Capítulo 11 • Quem precisa de uma mãe?

06 de Maio de 2019.

Tia Cora pretendia ir à cidade fazer compras e visitar o seu velho amigo, Senhor Aguinaldo. E Nicole deparou-se como sempre, com Bernardo discutindo com a mãe por conta da picape. A senhora sofria de labirintite e o filho, sempre preocupado pela condição e idade dela, não achava seguro que dirigisse. Mesmo ele se dispondo a levá-la, dona Laura não aceitava, afinal, dirigir também era algo que ela gostava de praticar. Diante da situação, Nicole achou uma boa ideia que acompanhasse a tia naquela tarde. Buscariam a pequena Carolina, e Bernardo, ainda reclamando, não foi capaz de impedi-la. Titia, mais uma vez, venceu a disputa. Enquanto Laura Coralina ia se arrumar, Nicole permaneceu observando o filho insatisfeito com o fato dela dirigir. Bernardo fazia algumas anotações, na mesa da varanda dos fundos, as quais Nic nunca entedia o que eram, mas ficava curiosa.
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  No caminho à cidade titia ligou o rádio e cantarolava as modinhas da estação local. Uma rádio pequena com apenas três locutores que se dividiam por turnos, conhecidos por todos em Mato Alto. Enquanto o som de Zé Ramalho embalava o sacolejar da camionete, nos cascalhos da estrada, Nic viajava na música. Ainda que Nicole gostasse de Zé Ramalho, quando ouvia suas canções na cidade tumultuosa de São Paulo, elas nunca trouxeram a ela, a mesma paz do que no cenário atual.
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  Bois das fazendas vizinhas pastavam à visão da estrada, sendo limitados pelas cercas de arames trançados. Para ela, era uma bela vista! O sol daquela manhã que aparecera com mais safadeza e tocava sua pele, realçando o seu bronzeado saudável e proposital. De olhos fechados, Nicole sentia aquele esquentar dos raios solares que lhe traziam uma sonolência branda. E o cheiro de mato trazido pela brisa aprofundou-se no seu subconsciente, a fazendo se recordar de lugares dos quais não sabia se algum dia havia estado. E lhe veio a estranha sensação de lembrar-se de um lugar pelo cheiro.
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  — No que está pensando?
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  — Sentindo o cheiro dessa brisa, eu me lembrei de um lugar, mas não sei se já estive lá…
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  — Ah, isso é comum. — Tia Cora perguntou curiosa: — Como era o lugar?
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  — Eu não sei se são lembranças mesmo. São imagens turvas, mas é como se eu visse um casebre em construção, sem pintura com telhado colonial… Em volta havia muito verde e tenho a sensação de ser carregada.
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  — Pode ser a fazenda! Logo no início que seu tio e eu a compramos e começamos a construí-la, seu pai e sua mãe foram conhecê-la e depois voltaram outras vezes, poucas. Você era muito pequenina.
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  — Sério? Titia… Será por isso, que eu me sinto tão bem lá? Digo, os ares da fazenda me trazem ótimos sentimentos!
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  — É bem possível. — A senhora sorria. — O que você quer dizer com “ares da fazenda”, querida?
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  — Você, Carolina, os animais, a paisagem…
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  — E Bernardo? — Cora perguntou na intenção de saber quais os sentimentos que Nicole nutria por ele.
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  — Bem, agora acho que já estamos conseguindo conviver no mesmo espaço sem esbarrar tanto no calo um do outro.
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  — Nenhum progresso entre vocês? — perguntou preocupada.
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  Nicole se recordou da cavalgada, dos gestos, das sensações, do sorriso dele para ela e depois, dele voltando a lhe ignorar. Então respondeu:
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  — Não.
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  Titia acenou afirmativa com a cabeça, sorriu e concentrou-se novamente em cantarolar. A mais jovem continuou olhando para fora da janela sem pensar em nada. Seus olhos eram filmadoras daquele cenário, gravando em sua memória, as lindas sutilezas do campo.
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  — Você conheceu a Lúcia ontem, não é? A moça loira!
