Capítulo 2 • Conhecendo O Novo Lar
O Sol incidia fraco pela janela do quarto, Nicole abriu os olhos calmamente e percebeu quão cedo era. Levantou-se indo ao banheiro e fazendo o mínimo de barulho, se arrumou para descer. O banho da manhã, para seu espanto, era geladíssimo, a mulher batia o queixo ao sair do chuveiro e com isso, agasalhou-se ao voltar para o seu quarto. Abriu a janela, e saiu pela portinha da sacada, assim pôde assistir ao nascer do Sol ali, uma vista linda! Avistou um casarão azul desbotado, algo parecido com um celeiro e um vasto campo verde. Montanhas ao fundo desenhavam o horizonte como um quadro, e não eram montanhas muito longínquas.
Bernardo saía do celeiro naquele momento, e Nicole tentou não deixar aquela figura junto à lembrança da noite passada estragar o seu dia. Deu as costas para a sacada e desceu ao térreo, notando nenhum movimento. Timidamente caminhou em direção à cozinha e como o cômodo ainda dormia, ela mesma resolveu preparar o café. Procurou sem o menor vestígio de intimidade: o bule, o coador, o pó de café e outros utensílios. Um pedaço pequeno de bolo, que sobrara da tarde anterior, estava sobre a mesa. Havia biscoitos caseiros também em um pote, mas da forma como viu a pequenina Carolina comê-los, Nicole supôs não terem sobrado muito mais do que aqueles que estavam ali. Então ela procurou ingredientes para preparar outro bolo.
Encontrou fubá, queijo e erva-doce, e assim preparou um bolo de fubá cremoso com queijo. Receita da sua saudosa mãe. Enquanto a água fervia e o fogão à lenha aquecia, Nicole batia a mistura homogênea sorrindo para um relógio engraçadinho que notou à parede acima da pia. O rosto de uma vaquinha com os números e ponteiros que marcavam seis da manhã. Untou o tabuleiro que com muito vira e revira encontrou e o forno, pré-aquecido, já pegava brasa. Coou o café e aumentou a lenha a fim de que as chamas subissem e rapidamente o bolo assasse. Com uma canequinha de barro — dessas dos tempos de vovó — serviu-se de café e foi até a varanda da frente, e por um instante o seu mundo conturbado e de ponta-cabeça desaparecera.
Que linda paisagem avistara! Um horizonte alaranjado, a enorme bola de fogo solar suspendendo no céu, as galinhas cacarejando pelo quintal como se louvassem aquele amanhecer. Canelinha, o cãozinho franzino da casa, era a imagem da preguiça. Deitado sobre as patinhas cruzadas, à beira da escada da varanda olhando ao Sol e ao festejar das galinhas, tão indiferente… Para ele deveria ser monótono passar todos os dias pela mesma cena, mas para Nicole era novidade. Uma garota da selva de pedra, da grande cidade de São Paulo que estava diante à vida aparente.
Ela ficou absorta naqueles novelos de natureza e magia da vida até Rosa se aproximar desejando-lhe um bom dia. Conversaram um pouco e Nicole a seguiu para a cozinha, Rosa tinha em seus braços alguns papéis e na mesa apinhou-se a corrigi-los, explicou tratarem-se das últimas provas de uma turminha do ensino fundamental para quem ela dava aulas. Serviu-se de uma xícara de café e ao ver as xícaras que Nicole pegava, riu.
— As xícaras novas estão na prateleira superior do armário branco, Nicole. Não use estas velhas canequinhas!
— Eu prefiro essas velhas e tradicionais canecas de barro, Rosa. É algo que não tenho muito de onde venho.
— Bernardo também só usa essas ou as preferidas dele: as esmaltadas. Não sei como ele não perde os beiços com aquilo! Diz que o gosto de tudo é diferente nas canecas e nos pratos esmaltados. — Ela disse sorrindo.
