Capítulo 4 • Convite Aleatório

  Nicole desceu as escadas e seguiu o som de risadas que vinham da cozinha. Recebeu olhares atentos dos presentes, e se colocou em ajudar na arrumação da mesa do jantar. Perguntou à dona Laura o motivo pelo qual, a água do chuveiro não estava fria e eles começaram a rir.
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  — A gente esqueceu de contar para ela vovó! Tadinha! — Carolina falou entremeio suas risadinhas melodiosas.
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  Nicole sorriu pela maneira como a menina a abraçou se desculpando. O sistema de aquecimento da água do chuveiro provinha da serpentina. Dona Laura explicou-a que para tomar o banho, era necessário acender o fogo à lenha, e com isso, ela também se desculpou pelo próprio descuido na noite anterior. Nicole afirmou não ter se sentido mal, apenas não esperava uma água tão quentinha ao chegar a casa após sua aventura.
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  Titia e Rosa caminhavam entre um armário e outro a colocar as travessas à mesa, e Nicole distribuía os pratos e talheres. Tudo muito simples, mas sempre como um ritual que representava a boa união daquela família. Então Bernardo apareceu e Nicole não conseguiu mais sorrir. Não deveria deixar aquela frustração a tomar, mas ela teria que extravasar de alguma forma. Nicole não era de cinismos, tentava esconder quando se sentia mal com alguma coisa, para não atingir aos outros com preocupações, mas não era de fingir que tudo estava um “mar de rosas”. Esconder os seus sentimentos, não era o seu forte e nem mesmo do seu feitio.
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  Preparando-se para jantar, Carol sentou-se na cadeira de sempre, Rosa ao lado de Marcelo. Na outra ponta da mesa na frente de Carol, sentou-se titia. Ao perceber aquela organização, Nicole poderia jurar que uma conspiração contra ela fora armada, mas não era uma ideia real. Ela encarou a pequenina Carolina, e refletiu com sobriedade. Não poderia pedi-la para trocarem de lugar! Seria infantil, e depois, alguma hora teria que aceitar o pouco espaço entre ela e o Bernardo. Afinal, eles moravam na mesma casa! Sem muita saída, os dois puxaram suas cadeiras sentando um ao lado do outro e evitaram trocar qualquer olhar ou palavra durante o jantar. Quando possível, Rosa e Marcelo contavam seus preparativos para o casamento, todos já na reta final, e era nítido que estavam muito felizes. Quando Rosa contou a data da cerimônia, Nicole se espantou claramente.
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  — Já é ao final do próximo mês?
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  — Sim, Nicole! Não é fantástico?
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  — Sim. Sim. É fantástico! Mas, eu não esperava chegar e encontrar alguém com malas prontas para sair.
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  Bernardo bufou sarcástico. Nicole observou discretamente a reação dele. Seria por isso que ele a culpava? Talvez pensasse que ela estivesse tentando tomar o lugar de alguém. O lugar de Rosa. Mas, não seria aquela uma atitude exagerada? Até mesmo, ridícula?
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  — E você será minha madrinha.
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  — Como?
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  Naquele momento, tanto Nicole quanto o Bernardo, olhavam para Rosa, perplexos.
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  — Rosa, eu não quero ser ingrata, pelo contrário! Fico radiante com o convite, mas você deveria escolher para sua madrinha alguém mais apropriada, mais íntima, não acha?
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  — Sou obrigado a concordar com ela.
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  Bernardo estava furioso. Dona Laura sorria discreta e analisava a cena sob seus óculos, Carol brincava com a comida fingindo não prestar atenção em nada, muito marota. E Rosa, ao lado de Marcelo, apenas sorriu para o irmão e sua quase prima.
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  — Nicole, eu não tenho amigas nas quais eu possa fazer este convite. Quero dizer, não me sinto confortável a este ponto. Todas as minhas amigas de infância não estão na cidade, e eu já não tenho tanto contato com elas. Você é da nossa família, pelo menos eu te considero como tal.
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  — Rosa, me desculpa de novo, mas você mal me conhece… E como ser madrinha de um casal que eu mal conheço a história?
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  — Bem, você pode não se sentir da família, mas é. E se quiser um tempo para pensar não há problemas… Uma hora você vai perceber. — Rosa falava animada.
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  — Tempo para ela pensar? Que tempo? Daqui a quatro semanas, vocês se casarão e logicamente não haverá madrinha se você não mudar de ideia agora! — Bernardo bradava sobressaltado.
