Capítulo 9 • Entre Novos Hábitos e Pensamentos Confusos
Na manhã seguinte, Nicole acordou cedo, embora tenha ido dormir tarde, e nem mesmo titia havia se levantado. O relógio marcava cinco horas da manhã, então a mulher coou um café, preparou um bolo, e o colocou para assar. A manhã estava fria como em um típico dia mineiro. Aprontou-se se agasalhando, após deixar o bolo no forno e subir ao próprio quarto. Carolina ainda dormia tranquilamente em sua cama. Depois que desceu, retornou à cozinha e com a caneca de barro que tanto gostava serviu-se de café forte, bebendo um pouco e diminuindo a intensidade do fogo para que a sua receita não queimasse.
Ela calçou as botinas indo a pé tratar dos animais, viu que Canelinha ainda dormia, na varandinha dos fundos e ao pé da porta da cozinha. Adiantando-se daquela tarefa, Nicole trocou sua água e serviu sua ração matutina, depois caminhou rumo aos seus serviços braçais de rotina. Recolheu os ovos do galinheiro e jogou milho às aves, as criaturinhas já estavam acordadas há tempos, e os galos empoleirados no telhado do galinheiro bradavam o cacarejar da nova aurora.
Bernardo acordou um pouco depois de Nic e assim que se aprontou, passou no quarto da mulher abrindo uma fresta da porta, a fim de observar se as duas dormiam. Estranhou ao ver que apenas Carol estava dormindo, e então, desceu pronto para encontrar aquela que, por parte da noite, não havia saído de sua mente. Mas, a cozinha estava vazia, com cheirinho de bolo que assava, e café recém-coado. Serviu-se de um gole e sorriu ao sentir a familiaridade que o cômodo transpassava. Não era o café de sua mãe, o sabor era forte como ele gostava. Como o café que ele mesmo fazia: pouco açucarado e certo para um dia de trabalho incessante.
Lembrou-se de seu pai, que lhe dizia quando ele ainda era um menino: “O café que você faz, mostra um pouco da força que você tem”… O velho senhor Fabiano era um homem sensível debaixo de toda aquela casca de homem bruto do campo, e Bernardo tornou-se um pouco como o pai. Aquele café, aquela simples caneca da bebida, aquecia ao coração do fazendeiro por memórias tão afáveis que lhe trouxera. Como se visse o pai em sua frente sorrindo e bebendo uma xícara com ele, Bernardo ouviu o sussurro imaginário de seu falecido velho lhe dizendo: “Pelo café dela, qual a força que ela tem?”.
Nicole. Lá estava novamente Bernardo pensando em Nicole e agora até mesmo um simples café da manhã era razão para a mulher invadir seus pensamentos. Virou a bebida de uma única vez, e batendo a caneca na pia, Bernardo sacudiu a cabeça a fim de esquecer tudo aquilo. Começara o dia já bufando e saiu pegando seu chapéu pendurado atrás da porta dos fundos da cozinha.
Nicole observou seu relógio de punho e ao perceber que a hora já marcava cinco e trinta e cinco, acreditou que Bernardo já deveria estar acordado e logo mais chegaria ali. Enquanto ela jogava o milho das galinhas, os patinhos aproximavam-se do lado de fora do galinheiro, com um sorriso de quem a cada dia se tornava mais íntima da natureza, ela os alimentou também. Então, o ranger da camionete aproximou-se e parou, Bernardo desceu do carro e caminhou na direção dela.
— Bom dia.
— Bom dia, Bernardo. — falou-lhe meticulosa em observar como estaria o humor dele: — Eu passei um café.
— É eu já bebi.