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  — Sim! Quem é ela, tia? Achei que ela ficou tão assustada comigo, que ficava olhando para o Bernardo como se eu fosse uma aberração! — Ao se recordar, Nicole sorriu.
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  — Ela é amiga de infância do Bernardo. Morava em uma fazenda vizinha à nossa. Quando ficou mais mocinha, o pai a levou para a capital, mas não demoraram muito por lá… Eu até sabia que não iriam se acostumar! Eles não voltaram a morar na fazenda antiga, mas Bernardo e ela continuaram amigos e sempre se viam devido à escola, e por causa da Bruna também.
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  Titia fazia cara feia toda vez que citava o nome da mãe de Carol.
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  — Ela também era amiga da Bruna?
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  — Nada! Ela nunca a suportou! — Titia gargalhava — A Lúcia sempre foi doidinha pelo meu filho. Bamba das pernas mesmo! O pai dele e eu, até fazíamos gosto dos dois. Foi por causa dessa paixãozinha platônica de criança que o pai de Lúcia a levou para longe. Minha filha! — Titia contava como se estivesse relatando uma grandiosa fofoca: — Isso rendeu uma briga feia entre Fabiano e o pai dela, que você tinha que ver!
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  — Nossa! Mas eles nunca namoraram?
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  — Não, e o Fabiano faleceu antes mesmo da família de Lúcia voltar. O pai dela ficou num remorso danado! Nessas horas o Bernardo já tinha se revoltado pela morte do pai e, se não fosse a Rosa me ajudando a cuidar dele, eu nem sei o que seria desse menino! Danou a aprontar! Ele já gostava desde criança da outra lá — pronunciou sobre Bruna com desgosto — e Lúcia, coitadinha, corria atrás de até lamber as feridas dele!
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  — Lamber as feridas?
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  — É… Puxar saco! Inventava umas desculpas bobas para ir à fazenda ver ele. Nunca mais foi lá depois que voltou da capital. Eles estudavam na mesma escola, mas não na mesma sala. A infeliz da outra, estudou grudada com ele o tempo todo. Ainda na adolescência começaram a namorar, e foi por causa dela que ele desembestou a perder o juízo!
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  — Sim, mas também graças a ela, uma estrelinha brilhante enche a sua casa de alegrias. — Nic disse tentando mostrá-la que Bruna trouxera algo bom.
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  — É, isso é!
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  — Mas e a Lúcia?
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  — Ela ficou muito triste, Nicole. Bernardo mal falava com ela… Não por maldade, mas porque o mundo dele girava em seguir as pegadas da namoradinha. Ele se afastou de muitos amigos por causa da Bruna! Bernardo é muito romântico e pode ser um homem absolutamente devotado, Nicole!
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  E ao ouvir aquilo, Nicole não conseguiu conter a gargalhada que subiu à sua garganta. Ficou muito sem graça por sua reação e se desculpou com titia sem parar. Mas a velhota apenas sorriu zombeteira por sua sobrinha. Sabia que Nicole se surpreenderia um dia:
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  — Desculpe titia… Eu não consegui segurar. Para mim, soa impossível juntar Bernardo à figura de um homem romântico!
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  — Ai, ai, menina! Você não sabe de nada! Você vai ver! Você vai ver!
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  Dona Laura gargalhava da expressão da sobrinha, que estava sem entender.
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  — Como eu dizia, ele só se lembrava da Lúcia quando a Bruna não estava por perto. Um trem esquisito! Era como se ele acordasse de uma hipnose! Quando ia encontrar Bruna na cidade, ele até passava um tempo conversando com a Lúcia, que já morava lá. Às vezes Bernardo ia à casa da Bruna namorar e depois encontrava-se com Lúcia também, mais por insistência da menina. E Bernardo nunca se interessou por ela, sabia dos sentimentos de Lúcia até a época da mudança, mas depois que ela voltou ele achava que Lúcia já havia se “desiludido”. Ele nunca levou a sério os sentimentos dela, sempre a teve como uma amiga.