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  — Ele está certo… — Nicole admitiu.
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  — Você não quer ser minha madrinha Nicole?
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  Rosa segurou a mão da prima sobre a mesa e perguntou-a, chantageando Nicole com a pressão diante de todos à mesa, e com a expressão mais tristonha que ela já havia presenciado na mulher.
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  — Não é isso, só não quero que você se arrependa depois.
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  — Esta mulher até agora, não disse nada mais sensato. — resmungou Bernardo em razão à Nicole.
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  Ele continuou comendo e fitando o próprio jantar sem escapar às alfinetadas para a ela. Nicole olhou para ele de canto, muito contrariada por não poder respondê-lo à altura.
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  — Não irei me arrepender. Você é da família. Posso considerar um sim? — Rosa arqueou a sobrancelha e sorria torto.
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  — Pode.
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  Muito a contragosto, Nicole afirmou. Não se chateou por ser a madrinha, mas por achar uma atitude um tanto quanto precipitada da parte de Rosa e Marcelo.
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  — Da família… Era só o que me faltava! — Bernardo terminou seu jantar levantando-se rude, afastou a cadeira de modo bruto e largou sua louça na pia, em seguida indo recolher-se.
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  Laura fez uma careta depois que o filho saiu e o ambiente tornou-se aos poucos mais descontraído. Mas não na mente de Nicole. Após todos estarem saciados, titia pôs-se a arrumar a cozinha com a ajuda da pequenina Carolina. Rosa e Marcelo ainda queriam discutir junto de Nic e Bernardo sobre os preparativos e aquilo exigiria um grande esforço e um ânimo surreal, por parte dos dois. Principalmente, por parte da delegada que teria que suportar a presença do homem mais insuportável que já conhecera. E olha que em sua profissão, homens insuportáveis e cheios de si, eram o que ela mais encontrara.
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  Rosa subiu para convocar a presença do irmão, que estava em seu quarto encarando o teto, numa tentativa de se acalmar. Enquanto isso, Nicole foi à cozinha colocar água para ferver com ervas de camomila à vontade, e titia e Carol lavavam e secavam as louças cantarolando.
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  — Bernardo, poderia descer um minuto, por favor? — Rosa perguntou sorrindo à soleira da porta do quarto dele.
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  Ele não respondeu de imediato, continuou encarando o teto e quando desviou o olhar à irmã, Rosa abaixou a cabeça suspirando pesarosa. Notou que Bernardo estava decepcionado com ela, então se aproximou e sentou-se ao pé da cama dele.
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  — Por que está me olhando com esta expressão de decepção, Bê?
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  — O que você está fazendo, Rosa? Madrinha? Uma estranha? Eu achei que você iria convidar a Lúcia ou a Isabella!
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  — Bê, Nicole é a nossa prima. Não é de sangue, mas eu a considero! Eu me lembro da nossa infância aqui na fazenda, e por mais que a vida tenha nos afastado, ela é uma parte do tio Rodolfo. Ela é especial para mamãe e para nós, também deveria ser.
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  — Você não a conhece! Nós não sabemos nada sobre ela, Rosa! Você deveria me apoiar em colocar juízo na cabeça da mamãe, e não embarcar neste jogo de culpa em que ela mergulhou! Ninguém aqui é culpado pela forma como nossas famílias se afastaram.
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  — Bernardo… — Rosa suspirou pesarosa — Eu sei que está preocupado por não confiar na Nic, mas não acho que desprezá-la ou dar-lhe as costas, será a melhor solução para conhecê-la! O que está acontecendo com você?
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  — Rosa, nem mesmo a Nicole entendeu o seu convite! E ela só aceitou porque certamente sentiu-se pressionada, afinal, somos nós que estamos a acolhendo num momento difícil da vida dela. E você jogou muito sujo lá embaixo! Eu só esperava que você tivesse um pouco mais de cuidado com os assuntos que envolvem a sua felicidade!
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  — Como é que a madrinha de um casamento pode influenciar na minha felicidade, Bernardo? — Rosa riu ao perguntar, ela acreditou que o irmão estaria buscando desculpas para continuar a se afastar da recente visita: — É só um título Bê.
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  — Não acho que seja assim, não é só um título! Você planejou isso desde quando?
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  — Quando a mamãe contou sobre a vinda dela, e o quanto gostaria de aproximá-la da família. Na mesma hora eu notei que um laço como este seria uma forma de fazê-la sentir-se como a parte da família que ela é… — Rosa explicou calmamente.