E lá estava, um Bernardo ríspido de novo. Nicole sabia que não demoraria muito com aquela quase serenidade da noite anterior. Porém, apesar de parecer irritado, ele não a ignorou como sempre fazia ao sair logo trabalhando. Estava parado olhando as galinhas se espalharem no quintal, meio sem jeito em como tratá-la. Na verdade, após presenciar a cena da mulher com sua filha, ele estava pensativo sobre as razões pelas quais, a tratava tão mal! E após cair acidentalmente sobre ela encarando, pela primeira vez bastante próximo, aqueles olhos intensos, Bernardo custou dormir. Por isso, quando acordou e não a viu de pé, ficou um pouco aliviado, mas assim que percebeu o café coado e todas aquelas sensações retornando, ele soube que deveria se preparar para reagir a ela.
Estava parado, observando-a inerte enquanto ela terminava de jogar os alimentos para os bichinhos. Nicole notou a maneira como Bernardo estava estranho, calado e imóvel. Batendo no fundo do cesto de milho em sua mão, para que os farelos caíssem no chão, ela lhe dirigiu a pergunta:
— Vou colocar os ovos na camionete. Importa-se se fizer tudo sozinho hoje? Eu quero arrumar a varanda, a frente da casa e estou com um bolo no forno.
— Pode ir. — ele concordou e seguiu para seus afazeres.
Nicole deixou os ovos no carro, voltou para o casarão, e tirou as botinas na porta dos fundos. Voltou ao fogão aumentando levemente o fogaréu da lenha, enxugou as louças que havia acabado de lavar naquela manhã, varreu a cozinha e a sala e deixou para limpar melhor a casa, depois. O bolo assou e ela o retirou, colocando para esfriar. Dirigiu-se à frente da casa e pôs-se a organizar a bagunça das festividades de casamento, que ainda se encontrava ali. Limpou toda a varanda, rastelou e varreu o quintal da frente, logo o sol nascera e assim que ela o admirou, foi tomar banho. Àquela altura o relógio marcava sete horas. Titia acordara e elas se esbarraram ao corredor superior.
— Bom dia, tia!
— Mas, já está de pé?
— Há muito tempo!
— Que horas são?
— Deve passar um pouco mais das sete.
— O quê?! Perdi a hora!
— Relaxe, a senhora pode. Estava exausta, não?
— Um pouco, querida.
— Vamos tomar café! Assei um bolo.
— A que horas levantou?
— Cinco. — Nicole respondeu risonha.
— Por quê?
— Não sei, apenas acordei. Preparei o bolo e o café. Fui tratar dos animais, aí o Bernardo apareceu e eu o deixei por lá. Vim arrumar a varanda e agora só falta limpar a parte debaixo da casa e fazer o almoço.
— Animada! E a Carol? Não a vi no quarto dela!
— Ela dormiu comigo. Ei titia! Eu queria lhe perguntar já há algum tempo… — Nicole estava animada de fato, não sabia a razão, mas acordou disposta, e lembrou-se de algo que gostaria de perguntar desde que chegara ali: — O nome de Carol tem algo a ver com o seu “Coralina”?
— Tem sim! — A senhorinha sorriu nostálgica: — Quando eu era criança, eu tive uma boneca a qual batizei assim porque eu sempre gostei do nome. Eu queria me chamar apenas Coralina. Com a chegada de Carol, tentei convencer, mas Bernardo preferiu Carolina.
— A mãe dela não optou no nome?
— Ela nem mesmo olhou a bebê. Assim que Carolina nasceu, Bruna murmurou um “finalmente” e virou o rosto. — A repulsa se fazia notória no tom de titia.
Assim que as duas terminaram de descer à cozinha, Bernardo surgiu. Pediu benção a mãe, beijou-a e subiu para tomar um banho. Nicole escapou um olhar para ele, vendo-o caminhar lento e suado para dentro de casa. Naquele momento ignorou a cena dos olhos dele tão perto dos seus na noite anterior, que já retomava à sua mente. Carolina desceu com o pai logo depois e todos juntos tomaram seu café. Até ali, nada de alfinetadas e maus olhares. Até então, nenhum olhar entre Bernardo e Nicole, mas Carolina interrompeu a paz:
— Vovó! Papai ontem caiu de toalha em cima da tia Nic!
Carol lembrou-se gargalhando. Bernardo engasgou-se com o café e olhou para a sua mãe, nervoso.
