Capítulo 1
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13 de julho de 2013 — Beryllus Civitas.
— Este é um teste de pureza. Vocês estão aqui porque atingiram quatorze anos, e consequentemente, precisam saber quem irão se tornar.
A garotinha, pequena e frágil estava inquieta. Tentava se concentrar na neve, porque era esperta e sabia que não estava vendo-a por nada, sabia que ela significava alguma coisa, mas o macacão branco que a Concentração a obrigou a usar estava coçando o seu corpo e ela tentava desesperadamente não pensar nisso. O macacão parecia ser de plástico, grudava e fazia alguns sons bizarros, enquanto ela tentava ignorar tudo isso e focalizar a neve.
— Em nome de toda a Concentração, eu os acompanharei até o final dos testes.
A voz feminina, doce e calma falava com os adolescentes que iriam fazer o teste enquanto eles caminhavam sobre a neve. %Sophie% não estava nervosa porque apesar de não conseguir ver mais ninguém ali, ela sabia onde eles estavam. Entravam cinco pessoas de cada vez para realizar os testes de pureza, todos com três minutos para passar por cada uma das estações que representavam as etapas do teste e, enfim, ganhar um colar com um cristal de coração, o qual representava o íntimo de cada um deles, quem eles eram de verdade, a cor de sua essência.
— Ao final do teste, se você conseguir um coração, é um beryllus por direito. Caso contrário, se junta aos heartless no CEEH.
CEEH é a sigla para Centro Especializado em Heartless. O lugar parece um hospital, com uma sala cinza escura e com pouca iluminação, onde as pessoas que não conseguiram o seu coração ou que acabaram com ele quebrado por algum motivo dormem profundamente deitada em macas geladas, enquanto os especialistas trabalham em seu corpo e cérebro, tentando encontrar uma maneira de te trazer de volta à vida, mesmo sem um coração. Em 200 anos ninguém ainda foi capaz.
— Vocês precisam seguir as pegadas, esquecer que estão em uma simulação. Olhem a neve, enxerguem as pegadas e sigam em frente.
— Não vejo neve nenhuma! — gritou %Rick% ao longe, bagunçando a visão da irmã sobre a neve por alguns segundos.
— Você tem que visualizar a neve, %Richard%. Você precisa — a voz suave tornou a dizer.
Os olhos de %Sophie% lacrimejavam com o vento intenso que parecia querer apagar as pegadas que ela enxergava. Ela as seguiu, passo por passo, chegando a uma floresta verde, com um sol quente que brilhava no céu. A garota se assustou ao olhar para trás e perceber que seu irmão não estava ali como ela achou que estaria.
— %Rick%?! — %Sophie% chamou alto, dando um passo de volta para a neve e o frio, porém um choque atingiu-a em cheio, jogando-a para trás. Ela deu um grito de pânico e dor, desesperada por não conseguir ir ao encontro do irmão.
— Você precisa continuar, %Sophie%. Siga em frente, só faltam duas estações. Visualize-as — a mulher insistiu.
— Eu não posso! Eu tenho que voltar! — gritou %Sophie% apavorada.
— Você não tem permissão para retroceder a estação. Siga em frente, seu irmão sairá do inverno assim que visualizar a neve. Ele ainda tem dois minutos. Concentre-se em seu teste.
Com o peito apertado, deixou que as lágrimas que ela segurava caíssem. Ela não podia continuar sem seu irmão, nem sequer queria, e ficar na agonia de ter que esperar ele chegar deixava-a ainda mais aflita. %Sophie% sempre foi uma menina impulsiva, ficar parada fazia com que uma inquietação de outro mundo tomasse conta de seu coração então, no calor do momento, ela decidiu que correr seria a solução perfeita. Quanto mais rápido esse teste acabasse, mais rápido %Sophie% estaria de volta para perto de seu irmão.
Ela correu o mais rápido que podia por entre os galhos da floresta densa, parando hesitante frente a um precipício. Olhou para baixo, avistando um riacho, e beirando todo esse riacho havia flores dos mais variados tipos, então %Sophie% soube que a primavera chegaria. Pulou rápido o suficiente para que quando abrisse os olhos estivesse dentro do riacho, mas ela sequer se molhou. Olhando a sua volta, descobriu estar no meio de um campo cheio de flores brancas, onde não parecia ter mais nada além disso. %Sophie% respirou fundo e continuou a correr, mas parecia que estava sempre voltando ao centro, ao mesmo lugar. Tentando não entrar em pânico, ela olhou para cima. De início só havia o céu, depois seus olhos enxergaram uma linha acima de sua cabeça que cortava todo o campo em que ela estava, de ponta a ponta. %Sophie% respirou fundo antes de escolher para qual lado seguiria, usando a lógica em vez de sua intuição.
Ela foi em direção ao lado esquerdo, onde as flores pareciam mais vivas e brilhantes, como se tomassem sol, enquanto as do lado oposto pareciam abatidas e secas, exatamente como ficam no outono. %Sophie% segurou a linha com as duas mãos, com cuidado o suficiente para não forçar e eventualmente arrebentá-la, andando rapidamente em frente, enquanto observava as paisagens mudarem bem em frente aos seus olhos. Estava descalça e sentiu os pés tocarem uma areia fina e quente, usava um vestido branco que balançava com o vento. Não havia nada além de areia em parte alguma e se não fosse pelo barulho do mar, %Sophie% juraria estar no meio de um deserto.
