O brilho eterno de um coração quebrado


Escrita porVictoria Fideles
Revisada por Lelen


Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 16 minutos

  24 de Janeiro de 2017 — Ópes Civitas.

  — Por favor, Emma, por favor, por favor, por favor. Nós já viemos até aqui! — Ela encarava com sofrimento os olhos da melhor amiga, as mãos juntas em súplica e os lábios formando um biquinho birrento de uma garota de cinco anos.
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  — Isso é arriscado demais! Se alguém te pega lá dentro… — Emma meneou a cabeça.
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  — Ninguém vai me pegar, eu vou tomar cuidado, poxa. — Pôs as mãos na cintura em obviedade. — Você é minha melhor amiga, sabe que eu preciso fazer isso. É importante.
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  — %Sophie%… — Tentou uma última vez que a amiga mudasse de ideia.
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  — Você sabe que se não me ajudar, eu vou entrar lá sozinha, não sabe? — No momento em que disse a frase, o coração transparente e genuíno de %Sophie% assumiu uma tonalidade roxa escura, fazendo Emma soltar uma risada.
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  — A arte da manipulação, não é, %Sophie%? — Emma sorriu com as sobrancelhas arqueadas. — É claro que eu vou te ajudar, sua idiota! Mas se alguém pegar a gente, eu corro e te deixo sozinha. — Apontou o indicador para ela em sinal de aviso.
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  — Isso! Você é melhor, Emma Hart, a melhor! — Os corações pendurados em seus pescoços ficaram amarelos por um segundo antes de voltarem a sua coloração de costume, enquanto as duas amigas abraçavam-se.
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  As duas esconderam seus colares dentro de suas blusas de frio e sorriram. Emma, por adorar um desafio e %Sophie%, por finalmente sentir que poderia ficar inteira novamente. O vento gélido batendo no rosto de ambas fez com que tremessem um pouco e dar o primeiro passo fosse mais difícil do que imaginavam, afinal, nenhum beryllus estava autorizado a entrar na base da Concentração onde o prédio do CEEH se localizava a não ser pais, cônjuges, tutores legais dos heartless, médicos especialistas e os membros da coordenação.
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  %Sophie% respirou fundo e avançou na frente, pela lateral do prédio, como quem não queria nada. Emma andou em frente, os passos desajeitados e nervosos de propósito, os olhos começando a lacrimejar. Agradeceu mentalmente por estar um vento forte, que deixava seu rosto, geralmente pálido, avermelhado e abatido.
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  — O senhor poderia me ajudar? — ela perguntou, sua voz totalmente decepcionada, como se sua garganta estivesse fechada. %Sophie% espiou de dedos cruzados, precisava dar certo.
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  — Claro que sim, o que houve, querida? — O homem se aproximou de Emma.
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  — Eu perdi o meu colar, já o procurei por toda a província, ninguém quer me ajudar a encontrar, ninguém se importa! — gritou afinando a voz.
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  — Acalme-se, vou chamar um de meus colegas para ajudar você. — O homem levou suas mãos ao rádio transmissor no cinto da calça.
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  — Não! Eu não tenho tempo, o perdi há dias. Eu estava aqui com meus pais quando perdi, não tenho mais tempo, eu estou sentindo que vou me tornar uma... eu estou tendo tantos pensamentos ruins. — E então Emma começou a chorar. — Se eu pudesse, eu mataria uma pessoa e tiraria seu colar para poder usar. — Sua voz soou tão mórbida que se não fosse o fato de estar quase vomitando de nervoso, ela iria cair na gargalhada. O choro era o sinal que %Sophie% precisava para correr. Ela entrou tão rápido pela porta que antes o segurança estava vigiando que quase a bateu, porém, segurou a fechadura com força para encostar a porta. Havia notado há algum tempo que essa era uma das únicas portas na fachada lateral do prédio que ninguém precisava de um cartão de acesso para poder entrar, todos que passavam por ali eram liberados apenas pelo segurança que Emma distraiu, e somente encarregados do transporte de cargas e materiais para o prédio passavam por ali.