— Como foi isso, Nicole? — A senhora perguntou para a sobrinha sem tirar os olhos do filho, por cima dos óculos, como se estivesse pronta para repreendê-lo.
— Ah, nada de mais, ele foi ao quarto saber da Carolina e tropeçou no meu chinelo.
— Ah sim! — Titia direcionou um olhar analítico para o filho: — E você perdeu algum pedaço, Bernardo?
Havia um tom de ironia na voz da titia, e Nicole não entendeu ao certo o que ela queria dizer, mas Bernardo parecia entender muito bem.
— Não. Não foi nada, mãe. — desconversou ele.
— Bem, tia… Quando Rosa e Marcelo partem para a viagem?
— Eles já devem estar chegando para se despedir.
Os três continuaram o seu café da manhã, com Carolina contando do sonho que tivera pela noite. Um pouco depois, Rosa e Marcelo passaram no casarão rapidamente, para despedirem-se da família. Viajariam por algum tempo em lua de mel, e aproveitaram férias acumuladas para uma viagem mais longa. Titia, assim que todos terminaram de comer, se despediram do novo casal e Nicole se preparava para retirar a mesa, logo foi avisando:
— Nicole, se arrume. Hoje, já que nos atrasamos, iremos à missa das dez, horas da manhã.
— Será que ela tem o costume de rezar, mãe?
Bernardo até havia tentado não ser rude, mas estava irritadiço pelo fato de não conseguir tirar a expressão de Nicole, da noite anterior de sua mente. Assim como não se esquecia dos sorrisos que ela alargava durante o dia, no casamento ao lado de Gabriel.
— Eu não tenho o costume de ir à igreja, mas eu irei tia Laura. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar à cidade, e já que a vida é nova, os hábitos também devem ser.
— Eu vou te mostrar os meus coleguinhas da catequese Nic!
— Ah, com certeza eu vou querer conhecê-los Carol.
Todos se arrumaram e seguiram à igreja. No carro — que não era cabine dupla — tiveram que ir os três na frente, com Carol em um dos colos. Bernardo e a mãe discutiram para ver quem dirigiria. Ele não gostava que a mãe pegasse ao volante e, Nicole até preferia que titia não dirigisse mesmo. Titia era daquelas “devagar e sempre”. Então Bernardo ganhou a vez! Nicole sentou-se ao meio e titia ao seu lado com Carolina em seu colo.
Na missa, Nic avistou Gabriel, mas ele não a viu. Para ela, era estranho estar ali naquele tipo de situação “em família”, mas Nicole abria-se cada dia mais para as novas experiências. Sentou-se no banco ao lado deles e enquanto escutava as palavras do padre, tudo o que Gabriel dissera para ela na festa de casamento, sobre novas perspectivas e outras maneiras de interagir positivamente com os problemas, martelavam em sua mente. Sem dúvidas fora uma ótima homilia do padre e Nicole renovou as suas esperanças, decidindo confiar mais nas providências divinas.
Na hora da comunhão, Nic não se mexeu. Há muito tempo Nicole não comungava! Era demasiado estranho para ela realizar aquilo de novo, então permaneceu sentada até que sua tia a indagou. Titia convenceu-a de que faria bem a ela ir comungar e que, se preferisse, Nicole poderia confessar-se depois. E assim, Nicole fez. Colocou-se diante da fila de cristãos, e seus pés falhavam.
Ao contrário do primeiro dia onde em um piscar de olhos ela estava ajoelhada em frente ao altar, aquela peregrinação até o encontro de Deus demorou. Nicole ponderou voltar, mas já que estava ali iria em frente, ela precisava daquele momento. Precisava estar ali. Voltar não era opção até porque, atrás de si, estava Bernardo e ela não ousaria atrapalhar e causar uma cena, no meio da fila da igreja!