Ao terminar com as pouquinhas provas, Rosa, que apenas bebeu uma xícara de café, subiu novamente para organizar suas coisas. Dona Laura desceu feliz e sorridente, abraçando forte à sobrinha que limpava a recente louça suja. Fazia frio e a senhora tinha os cabelos úmidos, o que fez Nicole a prevenir a secá-los. Titia sorriu ao ouvir a recomendação preocupada da sobrinha, afagou seu rosto ao responder-lhe, sob uma risada fina e estridente, de que iria subir para pedir à Rosa o secador emprestado. Nicole sorriu a observando e retornou ao bolo que já estava pronto, retirando o tabuleiro do forno e o partindo nele mesmo, afinal, como sua mãe lhe ensinara: “bolo quente não se desenforma!”.
Bernardo adentrou pela porta da frente da casa, após retirar as botinas cobertas de lama, as deixando ao pé da varanda e pendurando o casaco grosso de lã no suporte atrás da porta. Foi até a cozinha e ao perceber Nicole ali, sua expressão, apontou que ele ainda estava mal-humorado. Na noite anterior Nicole deixou-se intimidar pela grosseria dele, mas não iria dar asas àquilo. O enfrentaria se preciso fosse porque não poderia ir contra a própria natureza. Se ele tentasse, ela também lhe daria uns coices. Bernardo evitava a olhar enquanto lavava as mãos na pia, onde ela estava apoiada.
— Bom dia. — falou.
— Bom dia.
Embora não tenha sorrido, seu olhar demonstrou uma trégua. Ou talvez Nicole interpretou errado, mas independente disso, ela decidiu ser gentil. Quem sabe ele fosse gentil também? Pegou uma canequinha de barro e antes de servi-lo perguntou:
— Com açúcar ou sem?
Bernardo a olhou surpreso e insistiu que ela não precisava se incomodar, mas a mulher também insistiu, gentilmente.
— Sem.
— Também o prefiro assim. — entregou-lhe a caneca e emendou: — O bolo está quentinho. Não deve ser tão bom quanto o de sua mãe, mas garanto que está gostoso.
Ele sorriu irônico e comeu, aproveitando a brecha para provocar:
— Dá para comer.
Bernardo não estava disposto a ser gentil e, diante desse fato, a saída era ignorá-lo. Dona Laura e Rosa vieram à cozinha caladas e os espionavam a espera de que o homem fosse um pouco mais delicado com Nicole. Mas, a atmosfera tensa entre os dois era notável. Carolina chegou um pouco depois, bem faminta, e todos se sentarem à mesa juntos. Após o café da manhã, Nicole não mais viu Bernardo, ele saiu de casa e não havia voltado, até sua irmã e sua mãe começarem a pensar no almoço. Carolina, que saltou à cozinha animada, de repente puxou Nicole para dar uma volta na fazenda. A mulher insistiu em negar porque queria ajudar à sua tia e prima nos afazeres domésticos. E a criança, mais do que prontamente, olhou para a Rosa e a avó com olhos de piedade.
— Não, Nicole, tudo bem. Mamãe e eu vamos adiantando as coisas aqui. Até porque, Carol estuda à tarde. Ela quer te mostrar a fazenda.
— É querida! Aproveite e passe na horta! Traga-me umas folhas de couve!
Assim, seguiram as duas num passeio rápido pela fazenda, aos arredores da casa. O dia parecia não mais tão frio como ao amanhecer, porém também não estava quente. Apenas ameno. Brisa suave das montanhas mineiras. O ventinho brincalhão cortava o rosto de Nicole bagunçando seus cabelos. As preocupações, os fantasmas e tormentas em sua mente continuavam, porém, quanto mais se entregava àqueles ares sentia como se os monstros hibernassem, se escondessem ou até mesmo a esquecessem.
— Vovó falou que você vai ficar para sempre! — De imediato a pequenina soltou.
— Bem… Sabe Carol, eu ficarei apenas o tempo suficiente.
— Ela também disse que você acha isso.
— Ah, é!? E estou errada?
— Eu não sei. Mas, eu prefiro acreditar que sim. Papai me disse que quando a gente acredita com vontade, acontece.
— Ele está certo.
Nicole sorria da inocência da pequenina que não sabia dos monstros da sua vida.
— Então a senhorita estuda à tarde?
— É! Na mesma escolinha que a minha titia trabalha!
— Sua mãe também trabalha lá?
— Minha mamãe? — Carolina perguntou confusa e assustada.