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  — O que o Lelo acha deste absurdo? — O irmão perguntou ainda sobressaltado.
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  — A decisão de quem será a minha parte de padrinhos cabe a mim, e como sempre, o Lelo me apoiou!
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  — Eu acho isto um grande erro, mas é o seu casamento. Você que sabe. — Bernardo assumiu com tom de frustração evidente.
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  Ele pronunciou e se levantou, colocando-se sentado à cama e olhando para as próprias mãos. Rosa o observou, meticulosa, e então um pensamento lhe ocorreu.
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  — Você… Você quer falar alguma coisa, comigo sobre o meu casamento, Bê? Tem algo sobre isso o incomodando?
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  Bernardo soltou uma lufada de ar, e encarou a irmã, com seus brilhantes olhos azuis herdados do pai, em profunda proteção.
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  — Rosa… É o seu casamento! O papai não pôde ver isso acontecer, e eu sei que você só não quer toda a pompa e grandiosidade, por causa disso. Mas, aonde o pai estiver, eu acredito que ele iria se sentir orgulhoso se tudo ocorresse conforme a sua felicidade. E depois… — parou de falar e admitiu envergonhado: — Eu também espero me realizar um pouco com a sua felicidade! Eu não me casei, e desejava ter esta oportunidade no passado, mas as coisas simplesmente não aconteceram assim. Então, vê-la se casar, acompanhar você ao altar é como se eu estivesse me realizando e cumprindo o papel do papai aqui. Eu não quero presenciar você agindo como se o seu casamento, a cerimônia, fosse algo pequeno, porque não é! Isso é o começo da nossa continuidade, irmã.
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  Rosa quis chorar. Compreendeu todos os sentimentos do irmão, e só fez abraçá-lo por gratidão. Bernardo torcia por ela desde sempre, cuidava dela como se fosse ele o mais velho e a tinha como um modelo. Mas vê-lo falar da mágoa antiga dela, de não ter o pai presente naquele momento… E tentando fazê-la crer, que não viver aquele instante com todos os seus desejos, justamente pela falta do pai era infeliz… Aquilo trouxe à Rosa um sorriso farto, e um brilho lacrimejante ao olhar. Assim que desfez o abraço ao irmão ela endossou ao Bernardo como ele estava errado. O seu casamento estava sendo do jeito que ela sempre quisera.
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  — Eu estou fazendo tudo como seria se o papai estivesse aqui, Bê. Porque, na verdade, ele está! Eu realmente quero resgatar meus laços com a Nicole e tê-la como madrinha é uma ótima forma de contribuir para isso. Eu não estou tratando a questão com menor zelo. A Lúcia e eu somos boas amigas, mas… Ela é mais uma opção de mulher que ficaria bem ao seu lado no altar do que qualquer outra coisa…
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  Rosa gargalhou ao ver a expressão do irmão se tornando novamente emburrada.
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  — Que história é essa agora?
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  — Ela sempre foi a menininha apaixonada por você que perambulava pelo rancho, e sempre foi a primeira na fila das suas pretendentes. Lúcia, sim, foi uma jogada para tentar te fazer se abrir a outra mulher… Mas, a Nicole… Eu realmente quero isso desde que a mamãe a reencontrou, irmão.
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  Bernardo assentiu. Ultrajado. Não engolia aquela justificativa, mas sabia que Rosa não era de mentir e muito menos para ele. Então, ele sabia que suas palavras eram sinceras.
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  — Eu continuo achando um absurdo, mas… Tudo bem. É decisão sua de qualquer forma.
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  Rosa riu se levantando junto ao irmão, e assim que ele calçou seus chinelos e preparava-se para descer, ela o segurou à porta do quarto.
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  — Espera… — Bernardo a olhou paciente e cruzou os braços para ouvir o que mais a irmã teria a dizer — Sobre você depositar suas expectativas não conquistadas, nas minhas conquistas… Bernardo, você ainda pode se casar! E eu acho que deve, inclusive!
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  — Rosa… — Ele já se preparava para mudar de assunto, mas sem sucesso.
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  — Me escuta! A mamãe deseja muito isso, e eu sei que você também, mas se continuar tendo medo de se machucar, você nunca mais vai conhecer ninguém! Então, pare de fugir de sair com umas garotas, conhecer novas pessoas e se abrir para relacionamentos.
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  — Rosa. Do meu coração, cuido eu.
