também não será justo com ele.