— É… Ela estava corrigindo algumas provinhas hoje bem cedo.
Foi então, que a pequena menina estrondou uma risada gostosa e alta. Daquelas de doer à barriga e tudo! Carolina percebeu o erro de Nicole, mas a mulher ainda não estava a entendendo:
— Eu disse algo errado?
— Sim! Você acha que a titia Rosa é a minha mamãe!
Ela apontava o dedinho para a mulher gargalhando mais gostoso. Então dando conta da própria confusão, Nicole riu bem divertida contagiada pela alegria da criança.
— Bem! Mas o que eu poderia pensar?
— Que ela é minha titia sua bobinha. — respondeu e continuou pulando, caminhando à frente — A horta é ali! Vem!
Carol gritou apontando uma pequena área cercada, e saiu correndo. Nicole se apressou e abriu a portinhola da horta, que por sinal tinha lindas e frondosas plantações. Enquanto colhia as couves, Carol colocava-as em um cesto e depois que saíram dali, as duas continuaram com o passeio. Carolina lhe mostrou o chiqueiro, o celeiro, os pastos com o gado, os cavalos, as ovelhas e o galinheiro. Havia um rio que passava ao fundo da propriedade, e ao atravessá-lo chegava-se ao outro lado da fazenda da família. Porém, por lá, nada mais tinha a não ser a verdejante campina onde os bois e vacas pastavam.
Depois que voltaram, auxiliaram a senhora Laura no preparo de um típico almoço mineiro, com direito a torresmo pururuca, polenta e couve refogada. Rosa preferiu lidar com a arrumação da casa, pois segundo ela era melhor, já que após o almoço teria que ir trabalhar. Carol organizou seu material escolar, assistiu os seus desenhos animados e almoçou, indo tomar banho à metade das onze horas. Pediu ajuda de Nicole para arrumá-la, e na hora de pentear os cabelos a pequenina pediu que ela os arrumasse como os próprios cabelos de Nicole estavam: em uma trança embutida. E também quis passar o mesmo batom que ela, era de um tom rosado muito fraquinho, que se assemelhava ao tom de boca, porém brilhava. Então, ao finalizar, as duas desceram as escadas como completas cópias uma da outra. Carolina, de fato, era uma criança muito amável! Recebeu à Nicole com muito carinho desde que ela chegou, e sem ao menos saber a fez se sentir extremamente acolhida. Ao aparecerem as duas no topo da escada, titia e Rosa elogiaram a menina, que fazia pose de princesa em resposta. Bernardo estava ao lado delas, recém-chegado ao cômodo e olhava para a criança, hipnotizado. Carol correu até ele pulando em seu colo e o abraçando.
— O que achou papai? Estou bonita?
Naquele instante, Nicole estava esclarecida. Era Bernardo o pai de Carolina, e não Rosa a mãe, como ela pensou. E percebeu também que Carolina não tinha muito os traços do pai.
— Linda, minha filha.
— Igual à Nicole?
— Mais bonita do que a Nicole.
— Não papai. Ela é muito mais bonita!
A menina disse e descendo do colo dele direcionou-se à mulher, agradecendo-a num abraço carinhoso e com beijinhos no ar há poucos ensinados por Nicole, para que não borrasse o batom. Enquanto os adultos voltavam à cozinha para o almoço, Carolina ficou na sala assistindo ao fim de seus desenhos, e pediu para almoçar ali.
— Nicole, hoje o meu noivo vem aqui para tratarmos dos últimos preparativos do nosso casamento. Você vai adorar conhecê-lo! — Rosa lhe contou à mesa, empolgada.
— Ora, muitas felicidades. Eu não sabia!
— Ela iria te contar ontem no jantar. — Bernardo falou ríspido como se julgasse a ausência mal-educada de Nicole, em seu primeiro dia.
— Bem, eu devo desculpas a todos por não vir jantar ontem. Eu estava exausta e precisava mesmo descansar. Eu não seria boa companhia no estado em que eu estava.
— E quando você é boa companhia? — Novamente Bernardo alfinetou, desta vez sendo repreendido por titia.
Instaurou-se um clima desconfortável, até Rosa quebrá-lo:
— Então Nicole… Logo eu irei me mudar.
