Capítulo 5 • Aprendiz de Fazendeira
Pela manhã, Nicole foi acordada por uma garotinha sorridente e descabelada que abria seus olhos com os dedinhos pequenos. Muito marota.
— Carol? O que foi? — Nicole murmurou sonolenta.
Carolina deitou-se debaixo da coberta e ao lado da mulher.
— Você tem que acordar Nic. Você dorme muito!
— Quantas horas?
— Cinco e meia.
— E o que você faz acordada há essa hora? — espantou-se com o horário.
— Eu fui dormir com meu papai, mas ele acorda cedo. Eu fingi que estava dormindo quando ele saiu e vim pra cá! Bom dia! Acorda!
A menina balançava Nicole tentando impedir suas pálpebras cansadas de se fechar. Carolina era muito esperta para a idade dela, e sempre apresentava um raciocínio à frente das outras crianças de sua idade.
— Tudo bem, já estou indo.
Ela ficou sentada à cama aguardando Nicole despertar e se arrumar para descer. Quando as duas desceram, titia já preparava o café e Carol correu para as sessões de desenho animado na TV.
— Bom dia, titia.
— Carolina te acordou, não é?
— Sim, mas tudo bem… Preciso mesmo habituar-me aos horários da fazenda. O que posso fazer hoje?
— Primeiramente sente-se e tome café.
Ela sorriu para a sobrinha e lhe esticou uma caneca de café, em seguida levou o café da manhã de Carolina e ajeitou os cabelos desgrenhados dela. Nicole observou sua tia retornando pelo corredor que unia cozinha à sala, e lhe perguntou logo que a senhora sentou-se à mesa para fazer companhia a ela:
— Titia, cadê o resto do pessoal?
— Rosa e Marcelo ainda dormem e Bernardo já está te esperando.
— Me esperando?
Nicole arqueou as sobrancelhas em dúvida, e encarou o rosto tranquilo da velhota que sorria divertida. Havia começado o seu dia com aquela surpresa nada boa.
— Ele vai te ensinar como funciona a rotina no rancho. Há pouco foi para o celeiro, pode ir para lá ao terminar o seu café.
— Claro, estou indo. — respondeu à sua tia.
Titia se levantou da mesa, piscando para Nicole e ocupando-se com a limpeza da pia. Nicole terminou sua bebida, dando uma última mordida em seu pão e se levantou a caminho da porta dos fundos, após colocar a xícara para lavar.
— Calce as botinas. — Dona Laura apontou às galochas que estavam ao lado da porta.
Nicole calçou as botinas e foi até o celeiro. Ela percebeu que sua tia ficou lhe observando pela varanda dos fundos, enquanto ela seguia o seu caminho. Fazer alguma coisa para ajudar, era o mínimo que Nicole acreditava poder realizar por aquelas pessoas enquanto estivesse ali. Ela não contestou contra aquilo. No entanto, uma dose dupla de Bernardo logo ao amanhecer? Antes mesmo de rever o Sol? A mulher sacudiu a cabeça e esboçou uma careta indiferente. Ao entrar no celeiro, Bernardo recolhia o feno e colocava os feixes em um carrinho de mão.
— Bom dia. — Ela o cumprimentou.
Ele parou o que fazia e a encarou, com semblante sério. Não se esforçaria nem um pouco para tornar aquilo agradável.
— Bom dia.
— O que devo fazer?
— Estou juntando os feixes de feno para os cavalos. Você consegue carregar o carrinho para as cocheiras?
Nicole caminhou em direção ao carrinho de mão e suportando o peso, assentiu e levou-o para as cocheiras dos equinos.
— Só os cavalos da direita! Eu ainda não prendi os outros. Se você abrir a porta eles podem sair. — alertou Bernardo.
Nicole distribuiu o feno para os animais amigáveis. Estava com medo de irritá-los, mas o que seriam aqueles cavalos diante o Bernardo?
— Venha aqui um instante Nicole, tenho que lhe mostrar como prendê-los.
Ela saiu até o lado contrário, onde ele se encontrava e após aprender como agir, Bernardo responsabilizou-a pelos animais daquela parte. Enquanto ele distribuiria o feno, a água e limpava o local de um lado, ela faria do outro. Nicole, apesar de sem jeito com trabalhos daquele tipo, não era uma mulher fresca. Antes de colocar água nas baias dos cavalos, ela achou melhor retirar todo o esterco, do contrário faria uma bagunça pior. Procurou uma pá e começou a limpeza com um pouco de receio de tomar coices, mas os animais comiam tranquilamente.
