Capítulo 8 • O Casamento de Rosa
17 de Abril de 2019.
Desde que Nicole havia sido chamada na delegacia, Bernardo não insistiu mais em saber dos seus problemas. Em contrapartida, estava superprotegendo Carolina da mulher e a pequenina nada entendia com as atitudes do pai. Nicole presenciou, furtivamente, alguns cochichos entre dona Cora e o filho, e entre Rosa e o irmão a seu respeito. As mulheres defendiam-na das desconfianças dele, e tentavam fazê-lo aceitar que Nicole era inocente. Mas, para ele era descabido demais que — mal conhecendo a suspeita — sua mãe e irmã a defendessem daquela forma.
Nicole sentia que estava colocando aquela família uns contra os outros, e nada de conseguir um emprego ou mínimo de esperança de mudança. Havia se passado apenas algumas semanas, mas cada dia na fazenda trazia a ela uma percepção de meses. O tempo ali parecia correr lento. E por falar em fazenda, cada dia era uma nova cicatriz, um novo tombo e novos desastres. Entre eles, alguns cavalos fugiram do estábulo e Bernardo e ela tiveram que os perseguir. O que lhes rendeu outra discussão:
— Eu juro! Juro que se eu não conseguir me livrar de você, eu morro!
— Então somos dois, seu idiota!
— A culpa foi sua, como você deixa a droga da porteira aberta? Será que não pensa, mulher?
— A culpa também foi sua! Se estivesse disposto a trabalhar em equipe, eu saberia que era para deixar a droga da porteira fechada!
Noutro dia, Nicole havia se esquecido de amarrar os pés de uma das vacas, para tirar o leite, e quase foi atingida por um coice se não fosse por Bernardo que acalmou o animal, o afastando. E claro, discutiram:
— Não se meta se for para me atrapalhar!
— Ah pode deixar! Eu não vou me meter mais, senhor fazendeiro! Faça tudo sozinho!
— Eu fazia antes e estava ótimo!
Novas discussões surgiam à medida que os dois se aproximavam. Ainda tiveram os porcos, que a derrubaram mais vezes no chiqueiro, também fugiram e ela tivera que tentar pegá-los sozinha, enquanto Bernardo a humilhava com comentários e risadas. Nada era pior que perseguir porcos!
Muitas discussões se deram, e principalmente naquela semana a bruxa estava à solta na fazenda. Mas no dia do casamento de Rosa, o rancho estava todo enfeitado para a festa. Arrumação simples, mas linda. E poucas pessoas foram chamadas para a cerimônia, apenas pessoas, de fato, amigas ao casal.
Antes de ir para a igreja, Nicole estava no topo da escada, preparada para descer quando flagrou Carolina chorando no colo da avó, e escondeu-se no corredor para ouvir.
— A senhora disse que seria como nos filmes das princesas… — dizia abraçada a avó.
— E será querida! Mas, estas coisas demoram um pouquinho. — A avó consolava carinhosamente a neta.
Bernardo surgiu pela porta da frente fazendo titia e Carol, que estavam sentadas ao sofá prestarem atenção nele, e consequentemente, Nicole também. Ele entrou na sala, apressado, e recebeu os elogios da mãe e da filha que pulou em seus braços, num abraço carinhoso, que o pai retribuiu sorrindo.
Nicole sentiu-se surpresa ao vê-lo naquela cena… Bernardo sorriu! Sorriu grande! E como era lindo o sorriso dele! Ela ainda não havia avistado o homem sorrindo daquele jeito tão genuíno e ficou assustada com tanto brilho em seu rosto. Ele estava extremamente feliz pela irmã. Arrumado de modo elegante havia um ar diferente do “homem do campo”. Estava muito bonito! Os seus olhos azuis refletiam a aura amável que ele parecia ter, mas Nicole não conseguia enxergar. Para ela, na maioria das vezes ele não passava de uma escultura de pedra.
— Estão todas prontas?
— Sim, filho! Vou chamar a Nicole.
— Mande ela se apressar! Rosa já deve estar na porta na igreja aguardando! — O rosto tão perfeito se desfez na mesma imagem ranzinza de sempre.
A cada dia Bernardo se incomodava mais com Nicole, e ela o compreendia menos. Não entendia de onde vinha tanta repulsa. Assim que sua tia Cora a gritou, ela disfarçou que estava escondida os assistindo e desceu as escadas. Carolina ecoou um murmuro espantado, ao lhe ver. Colocou suas mãozinhas sobre as bochechas como se não acreditasse no que seus olhos filmavam, e então Tia Cora e Bernardo viraram-se na direção para onde a criança encarava, confusos.
Nicole em um longo vestido em tom rosê, ao modelo grego. Estava deslumbrante! Carolina subiu as escadas em direção a ela, eufórica, dizendo que Nicole era uma princesa, e parou alguns degraus à frente da mulher para observá-la melhor de perto. Tia Cora sorria animada pela reação fantástica de sua neta, e Bernardo ainda estava sério e austero analisando Nicole, dos pés à cabeça. Sentiu um calor dentro de seu coração e um nó em sua garganta, com aquela reação que lhe trouxera um ar de nostalgia.