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  No momento exato em que %Sophie% passou pela porta, o celular de Emma soou alto uma música tradicional da província de Beryllus, que ela mesma agendou para começar a tocar. A garota fingiu atender e então deu um grito de empolgação, abraçou o segurança e disse que sua amiga havia encontrado seu cristal.
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  — Garota maluca — disse ele, voltando para frente de sua porta.
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  Lá dentro, %Sophie% se encontrou no meio de um lugar que parecia ser um depósito escuro, cheio de caixas velhas e poeira. A porta estava trancada quando ela checou.
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  — Merda — falou baixo, tentando enxergar através da luz da tela de seu celular. Ela tinha que encontrar uma saída, não poderia simplesmente voltar por onde entrou e se deixar ser pega pelo segurança. A garota era inteligente e já havia sacado que essa gente tinha muitas coisas a esconder, então começou a procurar por outra porta ou passagem, coisas do tipo que você lê em livros ou vê em filmes. Mas, para seu azar — ou sorte —, aquela era sua vida real e o que não podia acontecer, aconteceu. %Sophie% se assustou ao escutar o barulho do cartão de acesso da porta, e se abaixou instintivamente, enquanto uma mulher de jaleco branco entrava no depósito com uma lanterna. Aparentemente não havia luz no lugar. A mulher abriu uma gaveta, pegou um prontuário e saiu pela porta sem nem ao menos suspeitar da presença de alguém ali dentro. %Sophie% viu a oportunidade nascer, pegou o celular e colocou deitado entre a porta antes que ela batesse e respirou aliviada por não ter feito barulho. Ela se levantou, e espiou pela porta. Era um corredor com o piso de mármore e as paredes brancas, a luz era forte e fazia a vista de %Sophie% arder. Para onde, para onde? Ela pensava, sem ter certeza de onde diabos ficavam os corpos.
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  A garota seguiu pelo lado esquerdo, virando em outro corredor, um pouco menos iluminado que o anterior, onde havia várias salas com portas de aço. %Sophie% ficou sem entender por que havia portas de aço ali, quem eles queriam manter fora? Ou pior ainda, dentro? Seus passos rápidos a levaram até o fim do corredor, ela contou cinquenta e cinco salas, apenas do lado esquerdo por onde optara ir. Encontrou uma escada e desceu, sempre iluminando com a tela de seu celular, com medo de ligar a lanterna. O lugar era um pouco mais frio do que o corredor de cima. A menina chegou a uma sala, e logo encontrou um interruptor, batendo sua mão nele e iluminando todo o lugar. Ela visualizou várias macas, todas vazias. Completamente vazias. Onde ficavam os corpos, afinal? A garota bufou irritada por ter errado o caminho e xingou mentalmente ter escolhido o lado esquerdo do corredor, que a levou, literalmente, a lugar nenhum. Ao se virar para sair, %Sophie% engoliu em seco.
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  — Quem é você e o que está fazendo aqui? — Deu de cara com a mulher que viu mais cedo na sala de arquivos.
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  — Droga — disse frustrada.
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  %Sophie% foi escoltada por dois seguranças durante um percurso de cinco minutos até um elevador, onde o décimo terceiro andar foi apertado. Quando a porta do elevador se abriu, havia um rapaz parado em sua frente, sorrindo intrigantemente para ela. %Sophie% tremeu. Ele não aparentava ser muito mais velho do que ela, mas algo em seu olhar o deixava ameaçador. Ela não sentiu medo, foi mais curiosidade, queria saber o que alguém tão jovem fazia naquele antro de robôs.
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  — Vocês esperem aqui — ele disse com clareza para os dois seguranças, depois olhou para %Sophie%. — Você vem comigo. — Virou de costas para os três e caminhou até uma porta que ficava na frente do elevador.
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  Mais um corredor. Outra porta aberta, essa — diferente das anteriores — era de vidro e tinha uma placa que dizia “Coordenação”. Ele usou seu cartão de acesso para destrancá-la, deixando-o em cima da mesa ao se sentar e sinalizar para que ela fizesse o mesmo.
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  — Qual seu nome? — disse, cruzando as mãos no colo.