Bernardo, vez ou outra escapava os olhares na direção dela sem nada dizer. E nem mesmo ela falava com ele. Depois de todos os estercos recolhidos no carrinho de mão, Nicole abriu a mangueira e encheu as baias de água. Os animais estavam sedentos. Em um dos cochos, ela acariciava com cuidado um alazão concentrado em se refrescar. Tomou um susto quando, repentinamente o equino ergueu seu pescoço e deu-lhe uma bufada de nariz molhado em seu rosto. Nicole limpou a própria face rindo baixinho e conversando carinhosa com o animal inocente. Bernardo observava-a e sentia-se ainda mais sem paciência. Rabugento, ele apenas se concentrava em evitar a presença dela e executar suas tarefas.
— Bernardo, aonde eu coloco o esterco?
— Na horta, serve como adubo natural. Mas, primeiro ele tem que secar então junte com o outro monte que está lá.
Ela foi à horta e com uma pá distribuiu o monte de estrume fresco que secava ao Sol. Logo o rancheiro chegou com a outra parte da sujeira e eles continuaram trabalhando juntos e calados. Assim que terminaram, puxaram a mangueira e lavaram carrinhos, as pás, e guardaram os materiais de volta no celeiro. Em seguida, o casal se direcionou ao curral. Bernardo explicou para Nicole como tirar leite das vacas, primeiro amarrando as patas traseiras delas e depois apertando as tetas. Retiraram dois galões de vinte litros, manualmente. Trabalhoso, inclusive.
Aos poucos, Bernardo ia explicando a ela como funcionava tudo, disse que depois de retirado o leite, as vacas deveriam ser levadas até a outra margem do rio, onde pastavam durante o meio dia. Enquanto pastavam, o curral era limpo. Depois do almoço elas deviam ser trazidas de volta. E assim fizeram. Depois de colocar os galões na camionete, Bernardo montou em um cavalo e levou as vacas para o pasto, e Nicole ficou lavando o curral até ele voltar. Quando retornou, ele deixou o cavalo na baia e entrou na camionete.
— Pode recolher os ovos no galinheiro e dar milho às galinhas, enquanto eu vou até em casa buscar a comida dos porcos e levar o leite.
Nicole assentiu em silêncio fazendo o que Bernardo havia lhe pedido. Ele não demorou a voltar e após estacionar o carro perto do galinheiro, colocou os ovos recolhidos por Nicole, dentro de uma cesta que trouxera. Nicole se entretinha a jogar milho misturado a farelo para os patos, que rondavam o galinheiro.
— Onde os patos ficam?
— Soltos. Ficam sempre no riacho. De manhã se aproximam do quintal e do galinheiro para comerem.
Bernardo pediu para que ela o acompanhasse até o chiqueiro. Chegando lá, havia um balde de mistura composta por restos de verduras, legumes, frutas… Enfim, lavagem.
— Não é sempre que damos lavagem a eles, pois esperamos juntar bastante orgânicos. Normalmente eles só comem a ração.
— E com que frequência você prepara a lavagem?
— A cada duas semanas. — abriu a porteira do chiqueiro, com o balde em mãos e advertiu à mulher: — Entre, e cuidado para eles não fugirem.
Ela entrou, pé por pé, cuidadosa para não escorregar na lama. Bernardo a estendeu o balde de comida que ela logo distribuía no cocho. Porém, no avanço dos suínos para comer, Nicole tomou uma rasteira de um dos porcos e caiu no meio da sujeira. Bernardo estava limpando o lugar e imediatamente parou o que fazia, olhando assustado em direção a ela. Sem se segurar, ele começou a gargalhar. Nem mesmo estendeu-a sua mão para ajudar. Há muito tempo não via alguém caindo no chiqueiro, e já imaginava aquela possibilidade ao levar a paulistana para lá. Ela o encarava furiosa ao chão, e se levantou sozinha. Saiu do chiqueiro deixando-o gargalhar e limpar o lugar sozinho. Bernardo, que não conseguia conter sua satisfação apenas gritou em meio a altas gargalhadas:
— Pode ir, já acabou por essa manhã! E tome um bom banho, este cheiro custa sair!
Petulante, ainda zombava da mulher que se distanciava enojada. Quando Nicole apareceu no quintal dos fundos da cozinha, ela tirou as galochas e lavou-as no tanque. Havia um quadrado de madeira, com chuveirão, ali na parte externa da casa que servia para momentos como aquele.