Já reparara no quanto ela era bonita, com sua pele bronzeada naturalmente, seus cabelos em ondas numa mistura de fios cacheados e lisos. Os olhos pequenos, e sensuais tanto quanto o seu sorriso grande. Sem dúvida ele também já havia notado o corpo delineado em formato proporcional ao peso dela, que não era nenhuma manequim, mas apresentava o porte de alguém que se cuidava e alimentava bem. Ele até acreditava que a razão de seu condicionamento estava no ofício de Nicole, ela deveria ser uma policial fisicamente preparada. Só que, até aquele momento, Bernardo ficou sem palavras diante dela apenas quando a viu pela primeira vez. O que foi um baque para alguém que esperava uma dondoca magérrima e insossa.
E no instante em que ela acabara de despontar na escada, vestida de madrinha, ele não conseguiu disfarçar que, pela segunda vez, seu coração acelerou surpreso com o que via. Nicole parecia o encarar em expectativa, e Bernardo não conseguiu sustentar o olhar da mulher. Então, virou-se sem dizer nada e saiu pela varanda. A delegada pegou a mão de Carolina e trocou olhares confusos com sua tia, e juntas, as três mulheres seguiram até o carro.
Na igreja, a cerimônia foi emocionante. A decoração estava perfeita ao estilo campestre: arranjos de flores-do-campo enfeitavam os bancos da igreja e o altar, de maneira majestosa. Durante o caminho de ida e de volta, Nicole e Bernardo não trocaram nenhuma palavra, nem mesmo durante a cerimônia como padrinhos lado a lado. Chegaram à fazenda, com dona Laura e Carol, antes de todos os convidados para recebê-los. Bernardo e Nicole teriam que fazer pose de “bons padrinhos”, isto é, fingir que se davam bem e se apresentarem juntos diante os visitantes. Estavam os dois parados, paralelos ao outro em muito contragosto, próximos à varanda quando algumas pessoas foram se aproximando.
— Eita! Mas a festança tá no agrado hein?
— Senhor Aguinaldo! Como é bom revê-lo! — Nicole sorriu largo o cumprimentando: — Como o senhor está?
— Mió agora, moça bonita perto é sempre uma alegria!
— Ah, obrigada! O senhor é muito gentil!
— Nadinho já tá um galantão, né rapais? — disse batendo nos braços de Bernardo que foi cortês ao respondê-lo:
— Ora senhor Aguinaldo, com tanto serviço uma hora eu deixaria de ser um moleque magricelo, não?
Ele riu junto com o velhinho e, parecia que ele e Nicole não estavam incomodados um com o outro.
— E espevitado! — O idoso concluiu risonho: — Agora… Cê, num é nada bobo, né não?
Guino piscava gargalhando para ele e batia em seus braços com os cotovelos.
— Uai! Por que seu Aguinaldo?
— Já arrumou uma moçoila bonitona de novo! Essa aí tamém parece modelete de revista, iguais às de minha época! — O senhor sorria inocente.
Absolutamente sem graça e de olhos arregalados após aquele comentário, Nicole trocou olhares constrangidos com Bernardo. Não sabia dizer se o seu constrangimento era, pelo senhor, tocar no assunto da mãe de Carolina, ou por pensar que eles estavam juntos. O que ela sabia ser impossível.
— Nós não estamos namorando, seu Aguinaldo. — Bernardo respondeu gentilmente e de forma descontraída.
— Uai! Não? — Guino tornou-se incrédulo: — Cê tá marcano essa bobeira?
— Pois é… É que eu não faço o tipo da Nicole.
Bernardo o respondeu e olhou sorrindo falsamente à mulher, que mesclava a vontade de enfiar a cabeça em um buraco, com a vontade de desmascará-lo.
— Que dó! Óia mocinha, o Zé Pirraça é um dos mió partido da cidade. É o mais bonito! Dá uma checada nos zóiões azul dele!
E o senhorzinho, ria inflamando o ego de Bernardo ao nível máximo. Nicole fingia demência, e travou um sorriso falso em seu rosto, envergonhada por Guino fazer campanha para o ogro. E Bernardo se divertia, queria gargalhar debochado por todo o desconforto que era visível ao semblante da mulher. Embora por dentro de si, a simples menção ingênua lhe causasse um mal-estar.
O senhor Aguinaldo apresentou o afilhado, Carlinhos, — que era bastante simpático e sorridente — para Nicole e passaram os quatro um pouco mais de tempo conversando e divertindo-se com os comentários do ancião. Bernardo parecia não se importar com a presença de Nicole, logo, ela viu o momento perfeito de pedir licença aos senhores e ir até titia cumprimentar alguns conhecidos dela.
— Ela é bem bonita e carismática. — Carlinhos mencionou sem tirar os olhos de Nicole, que se distanciava, enquanto seu avô concordava, e perguntou: — Ela vai ficar por muito tempo, Bernardo?