À medida que ela ia se aproximando, o seu coração começava a explodir tudo o que ela sentia. Medo. Ódio. Frustração. Desconfiança. Tristeza. Vergonha. Desesperança. Derrota. Tudo o que a incomodava veio até a sua garganta como se ela fosse vomitar todos os sentimentos ali. Nicole rezava em seu coração, no caminho até o altar da igreja pedindo: “Senhor, te entrego o que venho sentindo. Me faça mais forte. Me faça nova. E me faça aceitar as suas vontades”. Assim que comungou, também desabou em lágrimas. Desde que chegara ali aquele fora o segundo grande passo daquela nova vida. Coincidentemente os dois tinham sido para Deus. Coincidentemente?
Bernardo a observava de modo discreto, Nicole estava chorando copiosamente ao seu lado e ele sentia que deveria abraçá-la. Mas, ao mesmo tempo, em que desejava aquilo, não sabia que consequências a sua atitude poderia gerar. Tia Laura, ao ver o modo como o filho encarava Nicole num claro impasse dentro de si, — com seus olhos urgentes sobre a mulher chorosa, e sua expressão tão fechada — entendeu que ele não iria seguir ao seu coração. Então, ela mesma pôs-se a abraçar a mulher e dizer-lhe palavras de conforto. Após o fim da celebração, Nicole conversou com o padre e saiu da igreja com uma coisa em mente: fazer tudo novo em sua vida. E dependeria apenas dela.
A sua “família” aguardava na porta do santuário e conversavam com alguns conhecidos. Gabriel estava sentado no último banco da igreja que já estava vazia, quando Nicole saía da sacristia. Ela seguiu até ele e o padre, que parou logo atrás a conversar com outros fiéis, sorriu ao ver que a mulher já tinha um amigo.
Os dois conversavam amenos, dividindo a experiência de paz após uma missa. Gabriel olhava para Nicole com extrema ternura e o sacerdote os fitava de um modo que julgava discreto, mas que foi percebido pelos dois delegados: certamente, acreditando que ali havia algo mais. Logo que o padre se direcionou para fora da igreja, Gabriel e Nicole também seguiram.
Bernardo despediu-se de um conhecido, correu o olhar por Carolina que brincava com alguns amiguinhos e notou o amigo e a “não-prima” chegando próximos a eles. Lançou um olhar direto para o delegado e a delegada, assim como o padre que repetiu o gesto, e titia. Gabriel cumprimentou a todos os presentes e desculpou-se pela pressa em não poder ficar proseando, despedindo-se em seguida. Nicole e ele sorriram, e a mulher ficou surpresa ao vê-lo pegar sua mão e beijá-la como um cavalheiro. Em contrapartida, ela o abraçou e só foi pensar no que fizera depois que já deixara a todos, surpresos. O rapaz correspondeu, um pouco comedido e saiu. Distanciava-se enquanto Nicole e sua “família” seguiram em caminhada à feira de rua que havia ao lado da igreja.
Na feira vendia-se de tudo o que fosse alimento, animais de fazenda e comidas típicas, mas já estava no final e segundo titia, as mercadorias já não eram as melhores. Bernardo estaria lá vendendo, se acordasse mais cedo aquela manhã. Carol, como disse que faria, apresentou seus coleguinhas da catequese para Nicole e, logo a matriarca e a neta seguiram para uma barraquinha de biscoitos “da roça”. Carol sempre comprava alguns suspiros, marias-moles e biscoitos ali.
— Bernardo, leve a Nicole para provar o caldo de costela! — pediu titia.
Ele então foi andando e ela, o seguiu. Chegando a uma barraquinha fizeram os pedidos ao dono, que começou a puxar assunto. O que já era esperado, pois, Nicole era uma atração.
— Quem é a moça, Bernardo?
— É uma sobrinha da minha mãe. — Ele disse indiferente e Nicole sorriu simpática.
— Não sabia que Cora tinha uma sobrinha tão bonita!
— Ah, muito obrigada. — agradeceu ela.
— ‘Cê também num fala nada de ter uma prima bonitona, né, Zé pirraça?
O senhor falou para Bernardo, e pela segunda vez Nicole ouvira aquele, curioso, apelido.
