Capítulo 2 • A Infância dos Filhos de Noé
Tempo estimado de leitura: 10 minutos
A brisa da manhã carregava um cheiro úmido de madeira recém-cortada e terra revolvida. No horizonte, um céu claro ameaçava tempestade, prenunciando mudanças que ninguém, ainda, podia compreender completamente. Lá, ao longe, erguia-se a estrutura colossal da arca: uma silhueta poderosa de tábuas alinhadas, encimada por andaimes e cordas penduradas, lembrando uma baleia de madeira prestes a ganhar o mar.
Shem, Cam e Jafé, ainda meninos, corriam de um lado a outro do canteiro de obras. O Sol mal surgia e já encontravam forças para sorrir, brincar, discutindo entre irmãos quem carregaria a tábua mais pesada. Cada um, à sua maneira, queria impressionar o pai: Noé, homem justo e temente a Deus, que há anos vinha avisando a todos sobre o dilúvio iminente.
— Cuidado, Shem! — gritou Cam, empurrando o irmão mais velho, sem maldade, apenas para provocar. Jafé, o caçula, ria alto, segurando o martelo maior que ele.
— Eu aguento, Cam! Se você cai agora, cuidado com o murro! — respondeu Shem, tentando manter o equilíbrio sobre a trave de cedro.
Noé, de chapéu de palha e mãos calejadas, aproximou-se sorrindo. Apesar da seriedade do chamado que sentia para construir a arca, havia ternura em seu olhar. Ele sabia que, mais do que tábuas e pregos, estava ensinando algo precioso àqueles meninos.
— Filhos — disse ele, pousando a mão sobre o ombro de Jafé —, façam todo trabalho com coração alegre. Não basta apenas construir um barco de madeira. Vocês ajudam a salvar o mundo.
Cam largou de má vontade uma das tábuas e olhou para o céu, ainda azul.
— Mas papai, ele não vai ser só um barco, vai? As pessoas dizem que é loucura.
Noé ergueu o rosto, fitou o horizonte e revirou levemente a barba branca.
— É loucura, sim, para quem não acredita na voz de Deus. Mas quando as águas chegarem, quem tiver vergonha do que foi chamado a fazer, vai se afogar junto com o mundo.
Enquanto isso, ao redor, ervas daninhas cresciam entre as tábuas; pequenos pássaros faziam ninhos nos andaimes, e, de vez em quando, um estrondo distante — como um trovão sem chuva — anunciava que algo grotesco caminhava pela região. Os Nephilins, gigantes descendentes dos “anjos caídos”, manifestavam seu domínio: pisavam na terra, arrancavam árvores com as mãos, festejavam casamentos barulhentos nas praças, seduzindo e corrompendo jovens inocentes.
— Viu aquilo? — perguntou Jafé, apontando para o vale. Um vulto enorme ergueu-se entre as colinas: braços grossos e voz retumbante. — É um deles.
Noé abaixou a cabeça em oração, sem desviar o olhar. Os três rapazes, sem entender o peso de cada palavra, sentiram um arrepio.
Meses depois, as tábuas já formavam a quilha da arca. Uma aura de urgência e expectativa rondava o ar. O mundo festejava como se não houvesse amanhã: torneios de combate entre Nephilins e homens, brindes de vinho em multidões, casamentos que pareciam teatros de luxo, repletos de chifres, penas e coroas de bronze. E, ao mesmo tempo, a pregação de Noé soava como um sino lúgubre aos ouvidos atentos.
Quinze anos se passaram. Shem, agora com 17 anos, ostentava uma estatura firme e olhar profundo, marcado pelas horas de trabalho árduo. Cam, 16, mantinha no rosto o traço da provocação, porém trazia consigo um senso de justiça mais aguçado. Jafé, 14, crescera mais rápido que o esperado, mas conservava a ingenuidade e o sorriso fácil dos meninos.
Numa tarde de calor intenso, os três caminharam rumo à cidade de Jabes, onde Noé se preparava para mais um sermão público. O porto improvisado, próximo ao lago, servia de palco para sua mensagem: “Arrependam-se, pois o Dilúvio vem. A minha arca está quase pronta. Quem não entrar, perecerá”.
O vento trazia perfumes exóticos das tendas e o barulho de tambores que anunciavam uma festa iminente. Barracas coloridas vendiam joias badaladas, plumas, conchas importadas e taças de cristal. Homens trajando peles de animal disputavam danças e mulheres de joias reluzentes cantavam cânticos ao luar.
— Eu ainda não entendo — murmurou Cam —, por que ninguém leva a sério? Em vez de escutar meu pai, as pessoas festejam com os Nephilins.
Shem tocou o ombro do irmão.
— Isso é o mundo, Cam. Ele ama mais o brilho e o som do que a voz que alerta sobre o dilúvio.
