Capítulo 1 • O Engenho
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O sol ainda se espreguiçava por detrás dos morros que se estendiam ao longe, tingindo o céu de um tom violeta que se dissipava logo em seguida. Nas vastas terras do Engenho Santa Clara, na periferia de São Paulo, tudo despertava com o canto dos galos e o ranger suave das carroças. O ano era 1870: um tempo de riquezas provenientes do açúcar e da esperança de abolição, que já sussurrava pelos corredores da Corte.
À porta da Casa Grande, o senhor Antônio de Moraes, proprietário de amplas plantações de cana, afagava o bigode sobranceiro. Ao seu lado, a senhora Isabel, elegante em seu vestido de chita azul, segurava com carinho a mão do pequeno %Guiael%, seu único filho de seis anos.
— Meu rapaz, vede que o mundo lá fora está mudando — disse a senhora Isabel, baixinho, para que apenas o menino ouvisse. — Os jornais falam em fim da escravidão, e muitos moços na cidade estudam filosofia e Direitos Humanos.
%Guiael%, de olhar curioso e mechas loiras em desalinho, franziu a testa.
— Mãe, escravidão… é quando alguém não é livre?
Ela sorriu, abatendo o olhar.
— Exatamente, meu bem. Mas aqui ainda somos regidos por leis antigas. Ainda há quem defenda que sem trabalho escravo as fazendas não prosperariam.
O menino ficou pensativo, prendendo o vestidinho entre os dedos. Àquele momento uma voz gutural interrompeu a cena:
— Senhorita Isabel, o café já espuma no fogão, e os rapazes do engenho aguardam ordens.
Veio ao encontro deles Dandara, a cozinheira de origem africana, cujo rosto tranquilo exibia as cicatrizes que a vida lhe marcara. Trazia um poleiro de café fumegante, lembrando a todos que a rotina agrícola seguia seu curso.
— Obrigada, minha filha — disse Isabel. — %Guiael%, vais tomar teu café antes de irmos ao estábulo.
Enquanto o menino se aproximava da mesa rústica, seu olhar cruzou-se com o de Mateus, o jovem escravo que conduzira a carroça na viagem de suprimentos até a vila. Mateus fitava %Guiael% com afeto silencioso, ergueu o queixo num cumprimento sutil. %Guiael% respondeu com um aceno tímido.
— Mestre, o senhor quer que eu cuide dos potros hoje? — perguntou Mateus, em voz embargada pelo cansaço das pernas que mal podiam se esticar.
O senhor Antônio ergueu-se, ajeitando o colete de linho:
— Sim, Mateus. Precisamos desses animais fortes para o transporte do açúcar até Santos. Cuida bem deles. Oriente o %Guiael% também, que aprenda o ofício.
O menino arregalou os olhos de excitação: cavalos eram seus companheiros favoritos.
— Sim, padre! — exclamou Mateus, incerto entre o “senhor” e o “padre” que as crianças às vezes confundiam.
Na cena, havia cumplicidade e hierarquia. A mão de Isabel pousou sobre o ombro de %Guiael%, lembrando-lhe que o mundo, diante de seus passos pequenos, estava dividido entre privilégio e servidão.
———
Logo depois, no estábulo, o aroma rústico do feno misturava-se ao vapor das vieiras dos animais. Mateus conduziu o menino até um potro maltrapilho, de pelagem baia e olhos negros que tremeluziam de medo.
— Calma, menino — murmurou o escravo, enquanto %Guiael% colocava a mão hesitante no pescoço do animal. — Ele escapou de um corte violento ontem. Foi punido por ter triscado uma ferramenta.
— Por quê? Ele não fez nada…
Mateus suspirou, pousando a palha sobre a sela:
— Para que a ordem se mantenha, dizem. Alguns “seus” acreditam que o medo faz o trabalho andar.
O menino franziu o cenho e, num gesto infantil de bravura, apanhou uma escova e começou a cuidar do potro. Mateus sorriu, orgulhoso.
Ao cair da tarde, na varanda da Casa Grande, o senhor Antônio e alguns colonos reuniram-se em debate. Estes cochichavam sobre o movimento abolicionista que chegava de São Paulo, desafiando a própria base de sua riqueza.
— Se perdermos a escravidão, perderemos a força de trabalho — afirmava o major Silvério, afagando o bigode grisalho. — Como recolheremos nossa produção?
— Há fazendas que investem em máquinas a vapor — contra-argumentou o doutor Luís Barreto, médico e homem de letras. — Precisamos acompanhar a mudança. É cruel, mas, aos poucos, a servidão escrava será banida.
O senhor Antônio bebeu o vinho com parcimônia:
— Não nego a vossa razão, Barreto, mas são anos de tradição. Muitos homens fiéis escreveram seu destino neste solo.
Isabel, que até então ouvira em silêncio, ergueu-se:
— Senhor, não podemos fechar os olhos ao sofrimento. Estou cansada de ver olhares esmorecidos e cicatrizes na carne dos que aqui vivem.
As palavras dela caíram como chuva de verão: impetuosas, mas fugazes. Os homens a fitaram, surpresos ante a ousadia feminil de criticar o sistema vigente.
— Minha querida — retrucou o marido, gentil, mas firme —, mantenha-se na confidência do lar. A política pertence aos salões e aos homens de influência.
Ela cerrou os lábios com dignidade e voltou-se para o horizonte. Lá, o céu inflamava-se de rubor e as tocas das senzalas surgiam como silhuetas escuras.
Quando a noite tomou posse da chácara, %Guiael% dormia tranquilo nos aposentos ricamente decorados. Dandara, que fazia a ronda noturna para verificar se tudo estava em ordem, deteve-se junto ao berço do menino.
— Dorme bem, meu filhinho — sussurrou ela, depositando um beijo na testinha do garoto. Em um gesto delicado, recitou uma canção africana que a própria mãe cantara em tempos distantes.
“Ki bando chele…
sonho vem me achar…”
O menino, numa premonição de inocência, murmurou:
— Não quero sonhar com correntes…
Dandara afastou uma mecha de cabelo do rosto dele e sorriu com ternura mortal. Afinal, no silêncio das trevas, todos sonhavam com liberdade.
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— Báh, será que a escravidão dos negros vai acabar um dia? — perguntou %Guiael% para sua preceptora.
— Quem sabe, um dia — disse a preceptora.
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As ruas do Engenho estavam todas perfumadas, cada uma tinha um aroma de cafezal diferente. As fazendas, os engenhos aos poucos se conectavam com as mudanças...