— Titia! — gritou ela.
Marcelo, Rosa, dona Laura e Carol estavam à mesa da cozinha e dali, dava para ver perfeitamente onde e como Nicole se encontrava.
— Nicole! O que aconteceu? — Sua tia surgiu surpresa.
— Bernardo exagerou dessa vez! — Rosa falou bravia para Marcelo ao seu lado.
Logo, Carol também surgiu na varanda e começou a rir:
— Nic brincou com os porquinhos! Vovó não gosta que a gente brinque com os porquinhos Nic!
— Não foi o Bernardo, Rosa. Eu caí no chiqueiro. Como faço titia?
— Entre nesse reservado da ducha e retire suas roupas. Vou te trazer toalhas e roupas limpas. Tem sabonete aí!
— Use esse sabão de gordura também, Nicole. Ele vai ajudar a limpar e tirar o cheiro. Depois se esfregue com o sabonete. Que azar você ter caído lá! — dizia Rosa para a prima.
— Estava correndo tudo bem demais… — resmungou Nicole.
— Ele não tem culpa mesmo? — Rosa se apoiou na parede do quadrado, e a olhou incisivamente a fim de descobrir a verdade.
— Não, desta vez não.
Respondeu abrindo a ducha e tremendo de frio pela água gelada que tocou sua pele. Rosa, Marcelo e Carol entraram assim que Nicole começou a tomar o seu banho. Tia Laura Coralina trouxe suas coisas e retirou-se, e enquanto Nic se limpava, Bernardo chegou e descarregou a camionete com os produtos que eles haviam recolhido. O fazendeiro direcionou o olhar para Nicole e riu debochado, enquanto ela, apenas o encarou com raiva.
— Vai levar as coisas para a cidade agora, filho? — Dona Laura surgiu na varanda dos fundos perguntando-o.
— Sim, mãe, só o tempo de eu tomar um banho. Não demorarei a levar as meninas à cidade.
— Tudo bem, não tenha pressa. Marcelo levará Rosa e Carol.
Bernardo entrou e titia aproximou-se da sobrinha, ajudando a esfregar seus cabelos.
— Como foi Nicole? Fora o tombo com os porcos…
— Muito trabalhoso, mas tranquilo. Aprendo rápido.
— Bernardo não te irritou?
— Tudo nele me irrita, mas deu para sair ilesa se não fosse o chiqueiro.
— Sei… — Ela riu baixinho: — Agora ele irá à feira da cidade vender os produtos que vocês recolheram.
— Interessante.
Nicole respondeu terminando de lavar os cabelos e começando a se secar.
— Saiu bem o cheiro?
— Sim, titia, obrigada. Por sorte o estrago não foi tão grande! — A mulher já se vestia naquele pequeno quadrado de madeira.
— Mãe! As patas botaram também, eu tive que separá-las!
Bernardo aproximou-se da varanda dos fundos conversando com a mãe. Incrivelmente ele não estava emburrado. Era a primeira vez que Nicole o via, despreocupado, sem estar rabugento, sem rugas de raiva. Pensava se o motivo era por ter sido ela, a palhaça a lhe melhorar o humor. Em todo o caso, sabia que Bernardo não tivera culpa do ocorrido.
Ela vestiu-se com facilidade, apesar daquele “lavabo rústico” e saiu do quadrado da ducha passando por ele e entrando na casa sem direcioná-lo palavra alguma. Bernardo a observou passar ao seu lado por rabo de olho, e sorriu travesso. Havia encontrado algo positivo na mulher aquela manhã: ela não tinha frescuras, era trabalhadeira apesar de um pouco atrapalhada e poderia fazê-lo rir vez ou outra. Sua mãe o encarou como se buscasse arrancar dele a culpa e ele apenas beijou sua testa e saiu silencioso.
~ ♥ ~
A Fotografia De Uma Linda Mulher
A manhã correu e Bernardo não demorou na cidade, antes do almoço estava em casa. Voltou com o dinheiro e sem nenhum ovo, leite, galinha ou verdura que havia levado para a feira. Nicole queria ajudar sua tia à cozinha, mas a senhora sempre comandava ao fogão com tamanho prazer que não gostava muito de companhia. Então, a sobrinha aproveitou que Rosa estaria se preparando para trabalhar, e por isso pôs-se a limpar a casa. Encontrou num armário, na varanda dos fundos, os utensílios domésticos de limpeza e com conselhos de sua tia Laura, iniciou pelos cômodos de cima. Ela passava com os braços abarrotados, mas tia Laura indicou-lhe que estavam habituados a organizar o casarão por partes.