Naquele instante, entre a multidão que se aglomerava, ergueu-se uma família distinta: Eliaquim, um homem de semblante calmo e respeitável, vinha acompanhado de suas quatro filhas. %Heidi%, a mais velha, caminhava ereta, os cabelos negros presos em trança espessa; tinha cerca de 18 anos e um ar de liderança. Logo atrás, vinha %Dana%, de 16, mais arredia, olhos castanhos cintilando curiosidade. %Tali%, com 15, se detinha a observar detalhes: tudo ali ao redor parecia novo e fascinante. A caçula, %Adata%, de 13, mantinha um sorriso tímido, segurando o vestido claro para não se sujar.
Quando Shem ergueu os olhos, sentiu o coração acelerar como se fosse a primeira vez. Cam e Jafé, cada um à sua maneira, notaram a presença das jovens. O sermão de Noé mal começara, mas ali, entre um argumento e outro, brotava algo mais forte em cada filho do pregador.
Eliaquim aproximou-se de Noé após a mensagem. Os dois trocaram cumprimentos respeitosos. Por fim, Eliaquim voltou-se às filhas e disse em voz baixa:
— Ouçam bem meu primo. Este homem fala do fim dos tempos.
%Heidi% observou o trator do pregador, as tábuas da arca ao longe, e sentiu algo instintivo: necessidade de proteger a família, mas também uma pontada de aventura.
Terminada a pregação, a multidão se dispersou entre as tendas. A vida noturna ganhava força, com lumes acesos e sons de flauta atravessando a praça. Shem, Cam e Jafé trocaram olhares e, num sincronismo juvenil, partiram na direção das jovens.
— Olhem só como ela é alta… — comentou Cam, referindo-se a %Heidi%, que conversava com a mãe, ajustando o xale.
Shem tentou conter o riso:
— Parece que você só sabe falar de altura.
Jafé, empolgado, passou a mão no ombro de %Dana%, que recuou com um sorriso enigmático.
— Eu sou Jafé — disse ele, estendendo a mão com ar de diplomata. — Este é meu irmão Shem e este é o Cam.
%Dana% apertou a mão do rapaz, mantendo a compostura.
— Sou %Dana%, filha de Eliaquim. Mas vocês três são… os filhos de Noé?
%Adata%, acenando timidamente, perguntou:
— Vocês ajudam a construir a grande arca?
Shem sorriu, sentindo um calor no peito.
— É… ajudamos sim. Fazemos parte do time de carpinteiros. Mas não deixem de perguntar às outras pessoas sobre isso. Elas podem não concordar.
%Tali%, que observava um pássaro pousar numa pedra próxima, levantou os olhos.
— Acho que é impressionante um barco desse tamanho — disse ela, em tom suave. — Deve haver muito trabalho.
Cam, sem jeito, falou rápido:
— Imagina só montar tudo para enfrentar o dilúvio! Os gigantes… eles continuam por aí, pisoteando fazendas, derrubando muros de pedra.
— Vocês têm razão em mostrar respeito pelo que está acontecendo. Mas também não precisam ter tanto medo. Enquanto Deus estiver com Noé, nada poderá vencer a arca.
%Heidi%, ereta e atenta, guardou silêncio. Então, voltou-se a Shem.
— E você, Shem, o que acha de tudo isso?
— Eu… bem, sigo o que meu pai diz. Sei que o mundo está errado, mas acho que ainda há esperança. Queremos salvar quem quiser entrar.
A noite desceu cobrindo a praça de estrelas. Música embargou a conversa, e cada um sentiu que aquele encontro marcaria o início de algo maior — amizade, lealdade, talvez até amor. Mas o perigo rondava. Um estrondo abateu-se no vale, fazendo a terra vibrar como um tambor.
No alto, um gigante surgiu, sombra colossal contra a lua crescente. Estendeu o braço em direção ao céu, como se desafiasse o próprio Criador. Um grito ecoou enquanto a multidão recuava em pânico.
%Heidi% segurou as irmãs.
— Vamos sair daqui! — ordenou a %Dana%, puxando-a pelo braço.
*****
Assim que chegaram em casa, %Heidi%, %Dana%, %Tali% e %Adata% começaram a pensar em tudo que acontecera. Eram muitas as coisas que haviam acontecido. O mundo já não era mais o mesmo. %Heidi%, %Dana%, %Tali% e %Adata% começaram cada uma a pensar no que havia acontecido.
********
“O Reino de Deus é como sete virgens prudentes.”
— Vocês acham que Noé falou sério quando disse que o dilúvio viria? — perguntou %Heidi%.
— Talvez — assentiu %Dana%.
— Talvez seja só uma visão errada — disse %Tali%. — Afinal, o povo diz que é loucura.
— Mas e se for verdade? — tentou dizer %Adata%. — E se realmente estiver vindo um dilúvio?
— Então temos que nos preparar — disse Eliaquim às quatro filhas.
As quatro começaram a ficar pensativas, pensando no que fariam, uma coisa era certa, elas tinham uma escolha a fazer.