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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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O Mahdi

Escrita porJosie
Revisada por Lelen

Capítulo 2 • Entre Receitas e Religião

  O sol de 1980 não apenas nascia; ele parecia se espreguiçar sobre a cidade, esticando seus dedos dourados por entre as ruelas estreitas que guardavam um segredo arquitetônico. Vista de cima, a pequena localidade era um anacronismo vibrante. As casas, com seus contornos arredondados e cores terrosas misturadas a azuis e amarelos berrantes, evocavam uma memória ancestral, uma semelhança quase mística com a antiga Ur dos Caldeus, mas transplantada para o coração de um Brasil oitentista. O ar da manhã era uma tapeçaria de aromas. Antes mesmo do primeiro despertador tocar, o cheiro de pão sovado assando na padaria da esquina se entrelaçava com o perfume acre e doce das especiarias — canela, cravo e cominho — que as donas de casa mais tradicionais já começavam a moer para o almoço. Mara já estava de pé. Seus movimentos na cozinha eram uma dança coreografada pelo hábito. O som do coador de pano recebendo a água fervente produzia um chiado reconfortante, enquanto o vapor do café subia, embaçando levemente seus óculos de armação grande. Ela olhou pela janela e viu a vizinhança ganhar vida. Adolescentes de calças jeans de cintura alta e cabelos volumosos passavam em bicicletas, rindo alto, enquanto os senhores de chapéu de palha se cumprimentavam a caminho da "Padaria do Seu Manuel".
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  — Bom dia, Mara! Já no batente? — gritou uma vizinha que sacudia um tapete na calçada oposta.
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  — O dia não espera por ninguém, Dona Lurdes! — Mara respondeu com um sorriso, embora seus olhos estivessem voltados para o corredor que levava aos quartos.
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  Lá fora, um som destoava da calmaria bucólica: vindo de algum rádio de pilha ou de um "três-em-um" potente em alguma casa distante, as batidas sincopadas e eletrônicas de um funk primitivo, o som dos bailes que começavam a ganhar as periferias, ressoavam como um coração pulsante sob o solo da cidade. Era o novo mundo batendo à porta do velho.
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  No quarto, Guisa abriu os olhos lentamente. A luz filtrava-se pelas frestas da veneziana de madeira, desenhando listras de ouro sobre seu cobertor. O primeiro pensamento que lhe atravessou a mente, antes mesmo de se espreguiçar, foi o compromisso da tarde.
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  "Hoje é domingo. Missa das quatro", pensou ela.
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  Ela se levantou e foi até a cozinha, onde o cheiro do café era quase um abraço.
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  — Bom dia, mãe — disse Guisa, a voz ainda rouca de sono.
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  — Bom dia, minha flor. Já ia te chamar. Tome seu café, que o dia hoje é longo. Quero deixar a casa em ordem antes de irmos para a igreja.
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  — Eu lembrei assim que acordei. O Padre Jonas disse que o evangelho de hoje seria especial, não foi?
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  Mara assentiu, servindo uma fatia de pão com manteiga para a filha.
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  — Sim, ele mencionou na última reunião das Filhas de Maria. É importante estarmos lá. A cidade anda muito agitada, Guisa. Esse barulho todo... — Mara fez um gesto em direção ao som de funk que ainda ecoava ao longe — ...parece que as pessoas estão perdendo o silêncio de Deus.
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  A tarde chegou trazendo um calor úmido que fazia as cores das casas parecerem ainda mais saturadas. Mara e Guisa caminharam lado a lado em direção à paróquia central. Guisa usava um vestido de algodão leve, com estampas florais miúdas, enquanto Mara vestia seu melhor conjunto de linho.
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  A igreja estava lotada. O cheiro de incenso misturava-se ao suor suave da multidão e ao perfume de alfazema que exalava dos lenços das senhoras. O Padre Jonas, um homem de cabelos brancos e voz de trovão, subiu ao ambão para a leitura do Evangelho.
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  "Naquele tempo...", começou ele, e o silêncio se fez absoluto.