— Se Deus quiser, não.
O outro respondeu e pigarreou, disfarçando a verdade que escutou, enquanto bebia um gole de sua bebida. Nicole já havia trocado algumas palavras com conhecidos de sua tia, e distanciou-se, permanecendo em pé, bebericando seu suco e observando todas as pessoas festivas. Pensava em como seria bom ter um pouco daquela felicidade constante, quando o delegado da cidade se aproximou, chamando-lhe atenção:
— No que está pensando, senhorita?
— Ora! Delegado! — respondeu sorrindo simpática: — Como vai?
— Muito bem! Mas… Diga-me: o que lhe incomoda?
— Por que acha que estou incomodada?
— Porque rostos bonitos como o seu, devem nos passar serenidade e não preocupação. — pronunciou com um sorriso brando, um pouco galante e a deixando sem palavras.
— Está certo senhor Moura…
— Ah não! Eu não sou muito mais velho do que você! Gabriel, apenas.
— Gabriel… Certo! Bem… Eu pensava em quando conseguirei experimentar esta felicidade toda. — respondeu-o lançando um olhar aos convidados.
— Fala de um casamento?
— Não. Não que eu não queira me casar, mas eu só gostaria de ter um punhadinho de felicidade ultimamente, independente do que a trouxesse.
Gabriel concordou reflexivo a encará-la, e a convidou para se sentar aos bancos de praça que enfeitavam o quintal. Enquanto caminhavam em direção a eles, Bernardo, que ainda estava à varanda conversando com Carlinhos, percebeu os dois juntos.
— Gabriel não perde tempo! — Carlinhos mencionou piadista ao notar onde os olhos de Bernardo estavam concentrados — Cuidado! Ele, agora, vai tentar entrar para a sua família… Ela é sua prima, não é?
— Ela não é minha prima e nem da minha família.
— Sei… Em todo caso, vejamos como ele se sairá.
— O Gabriel ainda gosta da sua irmã, e você sabe disso.
— Pode até ser, mas os dois estão separados há alguns anos. Não acho que voltem. Gabriel será agora o seu primo, ou seja, lá o que você vá chamar…
Enquanto Carlinhos ria, provocando Bernardo por perceber que ele dava atenção demais ao melhor amigo com a nova moradora da fazenda, o fazendeiro tentava disfarçar o desconforto que sentiu. Jurava que estava preocupado por Gabriel, e negaria qualquer outra coisa, que qualquer um dissesse ao contrário.
— Sabe Nicole… Posso chamá-la assim? — perguntou Gabriel prestes a consolá-la.
— Claro!
— Sei que aqueles problemas devem estar te incomodando bastante. Depois que vocês saíram, eu fiquei pensando sobre o seu caso na delegacia. Estudei as cópias que recebi dos seus processos, você tem antecedentes bons e prestígio familiar na área, não é?
— Sim, o meu pai foi um excelente delegado.
— Você é uma delegada séria. Coloquei-me no seu lugar e cheguei à conclusão de que, se fosse comigo, eu já teria entrado em surto. É muito forte e corajosa! Eu não deveria ter um veredito pessoal sobre o seu caráter, mas… Já sentiu quando você olha nos olhos de alguém e enxerga a alma daquela pessoa?
— Acredito que já. Chamo de intuição e sempre sigo a minha… — Nic sorriu ao responder, e então desviou os olhos para as próprias mãos, constatando: — Quer dizer, nem sempre, na verdade. Se eu a tivesse escutado, não passaria por nada disso agora.
— Que bom que não escutou então!
— Como? — indagou surpresa.
— Se nada disso ocorresse, você não estaria aqui com sua tia e primos. E nós dois não teríamos conhecido um ao outro. — Gabriel ficou um pouco corado e abaixou a cabeça sorrindo.
Nicole sabia que ele estava flertando com ela, mas decidiu não tornar a situação mais constrangedora.
— É… Por esse lado… Mas sabe, não somos parentes. Não de sangue. Contudo, titia, Rosa e Carol me receberam como se há anos eu frequentasse a família.
— E o Bernardo?
— Digamos que se nada disso acontecesse, não ter o conhecido seria meu maior presente.
Ela respondeu indiferente, correndo os olhos pelas pessoas procurando aquele que era a pedra no seu sapato, mas não o encontrou.
— Eu sei que você é uma boa pessoa, Nicole, e está sofrendo uma injustiça. Por mais que as provas apontem para você, tudo está… Muito bem encaixado e planejado… Se você fosse realmente culpada, e eu já estou assumindo que não acredito nisso, haveria um furo ou ao menos contradições. Sendo assim, eu desconfio de que as provas foram plantadas contra você… Pensei muito em seu caso. Pode contar comigo, certo?
— Você não sabe o quanto é bom ouvir isso.
— Nem imagino, sei disso. Mas, se aceita um conselho… Deus nos coloca nas situações certas por mais que pensamos serem erradas. Isso aconteceria com você algum dia, porque Ele te colocou no caminho da sua felicidade. Talvez você não a reconheça imediatamente e lhe caberá escolher seguir esta estrada ou não.