— Ela não é minha prima, seu Tadeu. A minha mãe, que considera ela como parte da família.
— E ela num é, uai?
Nicole havia ficado sem graça com a negativa do homem, mas o senhor Tadeu olhou para Bernardo já conhecendo a atitude dele. Bernardo nada respondeu e o velho rindo concluiu:
— Esse Zé Pirraça! Não muda!
Tentada pela curiosidade, Nicole não resistiu e perguntou ao dono da barraquinha o motivo pelo apelido. E o senhor Tadeu lhe contou. Disse que desde a infância Bernardo fora uma criança muito pirracenta, e que uma vez seu pai lhe castigou, então ele parou com aquilo, mas ainda era da natureza do homem ser implicante. Dissera para Nicole que se Bernardo lhe implicasse muito, que ela soubesse: era pirraça.
— Isso era nos tempos de moleque seu Tadeu. Eu já sou homem. — Bernardo respondeu após se sentir incomodado pela conversa.
— Ah! Eu te conheço moleque. Eu num aposto dois réis n’ocê.
O velho gargalhou e os caldos chegaram quentinhos, e com um cheiro maravilhoso. Enquanto comiam em pé, em frente à barraca, o casal nada falava um com o outro. Nicole procurava titia e Carol, que de repente desapareceram. E Bernardo parecia um cão de guarda bravo, com uma carranca no rosto. Uma mulher loira de rosto redondo, lábios rosados e olhos de profundo verde se aproximou dos dois, sorridente. Ela parou em frente ao Bernardo, que ficou a encarando sem falar nada, mas ela não havia notado Nicole até olhar para o lado se dando conta da sua presença. No mesmo instante que vislumbrou a delegada ao lado de Bernardo, e que lhe observava com um sorriso simpático, a loira ficou visivelmente assustada.
— Bom… Dia. — Ela disse.
— Bom dia.
Nicole respondeu e olhou para o Bernardo, de forma curiosa. Mas ele continuava comendo o caldo indiferente a elas. Não seria muita burrice dela perder a chance de “pirraçá-lo” um pouco? Por isso, Nicole não se calou:
— Não vai me apresentar a sua amiga, Bernardo?
— Esta é a Lúcia. — disse sem o menor interesse.
— Prazer Lúcia. Eu sou a Nicole.
Enquanto Nicole sorria simpática, a mulher ficou parada assustada a olhando da cabeça aos pés de boca aberta.
— Prazer… Você… É… Quem é ela, Bernardo? — Lúcia olhou assustada para ele, mas sendo simpática com Nicole.
— É a Nicole. — Ele continuou frio.
— Eu sou sobrinha de consideração da dona Laura. — Nicole respondeu se deliciando com o caldo gostoso.
— Ah! E você tá morando aqui?
— Sim. Por enquanto, pelo menos.
— Uai! Então bem-vinda, né?
— Obrigada.
— Nada. — Lúcia respondeu ainda sem graça: — Cadê Carol e dona Laura, Bernardo?
— Elas estavam na barraca dos biscoitos.
— Hm… Então tá!
A perceber que o amigo permaneceria pouco falante e muito emburrado, Lúcia sorriu para ele e despediu-se de Nicole, que observava aos dois de uma forma bem curiosa.
— Ôu, aqui sô, foi um prazer viu?
— Ah obrigada! Espero poder lhe ver de novo.
— Igualmente…
Lúcia despediu-se com aquelas poucas palavras, um aceno discreto de mão, um sorriso fraco e saiu sem olhar para trás. Bernardo revirou os olhos depois que a mulher se afastou e terminando de comer, devolveu a tigela ao dono. Nicole olhou para o senhor Tadeu, que sorria com a situação, e perguntou:
— Eu fiz alguma coisa errada?
— Nada, a Lúcia é tímida mesmo, sô! — o senhor respondeu.