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  — Não seja grosseiro comigo por ouvir o que não quer! Se continuar assim, você sempre será conhecido na cidade como o inalcançável coração da fazenda.
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  Bernardo estalou a língua num murmúrio contrariado e saiu pelo corredor, logo Rosa o seguiu encarando o irmão de forma divertida. Ela havia ganhado uma informação nova, e com certeza usaria aquilo para ajudar como fosse. Afinal, Bernardo admitiu que ainda continha aquele sonho adolescente de se casar e ter uma família como a que seus pais tiveram. Mas, ele nunca admitiria que, também morria de medo de ir atrás daquela conquista. E era completamente compreensível, dada à história que ele viveu. Às vezes, corações muito feridos se tornam covardes.
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  Assim que chegou ao pé da escada observou que Nicole e Marcelo encontravam-se falantes à sala. E com um mau humor mil vezes maior por ter que encarar a realidade de Nicole sendo madrinha de sua irmã ao seu lado, Bernardo juntou-se a eles, tal como a irmã. Rosa falou sobre as decorações, o cardápio, tudo já muito bem esclarecido, mas precisava tratar com os dois sobre as roupas de padrinhos e o que eles preferiam.
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  — E então, vocês pretendem combinar seus trajes? — Ela disse olhando para Bernardo e Nicole.
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  — Nós? — Nicole perguntou prevendo o pior.
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  Ela não tinha noção de que Bernardo seria o padrinho de Rosa, mas ao encarar o olhar do homem à sua direção, tudo lhe parecia mais claro. Era totalmente esperado que o irmão apadrinhasse a união da irmã. A única fora de contexto era Nicole, e assim ela sentiu-se. Contudo, pior ainda foi o enjoo em seu estômago, ao ouvir Marcelo confirmar as suas suspeitas.
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  — Vocês serão juntos os padrinhos da Rosa.
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  Marcelo falava sorrindo por já saber o rebuliço que aquilo causaria.
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  — Por mim, acho apropriado você escolher a cor e cada um que se vire com o traje separadamente.
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  Nicole respondeu evitando olhar para Bernardo e respirando de forma pausada, a fim de controlar sua indignação irritada. Sentia-se idiota por ter aceitado tão rapidamente o convite aleatório de Rosa, e que não lhe fazia o menor sentido.
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  — Certo… Amor, o que você acha? — Rosa direcionou-se sorridente ao noivo.
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  — As madrinhas poderiam escolher tons pastéis. A Nicole poderia escolher algum tom rosa claro… Ela tem uma pele linda, acho que ela e minha prima, cairiam bem com as cores. O que acha Bernardo?
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  Ele não respondeu nada para Marcelo e nem sequer olhou à direção dos três, continuou lendo uma revista qualquer. Não se envergonhava em demonstrar que não pretendia fazer parte da conversa.
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  — Eu acho apropriado. — Rosa respondeu enfim, ignorando a birra do irmão e divertida com tudo aquilo — E você, o que diz Nicole?
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  — É ótimo, a intenção geralmente é que ninguém note as madrinhas, apenas a noiva. E quero evitar ser a nova atração da cidade.
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  — E os padrinhos irão com traje comum. Tom escuro. Alguma preferência Bernardo? — Marcelo opinou.
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  — Minha única preferência seria qualquer outra madrinha para a minha irmã.
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  Nicole revirou os olhos. Decidiu não dar importância a nada daquilo. Afinal, eles teriam ensaios a serem feitos durante as tardes por aquela semana e isso implicaria em suportarem-se por mais tempo do que os dois previram. Tia Laura apareceu servindo os chás que havia preparado. Bernardo insistiu para que Carolina fosse dormir e tentou levá-la, mas a pequena agarrou-se a Nicole e pediu para ficar mais um pouco com os adultos. Ele já estava muito irritado e então se recolheu silencioso.
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  A delegada também não demorou a se deitar levando Carol para dormir. Acendeu as luzes do quarto da pequena, e a menina vestiu seu pijamazinho agarrando-se a uma pelúcia. Ficou paradinha em um cantinho apenas observando enquanto a adulta preparava a sua cama.
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  — Prontinha Carol. Escovou os dentes?
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  — Sim.
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  — Hm… Posso conferir? — Ela abriu um sorriso enorme já se sentando em sua cama e depois disse que seu pai sempre checava o hálito dela com uma “baforada”.
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  — Então , dê-me uma baforada caprichada! — Assim ela fez e as duas começaram a rir: — Você escovou direitinho! Boa noite, boneca.