Lágrimas fraquinhas escorreram pelo rosto de Nicole ao ouvir, de forma calma, as palavras de Gabriel. Ela o escutava atentamente, e perceber que ele a reconfortava com suas palavras sem ao menos conhecê-la, era gratificante. Nicole nunca havia pensado daquele modo, e talvez, nunca pudesse. Gabriel trazia-lhe um conforto de fé que ela não conhecia.
— Não estrague a maquiagem. Por mais que você não precise dela. — ele disse e sorriu enquanto seus dedos enxugavam as poucas lágrimas do rosto de Nicole, que não pôde deixar de sorrir também.
— Você está certo. Tenho que me manter alegre por mais difícil que possa ser!
— E sabe… Meus investigadores também acreditaram em você. Você tem o seu carisma a seu favor! — sorriu humorado.
— Obrigada. — Nic disse apertando a mão dele.
Naquele momento titia se aproximou dos dois, encarando suas mãos com um sorriso sem graça. Ela já os observava de longe.
— Gabriel, olá! Como vai?
— Tudo muito bem, dona Laura. Parabéns pela festividade.
— Ah sim! Muito obrigada! Sai uma filha e entra outra. — Ela sorria para sua sobrinha postiça: — Nicole… Rosa e Marcelo vão dançar com os padrinhos agora.
— Está bem, tia Cora.
— Bernardo está te esperando. Vamos?
— Já vou. Peça a ele para me esperar na varanda, por favor.
Nicole respondeu, e Cora sorriu para Gabriel de uma forma estranha, saindo em seguida. Na verdade, para dona Laura, a aproximação dele não lhe pareceu somente amigável. Preocupou-se por Nicole estar fragilizada e acabar envolvendo-se com o delegado. Não era contra, ele era um ótimo rapaz, mas Laura Coralina não conseguia se sentir confortável com a hipótese de vê-lo namorando sua sobrinha postiça.
Gabriel ainda conversava com Nicole, que trocava algumas últimas palavras antes de sair, quando ele desviou o seu olhar de Nicole para algo atrás dela. Ela virou-se à direção oposta e percebeu que era Bernardo, em sua figura rabugenta de sempre. Tinha sido alertado por sua mãe a ir apressar Nicole, pois, Gabriel estava a prendendo numa conversa muito agradável.
— Como vai, Bernardo? — perguntou-lhe o amigo.
— Bem Gabriel. Nicole, temos que ir logo.
Não deu muita atenção ao amigo, e o delegado abaixou a cabeça num sorriso contido, ao notar a maneira mal-educada de Bernardo.
— Nos vemos Gabriel. Foi um prazer. — Nicole cumprimentou-o se levantando.
— Concede-me uma dança mais tarde?
— Claro.
Enquanto ela ainda o respondia, Bernardo já estava a puxando pelas mãos em direção ao meio do pátio onde os noivos dançariam com os padrinhos.
— Qual o seu problema? — Nicole reclamou séria com Bernardo diante àquela situação.
— Quero me livrar logo disto. — Ele disse a olhando dos pés à cabeça de forma muito grosseira.
Assim que posicionados e com uma carranca em seus rostos, os padrinhos seguiram aos noivos que haviam iniciado a dança. Para Nicole aquele momento estava sendo terrível. Extremamente desconfortável, e embora quisesse pisar nos pés de Bernardo de propósito, ela não o fez. Em seguida os casais trocaram, para que noivos dançassem com seus respectivos padrinhos e madrinhas.
— Como está se sentindo “senhor mais novo marido sortudo”? — Nicole perguntou risonha, ao Marcelo assim que eles dançavam.
— Nas nuvens! É o dia mais feliz da minha vida! Como se eu despertasse hoje para a razão de eu viver!
— É uma honra presenciar esse amor entre você e a Rosa. Vocês merecem ser muito felizes e eu lhes desejo tudo de melhor!
— Obrigado, Nicole! Mas e você… Quando vai nos dar a honra de presenciar o seu casamento?
— Ah, não mesmo! Eu não quero saber de romances tão cedo!
— Não sei… Acho que alguém pensa diferente de você.
Marcelo disse apontando discreto, com um aceno de sua cabeça, a figura de Gabriel em pé no meio de todos a observá-los.
— Não viaje Marcelo!
— Ele está interessado. Eu percebo estas coisas.
— Ele só foi um cavalheiro.
— Já é alguma coisa. — Marcelo sorria divertido, e decidiu provocar: — E o Bernardo?
— Não estrague a conversa, por favor.
— Vocês precisam parar com isso.
— Ele me odeia! Não tenho culpa.
— Você está disposta a reverter esta situação?
— Estive no início, mas agora o melhor é que um não pise no calo do outro. Como posso levar a sério, a infantilidade de um homem que me odeia sem motivo? Ele nem tem idade para isso! — disse e Marcelo sorria maroto.