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  — Bernardo nunca teve jeito com as mulheres, pelo visto! A Lúcia deve ter sofrido um bocado! O primeiro amor a gente nunca esquece, não é?
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  — É… — titia sorriu nostálgica — Com o tempo, já no segundo ano do ensino médio ela decidiu se afastar. Eu mesma disse a ela! Eu tentei ajudá-la, mas, o Bernardo sempre foi cego pela outra. Então eu falei: “Olha Lúcia, você é uma moça muito bonita. Com certeza tem meninos encantados por você, não fique se contentando com as migalhas do Bernardo. É melhor você esquecer”. Chorava como uma bezerra, coitada! E acabou fazendo o que eu falei, mas toda vez que ela o vê, eu acho que é como se os sentimentos da menininha se aflorassem.
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  — E ela também não namorou ninguém?
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  — Namorou sim! Acho que até está de romance com um rapaz da capital, mas é como você disse: o primeiro amor a gente nunca esquece.
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  — Pela forma como vi Bernardo se comportar, ele realmente não dá a mínima para ela.
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  — Ela deve ter sentido ciúmes, ou no mínimo ficado com receio de ver vocês dois.
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  — Ah, nada a ver tia!
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  — Tudo a ver! Bernardo nunca se interessou por garota alguma aqui da cidade, por mais que elas corram atrás dele! Aí, de repente, ela vê uma moçona bonita como você do lado dele!?
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  — Hmm… — Nicole ponderou — Por esse lado ela pode ter feito confusão…
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  — Será que ela fez mesmo confusão? — Titia a olhou de forma duvidosa.
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  — Do que está falando? — Nervosa pela menção da tia, Nicole a perguntou com os olhos arregalados.
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  — Vocês dois… Aquela história da toalha… Eu não engoli! E Carol voltou muito saltitante do passeio a cavalo com uns olhares atrevidos pra mim!
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  — Tia! Por favor! Não. A história da toalha foi exatamente como te contei! — titia ainda não acreditava e Nicole suspirou derrotada: — Tá! Não contei “exatamente”. Ele não foi lá só buscar a Carol, ele foi para brigar comigo também! Nós discutimos e quando ele avançou para cima de mim, tropeçou. Mas, foi só isso! É sério!
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  — Hm… Sei… E os cavalos?
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  — Carol tem uma cabecinha de criança tia. Vê mais, do que acontece.
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  — E o que aconteceu?
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  — Nada de mais, eu não sei montar e como ela insistiu muito, ele cavalgou comigo… E foi a pior experiência de todas! — falou enérgica — Desculpe, sei que é o seu filho, mas não dá. Nós dois nos odiamos!
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  Titia gargalhou e sem perceber elas já estavam na cidade. Bateram à porta da casa do senhor Aguinaldo e o velhinho ficou todo alegre! Ao vê-las pela janela e correu para abrir a porta. A varanda bonita com plantas ao redor e a casa cheia de minúsculos adereços e inteiramente organizada denunciava uma presença feminina.
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  — Guino, a Isabella ainda está te ajudando na casa? — Dona Laura perguntou-o adentrando pela sala.
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  — Tá, sim, Cora! — Ele sorriu todo alegre, dando para as duas, espaço para entrar.
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  Embora não fosse, aos olhos de Nicole, ele lhe parecia solitário, então ela imaginava que o senhor carecia de visitas. Assim que estavam dentro da sala, Guino tratou de explicar para a mais nova:
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  — Isabella é minha afiada também, irmã do Carlinhos!
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  — Eu vou passar um café pra nós! — Cora saiu entrando na casa já que era amiga de longa data.
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  — Você já sabe onde fica tudo, Cora? — perguntou.
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  — Senta aí, Guino. Conversa com a Nicole.
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  Titia saiu deixando os dois a sós, sob os olhares curiosos da sobrinha que estranhara a liberdade de sua tia, como alguém que naturalmente conhece cada canto da casa. Mas se eles eram bons e velhos amigos como se dizia, aquilo também era natural.
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  — Eita, Nicole! O que achano da nossa roça?
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  — Estou adorando, senhor Aguinaldo!