— É uma pena. Ao mesmo tempo, não é tão ruim, afinal, agora que estamos próximas poderemos nos ver sempre, não é?
— Com certeza! E eu estarei tranquila sabendo que você estará aqui cuidando da mamãe, da Carol e do mais difícil, o Bernardo.
Ela e titia riram, mas Bernardo e Nicole se olharam como rivais, num papel que ambos passaram a vestir sem perceber.
— Eu agradeço muito a consideração de vocês, mas eu não pretendo ficar muito tempo.
— Isso é o que a senhorita pensa. — disse titia.
— Não tome como uma desfeita, mas eu realmente preciso organizar minha vida, titia. Hoje mesmo se possível eu gostaria de ir aos correios saber se tem alguma carta para mim. E é claro que, só andando pela cidade é que eu saberei das oportunidades.
Bernardo se levantou e colocando seu prato na pia saiu silencioso. Depois que ele havia saído do campo de visão das mulheres, mãe e filha começaram a justificar:
— Ele acha que não é saudável sua convivência com Carol, pois, se você realmente for embora, sabemos que ela vai ter se apegado a você. — disse Rosa.
— E ele não está errado. Hoje Carol falou que eu ficaria para sempre aqui e eu conversei com ela, mas ela é firme e acredita muito nesta minha permanência. Coisa que pelo que notei, titia colocou na cabeça da menina.
— Você não vai querer ir embora daqui querida. — Laura disse convicta e sorrindo para ela: — Você pode não acreditar, mas eu sei que não.
Depois de tudo aquilo, Nicole resolveu não tocar no assunto para não contrariar a titia. Rosa saiu para trabalhar, Carol para estudar e Bernardo as levaria.
— Você não vai ao correio? — Bernardo perguntou ao se aproximar de Nicole que ajudava sua tia com a limpeza do almoço.
— Sim.
— Vamos então! Não tem lotações por aqui.
~ ♥ ~
A picape era cabine simples, mas os quatro foram nela para a cidade, Carol sentada no colo de Rosa e Nicole no meio do banco. Chegando ao centro, Rosa e Carolina foram para a escola que se localizava ao entorno da pracinha, e Bernardo guiou Nicole até o correio a explicando onde eram os comércios principais. Não havia carta alguma para ela, nem telegrama, nem entregas, nem nada. Então os dois voltaram silenciosos ao carro. E sem que ela percebesse, Bernardo dirigiu até a delegacia. Parou na frente do pequeno prédio simples de um andar, uma casa antiga, com o título que indicava o número do batalhão, e pigarreou encarando Nicole, de modo grosseiro e desafiador:
— Não quer dar uma olhada por lá?
— Com certeza se houvesse alguma carta para mim na delegacia, seria de urgência tanta que o próprio delegado entregaria.
A mulher respondeu, desconcertada com aquela atitude, pois, ele não pretendia fazer favor algum, apenas a provocar.
— Certo. E não quer entrar lá? Você é delegada, não é?
— Sim.
— Se bem que, se você entrar, é capaz de não voltar, não é? Foi por isso que veio para cá? Para se esconder?
Ele manteve o tom sarcástico e desviou o olhar do rosto dela. Nicole encarou ao homem com fogo em seus olhos. Estava com raiva, não acreditava que ele usava os seus problemas pessoais para lhe afetar! Ele iria mencionar mais alguma coisa, porém ela desceu do carro e o deixou falando sozinho. Saiu caminhando a esmo, enfurecida. Bernardo observou a mulher sair pisando fundo, e respirou arrependido. Quão imaturo ele havia sido? Expulsá-la pelo desconforto não precisaria chegar a tanto, precisaria? Ela chegou até o marco central da praça, e de repente parou de andar, nervosa. Olhou à sua volta indignada consigo. Por que estava se rendendo a uma provocação infantil? Que ridículo! Pronta a dizer umas verdades a ele, Nicole se direcionou novamente ao encontro do estúpido Bernardo, e esse por sua vez vinha ao encontro dela para se desculpar pela provocação inútil.
— Escuta aqui, quem você pensa que é?
