Capítulo 7 • Conhecendo a Suspeita
Nicole abriu o portão de grade branca, da casinha simples, que mais lhe pareceu uma residência do que um escritório. Pela pequena placa com o nome do contador percebeu que se tratava, de fato, de um estabelecimento comercial. Falou com o senhor que lhe atendeu e que se apinhava no meio de papéis em carimbos e assinaturas, e ele pediu que ela deixasse seu currículo. A mulher respondeu a um questionário breve, preencheu um formulário e o homem bigodudo sorriu dizendo que iria analisar posteriormente entrando em contato. Sorriu agradecida e se colocou para fora da salinha, observando-o se perder de novo, nas pilhas de papéis com traças.
Com o pé na calçada, Nicole resmungou infeliz. Cidades pequenas… Ela jurava que passaria por uma entrevista formal, mas pelo visto o escritório não tinha tanto movimento ao ponto de precisar de sua ajuda. No máximo, precisariam de uma secretária para ajudar aquele velho senhor a organizar sua bagunça. Ela torcia para que desse certo, embora não ficara confiante com os formulários preenchidos.
Como não tinha tempo de ir a outros lugares, se apressou à igreja, e ao chegar todos estavam a postos, menos ela. Carolina estava ajoelhada no altar rezando, de uma forma muito fofa. Assim que Nicole entrou à igreja, Bernardo a anunciou e o outro casal de padrinhos e os noivos viraram sua atenção para ela.
— Chegou a atrasada. — Bernardo resmungou.
— Boa tarde! Me desculpem pelo atraso.
Desculpou-se sendo cumprimentada por todos, com exceção de Bernardo que horas antes estava com ela.
— A benção padre.
— Deus te abençoe minha filha. Como está?
— Bem, eu acho.
Nicole respondeu-lhe se segurando para que sua expressão não denunciasse o desprazer com a entrevista, no caminho de volta à igreja ela recomeçou o seu martírio de preocupações. Ninguém percebeu seu descontentamento, pois Carolina terminando sua oração veio correndo até Nicole deslizando pelo chão da igreja como uma molequinha bagunceira e a abraçou.
— Pronta para se casar? — A menina perguntou para a mais velha.
— Não! — Nicole respondeu rapidamente, confusa e colocando Carolina de volta ao chão, perguntou: — Quem te disse isso?
Bernardo colocou a mão na testa, um pouco constrangido e sussurrou para ele mesmo: “Aí vem!”, e quem percebeu sorriu com aquilo.
— Uai! Tá todo mundo aqui! Eu que vou levar os aneizinhos, o padre e os três casais! Só falta a vovó!
Nicole havia ficado sem graça, mas o restante dos presentes, que já conheciam a pequenina de longa data, gargalhava diante da inocência dela. Inclusive o padre. Antes que a delegada pudesse pronunciar qualquer coisa, Bernardo escondendo o seu sorriso pela molecagem da filha, interveio:
— Carolina, o que o papai conversou com você ontem?
— Que hoje você ia ensaiar com a Nicole o casamento! — Ela disse confusa, porém óbvia, colocando as mãozinhas ao lado dos ombros.
— Sim, Carol, o casamento da sua tia Rosa com o tio Marcelo. Eles é que vão se casar. Seu pai, tia Margarida, tio João e eu somos os padrinhos. — Nicole respondeu acariciando o rostinho da menina que se entristeceu.
— Ah! Então eu só vou levar um anelzinho? — Carolina murchou como flor fora da água.
— Eu deixo você levar dois!
Marcelo disse abraçando-a como se fosse novidade, e ela arregalou os olhos sorrindo muito feliz. Depois de todo o ensaio de entradas e posicionamentos à igreja, o padre e os demais se despediram. Na saída da igreja um policial aguardava por Nicole.
— Senhorita Nicole Andrade? — Ele perguntou encarando a única mulher desconhecida daquele grupo.
— Eu mesma.
— Queira acompanhar-me, por favor.
Rosa, Marcelo e Bernardo olharam para a Nicole, preocupados com o que acontecia. Carol brincava com alguns passarinhos que voavam na praça da igreja.
— Tudo bem. Podem ir. — Nicole se virou para os três os acalmando: — Eu já imagino do que se trate.
Rosa e Marcelo ainda estavam preocupados, mas assentiram para Nicole, e olharam na direção do Bernardo como se soubessem que ele iria ficar, até porque, alguém teria que levar Nic para casa. Eles se despediram e distanciaram-se levando Carol.
— Por que está indo comigo? — Nicole perguntou para Bernardo ao seu lado.
— Porque eu vou descobrir o que está acontecendo de um jeito ou de outro!
Ela não respondeu, apenas se limitou a revirar os olhos e acompanhar o policial. Se fosse dar trela e se estressar para cada birra do homem ao lado, ela certamente enlouqueceria.
Chegaram os três à porta da delegacia, e Nicole foi levada até a sala de Gabriel. Bernardo a seguiu, mas logo outro policial pediu que ele aguardasse do lado de fora. Documentos haviam chegado e por expedição do juiz responsável pelo caso dela, a delegacia da região deveria ser informada e ficar a postos para prestar serviços, se necessário, quanto ao processo. Era comum aquele procedimento, uma vez que Nicole era suspeita, e em breve poderia ocorrer uma necessidade de que ela prestasse novos depoimentos na cidade onde estivesse.
Bernardo não conseguia ouvir a conversa entre seu amigo e Nicole enquanto os espreitava pelo vidro da sala, mas sondou entre os policiais possíveis para saber o que ocorria. Àquela altura, os funcionários presentes tentavam imaginar que tipo de relação Bernardo teria com a mulher, por quais razões estariam juntos ali, e quem era ela.