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  — Ah nem! Eu num gosto desse trem não! Me chama de Guino. Guino!
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  — Tudo bem! Guino. Aprendi! — ela disse, rindo da bronca do velhinho.
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  Titia voltou se sentando com eles à sala.
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  — Pronto, a água já está esquentando. Diga lá, Guino! Como você está?
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  — Uai Cora, eu aqui nessa casquinha. — ele gargalhou.
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  E era impossível não rir com ele, a risada de Guino era a mais nova risada favorita de Nicole.
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  — E a saúde? — perguntou sua tia ao amigo.
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  — Vai bem e vai longe graças a Deus! Esses dias aí que eu andei numa tussição só! Carlinhos insistiu pr’eu ir no médico, mas eu num gosto de médico! Eles são uns enganadores! Na nossa época, lembra Cora? Era o boticário, que papai e mamãe chamavam pra dar xarope!
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  A presença simplória e roceira do senhor Aguinaldo, ou melhor, do Guino, trazia uma paz e um conforto absurdos, a quem ouvisse. Nicole à medida que o observava acreditava que aquele velho espírito estava na Terra, para justamente fazer com que as pessoas se sentissem bem humoradas, em paz e serenas.
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  — Ah, mas hoje em dia é diferente, Guino! Tem que ir ao médico sim. O Carlinhos está certo!
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  — Mas ô Cora, ele é boticário. Podia dar o xarope!
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  — É farmacêutico agora, Guino, e ele não pode mais dar remédio sem passar antes no médico, não!
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  — Procê vê! Num adiantou patavina! O médico acabou passando um xarope! Ele teve que dar o xarope do meis’ jeito. O médico disse que eu tava com resfriado.
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  As visitantes riam de forma divertida e respeitosa a cada frase dele.
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  — E então Nicole, o que conta? — ele sorriu gentil.
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  — Bem… Eu tenho aprendido muita coisa na fazenda, estou gostando muito! E estou cada vez mais apaixonada por Carol. Titia é um amor comigo, já estou morrendo de saudades de Rosa e não posso mais ficar sem o caldinho de costela que tomei na feira ontem!
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  — Uai, cê gostô então do caldo do Tadeu? Ê caldim gostoso de bão, né não? Aquele infeliz, num dá, num vende, num empresta, num passa a receita de jeito nenhum! Eu sei lá o que ele coloca naquele trem! É bão, por dimais!
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  — Sim, é delicioso! — Nicole e titia riam.
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  Guino parou de rir e ficou estático observando o teto com as sobrancelhas arqueadas. Num ato tão automático e louco, como alguém que entra em estado de choque e Nicole achou inclusive, que ele estivesse passando mal. Olhou assustada para sua tia que lhe sorria, dando-lhe a entender que era coisa do Guino mesmo.
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  — Então!
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  Ele pronunciou de repente, após aquele silêncio breve, assustando a jovem delegada e a perguntou, de modo travesso com algumas piscadelas:
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  — O Gabrielzinho já tá arrastano asa pro seu lado, ?
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  — Ah! Que isso Guino, imagina. — Nicole respondeu sorrindo e titia ficou bastante interessada com a resposta que viria da sobrinha: — Ele é só um bom amigo. Muito gentil, educado, atencioso e cavalheiro.
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  — Xi! Nhé-nhé-nhé! Já tá encheno ele de elogios, Cora! Vai casório!
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  Ele ria e dona Coralina também sorriu, porém, tímida. Em seguida a senhora pediu licença e voltou à cozinha para passar o café. Nicole observou a atitude dela um pouco curiosa, havia notado que algo estava estranho.
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  — Acho que ela num gostou!
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  — Não é isso, Guino… Ela só foi olhar o café!
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  — Hunf! Eu conheço Cora! Ela e o Nadinho antidonte ficaram oiando torto procê e pro seu namorado.