— Falando em pisar nos calos dele…
Naquele momento os casais trocaram para suas formações originais e novamente, Nicole e Bernardo estavam dançando insatisfeitos. Assim que a dança terminou, eles deram uma última encarada desprezível um para o outro e uma voz atrás dela convidava-a a dançar. Era Gabriel, que ao notar o quão desconfortável Nicole estava, decidiu convidá-la. Ele também notou que Bernardo não queria estar com a mulher ali, e por isso não via impedimento por parte de seu amigo. Nicole aceitou o convite, e aceitaria qualquer que fosse a pessoa capaz de tirá-la da presença do desagradável parceiro. Ela e Gabriel passaram o restante da festa, juntos. Dançaram, conversaram e riram muito. Riram como há muito tempo ela não fazia.
Ela não conseguia pensar em uma companhia tão boa que estivera em sua vida nos últimos tempos, como a de Gabriel, e talvez porque de fato nunca houve. Seria até injusto com seus amigos dizer algo assim, mas o Gabriel era diferente. Ele tinha uma mansidão e trazia um aconchego que, na euforia de São Paulo, não havia entre ela e seus poucos amigos. Titia ficou os mapeando com olhares furtivos. Entre um disfarce e outro, avistava-se a senhora Laura Coralina a espiá-los. Nicole percebeu a atitude de sua tia, e preocupou-se com aquilo, mas não o suficiente para perguntá-la.
— Acho que o Gabriel está interessado na Nicole. — titia falou ao aproximar-se de Rosa, que comia alguns docinhos de sua própria festa ao lado de Marcelo.
— Eu falei exatamente a mesma coisa para ela, dona Laura.
— E o que ela disse, Lelo?
— Que era bobagem, que ele apenas foi gentil.
— Mas qual o problema, mamãe? Nicole é solteira e Gabriel também até onde eu saiba… — Rosa perguntou trocando olhares duvidosos com o agora marido.
— Não, problema nenhum… Mas, é muito precoce não é? Ela está com muitos problemas e não sei se ela deveria se deixar envolver agora…
Dona Laura justificava-se para a filha e para o genro, mas os dois encaravam a situação como verdadeiramente era. A senhora estava com ciúmes de Gabriel conquistar sua sobrinha postiça e atrapalhar os seus planos. Marcelo disfarçou um riso e Rosa anunciou que iria jogar o buquê, se levantando da mesa e pedindo ao seu irmão que estava próximo, para ir avisar à Nicole. Bernardo passou grande parte da festa observando os dois delegados em conversas amigáveis e empolgadas. E estava se detestando por, de repente, sentir-se curioso com ambos. Quando Rosa lhe fizera aquele pedido, Bernardo não escondeu a implicância, mais uma vez:
— Você quer que eu interrompa a conversa da Nicole com o Gabriel para ela vir pegar o buquê? Não acho que será preciso que ela pegue… — Bernardo murmurou para a irmã indicando o local onde Nicole sorria abertamente com Gabriel, numa conversa saudável.
— Qual o problema de você e da mamãe com isso? Estão com ciúmes da Nicole?
— Você bebeu demais, não é? — Bernardo zombou a irmã e saiu para a direção da mulher que ele não queria estar perto.
A cada passo para mais perto de Gabriel e Nicole, ele sentia-se irritado com a felicidade que ela demonstrava ao lado dele. Não que achasse que ela não merecia sorrir um pouco, afinal, ele reconhecia o quanto estava tornando as coisas difíceis para ela. Mas Bernardo não conseguia lidar com Nicole cheia de dentes para Gabriel! A razão para aquilo? Ele não sabia, acreditava ser despeito por todos enxergarem ingenuidade nela, quando ele sabia que havia um motivo oculto para a vinda de Nicole para a sua vida. Uma armação, que ele jurava ser consciente por parte dela.
— Mamãe pediu para te chamar, Rosa já vai jogar o buquê.
— Eu agradeço, mas não vou participar da brincadeira.
Nicole respondeu risonha ainda, e Bernardo ficou em pé ao seu lado, olhando-a, confuso, e sem entender o motivo pelo qual ela não iria. Toda mulher gostaria de participar daquela brincadeira, não é? De repente, algo pesado caiu ao colo de Nicole, que voltara sua atenção para Gabriel. Não só ela estava assustada, como também Bernardo. Eles encararam aquele magnífico buquê às pernas dela, e voltaram sua atenção para o lugar de onde ele havia sido jogado. As mulheres solteiras e interessadas observavam Nicole com desanimação e frustração por não o pegarem. Rosa sorria e pulava alegre com a Carol e a titia, as três estavam maravilhadas.
— Parabéns Nicole! Você é a próxima! — Rosa gritou da varanda de onde jogou as flores.
Bernardo ainda encarava a situação, atarantado, e Gabriel ria divertido com a cena e também com a expressão espantada de Nicole.
— Para quem não queria o buquê hein… — Gabriel dizia rindo, divertido: — Acho que o destino está brincando com você!