Nicole passou pelo corredor, em frente ao quarto de Carolina e viu pai e filha de costas à porta e conversando. Achou a cena de Bernardo arrumando Carolina, muito singela e escondida ficou observando. Aquele momento paternal, nem de longe refletia o ogro que Bernardo sempre se mostrava.
— Tranças com lacinhos papai! — Carol pedia para ele.
Nicole duvidada se Bernardo saberia mesmo, arrumar uma menininha com tranças e “lacinhos”.
— Já entendi filha… De que cor?
— Azul!
— Azul? Mas, você não gosta de azul. Verde não é a sua cor preferida?
— É… Mas a Nic gosta de azul!
— Ela te disse isso? — Era perceptível que ele não gostara nada do que acabara de ouvir.
— Não. Eu vi que ela tem muita coisa azul… Eu tenho muita coisa verde, então ela gosta de azul né, papai?
— Sim, filha, ela deve gostar. Mas, por que não usa a sua cor favorita?
— Porque eu quero ficar igual à Nicole, né papai! Dã! — falou rindo e batendo na testa dele.
Antes que a vissem, Nicole decidiu sair do seu esconderijo e rumar para as tarefas as quais se propôs. Bernardo mudou até mesmo a sua postura relaxada, se tornando tenso, quando Carolina pronunciou o início de afeto pela mulher. Ele realmente estava a cada dia mais preocupado com a relação entre as duas. E Nicole, até compreendia. Talvez, ele estivesse muito certo em proteger a filha daquela forma, afinal, ela pretendia ir embora assim que pudesse. Não queria ser razão para a menina se magoar, mas não conseguia evitá-la. Não queria evitar a criança. Em sua vida agitada, crianças não eram comuns, e lidar com uma tão amável quanto Carol lhe trazia um sentimento novo. Diferente de tudo o que ela havia experimentado. Uma sensação de cuidado e proteção quase instintiva.
Nicole começou a limpeza pelo banheiro, e depois seguiu para o seu quarto sendo surpreendida por Carolina à porta que lhe chamava para almoçar. Decidiu terminar o que fazia antes, e se despediu de Carol que logo iria para a escola.
A garotinha correu até Nicole lhe dando um longo e estalado beijo no rosto, mesmo Nicole a advertindo que iria estragar seu batom:
— Olha Nic! Papai passou batom em mim. — Fez um biquinho mostrando.
— Você ensinou direitinho para ele! Está linda!
— Não ensinei Nic! Papai sabe passar batom! — Nicole riu ao se deparar com a expressão orgulhosa da filha ao mencionar o pai.
— Então me dê um beijinho daqueles que eu te ensinei para não borrar!
Carolina lhe agarrou pelo pescoço e apertou tanto a bochecha de Nicole que saiu quase sem fôlego.
— Pode ficar com o meu batom! — disse apontando com seus dedinhos pequenos para a marca que havia ficado no rosto de Nic e saiu correndo.
Um pouco depois de limpar o seu quarto e o de Carolina, Nicole seguiu com a faxina para o de Bernardo. Ela ficou parada à porta, por breves instantes, receosa de entrar ali. Porém, estava fazendo um favor em limpar o cômodo, e pensando assim, apenas girou a maçaneta adentrando com o rodo, a vassoura, e os baldes. Ele não reclamaria por aquela gentileza! Para sua surpresa o dormitório de Bernardo era muito bem organizado, o contrário do que a personalidade ambígua dele a fazia pensar.
Ela limpava os poucos móveis do quarto dele, mas, em certo momento uma pulga instalou-se atrás da sua orelha. Na mesinha de cabeceira estavam expostos algumas anotações, uma caneta, um relógio e o ioiô da Carolina. Nicole tirando tudo abriu a primeira gaveta e colocou-os lá dentro, entretanto, avistou alguns papéis picados. Curiosa por natureza pegou o montinho, e foi os montando como um quebra cabeça, até que descobriu uma fotografia. A fotografia de uma linda mulher grávida.
Por que aquilo estaria ali daquela forma? Uma foto como aquela deveria estar em um belo porta-retratos. E quem seria aquela mulher tão bonita? Nicole virou os pedacinhos ao contrário montando o verso da imagem, que apresentava a frase: “nove meses da Carolina”, escrita numa letra de caligrafia bem feita. Aquela bela mulher era a mãe da Carol. Nicole sentou-se à cama percebendo que nada sabia sobre a história da pequena, mas decidiu que iria investigar sobre. Alguém na casa iria a contar, ela só precisaria do momento certo. Todavia, antes de guardar novamente os papeis picados dentro da gaveta, ela foi flagrada por titia.