Bernardo mal teve tempo de respondê-la. Nicole lhe apontava um dedo, e gesticulava indignada à frente dele à medida que falava. O homem olhava a praça vazia à sua volta, e tentou dizer a Nicole que eles deveriam se acalmar e lhe pedir desculpas, mas a mulher tagarelou impávida.
— Tudo bem você não gostar de ter uma estranha sob o mesmo teto que o seu! Você não gostar de mim sem me conhecer é injusto, mas até comum! Agora… Seja adulto e deixe as coisas bem claras! Não venha utilizar os meus problemas pessoais para me afetar! Sinceramente, nem a sua filha teria atitude tão infantil!
Aos poucos, pessoas começavam a surgir paradas ali à medida que caminhavam pelo local e notavam uma discussão que decidiam assistir. Bernardo começou a se sentir constrangido. Ele era conhecido na cidade e sempre muito discreto. Desde sua adolescência, quando brigava na porta da escola, não vinha sendo o centro de uma atenção como aquela.
— Bernardo, eu não pretendo ficar naquela casa por muito tempo, então tenha caridade, por favor! Eu sou uma sem-teto agora e jamais planejei estas mudanças todas na minha vida, tá? Então seja inteligente e me ajude a encontrar um emprego, em vez de ficar me provocando! Eu não conheço nada por aqui e vou mesmo precisar de outras pessoas! Sem dúvida seria o melhor para nós dois!
Farto de apenas ouvir, farto dos olhos curiosos que pelo visto, Nicole não havia percebido sobre eles, Bernardo se aproximou apressado em dar uma resposta e sair urgente dali:
— Eu sei exatamente o que você quer, e não estou de acordo com a sua presença! O que eu puder fazer para me livrar de você será feito. — Ele disse entrando de novo no carro e olhando para Nicole pela janela concluiu: — Não pense que as ideias infantis da minha mãe serão concretizadas!
Acelerou com o carro e foi embora. Ela ficou tão indignada com a frieza e estupidez da reação dele que se sentiu desnorteada. Àquela altura a pracinha em peso a olhava. Nicole se percebeu compositora de um concerto público do mais alto escalão. Um barraco, precisamente. Na porta da delegacia, o delegado, o escrivão e um policial civil olhavam na direção dela, estudando sua figura. Claro, por parecer uma pessoa sem classe que fica gritando pela rua, e o principal: por nunca ter sido vista. Cidade de interior, notícias corridas e o infeliz fato de todos saberem uns das vidas dos outros. E o engraçado nisso tudo é que a própria Nicole havia espalhado a notícia.
Teria um lado bom naquilo, ela não explicitou a raiz de seus problemas mais sérios e agora todos sabiam que ela procurava emprego. Nicole sorriu sem graça aos oficiais à sua frente e dando-lhes as costas caminhou até uma vendinha típica de interior, uma mistura de mercearia e bar. Puxou uns trocadinhos e comprou um guaraná, que para a sua doce surpresa, era daqueles refrigerantes antigos engarrafados em vasilhames de vidro, como as garrafas de cerveja. Retomou lembranças da sua infância. Mesmo em São Paulo, quando seus pais residiram na tradicional cidade de Taubaté, ela pôde experimentar aquelas bebidas tão doces e cheias de gás. Sem dúvidas, aqueles refrigerantes sempre foram os mais saborosos, na concepção de Nicole.
A vendinha estava vazia e Nicole adentrou-a namorando a arquitetura do minúsculo centro urbano e a decoração do botequim. Começou, avaliando onde estava, o balcão em que se sentara tinha o tampão de ardósia e as paredes eram de tijolinho vermelho. As banquetas de madeira esculpidas à mão, muito rústico e bonito. Nada rústico chique como se costuma ver nas cidades grandes montados propositalmente. Ali, refletia-se o simplismo. As mesinhas tinham em sua base, grandes tocos de troncos, tampão também em madeira e as cadeiras, com palha forradas e trançadas. Humilde e aconchegante. Nas paredes decorações roceiras típicas.