— Só pode! — Ela disse meio zonza.
Enquanto Nicole se levantou ainda surpresa e foi até a noiva dar o abraço nela, Bernardo sentou-se em seu lugar observando analítico a situação.
— Você vai me ignorar só porque eu estou me tornando amigo da suspeita? — Gabriel perguntou debochado.
Bernardo o encarou com uma sobrancelha arqueada, e sem muita graça respondeu:
— Você não quer ser só amigo dela.
— E se for? Algum problema?
— Deveria perguntar isso a ela, não a mim.
— Então por que está com raiva de mim desde que nos viu juntos?
— Ora, Gabriel, vá perturbar outro! Eu não estou com raiva de você. — Bernardo suspirou e cortou o assunto: — Acha que elas já tinham combinado?
— O quê? De Rosa jogar o buquê diretamente para ela? Não… Eu acho que a Rosa fez de propósito, mas ela não sabia.
— Você se bandeou para o lado dela.
— Por acaso estamos em uma guerra? Eu não estou entendendo por que você está tão na defensiva com ela, Bernardo! Tem algo mais que você não me contou?
— Eu só não confio nela, você sabe disso.
Rosa abraçou Nicole cheia de pulos e ela não conseguia mover nenhum músculo. Ou melhor, apenas um, que a possibilitou perguntar para Rosa se ela fez aquilo de propósito. A amiga negou e depois daquele momento, não demorou muito mais tempo para que todos os convidados começassem a se despedir. Assim, Aguinaldo e Carlinhos que também a convidaram para uma visita, antes de irem:
— Nicole, foi bão dimais da conta vê ocê! Cê ainda tá me deveno aquele cafezinho com prosa! O coador é velho, mas o café é bão! E dispois, cê tem que conhecer a Belinha! Ela tava na cerimônia da igreja, mas não podia vir pra festa!
— Senhor Aguinaldo pode me esperar! Eu não vou demorar muito a bater por lá não!
Carolina estava escondida às pernas de Nicole, mas se despedia de todos. Até Gabriel se aproximar, quando ficou mais silenciosa. Ele agradeceu à delegada pelas conversas e os dois sorriam um para o outro, indiferentes ao redor, até que a menina pigarreou e cutucou-a. O casal de delegados olhou para Carol, e perceberam que sua expressão não era das melhores.
Ele sorriu e fez carinho na cabeça da criança, em seguida abraçou Nicole e beijou-a no rosto, sendo retribuído. Ainda informou a ela que se tivessem notícias de algum trabalho iria telefonar-lhe. Nic ficou muito grata e animada pelo empenho e atenção do novo amigo. Enquanto o agradecia, Bernardo apareceu ao seu lado, curioso e arqueando uma sobrancelha para ela após escutar o que Gabriel dissera. Ele deu a mão à filha chamando-a para entrar e se preparar para descansar.
— Até mais Bernardo. — disse Gabriel simpático e sorridente.
— Até mais. — respondeu sem muita simpatia e se afastou.
— Ele deve estar cansado. — Nicole tentou justificar ao jovem delegado a falta de educação do outro.
— Nada. Sei bem porque ele está assim. Conheço de longe, o garotão aí.
Gabriel respondeu com as mãos nos bolsos e balançando a cabeça de um lado para o outro sorridente. Despediu-se novamente e entrando em seu carro foi embora. Quando todos haviam feito o mesmo, Nicole começou a limpar as coisas, mas sua tia surgiu e impediu-a de continuar. Avisou que no outro dia arrumaria tudo, e apenas guardaram os restantes de comida. A mulher obedeceu e subiu para tomar um banho, enquanto Dona Laura foi descansar. Marcelo e Rosa já estavam em sua casa e assim, ficaram no casarão apenas os quatro: Laura, Bernardo, Nicole e Carol. Depois que sua tia havia se recolhido para dormir, Nic estava em seu quarto lendo novos classificados que não lhe traziam novidades, quando a pequenina surgiu toda cheirosa ao lado da cama dela:
— Ei, por que não está dormindo princesinha?
— Estou com medo Nic… — Nicole abraçou à menina puxando-a para se deitar ao seu lado.
— Medo do quê?
— Tia Rosa foi embora e o papai fica falando que você também vai. Eu não quero ficar sozinha…
— Você nunca estará sozinha! Tem o seu pai e a sua avó que moram aqui com você. A tia Rosa também não está te deixando sozinha, ela só mudou de casa! Agora, ela e o tio Marcelo se casaram!
— E como nos filmes vão ter filhinhos!
Nicole sorriu pela resposta de Carol e recordou-se da conversa que flagrou entre neta e avó, mais cedo.
— Sim. Mas isso pode demorar um pouquinho… Onde está o seu pai?
— No banho. Você vai me deixar sozinha, tia Nic?
A pequena tinha os olhos marejados e a encarava como se daquela resposta dependesse a sua vida.