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  Após a leitura, a homilia começou. O padre falava sobre a importância de manter as raízes em solo firme, mesmo quando os ventos da modernidade sopravam com força.
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  — Meus irmãos, vivemos em tempos de mudanças — dizia o Padre Jonas, gesticulando com as mãos calejadas. — As luzes da cidade brilham mais forte, a música está mais alta, mas a luz de Cristo é a única que não cega. Não se deixem levar pelos sorrisos fáceis do mundo, pois muitas vezes eles escondem o vazio da alma.
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  Guisa ouvia atentamente, sentindo um arrepio na nuca. Ela sentia que aquelas palavras, de alguma forma, eram para ela. Ao seu lado, Mara mantinha as mãos postas, os olhos fechados em oração profunda.
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  Na saída, o sol já começava a se pôr, pintando o céu de um rosa violáceo. Enquanto desciam as escadarias da igreja, um grupo de jovens rapazes, encostados em um Opala estacionado na praça, observava o fluxo de fiéis. Quando viram Guisa, trocaram olhares e sorrisos zombeteiros.
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  — Olha lá, a santinha saiu da caixa! — cochichou um deles, alto o suficiente para que ela ouvisse.
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  Os outros riram, uma risada seca e provocativa que fez Guisa apertar o passo e segurar o braço da mãe com mais força. Mara percebeu, mas não olhou para trás.
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  — Ignore, Guisa — murmurou Mara, a voz firme. — O trigo e o joio sempre crescem no mesmo campo.
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  Ao chegarem em casa, o ambiente familiar e seguro as acolheu. A tensão da rua dissipou-se assim que Mara acendeu a luz da cozinha.
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  — Vamos adoçar essa alma, filha? — propôs Mara, já pegando o avental. — Me ajude com o bolo.
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  Guisa sorriu, sentindo o peso do dia diminuir. O "Bolo de Chocolate Cinco Copos" era uma tradição de conforto na casa delas. Não precisava de balança, apenas de precisão e carinho.
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  — Eu pego os copos, mãe — disse Guisa, posicionando-os em fila sobre a mesa de fórmica.
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  Mara começou a separar os ingredientes com uma meticulosidade quase ritualística.
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  — Primeiro o açúcar, Guisa. Um copo bem cheio. O açúcar é a base da doçura que a gente precisa ter com os outros, mesmo quando eles não merecem.
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  Guisa despejou o açúcar na tigela de cerâmica.
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  — Agora o chocolate — continuou Mara. — Um copo de chocolate em pó, do bom. Ele dá a cor e a força. Sem ele, é só um bolo comum.
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  Elas seguiram o processo: o leite, a farinha, o óleo. Cada ingrediente era acompanhado por uma instrução silenciosa ou um comentário sobre o dia. Guisa batia a massa com uma colher de pau, observando a mistura se tornar homogênea, brilhante e densa.
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  — O segredo, Guisa, é o tempo — disse Mara, observando a filha. — As pessoas hoje querem tudo rápido, como se a vida fosse uma dessas músicas de rádio. Mas um bolo, como uma vida boa, precisa de tempo para assar, para crescer.
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  Enquanto o bolo ia para o forno, o aroma de chocolate começou a preencher a casa, expulsando qualquer resquício de zombaria ou barulho externo. Sentadas à mesa, esperando o tempo do forno, mãe e filha conversavam sobre o futuro, sobre a missa e sobre suas próprias vidas. Lá fora o som de música alta ainda ecoava, provavelmente um funk metálico mas já não assustava tanto. Há algumas léguas dali, uma mulher, uma das vizinhas, Dona Maria Conceição varria a casa. Outras léguas dali, bem mais longe, uma mulher chamada Ana em sua juventude, ajudava a mãe Dona Euridice a preparar o café da tarde. O coador já dava sinais que coava o café. Ana viu que os irmãos alguns mais velhos e outros mais novos conversavam entre si. Não muito longe dali, uma mulher morena com cabelos ruivos, chamada Deva preparava o que seria o jantar, enquanto observava o tempo...
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