Capítulo 3 • O Conto de %Raimunda% e %Guiael%
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Então Terá levou seu filho Abrão, seu neto Ló, filho de Harã, e sua nora Sarai, mulher de seu filho Abrão, e juntos saíram de Ur dos caldeus, para a terra de Canaã, mas pararam em Harã e estabeleceram-se ali. 32Terá viveu 205 anos e morreu em Harã.
GN 31, 32
Casamentos. Eles simbolizam não somente amor, pois talvez um casal se ame, ou talvez só queiram garantir a descendência que seus pais deixaram. Então aí vemos que um casamento pode significar muitas coisas. Até mesmo um casamento político. Ora, nas décadas antigas, era isso que um casamento significava. Agora em 1890, quase 1891, com a lei áurea aboleando a escravidão, os povos começavam a se povoar.
Imagine, os escravos acabaram de ser libertos, mas muitos continuavam em engenhos. O engenho do sr. Antônio por sua vez estava se tornando cada vez mais próspero. %Guiael% estava noivo da jovem %Raimunda%, no ano de 1891, agora com 24 anos. E faleceu naqueles dias o sr. Antônio pai de %Guiael% e todos seus dias foram 86 anos e morreu. Já Dona Isabel, mãe de %Guiael%, tinha seus 55 anos, mas permanecia viva. Quando soube da morte do pai, %Guiael% muito se lamentou. Afinal, seu pai estava morto. Aquele com quem mais se identificava partira.
— Preciso de um tempo — disse %Guiael% à noiva. — Era meu pai!
— Claro, eu entendo — disse %Raimunda%.
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Para tudo tem hora. Tem hora de nascer, tem hora para ser jovem, tem hora para viver e tem hora para morrer. Também tem hora para consertos e hora para resoluções. E o nó, emaranhado de teias, também seu destino quando a hora chega.
— Assim declaro %Guiael% e %Raimunda% casados! — disse o padre abençoando a união entre %Guiael% e %Raimunda%, vestidos de noivos com trajes da época.
Tosei, fiei, tingi, teci
Trançava os fios quando adormeci
No fim, até que ficou um primor
É uma túnica pro meu amor
Da ovelha a lã, da lã, o fio
Meu carretel não vai ficar vazio
No fio, a cor, na cor, o olhar
Já vai direto para o meu tear
Vida de casado não é fácil, eu sei. Todos temos desejos e alguns não são exatamente como esperamos. Às vezes quando se é casado, também não se pode aproveitar mais a natureza, o escaldante das estrelas. Também não se pode mais voltar à juventude.
Da ovelha a lã, da lã, o fio
Meu carretel não vai ficar vazio
No fio, a cor, na cor, o olhar
Já vai direto para o meu tear
Tosei, fiei, tingi, teci
Trançava os fios quando adormeci
No fim, até que ficou um primor
É uma túnica pro meu amor
Da ovelha a lã, da lã, o fio
Meu carretel não vai ficar vazio
No fio, a cor, na cor, o olhar
Já vai direto para o meu tear
OITO ANOS E MEIO DEPOIS...
1899, ENGENHO DE GUIAEL
— Você não devia se cobrar tanto, %Guiael% — disse %Raimunda% tentando consolar o marido.
— Oito anos e nenhum filho — disse %Guiael%. — Se fosse apenas isso... Mas ainda ouço os homens da cidade desdenhando de mim por eu não ter filhos ainda. Já tenho 33 anos e nada de herdeiros! — disse %Guiael% de modo rancoroso.
— E seu pai que foi te ter já adulto? — observou %Raimunda%.
Enquanto isso...
1899, FAZENDA DOS LINO
— Tiano, acho que estou esperando nosso primeiro filho — disse a sinhá da fazenda dos Lino.
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Em 1899, o Brasil vivia a República Velha
(Primeira República), um período de consolidação republicana marcado por
crise cambial, ameaça da peste bubônica, e questões territoriais como a disputa do Acre, além do início da
República Oligárquica, com o governo de Campos Salles, e eventos culturais como a chegada do cinema e os 400 anos do “descobrimento”. Também era a época em que os preparativos para a primeira guerra mundial começavam...
Muito longe dali, também se iniciavam os primeiros anos de Adolf Hitler na Alemanha. As cidades iam ficando mais densas, o que podia significar que as pestes matavam ou deixavam doentes algumas pessoas, enquanto outras, sobreviviam e ficavam bem. Naqueles dias, também as pessoas podiam testemunhar o avanço das obras. O tempo de trabalhar em lavoura não tardaria a começar. Também era visto os primeiros achegamentos de cinema nas cidades. Diziam que os filmes duravam cerca de meia hora ou uma hora, eram poucos minutos, mas ao mesmo tempo era algo novo nas cidades. Havia quem continuasse a montar de cavalo, como também quem cultivava o rebanho. Ah, e os noivados, algumas coisas mudavam.
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E aconteceu que naqueles dias, vendo o Senhor dos Céus e a Nossa Senhora que %Guiael% já tinha 33 anos e não obtivera filhos, a Mãe de Deus abençoou o ventre de sua esposa, %Raimunda%. E %Raimunda% engravidou. %Guiael% comemorou a notícia. A esposa finalmente estava esperando um filho, provando que eles não eram estéreis. A notícia se espalhou pelo engenho. Todos que trabalhavam no engenho de %Guiael% pareciam felizes. O engenho finalmente ganharia seu herdeiro ou herdeira. E foi assim que após logos e exaustivos meses, %Raimunda% deu à luz um menino. %Guiael% disse:
— Essa criança significa gratidão. Louvemos ao Senhor e a Rainha dos Céus porque nos louvaram com um filho.
E ergueu a criança comemorando seu nascimento.
Todo o engenho festejou o nascimento de %Ahmed% que significava “o mais digno de louvor e aquele que louva os céus”.
Na festa da cidade, muitos comemoravam o nascimento do menino, que começava a crescer parecido com o pai, mas com traços da mãe. Um ano depois, nasceu a primeira menina, %Dulce%. Ela era diferente de todas as meninas que haviam. Era loira, tinha cabelos lisos ou cacheados, mais loiros, tinha os olhos negros como do pai, mas a beleza da mãe, por isso seria chamada %Dulce%... Uma menina com grande futuro...