Partindo o olhar para fora do estabelecimento, os comércios circundavam a praça com banquinhos brancos, jardins e no centro dela uma igreja. Em volta, a delegacia, a escola de frente para a delegacia, o mercadinho onde ela estava e a farmácia, a sorveteria, uma padaria, e por fim uma casa. Sim, apenas uma casa de frente à igreja. Morador privilegiado, pois, era tudo muito bonitinho de se dar de cara todos os dias. E claro, como toda praça de interior que se preze, carrinhos de pipoca e algodão-doce. Crianças corriam, soltavam pipas, brincavam, pulavam corda, amarelinha, pulavam elástico… Tudo isso, na pracinha que parecia um parque de diversões.
Um garotinho entrou na vendinha e voltando-se à senhora vendedora pediu:
— Saquinho de um real, de bolinhas de gude dona Carlota!
Olhou na direção de Nicole como se a analisasse e enquanto ela sorria para ele, o menino espevitado agradeceu à senhora. Sorriu para as duas e voltou às brincadeiras. Há quanto tempo Nicole não via bolinhas de gude! E ao lado das bolinhas, no balcão avistou um pote com piões e outro com ioiôs! Os olhos da mulher cintilavam.
— Com licença, por favor, quanto custa o ioiô?
— Dois reais. Quer um?
A senhora dizia-lhe sorrindo. Sorria, certamente pelo espanto e maravilha da mulher, diante àquelas coisas.
— Sim, por favor.
Nicole mal esperou ela conferir o troco e já foi amarrando a linha, colocando o brinquedo no dedo e brincando. Pegou seu troco da mesma forma que o garotinho, que deu mais atenção às bolinhas do que à devolução do seu dinheiro. A senhora Carlota começou a rir de mulher, enquanto ela brincava deliciosamente. Tentava se recordar daquelas manobras que fazia com o brinquedo na infância, mas não obteve muito sucesso. A sensação de voltar no tempo era tão inexplicável! Era também, um anestesiante de problemas incrível!
— Há anos eu não vejo um ioiô! — Nicole disse para a senhora.
— Chegou à cidade há muito tempo? — Com a pergunta dirigida a ela, Nicole pensou que deveria mesmo demonstrar trejeitos de garota urbana.
— Ontem, na verdade. Muito prazer, meu nome é Nicole.
Ela sorriu, e estendeu a mão livre para cumprimentar a senhora, sem parar de brincar com o ioiô.
— Carlota. Seja bem-vinda Nicole.
— Muito obrigada! — respondeu sorridente e retornou ao banquinho que estava sentada, guardando o brinquedinho no bolso do moletom.
— E o que está achando de Mato Alto?
— Estou maravilhada. É tudo muito lindo por aqui, me lembra a minha infância.
— Entendo. Eu também repenso na minha infância quando paro para admirar tudo em volta. Assim como esse garotinho eu corria até esse balcão e pedia ao meu avô, os piões e ioiôs.
Dona Carlota olhava para o nada como se relembrasse as próprias narrações. Elas conversaram bastante, e entre um assunto e outro sem dar muita indicação da sua especialidade, Nicole perguntou à senhora sobre oportunidades de emprego. E logo, dona Carlota lhe indicou algumas pouquíssimas possibilidades. Nicole agradeceu a ajuda e despediu-se prometendo voltar. Foi até a praça, e o padre que caminhava até a igreja a cumprimentou, ela respondeu-lhe com um sorriso, mas de repente sentiu uma mão em seu ombro. Era o sacerdote que voltara para lhe fazer um convite:
— Boa tarde, senhorita. Por que não entra para conversar um pouco com Deus sobre a sua vida?
Poderia ser que as fofocas tivessem corrido mais do que carro de fórmula um e chegado aos ouvidos do vigário, ou aquilo foi um sinal de Deus. Nicole nunca foi religiosa do tipo que sempre ia à igreja. Ela tentou seguir dogmas cristãos algumas duas vezes, mas o seu coração não se libertava de certos conceitos e sua cabeça procurava razão para tudo. Sempre tivera fé na existência de uma divindade, mas se prender à religiosidade não era possível. Contudo, não poderia negar que aquela aproximação a assustara, e muito sem graça em negar, Nicole aceitou. Como recusaria uma conversa com Deus? Apesar de sua não religiosidade, ela pensava que independente do lugar, Deus escuta e sempre está atento a se por ao nosso lado. Pensamento esse, herdado dos pais católicos. A delegada achava que não era preciso entrar naquele santuário para falar com Deus. Mas se Ele a convidara — pois, preferiu acreditar que o padre servira de instrumento divino para aquele apelo do que fofoqueiro —, ela não recusaria.