— Sua namorada?
Um dos policiais perguntou ao ver que Bernardo perguntava sobre a situação a um terceiro.
— Não. Apenas está hospedada em minha casa.
— Apenas hospedada? O que uma estranha faria hospedada em sua casa?
— Eu estou sendo interrogado Queiróz? — Bernardo perguntou impaciente ao policial que riu e negou com um aceno.
— Só estou curioso. Você não aparece ao lado de mulheres bonitas assim, há sete anos.
O comentário deixou Bernardo perturbado. Ele decidiu se calar e parar de investigar entre os outros presentes ali, saiu de perto do agente que sorria de suas reações. Dentro da sala de Gabriel não apenas ele como delegado, mas até o escrivão, ambos notaram que Nicole era uma pessoa tranquila. Após a ouvirem e lerem os autos do seu processo eles acreditaram que a possibilidade de a mulher ser inocente fosse grande.
— Apesar de acreditar que você é inocente, você sabe… Nós não podemos achar, nós precisamos provar. E as provas estão contra você Nicole.
— Entendo perfeitamente delegado, Moura.
— É lamentável ver uma colega de profissão passando por uma situação assim. Bem! Qualquer novidade, nós entraremos em contato. Estaremos atentos a você, faz parte do protocolo.
— É a nossa profissão. Meus bons antecedentes falarão por mim ao fim de tudo isso. — disse se levantando da cadeira e cumprimentando ao delegado: — Até mais e muito obrigada.
Nicole saiu daquela sala e Gabriel a acompanhou, vindo cumprimentar Bernardo que mais parecia uma barata tonta. Ele o encheu de perguntas afastando-se de Nicole com o delegado. Mas, Gabriel se manteve calado por discrição do ofício.
— E então, Gabriel? Descobriu qual o problema? Ela é culpada? Por que a chamaram aqui?
— Protocolo normal, Bernardo. Fomos avisados e recebemos os autos do inquérito dela. Chamá-la foi uma formalidade para ela se apresentar e assinar alguns papéis. Se for preciso que ela preste depoimentos novos, fará aqui. Mas, fique tranquilo. Nicole não é uma ameaça à sua família.
— Só isso? — Ele perguntou indignado.
— Eu não posso falar mais nada, amigo. É a minha profissão, mas relaxe. Confie em mim.
— Não é uma ameaça… — resmungou debochado.
— Pra você eu não sei… — Gabriel riu sugestivo — Mas, ela aparentemente é uma pessoa livre de perigo à sua família.
Bernardo se remexia agitado ao lado de Gabriel. Ele coçava o nariz, a boca, a cabeça. Estava inquieto. Despediu-se do amigo e aproximou-se de Nicole. Ainda transparecendo nervosismo, ele caminhou ao lado dela, rumo à saída da delegacia.
— Ora se acalme! Que irritante! Eu não sou uma bandida, tá legal? Não viu que até o delegado acredita em mim? — Nicole esbravejou a caminho do carro.
— Gabriel é tão inexperiente quanto você nesse meio.
— Não sou inexperiente quanto pensa.
— Ele confia demais nas pessoas!
— Eu não sou uma criminosa, Bernardo!
— Não posso me acalmar até escutar a sua versão da história.
— Ainda bem que o delegado não é você!
— É de fato uma pena! — Ele entrou no carro emburrado.
Quando o automóvel já andava pelas ruas que circundavam a delegacia e a pracinha, a caminho da saída para a área rural, Nicole disse a fim de chamar atenção do motorista:
— Escuta… Por que disse que o chefe da delegacia é tão inexperiente quanto eu?
— Gabriel pegou o posto na delegacia há um ano e meio. Em uma cidade pequena como essa, dá a impressão de que ele ainda está estagiando. Antes, era apenas um policial local.
— Você parece conhecê-lo bem.
— Não venha com esta de querer sondar do cara, só para jogar sujo!
— Nossa! Como você é impossível… Você é detestável, sabia?
— É recíproco. — Nicole virou o rosto e ele continuou sério: — Mas te respondendo… Estudamos na mesma faculdade. E nos conhecemos desde moleques.
— Você ainda é um moleque.
— Fica quietinha ou eu te deixo na estrada.
Bernardo falou emburrado como se fosse para levá-lo a sério. Mas, Nicole sorria de canto, observando as ruas pela janela. Como Bernardo era irritante!
Mais tarde, ao chegar em casa, ela lia aos papéis que tinham chegado e consistiam em nova data do julgamento. Ângelo telefonou para ela dizendo que as coisas estavam difíceis para o seu lado, mas que ele conseguira um trunfo. Uma testemunha que ajudaria muito.
Nic conversou com Verônica, sua melhor amiga e namorada de Anjinho, contando como estavam sendo aquelas semanas de chegada. E Vera, após ouvir todas as reclamações da amiga sobre o tal fazendeiro, manifestou-se sob risadas afirmando estar ansiosa pelo dia em que iria conhecê-lo. Ela compreendeu o tom sugestivo de Verônica. Despediu-se, achando até graça por Verônica, ter a audácia de sugerir que Bernardo e ela pudessem ter qualquer envolvimento, como era o caso de seus antigos namorados. Afinal, Nic sempre se envolvia por homens que lhe causavam irritações cotidianas.
Bernardo, me chama de questão de matemática e me erra, homem
Enxerido u.u
Isso aí é história antiga, né? Tô sentindo
Eu ainda quero bater no Bernardo 😀