— O nome dela é Bruna. Linda, não é?
Tia Laura perguntou sorrindo e Nicole sobressaltou-se:
— Desculpe tia, eu vi os papéis picados e iria jogá-los no lixo, mas então percebi que era uma fotografia e…
— Tudo bem. — A mais velha interrompeu sorrindo simpática, e observando a fotografia montada em cima do pequeno móvel.
— Ela é sim, muito linda. — Nicole respondeu observando a expressão tristonha da senhora — Eu posso perguntar o que aconteceu?
— Eles foram namorados de infância. Quando estavam no último ano do ensino médio, Bernardo desejava fazer faculdade de engenharia agronômica e ela, sempre sonhando muito alto queria ser modelo. Iria para a capital investir nisso, mas então, engravidou. Apareceu aqui e nos pegou de surpresa logo no início da gravidez. Queria abortar para seguir a carreira, e em nenhum momento foi uma mãe ligada à gestação. Meu filho ficou tão feliz! E com tanto medo dela tirar a criança, que imediatamente convidamos Bruna a morar aqui conosco até o nascimento. Bernardo amadureceu muito com a vinda de Carolina. Você não imaginaria o rapazote sem juízo que ele era! Bruna insistia em não ter a filha porque segundo ela, o corpo não seria o mesmo e a sua carreira estaria destruída.
— Que loucura!
Nicole limitou-se a responder. Havia uma revolta em seu coração, por saber que Carolina fora rejeitada, mas não culpava Bruna. Sabia que uma gravidez não planejada, era algo muito complexo.
— Rosa e eu nos mexemos muito para encontrar o tal agente que queria a lançar e convencê-lo a esperar a gestação. Bruna é realmente linda e para a sorte dela, ele se interessava muito na sua carreira, não queria perdê-la. Questões de lucro… Esse mundo de modelos me parece tão supérfluo…
— O mundo em si, torna-se cada dia mais supérfluo, titia. Eu sei bem como é. De repente as pessoas deixam de ser o ponto importante.
Nicole disse recordando-se da sua situação. E tia Laura sorriu-lhe confortando, e acariciou o seu rosto. Encarou novamente a fotografia rasgada, e continuou a história:
— Você tinha que ver o modo como ela se comportava diante da gravidez… Sem nenhum interesse, nenhum amor! Com isso, a gestação foi arriscada, sempre na vigília de médicos e lógico, com os olhares afiados de Bernardo para que ela não fizesse nada contra o bebê.
As duas ficaram um tempo em silêncio, Nicole estava abismada, e sua tia transparecia uma mágoa profunda por aquelas lembranças. Dona Laura guardou os restos da foto e sentou-se novamente à cama de Bernardo, ao lado de Nicole segurando uma mão da sobrinha de coração, acariciando-a devagar e continuou a falar-lhe:
— Ela foi o único amor do Bernardo. Essa fotografia estava escondida… Mas, venho o pegando a observá-la algumas noites antes de dormir… Alguma coisa recentemente trouxe as lembranças dela de volta.
— E pelo visto, se não estava rasgada antes…
— Não, não estava. Ele a rasgou recentemente. Esta fotografia estava muito bem escondida.
— Ele passou a odiar a Bruna ou isso é amor reprimido? Por que ele teria tanta mágoa, ao ponto de destruir a foto?
Nicole perguntou mais curiosa, estranhando o fato de uma memória ser revivida daquela maneira. Certamente soube que Bruna era uma página triste, ao notar a maneira como sua tia Laura se comportava ao lhe falar dela. Mas, algo mais teria ocorrido entre ela e Bernardo, para que ele agisse daquela forma?
— Quando a Carolina nasceu… A casa inteira ficou radiante, com exceção é claro da Bruna, que não via a hora de se recuperar e ir embora. Ela nem mesmo amamentou, a Carolina.