A igreja era muito bonita e antiga. Arquitetura renascentista com pinturas que dão vontade de chorar. O padre disse para ela ficar à vontade e que se precisasse conversar com ele, apontou a sacristia onde estaria. As pernas de Nicole naquele momento demonstraram a necessidade da sua própria fé. Sem perceber, ela se aproximou de imediato ao altar e quando deu por si, estava ajoelhada. Pausou todos os seus pensamentos. Esqueceu tudo ao seu redor. A sua mente ficou escura. Vazia. Então as palavras saíam por sua boca, em sussurros como badalos do seu coração. Coisas que ela pensava ter superado, como a descoberta da sua adoção e o fim do seu antigo relacionamento, vieram à tona naquele esboço de oração. E coisas que ela nem cogitaria partilhar com Deus no quesito “preocupações” também. Entre elas, a complicação de ter que abandonar titia e Carol naquela casa futuramente, e o medo que ela percebeu sentir de Bernardo. Medo, exatamente isso. Este sentimento irracional para aquela situação, e um tanto quanto opressor que ela negava assumir sentir por ele.
Nicole percebeu tempos depois, que seus medos surgiram após ter sido realmente traída pela verdade de quem ela era. Traída por quem julgava ser leal a ela, e traída por seus próprios sentimentos. E quando fez aquela recém-descoberta, ela não a aceitava! Medo? Que absurdo! Sempre fora muito forte e decidida! Inadmissível um sentimento tão covarde em si! Mas o tempo ensina, e Nicole aprendeu que para ser forte não se repele a covardia e que o medo não é sinal de fraqueza. É sinal de humanidade.
Sentiu-se renovada após aquela oração. Foi bom compartilhar seus incômodos. Ainda que titia, Carol e Rosa fossem muito gentis e adoráveis com ela, Bernardo parecia que transformaria tudo em uma nuvem tempestuosa. E cá entre nós, quem consegue sentir-se confortável com uma tempestade prestes a cair sobre sua cabeça a qualquer momento? Ela não tinha este dom. Despediu-se agradecida do padre e retornou para a praça. Perguntou as horas ao pipoqueiro e o tempo marcava uma e trinta da tarde. Já estava na cidade há uma hora e meia, e sem dúvidas, o bronco que a deixara por lá, já estaria na fazenda. Avistou um senhor, aparentemente no auge de seus sessenta e poucos anos, sentado na calçada em frente à ilustre casinha privilegiada da praça. Nicole se aproximou decidida a pedi-lo informações sobre como poderia voltar à fazenda.
— Boa tarde.
— Tarde! — respondeu ele com sotaque forte.
Escutava um rádio de pilha antigo, tocando modas de viola muito boas, por sinal.
— Como vai o senhor?
— Eu tô’ bem, só tentando pegar um Solzim safado prá esquentá e espantá um pouco desse frio besta. — Ele disse e deu uma gargalhada muito simplória, a perguntando: — E você minha fia?
— Estou bem também! Muito obrigada! Mas, estou também perdida por estas bandas.
Nicole sorria suplicante, e ele endireitando a coluna corcunda e com as sobrancelhas arqueadas em dúvida, a perguntou, surpreso:
— Uai! É?
— Estou morando com a dona Laura na fazenda dela. É mãe de Rosa e Bernardo. O senhor a conhece?
— Ô! Se, conheço! Laura Coralina! Amiga minha das antigas. Mas, eu não sabia que ela tinha uma neta marmanjona.
Nicole não só gostou de cara daquele senhor por seu bom humor, como também pela sinceridade nas suas palavras. Se aquela moça da cidade ficaria ofendida? O problema seria todo dela!
— Não, senhor, eu sou sobrinha.
— Ah sim! Ela tem apenas a Carolzinha de neta, né!
— Sim. Pois, bem! Eu me perdi na cidade e não sei como voltar à fazenda. O senhor saberia me ajudar?