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  — Nic! — abraçou a mulher quando essa foi beijar à sua testa, demonstrando que não queria deixar a mais velha, sair.
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  — O que foi?
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  — Me conta uma história?
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  — Conto, mas você terá que fechar os olhos e tentar dormir.
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  — Tá!
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  Ela virou-se abraçando seu cavalinho de pelúcia e fechou os olhos esperando a história. Nicole sorriu e observando ao redor, avistou logo na mesa de cabeceira da cama dela, um livro de contos clássicos e o abriu começando a ler. Carolina rapidamente adormeceu. E assim que Nicole percebeu o sono profundo da pequenina, ela ajeitou o cobertor da criança se levantando devagar. Foi até a janela conferir o trinco e fechou as cortinas do quarto.
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  Sentia-se observada, e estava certa. Bernardo ao perceber a voz de sua filha no próprio quarto, foi até lá desejar uma boa noite, mas não esperava encontrar Nicole deitada com Carol a contar uma história. Ali ele permaneceu escondido a espreitar pela fresta da porta. Seu coração apertou-se com aquela cena, e um nó em sua garganta lhe fazia sentir-se culpado. Bernardo culpava-se por Carolina não ter uma mãe. Culpava-se por saber que em muitos aspectos, a filha precisaria daquilo, mas também julgava que ele era capaz de dar a ela tudo o que ela precisasse. Havia a avó e a tia da criança, para acompanhá-lo na educação de Carol e já vinha sendo assim há sete anos.
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  Não seria necessária a ajuda da mãe de Carolina, ou de qualquer outra que ocupasse o posto. Quando Nicole saiu do cômodo avistou a porta do dormitório de Bernardo sendo fechada. Ela se direcionou ao seu aposento e adormeceu tão logo quanto sua cabeça repousou ao travesseiro.
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  Já Bernardo, estava acordado repensando na conversa tida com a irmã horas antes. Pensava que não deveria ter dito à Rosa sobre seus sentimentos em relação ao “realizar-se” através dela. Não que ele esperasse que jamais se casasse ou que morreria sozinho… Bernardo apenas não queria preocupar-se com aquilo. Levava uma vida pacata de sucesso crescente em sua profissão, amava o lugar em que vivia e tinha a completa noção do quão era um homem com muitos defeitos. Seu próprio coração bastava, e desejos carnais… Os tinha, óbvio, mas não eram uma necessidade suprema. Desde que se tornou pai e nas circunstâncias em que havia se tornado, a sua única preocupação e necessidade era a responsabilidade de fazer com que Carol fosse bem criada. E que sentisse que era absolutamente amada pelo pai, e por sua família pequena e tradicional.
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  Ele respirou fundo dando-se conta de que, se suas palavras ditas à irmã chegassem aos ouvidos da mãe, iriam apenas tornar tudo mais difícil. Sem conseguir dormir imediatamente, Bernardo caminhou até a sacada do próprio quarto e escorou-se no cercado de madeira observando o céu estrelado da sua amada fazenda. Lembrou-se de Bruna. Como há muitos anos não se lembrava.
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  — Bernardo! Anda logo, larga esse cavalo! — A namorada pedia ao rapaz que estava à porta do estábulo escovando o pelo do animal.
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  — Bruna, espera! Você é insuportável quando quer, hein?! Eu tenho que terminar o meu serviço! — disse o jovem impaciente.
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  — Nós vamos nos atrasar! E o Gabriel disse, que era para estarmos na porta da casa dele às dezoito horas, ou o pai dele não esperaria!
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  — Você já falou isso um milhão de vezes e eu não sou surdo! — O rapaz parou de escovar o cavalo e encarou a namorada com expressão irritada: — Assim como não sou irresponsável! O cinema não vai sair do lugar!
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  — Não! Quem vai é o senhor Moura! — reclamou Bruna de modo mimado: — Poxa, amor! Sabe que a gente quase nunca consegue viajar para Nova Ladeira para um passeio assim, e mais parece que você nem quer ir!
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  — Bruna, você quer ir à frente? Vai logo! Porque quanto mais você insiste nesta discussão, mais eu me atraso, e no final a culpa da sua birra cairá sobre mim!
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  — Bernardo Macedo! Você é o pior namorado do mundo! Sabe que eu odeio este lugar, e está tentando acabar com a minha ida para o shopping! Quer saber? Você vai morrer enfurnado neste fim de mundo, capinando esta fazenda e eu não vou estar aqui para ver isso!