— Eu não consigo imaginar como alguém pode rejeitar a uma criança como Carolina! Embora, não seja o primeiro caso de abandono que eu vejo…
Nicole bradou e na mesma hora se sentiu estranha. Sentiu-se a cometer uma injustiça por julgar Bruna sem saber a outra versão da história. Lidava com a imparcialidade há tanto tempo na sua vida, mas ao se deparar com a mísera constatação de Carolina sendo ferida, não conseguiu, não ter raiva de Bruna. Dona Laura percebeu a confusão no olhar da sobrinha, e a calmamente esperou outra reação. Nicole suspirou e se justificou a titia:
— Não quero julgar a Bruna, porque lido com situações de abandono de incapaz na minha carreira e é… Enfim, são variados os motivos que levam uma mãe a isso, mas… Eu só não consigo entender… Fora o desencontro dos sonhos um do outro, me parece que eles tinham tudo para serem felizes não é? A Carolina é o ser mais amável, mais perfeito que eu já conheci. Uma criança como ela merece tanto amor!
— Você está certa. Mas, ela e Bernardo não foram feitos um para o outro. Tinham uma paixão forte, aquele tipo de sentimento do primeiro amor, porém, não havia como ser eterno. A Bruna não pensava como você. Desde o primeiro instante que você veio para cá eu sabia que Carol se apegaria a você e você a ela!
Laura sorriu e vislumbrou a paisagem à janela de Bernardo como uma senhora sábia. Como alguém que soubesse ou enxergasse além do que verdadeiramente, as coisas são.
— Sim, tia, mas eu preciso conversar com ela… Quando eu for embora, não quero que ela sofra.
— Você não vai embora. Nem adianta retrucar! Eu sei o que estou falando.
— Certo… — Nicole murmurou um riso irônico, não discutiria com titia, pois nunca funcionava: — Mas, o que Carol sabe sobre a mãe?
— Nada. Bernardo decidiu dizer-lhe que a mãe morreu. Pelo menos até ela ter maturidade de entender o abandono materno. Se bem que entender… Ela nunca entenderá, mas quando for maior poderemos ter essa conversa abertamente.
— Compreendo.
— Por enquanto, esta fotografia deve ficar escondida.
— Ela nunca viu uma fotografia da mãe?
— Viu sim. Na escola costumam pedir essas coisas. Mas, não nutrimos isso até porque da última vez, quando viu que a Bruna nunca sorria, ela perguntou por que a mãe dela sempre estava triste.
— Deve ser tão confuso para ela…
— Agora ela não se importa tanto. Ou melhor, não demonstra. Ela se importa, na verdade! Ela precisa de uma mãe, toda criança precisa!
— E ela merece muito carinho e amor!
Aquilo de toda criança precisar de uma mãe, era algo que Nicole não concordava muito. Era um pensamento tradicional, de família tradicional, e Nicole já tinha percebido que era bem mais mente aberta do que a população interiorana da cidade seria. Mas, compreendeu o que titia queria dizer, toda criança precisa de amor. Sem gêneros específicos, mas amor e cuidado.
— Bernardo nunca quis se casar?
— Bernardo se casar…
Tia Laura levantou-se com as mãos à cintura e voltou a encarar Nicole suspirosa:
— Ele não fala sobre isso, acho que, no fundo tem medo de perder alguém que venha a amar de novo. Mas, eu sonho com o dia em que ele voltará a se sentir feliz completamente, e eu…
— A senhora? — Nicole perguntou estranhando a expressão esperançosa e diria até, marota, que havia se formado no rosto da tia.
— Vou esconder esta fotografia!
A senhora juntou os pedacinhos, que havia jogado dentro da gaveta de novo enquanto Nicole analisava o modo como sentiu que ela mudou repentinamente de assunto. Laura Coralina escondia algo, mas Nicole, como boa investigadora, saberia o momento certo de encaixar as peças.
Dona Laura pegou uma caixinha dentro da mesma gaveta, e colocou ali os picotes de retrato, guardando-o de volta no lugar. Percebeu o silêncio da sobrinha que pensava sobre algo, e mudou para o assunto que lhe havia levado até ali:
— Não vai almoçar?
— Prefiro terminar aqui primeiro. — Nicole respondeu despertando-se de volta aos seus afazeres.
Ele já tá tão pra lá na minha lista que eu só pude pensar: milagre kkkkkkkk
Garota esperta <3
Milagre que eu não reclamei do Bernardo nesse capítulo. Só falta ele compensar nos próximos HAHHAHA
E ESSA BRUNA. SE TÁ VIVA ELA VAI VOLTAR PRA ASSOMBRAR A VIDA QUANDO TUDO ESTIVER NA PAZ, NÃO VAI? NÃO ACEITO. SE PRECISAR ESTAR MORTA, QUE MORRA. (eu, exagerada? Imagina kkkkk)