— Não. Nunca! Seu pai não gosta muito de mim, Carol, mas, eu já disse para ele que nada vai me impedir de estar perto de você. Eu sempre estarei contigo, mesmo que eu não more no mesmo lugar. Lembre-se disso, tá?
— Tá! Mas, por que o papai não gosta de você?
— Eu acho que ele tem ciúmes de você comigo. — inventou uma resposta porque nem mesmo ela, conhecia a verdadeira.
— Eu te amo Nic!
Carol declarou e a abraçou forte. Tão forte como Nicole nunca pensou que aqueles bracinhos poderiam apertar, e retribuiu o gesto com lágrimas nos olhos. Só então ela percebeu Bernardo estático. Parado, com a toalha enrolada na cintura, em frente à porta do seu quarto, as olhando. Ele saía de seu banho, ainda pensando em como as coisas mudariam… Rosa já não estava mais sob o mesmo teto, nem sob sua proteção… A irmã mais velha seguiria sua vida, iria formar a sua própria família, e não demoraria a ter mais crianças correndo pela fazenda. Pensou que, onde quer que seu pai estivesse, ele estaria orgulhoso. E aquela dor antiga de não ter podido mostrá-lo sua neta, retornou. Infelizmente, ele e a irmã, não puderam ter o pai presente quando os dois haviam se tornado adultos de fato… Bernardo atravessou devagar o corredor, e ia em direção ao seu cômodo para conferir se Carol já havia saído de seu banheiro, quando se deparou com a conversa e cena da filha abraçada com carinho, à Nicole.
Nicole não soube por quanto tempo ele estava ali, mas ela o encarou de uma forma tão vazia e dolorosa, que era possível dizer que a expressão de arrependimento dele provinha daquilo. A mulher não compreendia como o pai de Carolina poderia ser tão duro com a menina, no que dizia respeito ao enfatizar à menina de “não se apegar” a ela. Encarava ser provável que, para Bernardo, a verdade fosse de que ela estava ali apenas para desestruturar a sua família, e que logo iria embora friamente. Mas ele não deveria compartilhar aquilo com a pequena. As duas estavam sofrendo! Bernardo saiu de frente da porta antes que Carolina e Nic desfizessem aquele carinho. Então, Carol voltou a se deitar abraçada ao seu cavalinho de pelúcia, e de repente a menina se ergueu sorridente pedindo:
— Nic! Pentia meu cabelo?
— Claro. Mas, você não está com sono?
— Não, mas quando tia Rosa pentia eu fico.
— Está bem, boneca. Eu penteio!
Sorridente, Nicole respondeu dando ênfase a palavra que ela dissera errado, a fim de fazê-la notar o erro. Mas, Carol era apenas uma menininha de sete anos.
— Eu vou buscar a minha escova de cavalinhos lá no meu quarto.
Desceu toda desengonçadinha da cama. Era um pouco alta e ela tinha que dar um pulinho muito fofo que fazia Nicole rir como uma boba. Saiu pela porta e depois apareceu de volta com uma mãozinha na cintura e na outra, seu dedinho indicador apontava para a mulher. Com uma cara brava ela disse:
— Não dorme hein! Me espera!
— Não vou dormir.
Bernardo entrou ao seu dormitório e ficou sentado em sua cama, confuso com a cena vista. Nicole e Carolina pareciam mãe e filha, e aquilo bateu em si, como ele não gostaria que batesse. Não levou nem dois minutos que Carolina saiu do quarto de Nic, atravessando o corredor em frente ao do pai, para que Bernardo aparecesse como uma ventania, ao cômodo de Nicole, ainda apenas de toalha na cintura.
— O que você pensa que está fazendo?
Ele perguntou todo estufado na beirada da cama. Nicole desceu pelo colchão se sentando na ponta dele, o encarando fria.
— Eu quem pergunto! Sua filha está sofrendo com as coisas absurdas que você está dizendo a ela!
— Eu estou apenas dizendo a verdade! É melhor que a iludir!
— Você não sabe de nada! Eu amo a Carolina e nunca a faria sofrer! Você não enxerga que é você quem está causando problemas para sua família? Por que você tem que fazer eu me sentir tão mal? O que você ganha com isso?
Antes que a discussão se acalorasse mais, Nicole notou Carolina parada na porta, os observando com olhos arregalados. Bernardo olhou para trás e a viu também.
— Não diga nada que…
Ele se apressou em dizer num tom mais baixo dando passos à frente, mas tropeçou no chinelo de Nicole à beira da cama e acabou caindo em cima da mulher, desajeitado. Assustados com aquilo, os dois apenas ouviram a risada divertida de Carolina enquanto seus olhos encaravam-se, e o rubor tomava a face dos dois. Bernardo se levantou um pouco, ainda se apoiando na cama sobre Nicole e concluiu sério à sua fala:
— Nada que a iluda!
Aquele momento atípico e desconcertante deixou Nicole congelada do jeito que estava. Carolina ria, e travessa disse ao pai antes que ele saísse completamente do cômodo:
— Vovó disse que você não pode ficar só de toalha, papai! Tem mocinhas aqui!