— Mas, ocê vêi sozinha?
— Não, o Bernardo me trouxe só que nos separamos.
— Ele deve de ter visto um boi, não é?
Nicole não entendeu a pergunta, encarava confusa ao velho senhor, que a sorria com olhos miúdos, mas logo foi se explicando:
— Pra esquecê ocê, deve de ter avistado um boi gordo pra fazenda.
— Ah sim, pois é! — Ela afirmou sem graça por não entender o que aquele senhor queria dizer: — Eu não tenho certeza, apenas nos perdemos.
— Ele deve de tá te procurando.
— Não, eu disse a ele que resolveria algumas coisas, então deve ter pensado que eu dei no pé.
— Uai! Eu hein! Esse minino tem umas ideias muito frouxas! Deixar uma moçona nova na cidade, perdida e solta assim? Na minha época nóis cuidava melhor das nossas mocinhas! — E novamente explodiu-se risada simplória.
Nicole não resistiu à risada dele, e riu também.
— Deve ter sido uma época boa, essa do senhor…
— Aqui não tem lotação. Pelo menos, não pras bandas da fazenda! Ocê tem que ir de a pé. Eu até ajudaria, mas só se eu chamar o Carlinhos.
— Carlinhos?
— É meu afilhado. Ele trabalha lá na farmácia.
— Não precisa incomodar! Eu até vou gostar de ir andando!
— Ocê conhece o caminho da estrada?
— Conheço, sim, eu só não sei como chegar até lá.
Patavina que Nicole conhecia coisa alguma! Mentiu para que ele não incomodasse o afilhado. E acreditava que seria melhor aprender a andar a pé até a fazenda. Sem dúvidas andar no carro com o Bernardo, de novo, seria difícil, se não, no mínimo arriscado.
— Então faz assim: ocê vai andando até a rodoviária. Sabe donde é?
— Sim, sim.
— Pois é! É lá! Aí ocê caminha um pouquim mais pra frente, e vai ver uma escola. Continua andando, que uns… — Ele parou pra pensar — Deiz metro à frente da escola, ocê vai ver o cemitério. Aí continua andando, mas cuidado com os mortos!
Ele gargalhou a encarando, e ela sorriu confusa com aquela figura carismática e quase lhe beirando a caduquice.
— É piada moça! — rindo continuou: — Então mais ou menos outros deiz metro depois do cemitério, ocê vai ver uma rua cheia de casebres. O povo lá é gente fina dimais da conta! Tenho até um conhecido lá que ficou de me visitar faz tempo! Tô’ achando que ele até morreu. Ou enricou né?
Os cortes de foco, nas conversas de interior, também eram muito divertidos, ao olhar de Nicole. É o que puxa um desencadeamento de assuntos que fazem as pessoas até se perderem, nos causos, nas modas. Uma sequência de falas e contos em que uma simples conversa pode se tornar um cordel.
— Ocê entra nessa rua e vai toda a vida. No fim dela ocê vai vê uma placa que diz “Entrada da Estrada Cascalhosa” e aí ocê já chega à estrada. Segue toda a vida tamém, depois do terceiro mata-burro tem duas entradas, aí eu não lembro qual que é, mas ocê disse que sabe, né?
— Sei sim!
Nicole apostava no uni-duni-tê mentalmente.
— Como é o nome do senhor?
— É Aguinaldo! Mas, todo mundo me conhece como, Guino! E a vossa graça?
— Nicole.
— Ô Nicole! Então faz isso que eu te falei minha fia. Mas ó, num demora não porque é muito chão pra andar e logo escurece! Quando a gente tá no mato, nem vê o tempo passano!
— Ah! Com certeza! Muito obrigada, Senhor Aguinaldo! Foi de muita ajuda!
— Da onde. Carece de agradecer não. Depois ocê volta pra tomar um café e prosear mais!
— Voltarei. — Ela sorriu agradecida.
— Diga pra Cora vim aqui. Ela tá sumida e eu não tô’ gostano disso não!
— Pode deixar que eu mandarei o recado direitinho.
Novamente disse adeus e foi embora.
Inscrever-se
Acessar
0 Comentários
mais antigos