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  %Sophie% não disse nada.
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  — Por que está aqui? — Tentou outra vez uma comunicação com a garota.
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  Silêncio outra vez. Semicerrou os olhos diante do silêncio da garota e usou outra estratégia.
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  — Me mostre o seu coração. — Perguntar pelo colar das pessoas sempre lhe trazia o efeito esperado. Elas sorriam e os exibiam como se fosse o mais lindo e valioso troféu. E, naquela cidade, ele realmente era.
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  %Sophie% sentiu um calafrio percorrer todo seu corpo. Respirou fundo tentando controlar suas emoções. Um misto de raiva, rancor e pânico se alastrava em seu coração e, se ela o mostrasse estaria acabada. Então, algo lhe ocorreu. Por que ele queria ver seu coração? O que isto diria sobre ela além de sua personalidade? Ele deveria pedir para checar sua identidade e não seu coração.
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  — Para que você precisa ver meu coração? — indagou com arrogância aproximando o corpo da mesa à sua frente.
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  — Para saber se você tem um. — Devolveu com deboche.
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  — Se não tivesse seria uma heartless morta, correto? — Arqueou uma das sobrancelhas para o homem.
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  — Adormecida — corrigiu-a sorrindo de lado. A garota era um pouco abusada, em sua opinião.
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  %Sophie% revirou os olhos.
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  — Eu tenho um coração, está bem? — Bufou, jogando o corpo contra as costas da cadeira.
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  — Então mostre-me e você poderá sair logo daqui, sem mais problemas — disse suave. Ser rude logo de cara não tinha funcionado, ele tentaria outra abordagem.
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  — E se eu não quiser? — %Sophie% disse emburrada.
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  — Bem… Se não me mostrar, eu terei que enviá-la a outro setor. — Recostou-se na cadeira e sorriu para ela, tentando parecer amigável.
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  — Que setor? — Sua curiosidade se mostrou assim que fora atiçada por ele, atingindo exatamente o que ele queria.
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  — Um setor menos amigável que a coordenação. — Ficou sério, deixando no ar que ele estava sendo o bom moço ali.
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  %Sophie% se fez de desentendida e tirou seu coração para fora da blusa, sorrindo para o rapaz. Quando ele viu o coração de cristal transparente, sua expressão suave endureceu. Por que aquela garota tinha um dos corações mais fortes? Ele pensou que isso não ocorresse há muito tempo.
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  — Meu nome é %Sophie%, eu estou escrevendo um trabalho para a escola sobre a Sustentabilidade da Província de Ópes e não existe lugar mais Sustentável e correto em Ópes do que esse lugar. Eu disse isso lá embaixo e o segurança me deixou passar, então eu achei que poderia andar livremente por aqui e escrever sobre o que eu quisesse. — Sorriu ao terminar de se explicar para o rapaz.
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  — E onde estão as suas anotações? Caderno? Caneta? — Dedos novamente cruzados, agora de raiva, odiando a explicação totalmente plausível da garota.  — E por que o segurança deixaria você entrar se todos eles sabem que ninguém entra sem autorização da Coordenação.
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  %Sophie% sorriu uma risada e levantou seu celular, indicando que suas anotações eram feitas no aparelho digital.
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  — Talvez eu tenha prometido dar algum crédito a ele quando terminasse o trabalho.
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  O rapaz lhe devolveu o sorriso e se levantou, virando para a janela e telefonando para alguém. A garota vagou os olhos pela sala, imaginando se sua mentira fora convincente ou não. Foi esperta e rápida o suficiente para inventar uma desculpa e não gaguejar ao falar, mas não sabia se isso seria suficiente para livrá-la de uma possível confusão.
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  Focalizou no cartão de acesso na mesa e não pensou duas vezes antes de pegá-lo e guardar entre sua calça jeans e sua cintura. O homem ainda estava em silêncio, o que indicava que a pessoa que recebia a chamada não estava disponível para atendê-lo.
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  — Ei… — ela disse pigarreando em seguida. — Eu tenho um compromisso em vinte e cinco minutos no centro de Pines… — Ele se virou com o cenho franzido. — Será que você poderia me liberar?