Falava para o corredor, por onde o pai sacudia os cabelos, se afastando envergonhado. Ela entrou de novo ao quarto de Nicole, rindo alegre e saltitante. Com rapidez subiu à cama, e a mulher ainda estava deitada atônita olhando para o teto. Até que a carinha de Carol apareceu sobre o seu rosto mostrando as canjiquinhas brancas. Nic sentou-se disfarçando o nervosismo e notou como a garotinha ainda ria animada. Não falaram nada, Nicole estendeu a mão para Carol entregar a escova de cabelo, e assim que a criança o fez, deu-lhe as costas, apertando à sua pelúcia. No raso silêncio onde a menina criava fantasias em sua mente, e Nicole respirava calma tentando controlar o descompasso de seu peito, Carolina a perguntou:
— Você acha o meu papai bonito, tia Nic?
A mulher pensou em como iria responder aquilo sem dar algum tipo de sentido errado para a criança.
— Ah! O seu pai é bonito, sim, Carol.
Carol colocou as mãozinhas no rosto de um jeito nervoso, como se aquilo tudo fosse uma pegadinha.
— Mas você é muito mais! — Nicole respondeu descontraindo as ideiazinhas frouxas que deviam pairar na pequena cabecinha de Carolina.
Nic penteou os cabelos dela, enquanto a menina cantava algumas cantigas de criança. Em meio a um acorde e outro, Carol bocejava. Logo estava com sono e Nicole a deitou ao seu lado em sua cama, observando Carolina adormecer aos poucos, e a mulher não conseguiu dormir. Ficou pensando e repensando em todo aquele dia. Relembrava freneticamente as palavras de Gabriel sobre “tudo acontecer como deve ser”, depois Marcelo e ela conversando a respeito de Gabriel. Ponderou que Marcelo até tivesse razão em tentar uma trégua com Bernardo, mas sabia que o problema nunca fora ela. Ao pensar nas coisas que ele disse à Carol e depois dentro do seu quarto, Nicole ficava irritada. Como ele podia? Será que ela não conseguiria uma trégua com ele nem por Carolina? Ficou pensando nessas coisas até o relógio marcar uma hora da madrugada, quando decidiu então fechar os olhos e tentar dormir. Nicole parou de acariciar os cabelos da pequena, ajeitando-se na cama e a abraçou.
Bernardo também não conseguia pregar os olhos. Estivera sentado à cadeira de descanso da sua sacada, observando o céu estrelado, buscando as razões para ultimamente não tirar Nicole de seus pensamentos. Notava-se observando os mais aleatórios trejeitos da mulher. E quando não a encontrava em lugares comuns, como, por exemplo, ao estarem cuidando das tarefas da fazenda, Bernardo se pegava procurando-a com o olhar. Suspirou descontente, porque, na verdade, lutava de modo veemente contra aquele sentimento estranho em seu peito. Sentimento de ansiedade e repulsa diante dela, que o assustava mais a cada dia, e só aumentava. Bernardo entendia o perigo daquele ranço todo que nutria, mas, ou ele se afastava, ou sucumbiria. Nicole, desde à primeira vista, era exatamente do jeitinho que ele gostava. Levantou-se a fim de ir ver Carolina, que, decerto, já teria sido colocada para dormir por Nicole, mas não encontrou a filha no próprio quarto.
Nic, rapidamente cochilara e Carolina já estava em sono profundo. Mas de relance, a mulher ouviu algo como a porta abrindo fraca, não deu importância, e a sensação de ser observada não passava. Por seu complexo de vigilância natural, abriu os olhos e tomou um grande susto. Bernardo estava parado ao pé da sua cama olhando singelo para a filha. Quando ele a notou acordada, ficou estático, sem expressão, sem palavras e até sereno. Percebeu que Nicole ainda estava acordada e o havia flagrado. Sem graça, e sem saber o que dizer, Bernardo apenas sustentou o olhar.
— Está aí há muito tempo? — Nicole o perguntou.
— Um pouco. Estava observando vocês dormindo.
— O que você quer?
— Só buscar a Carolina. É mais confortável para vocês duas. — ele disse se aproximando das duas e quando se abaixou para pegá-la, Nicole segurou sua mão o impedindo.
— Não… Se não se importa, eu prefiro que ela fique… — olharam-se nos olhos um do outro, e pela primeira vez sem reconhecerem as figuras detestáveis um do outro: — Ela custou dormir e agora está tão bem… E depois ela vai ficar chateada. Vai achar que fui eu que…
— Tudo bem. — ele disse interrompendo as justificativas dela e dando as costas, desejou: — Boa noite. O Casamento de Rosa— Boa noite.
Bernardo então saiu do quarto deixando uma Nicole pasme. Nenhum olhar opressor? O que aconteceu com ele, e por qual motivo ela ficara tão mexida com o olhar carinhoso, que notou dele para a filha deitada ao lado dela? Nicole pensou que talvez fosse apenas um sonho e perceberia aquilo assim que ela acordasse.
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