Por um momento a garota cogitou a possibilidade de estar na paisagem errada, talvez a tivessem esquecido em algum lugar no fundo de sua própria mente. Antes que entrasse em desespero, ela fechou os olhos, pensando com força no colar que estava ali para conseguir, então, sentiu água tocando seus pés e quando abriu os olhos ela já estava dentro do mar. Primeiro ela entrou em pânico e afundou, %Sophie% não sabia nadar. Em um segundo momento ela lembrou-se que aquilo era um teste, e ela estava no meio de uma simulação e nada era real, logo ela poderia ditar as regras e fazer o que quisesse. Era como um sonho, certo? Errado. Quanto mais a menina fingia saber nadar, mais a correnteza a afastava da praia. Seus braços doíam a cada braçada que ela tentava dar, sua cabeça latejava enquanto visualizava saídas rápidas em sua mente, como um barco ou uma prancha, mas nada deu certo e então ela afundou outra vez. Foi direto para baixo como se algo a estivesse puxando e cansada demais para se debater, ela se deixou ser levada. Foi então que ela viu, no fundo do mar, um colar perdido. Ele brilhava para ela, uma luz branca, como quando você olha para o sol. Num passe de mágica, %Sophie% aprendeu a nadar e foi buscar seu colar, retornando à superfície logo em seguida apesar de antes parecer que ela tinha descido pelo menos uns vinte mil metros. Estava tão cansada que poderia dormir, então decidiu boiar e deixar que as ondas a levassem de volta à praia e se isso não ocorresse, elas a levariam a algum lugar.
Estava novamente na sala em que começara o teste, só duas pessoas que entraram com ela estavam ali também, uma tão cansada quanto ela e a outra simplesmente sem expressão alguma. Em suas mãos, estavam seus colares, um deles possuía o coração de cristal verde médio, parecia a grama de jardins luxuosos que você só vê em filmes. O outro era cinza claro, uma cor tão suave e inexpressiva quanto seu rosto.
— Bem-vindos de volta, beryllus! Parabéns, vocês obtiveram sucesso e agora estão capacitados a fazerem suas próprias escolhas dentro de nossa sociedade. Lembrem-se, cuidem de seus corações como cuidariam de sua alma, afinal é a coisa mais bela que vocês possuem. — A dona da voz finalmente apareceu para %Sophie% e os outros, sanando de vez sua curiosidade, ela era loira e pálida e o colar em seu pescoço tinha um cristal transparente, assim como o de %Sophie%, ela notou. — As regras são simples, e provavelmente seus pais já as ensinaram a vocês, mas para que não reste dúvida alguma, se vocês perderem seus corações ou alguém os roubar de vocês, terão apenas quatorze dias para encontrá-lo e trazê-lo de volta, caso contrário se tornarão pessoas de má fé, movidas a ambição, desgraça e ódio, perdendo totalmente a capacidade de amar e sua essência própria. Se seu coração se quebrar, eu sinto muito. Você terá alguns minutos antes de ser encaminhado ao CEEH. As cor-
— Me desculpe — %Sophie% a interrompeu.
— Sim, senhorita Benson? — Virou-se na direção da menina.
— Onde está meu irmão? — perguntou %Sophie% apavorada. %Rick% não estava mais na sala e isso era um sinal muito ruim.
— Eu sinto muito, querida, mas seu irmão não conseguiu concluir o teste.
— O quê? Como assim? Por que não? — Levantou-se com olhos arregalados.
— Todos nós sabemos a resposta. Ele não era puro. — Respirou fundo, dando a resposta mais óbvia de todas.
— Não tem como, nós somos gêmeos! — disse ela, inconformada. — Se eu consegui o colar, ele devia conseguir também. Não tem como sermos filhos de pais diferentes! — Alguma coisa parecia muito errada.
%Sophie% estava quase gritando tamanho era seu desespero. Perder seu irmão significava que ela também estava perdida, significava o seu fracasso para si mesmo. Houve um engano, ela também deveria ser uma heartless, pensou. Atordoada, ela começou a gritar que os testes estavam errados, gritou por %Rick% na tentativa de trazê-lo de volta. A mulher loira tinha um semblante preocupado, quase como se estivesse sentindo a mesma dor que %Sophie% sentia. Ela lhe pediu calma uma, duas, três vezes, mas a garota não ouvia nada além de seu próprio choro de angústia. %Sophie% simplesmente queria partir a cara de alguém e se a mulher loira lhe pedisse calma mais uma vez, ela seria o alvo.
— Me deixa vê-lo, quero ver o meu irmão! Cadê ele?! — Segurou com força os pulsos da mulher.
— Eu creio que isto não será possível, ele já foi encaminhado ao CEEH e os seus pais já foram avisados do ocorrido. — Puxou os braços de volta para si e segurou a menina pelos ombros.
— Não... — sussurrou ela, caindo de joelhos no chão frio daquela sala.
— Eu sinto muito — a garota de cabelos escuros e longos disse, afagando de leve as costas de %Sophie% enquanto ela chorava jogada no chão. Seu coração — verde como a grama — tornou-se marrom escuro por uma fração de segundo, enquanto ela se sentia pesarosa pela garota que chorava, quando na verdade deveria estar radiante por ter conseguido seu coração. — Vem comigo, vamos encontrar seus pais lá fora. Meu nome é Emma.
Emma sorriu fraco para %Sophie% e não se chateou quando a garota não conseguiu sorrir de volta, apenas a puxou pela mão, entrando no corredor que dava até a porta da sala. Enquanto saíam, %Sophie% olhou para trás, para a instrutora loira de voz suave e a viu fitando-a. Seu olhar era tão perdido quanto o de %Sophie%.