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  A garota gritou e deu as costas, apressada, caminhando de volta ao casarão da família Macedo.
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  — Aonde você vai sua garota mimada?! — Bernardo gritou impaciente.
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  — Vá se catar! Eu vou correr antes que o Gabriel e o pai dele saiam sem mim! — falou sem parar, e olhou para trás dando o dedo do meio para o namorado.
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  Bernardo começou a rir da atitude da garota que apesar de irritante, impetuosa e infantil, o divertia. Correu para prender o cavalo na baia, deixou os equipamentos em um canto qualquer do estábulo e pôs-se a correr atrás dela de volta ao casarão:
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  — Então corra bastante! Porque eu vou pegar o carro e nem vou te dar carona na estrada, sua irritante!
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  — Seu ridículo! Você não disse que poderia pegar a lata velha! Anda logo! Eu vou te esperar no carro!
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  Bernardo sorriu, numa ação acidental, com a lembrança, enquanto podia vislumbrar a cena de quando tinha seus dezoito anos e vivenciou aquela discussão com a mãe de Carolina bem ali, na fazenda. Depois de dissipar como névoa a lembrança de suas vistas, Bernardo sentiu o sorriso morrer e soltou uma lufada de ar, pesarosa. Ultimamente recordava-se de Bruna com mais frequência, e estava odiando aquilo. O som dos passos da sua mãe não foi despercebido por ele, mas só a reconheceu quando sentiu o perfume de seu hidratante corporal. A senhora parou ao lado dele e sorriu.
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  — Mamãe…
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  — Meu filho. — ela respondeu ao homem e acariciou o cabelo dele.
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  Observou-o ali, relaxado, pensativo e torcia para que em sua cabeça, não tivesse preocupações.
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  — Você está mais calmo?
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  — Esta mulher ainda não me viu nervoso de verdade. — falou com tom irônico sobre Nicole, para a mãe que apenas revirou os olhos.
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  — Eu estou me referindo à decisão da sua irmã.
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  — Eu não concordo e não entendo. Mas, as coisas da Rosa são da conta dela, e não minha. Assim como as minhas não são da conta de ninguém, não é dona Cora? — falou direcionando os olhos à mãe.
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  — As coisas dos dois são da minha conta sim, seu moleque! Eu sou sua mãe! — Dona Laura riu e então puxou o filho pela mão para sentarem-se em sua cama, e lhe disse: — Por que toda esta resistência com a Nicole?
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  — Não confio em quem não conheço e a senhora sabe disso.
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  — Ela é confiável meu filho… E vocês podem se dar bem!
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  — Não me venha de novo com a coisa de “vocês são primos” porque não somos, mãe. Ela é filha adotiva do seu irmão e em nenhum momento me recordo deste laço!
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  — Por isso eu estou tentando fazer vocês criarem qualquer laço que seja. Bernardo… Eu quero tanto vê-lo feliz, meu filho! — Os olhos de dona Laura Coralina denunciavam um brilho emotivo.
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  — E quem falou à senhora que eu não sou feliz?
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  Não havia resposta. Os motivos que dona Coralina demonstrava para Bernardo sobre a recepção de Nicole, não tinham uma lógica. Não era como se ela desejasse que o filho, apenas recebesse a mulher como uma prima distante. Embora, dona Cora escondesse as razões abaixo deste discurso. E, na verdade, se eram aqueles os motivos reais de Laura, os filhos também não saberiam.
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  Cansada de tentar aquele assunto novamente, sabendo que Bernardo era como o pai e precisava ser levado em banho-maria, dona Cora o abençoou e beijou a sua testa. Desejou-lhe uma boa noite, e saiu do quarto do filho. Fechou a porta e Bernardo deitou-se, mas como se soubesse que ele faria o que faria, a mãe o espiou um pouco na greta da porta, e viu-lhe abrir a gaveta da mesa de cabeceira. Não era preciso que dona Laura visse a cena toda ou perguntasse, para entender o que ele estava montando, com aqueles pedaços de papel.
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Lelen

Olha… Bernardo vai ter que lutar MUITO pra me convencer que ele não é babaca, só digo.
MEU DEUS, QUE HOMEM CHATOOOOOOOOO. Vai fazer terapia pra deixar as mágoas pra trás, vai. u.u (Corta pra daqui a pouco, eu passando pano pra Bernardo kkkkkkkkkk)

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