Após devolver a tigela para ele, Bernardo foi pagar, mas Nicole foi mais rápida e pagou o seu caldo. Ele tirou a nota da mão do senhor e devolveu à mulher dizendo: “deve economizar para a sua mudança”. Nicole ficou calada e chateada. Guardou a nota em seu bolso e ele a observando contrariado, ajeitava o chapéu em sua cabeça.
— Seu rosto está sujo. — disse indiferente para ela.
— Onde? — Nicole começou a passar a mão na testa e ele a olhou como se ela fosse uma idiota.
— Na sua boca, sua lerda!
— Ah, você disse o rosto, seu burro! — Ela devolveu na mesma ignorância e passou a mão de um lado da boca.
— Do outro lado! — Ele continuou olhando para ela, como se ela fosse idiota.
— Meu Deus! Você saiu mesmo da igreja agora há pouco? — perguntou irritada, enquanto pegava guardanapos da barraquinha.
Nicole tentou limpar o outro lado de sua boca, mas Bernardo perdeu a paciência. Pegando outro guardanapo se aproximou de repente dela e segurando seu queixo, limpou a marca do caldo que respingou ali e manchado a boca da mulher. Aquilo deixou a mulher surpresa e enrubescida. O senhor Tadeu ria enquanto Nicole, disfarçando a própria estupefação, repreendia ao Bernardo:
— Seu bronco! Olha essa mão pesada! Eu posso fazer isso sozinha!
— Parece criança! — Bernardo brigou ainda mais irritado.
Titia e Carol chegaram sem entender nada do que viam: Bernardo tão perto de Nicole segurando o queixo dela, e os dois discutindo enquanto ele amassava o papel e jogava fora se afastando. Neta e avó se entreolharam confusas. Nic estava irritada pela vergonha que Bernardo a fazia passar, pelas grosserias e principalmente por não estar acostumada com aquela proximidade com ele. As mínimas aproximações estavam deixando ela um tanto quanto inquieta, ultimamente.
— Pronto.
Bernardo deu as costas e despediu-se de Tadeu com um aceno, saindo a caminhar. A mulher acenou em despedida para o vendedor, ainda massageando seu rosto por onde Bernardo havia limpado.
— Falta delicadeza neste homem, viu? — falou para sua tia, reclamando que “o imbecil do Bernardo” deixara seu rosto marcado e avermelhado com aquela mão pesada, e sua tia olhando falou que não dava para notar.
Enquanto seguiam o percurso da estrada, de volta para casa, Carol ligou o rádio e canções típicas das modinhas sertanejas tocaram. Nicole ficou observando a menina e recordando da fotografia de Bruna. Carol era tão bonita quanto à mãe, mas não tinha os mesmos traços finos. Traços de “senhorita europeia”. O rostinho de Carolina, embora delicado, recordava muito à face do pai. Os olhos eram os da mãe, castanhos escuros como jabuticabas. Até mais escuros que os da própria Nic, que sempre escutou entre seus amigos que tinha “os olhos de Capitu”. Nicole pensou que, no lugar de Carolina, ficaria triste por não ter ganhado a herança das irises azuladas de Bernardo.
Depois de contemplar a criança, ela olhou discreta para ele, e de novo para a pequena, em seguida, refletiu sobre a imagem de Bruna. Uma família que em outra ocasião, seria linda como em comercial de margarina. Bruna e Bernardo, além da linda coincidência dos nomes, formavam um lindo casal. Uma pena não ter sido como nos contos de fada. Estes contos que muitas garotas como Carolina pensam existir, mas que na vida de garotas como Nicole, não passavam de contos.
A mulher acreditava que não havia um “feliz para sempre” e se existisse, apostaria o máximo de que a vida seria totalmente desinteressante. Imagine só: um momento em que você olha para os lados e vê a vida como você sonhou, vê que não falta nada, que está tudo pronto… Nicole não conseguiria conviver o tempo inteiro com esta total comodidade. O que fazer depois que já se tem tudo o que se sonha?