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  O homem estava confuso. Ela estava ali para fazer uma pesquisa e agora precisava ir embora desesperadamente por causa de um compromisso. Ele soube exatamente o que fazer a seguir, por isso encerrou a chamada e sorriu para a moça.
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  — Tudo bem, %Sophie%… — Seguiu até sua cadeira e sentou-se na ponta da mesa, de frente para ela. — Mas antes, você vai me dizer o que, de verdade, veio fazer aqui? — Cruzou os braços esperando a resposta.
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  — Eu já disse, um trabalho — disse simplesmente.
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  — Bom, %Sophie%… — Virou-se para trás pegando um pedaço qualquer de papel e sua caneta. — Me diz onde eu posso encontrá-la para ver o resultado final de seu trabalho.
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  %Sophie% estava assustada. Não imaginava que a reação do homem seria boa e ela desconfiou. Poderia dizer onde encontrá-la, mas ela não tinha trabalho nenhum e não sabia o que aconteceria com ela se ele pegasse sua mentira.
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  — Eu não consegui todas as informações, então acho que vou mudar meu foco de sustentabilidade. — Deu de ombros tentando parecer relaxada. Respire, %Sophie%, respire, disse a si mesma.
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  — Não seja por isso. — Largou o papel e caneta sobre a mesa e se pôs de pé, pegando um cartão na caixinha ao lado do computador. — Aqui está o meu telefone. Hoje você está ocupada, mas pode me ligar amanhã e eu mesmo terei o prazer de acompanhá-la pelo CEEH e te fornecer todas as informações para o seu trabalho. — Estendeu o cartão para ela e lhe sorriu com simpatia. Se a moça estivesse mentindo — e ele suspeitava que sim —, ele descobriria o porquê e sua punição viria.
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  %Sophie% percebeu a confusão que se metera e sabia que só poderia escapar se aceitasse a ajuda do rapaz e isso significava que ela teria mesmo que fazer um maldito trabalho inútil sobre Sustentabilidade, apenas para não se dar mal pela invasão ao centro. Estendeu a mão esquerda e pegou o cartão, guardando-o no bolso da calça.
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  — Obrigada, vai ser muito útil. — Sorriu, tentando não parecer nervosa. — Posso ir? — perguntou esfregando as mãos nas coxas.
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  — Pode — respondeu lhe dando espaço para que se levantasse. — Mas devolva meu cartão, por favor.
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  O homem sorriu debochado à reação da menina. Furtou o cartão dele e agora ele estava deixando claro que sabia o que ela tinha feito. %Sophie% estava envergonhada, não por ter pegado o cartão, mas por ter sido descoberta. Levantou a blusa e puxou o bendito, entregando na mão do homem. Pegou o cartão e suas mãos tocaram a dela, causando um choque no interior de seu corpo, também sentido por ela.
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  %Sophie% se recompôs e, com um sorriso, virou de costas para o homem e saiu da sala. Precisava sair dali o mais rápido possível ou Emma chamaria a polícia e contaria a história que inventaram para que ela fosse resgatada do CEEH. Encontrou os seguranças na porta do elevador esperando por ela, com ordens expressas do homem da sala com portas de vidro para levá-la à saída e se certificarem de que ela não pegaria mais nada.
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  Chegou à saída no mesmo instante em que viu Emma pegar o celular e discar o número da emergência. Quando levou o aparelho ao ouvido, viu %Sophie% gesticular com a cabeça e ela encerrou a chamada quando uma mulher respondeu: CE Província de Ópes.
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  Um dos seguranças as acompanhou até o fim da rua e elas seguiram em silêncio até a casa da menina. Precisava de uma saída rápida para enganar o tal homem do cartão. Pescou-o no bolso da calça e leu as informações douradas no cartão preto.
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Mason Scott
Coordenador de Cadastros Heartless
(+324) 555 6428

  Então Mason era responsável pelo cadastro de todos que se tornavam heartless depois do teste. Isso facilitaria muito sua vida pois ela poderia se aproveitar do homem para descobrir o que precisava.
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Capítulo 2
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