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  Pronto! Era o que faltava! — pensou Nicole. Agora até já havia arrumado um namorado com as suposições do velho Guino! Ela o sorriu sem graça, mas sem deixar de validar o comentário dele sobre sua tia. Dona Laura voltou com o café, e as duas ficaram a tarde toda ali conversando e se divertindo com o Guino, que ficou felicíssimo com as visitas. Horas depois, ele as acompanhou até a porta e despedindo-se, as mulheres foram à escola buscar Carol. A pequena estava bem cansada de tanto correr e brincar, e dormiu no caminho para casa.
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  Ao chegarem, Nicole pegou Carolina no colo e a colocou em sua cama, depois tirou as roupas do uniforme dela e saiu do quarto. Ia em direção às escadas, e Bernardo subia-as, mas como ambos estavam de cabeça baixa, não viram um ao outro se aproximando resultando em um esbarrão no meio das escadas. Nicole se apoiou assustada, no corpo dele com as mãos firmes aos ombros de Bernardo, e ele a tocou pela cintura. E era impossível não perceber que ele tinha o peitoral descamisado e cheio de lascas de madeira e serragem.
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  — Desculpe. — ela disse ofegante pela surpresa.
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  Bernardo sentiu-se também desnorteado ao sentir o toque das mãos firmes de Nicole em seus ombros, e encarar os olhos dela mais uma vez de forma tão próxima o deixara, do mesmo modo ofegante.
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  Escondendo o mesmo susto, Bernardo não disse nada em resposta ao pedido dela. Eles apenas trocaram olhares e o fazendeiro pegou a camisa, que estava em seu ombro e escorregou pela escada ao trombarem, e rumou ao caminho que pretendia. Nicole ficou parada na escada, de cabeça baixa segurando o corrimão. Depois que ouviu as pisadas fundas dele subindo os degraus atrás de si, sentiu-se soltando a respiração que nem percebia segurar. E quando Nicole percebeu, à sala estava sua tia Laura Coralina de olhos espantados como se esperasse pelo momento que a guerra iniciaria. Qual não foi sua surpresa após presenciar a cena, e notar seu filho se retirando tão quieto daquela situação.
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  — Onde ele estava? — A fim de fingir naturalidade, Nicole perguntou.
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  — Esculpindo. No tempo livre, quando ele não está cavalgando está fazendo marcenaria. — respondeu tia Laura indicando alguns dos móveis na casa feitos por ele.
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  — Ah! — Nicole assentiu observando os móveis, e logo mudou de assunto: — Titia, eu devo esquentar a água para Carol tomar banho agora?
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  — Mas, ela não está dormindo?
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  — Sim, mas, é melhor ela tomar banho logo enquanto está cedo.
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  — É, tem razão. Pode esquentar. — A senhora ficou a observando sorrindo e concluiu: — Você dará uma ótima mãe.
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  Era a primeira vez que diziam à Nicole que ela daria uma boa mãe, e era também a primeira vez que se sentia feliz com aquilo. Sorriu para a tia e as duas caminharam até a cozinha, e enquanto a água aquecia na serpentina mantiveram a conversa. Com Nicole aproveitando para tirar mais algumas dúvidas sobre o seu falso primo.
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  — Tia, eu tenho uma dúvida! O Bernardo foi pai bem cedo… Ele terminou os estudos?
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  — Sim. Ele é engenheiro agrônomo, e tem uns cursos aí de pecuarista, e outras coisas que eu não entendo, mas é da área dele… — falou enquanto descascava legumes para a janta — Sabe… Com dezoito anos, o pai dele morreu e o Bernardo pegou a responsabilidade da fazenda, já ao final da escola. Ele e a Bruna terminaram o namoro quando a escola acabou, porque ela dizia que queria ir embora pra cidade grande, e ele, custou aceitar fazer a tal da faculdade. Sempre lidou com o pai no cotidiano da roça, e foi Rosa que me contou que o irmão queria estudar! Pra mim, ele nunca tinha dito nada!
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~ ♥ ~

15 anos atrás…

  — Mamãe, podemos conversar? — A filha mais velha de titia surgiu no quarto da mãe, com o semblante preocupado.
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  — O que aconteceu, Rosa? Eu conheço essa cara!