Pensando assim, ela começou a compreender melhor os caminhos tortos do seu destino. Ela iria mesmo se conformar apenas à realização do seu sonho profissional, ao namoro dito “perfeito” com Lucas e fim? Porque ela tinha tudo o que queria! O resto seria consequência de muito trabalho. A partir daquele instante, Nicole viu o quão próxima do seu “feliz para sempre” ela esteve e se alegrou por ele não acontecer. Seria tedioso passar a vida inteira apenas em prol da continuação de capítulos vazios de um livro com tão pouca história. Ainda mais agora, que ela sabia o quão pouco ela tinha.
A vida estava a desafiando e ela como boa competidora iria ganhá-la. E depois da vitória trilharia novas metas a se conquistar! Quem sabe, essas metas não estivessem ali ao seu lado? Já amava Carolina, e não se imaginava sem aquele sorriso branco, de pequenos dentes afiados se formando para ela desde que a menina se tornou a sua maior alegria! Uma filha como Carolina… Nicole não sabia se seria capaz de formar um ser naturalmente tão cheio de amor assim, mas sem dúvidas ela amaria um filho seu como amava Carol.
Quis rir quando se percebeu pensando aquilo tudo, afinal, quando é que havia se tornado uma mulher tão maternal? E observando o sorriso da garotinha, que cantarolava as modinhas no colo da avó, Nicole indagava-se: como pode? Não conseguia entender, como uma mãe abandonava uma criança daquela. E como um pai tão detestável como aquele, juntos, formaram uma coisinha pequena tão cheia de ardil, inteligência, solidariedade e amor! Tanto amor! Nicole poderia estar precipitando o seu julgamento sobre os pais dela, mas aquele era o julgamento que ela era capaz de fazer no momento, visto os fatos que conhecia de ambos.
Por que Bruna teria trocado a filha por uma vida tão vazia? Algumas capas de revistas valiam mais do que aquela criança? Quais eram as motivações reais de Bruna? Mesmo sabendo que ela jamais deveria julgar, que ela não tinha o direito de julgar, Nicole pensou: algumas mulheres têm a chance de serem mães, mas será que deveriam? Era o seu julgo primeiro sobre aquilo tudo, embora, no fundo, de seu coração sabia que era errado pensar daquela forma sobre Bruna. Afinal, há muito mais do que um lado da história poderia ser capaz de dizer. E sendo ainda mais diretiva: o direito de ter um filho ou não, era de Bruna, certo? Por mais que ela, Nicole, achasse aquilo errado… O aborto desejado por Bruna era mesmo razão suficiente para condenarem-na daquela forma? E ainda, tendo Bruna, deixado a filha com o pai, ela era assim, tão abominável como titia fazia parecer? Será que não havia dois pesos e duas medidas naquilo tudo?
Nicole estava perdida em seus pensamentos, analisando pai e filha, e sem disfarçar. Bernardo lhe cravava um olhar esguelho, de maneira curiosa, se indagando porque a mulher olhava para ele e para Carolina tantas vezes. E Nicole apenas buscava as comparações. Queria realmente fazer uma leitura do pai compreendendo a filha. Queria ler Bernardo através das coisas que o rodeavam, já que de forma direta não lhe parecia possível.
Pouco a pouco, sem perceber, Nicole estava buscando cada dia mais respostas sobre ele, estava investigando quem era o homem por trás da camada fria e dura de grosserias. Não saberia ao menos justificar a razão para aquilo, mas Bernardo estava se tornando o novo objeto de estudo e análise de Nicole, e ela não iria parar até chegar às verdades todas sobre aquela figura. Como se Bernardo fosse um complexo caso investigativo, Nicole embrenhava-se cada vez mais por ele.
Os dois já caíram. Mas Bernardo ainda me irrita kkkkkkkkk
E eu tenho a impressão que a Bruna volta SÓ PRA BAGUNÇAR MAIS AS COISAS.
Carolina salva esses dois, sorte deles e trabalho pra ela HAAHAHAH
Bruna é o caos. Bernardo é muito imperfeito, muitas irritações ainda virão. E sim, eles caíram e não tem volta. Carol sempre vai dar trabalho, não se preocupe.kkkkk