Capítulo 3
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Mason estava curioso, não imaginava que a menina fosse ligar para ele. Ela parecia querer sair de perto dele desesperadamente, por isso foi uma surpresa quando ela ligou e disse que teria um tempo livre para a ajuda que o homem oferecera. A voz de %Sophie%, apesar de um pouco hesitante no início da chamada, havia ganhado uma falsa confiança ao agendar o encontro para a tarde do dia seguinte.
Mason sabia que ela não estava interessada em sustentabilidade. A maneira como ela havia furtado seu cartão, a curiosidade em seus olhos ao falar do CEEH, e a forma como seu coração transparente havia brilhado de forma incomum quando ela mentiu — tudo indicava que
%Sophie% Benson era mais do que uma adolescente curiosa. E aquele "choque" que sentiu quando suas mãos se tocaram… ele não conseguia esquecer. Era uma sensação estranha, quase como um reconhecimento.
No dia seguinte, %Sophie% chegou à recepção da Concentração pontualmente. Emma, que a acompanhou até a esquina, piscou um olho em sinal de boa sorte. A confiança de %Sophie% era uma máscara bem treinada. Seu coração, sob a blusa, pulsava um tom de roxo suave — um sinal de sua determinação e da leve manipulação que ela sabia que precisaria usar.
Mason a esperava na recepção, um sorriso enigmático nos lábios. Ele estava impecável em seu uniforme da Concentração, os cabelos bem penteados, e seus olhos claros fixos nela, como se pudesse ver através de sua fachada.
— Senhorita Benson. Pontual. — Ele a cumprimentou, sem estender a mão desta vez. — Pronta para sua pesquisa sobre sustentabilidade?
%Sophie% forçou um sorriso.
— Prontíssima, Senhor Scott. Eu estava realmente animada para aprender com o melhor. — Ela tentou soar o mais inocente possível, mas sentia o escrutínio em cada palavra dele.
— Ótimo. Por aqui. — Ele fez um gesto, conduzindo-a por um corredor que %Sophie% não tinha notado antes. Era mais estreito e menos movimentado do que os principais, com portas numeradas que não eram de aço, mas de madeira escura e sólida. O ar ali era mais seco, com um cheiro sutil de desinfetante e algo que ela não conseguia identificar — talvez papel antigo, ou eletricidade.
— Este setor é o de
logística interna — Mason explicou, sua voz calma, mas com um tom que não admitia interrupções. — Aqui, gerenciamos o fluxo de materiais e informações entre as diferentes seções do CEEH. É o
coração administrativo da operação.
%Sophie% assentiu, absorvendo cada detalhe. O "coração administrativo" — era ali que as informações podiam estar. Ela precisava ser discreta. A cada porta que passavam, %Sophie% tentava espiar, mas todas pareciam fechadas hermeticamente, sem qualquer som vindo de dentro.
— Então, o que exatamente faz um
Coordenador de Cadastros Heartless? — ela perguntou casualmente, enquanto Mason abria uma porta com seu cartão. O "clic" da fechadura eletrônica ecoou no corredor silencioso.
Ele se virou, com aquele sorriso de canto de boca.
— Eu garanto que cada
heartless seja devidamente registrado e que seu histórico seja mantido em ordem. Um trabalho de zeladoria, diria. Não é tão excitante quanto parece. — Havia um brilho de divertimento em seus olhos, como se soubesse que ela não acreditaria em uma palavra.
A resposta evasiva irritou %Sophie%, mas ela não demonstrou. Eles entraram em uma sala ampla, com várias telas de computador piscando com códigos e gráficos complexos, e armários de metal cheios de pastas numeradas. Era uma
sala de dados, não de corpos. A decepção esmagou %Sophie% por um segundo, mas ela rapidamente se recompôs. As informações que ela precisava estariam ali, em alguma daquelas pastas ou arquivos digitais.
— Para seu trabalho de sustentabilidade, imagino que queira ver como gerenciamos o uso de energia, certo? — Mason prosseguiu, sentando-se à mesa e indicando uma cadeira para ela. — Temos sistemas muito eficientes. Ou talvez a reciclagem de materiais, que é exemplaríssima aqui. Quer uma cópia do nosso relatório anual? Posso imprimi-lo para você.
%Sophie% percebeu o jogo dele. Ele estava testando-a, cercando-a com tópicos genéricos que não a levariam a lugar nenhum. Ele queria ver até onde ela iria, até onde ela insistiria em sua farsa. Ela precisava de um ponto de entrada, algo que o fizesse baixar a guarda ou, pelo menos, que o forçasse a revelar algo.
— Na verdade, Senhor Scott — ela começou, um brilho de astúcia em seus olhos que rivalizava com o dele —, eu estava pensando mais na
sustentabilidade humana. Afinal, a província de Ópes se orgulha de manter sua população em harmonia, com a pureza e a saúde de seus corações. O CEEH, nesse sentido, representa o… o
descarte de corações impuros. Como vocês lidam com a
sustentabilidade das almas? Há algum projeto de "reaproveitamento" para aqueles que… não se encaixam mais?
Mason parou de digitar. Seus dedos congelaram sobre o teclado e seu sorriso se desfez, substituído por uma expressão séria. Ele se virou para encará-la, seus olhos claros fixos nos dela, sua postura rígida. A questão de "reaproveitamento" e "sustentabilidade das almas" havia atingido um nervo.
— Sua pesquisa é mais…
profunda do que eu imaginava, senhorita Benson — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Sustentabilidade das almas, você diz? Isso é algo que não discutimos abertamente aqui.
Ele se levantou e caminhou até a janela, que oferecia uma vista parcial para um pátio interno, cercado por mais paredes cinzentas. Ele parecia estar escolhendo as palavras com cuidado. %Sophie% podia sentir a tensão no ar, quase palpável. Ela havia encontrado uma rachadura em sua armadura.
— Não precisa me dar detalhes. Apenas o conceito geral já seria… sustentável para o meu trabalho. — Ela provocou, usando a própria palavra dele, mantendo o olhar firme.
Mason se virou novamente, um novo tipo de brilho em seus olhos. Não era mais deboche ou tédio, mas algo mais complexo. Reconhecimento, talvez. Ou uma curiosidade que rivalizava com a dela, misturada com um lampejo de cautela.
— Bem, senhorita Benson. Já que sua curiosidade é tão…
particular — ele disse, voltando para a mesa e abrindo uma das pastas físicas, sem desviar o olhar dela. A pasta estava cheia de papéis, gráficos e o que pareciam ser fichas de pessoas. — Eu diria que a sustentabilidade, aqui, reside em
manter o equilíbrio. Nem tudo que entra aqui é descartado. Algumas coisas são…
estudadas. E algumas, bem… são
guardadas.
Ele fechou a pasta com um som seco, pousando as mãos sobre ela.
— O que você
realmente quer saber, %Sophie%? E por que você se importa tanto com os
heartless? Há algo mais em jogo aqui, não é? Algo que você não está me contando.
O jogo havia mudado drasticamente. Mason não estava mais apenas brincando. Ele estava investigando, e %Sophie% sabia que precisaria jogar com cautela. A informação estava ali, à beira da revelação, mas o preço poderia ser alto. Ela sentiu seu coração transparente pulsar mais forte sob sua blusa, a intensidade daquele momento era palpável. Ele a via, ela sabia. E ele sabia que ela tinha um motivo maior para estar ali.