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  — É sobre o Bernardo… Mamãe, a senhora sabia que a Bruna terminou com ele?
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  — De novo?! — A senhora deu de ombros continuando a passar um tecido na máquina de costura — Esses dois terminam, mas daqui a pouco voltam! Eu já nem levo a sério!
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  — Mas mamãe… Agora acho que não tem volta. A Bruna está se preparando mesmo para ir embora da cidade atrás daquele sonho dela.
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  — Hm… — Titia murmurou e proferiu sem muita preocupação: — Seu irmão vai superar… Demora, mas a gente sabe que ele supera.
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  — Mãe, o Bernardo ainda não superou a morte do papai, e eu não estou preocupada se ele vai ou não superar o fim do namoro dele. É que ele… — Rosa parou de falar e Cora então tirou os óculos, virando-se atenta à filha — Ele também tinha um sonho, mãe!
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  — Do que está falando?
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  — O Bê prometeu para o papai que ia estudar e fazer a fazenda prosperar. E embora ele não fale sobre isso desde que o papai morreu, o Bê tomou a fazenda como a maior responsabilidade dele nestes últimos dois anos. Só que ele terminou o Ensino Médio, e agora a Bruna cortou os laços… Eu já estou acabando meu curso superior e acho que a gente deveria apoiá-lo.
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  Dona Laura se viu pega em surpresa. Apagou a luz da máquina de costura, e sentou-se com a filha em sua própria cama, a fim de compreender melhor aquela história.
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  — Seu irmão nunca me contou nada disso, Rosa! Ele queria fazer faculdade?
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  — Sim. O papai me contou e o Bê também. Daquele jeito dele né… Um dia me perguntou se lá em Nova Ladeira tinha curso de agronomia, me pediu para olhar e manter segredo. Depois o pai ficou todo orgulhoso e me contou que o Bernardo tinha falado sobre aquilo, pedindo segredo para ele também. Disse que ia fazer surpresa para a senhora quando fosse a hora, e o papai ficou todo feliz dizendo que teria um filho doutor! Mas… Já vai se passar mais um ano desde a morte dele, e o Bernardo não toca no assunto… Eu não quero ver o meu irmão desistir mãe! Eu achava que era pela Bruna, mas eu acho que é… Por nossa causa.
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  Rosa dizia a tudo com expressão nostálgica, mas também consternada em certa preocupação e culpa.
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  — É mesmo típico dele ficar remoendo as coisas, calado. Na certa está preocupado em nos deixar aqui para viver em outra cidade…
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  — E então mãe? O que a gente vai fazer? — Rosa perguntou aflita.
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  — Eu vou enfiar o seu irmão dentro de uma faculdade, e ele fará, sim, senhor, o que ele quiser! Se o seu pai queria um filho doutor, e Bernardo também quer, seu irmão não vai ficar amarrado na minha saia!
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  Rosa sorriu por saber que a mãe diria exatamente aquilo. No jantar daquela noite, dona Laura apresentou argumentos suficientes para que Bernardo não mais a contestasse. E aos vinte um anos, ele já estava morando em Nova Ladeira com o amigo Gabriel, estudando para retornar à sua fazenda, formado.
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  Titia permaneceu contando à Nicole:
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  — Bernardo voltou pra casa, formado aos vinte e seis anos, mas ainda quando estudava, ele reencontrou a Bruna. Eu não lembro o que aconteceu, mas ela não foi embora da cidade de vez… Voltou uns dois anos após partir e se não me engano, os dois se viram na quermesse anual aqui da cidade…
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  Dona Laura puxava nas memórias a história, e Nicole estava atenta sem perder uma palavra:
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  — Eu sei que eles ficaram naquele namoro de longe, até que a Bruna passou um tempo em Nova Ladeira. Quando ela surgiu grávida, o Bernardo estava saindo da faculdade, e apesar de mais maduro, ele queria sair adoidado na vida para fazer mais curso! Dizia para mim, que não aproveitou bem os dezoito anos, que iria pro Sul estudar mais. No final, a Bruna engravidou, ele começou a procurar trabalho pelas redondezas, abriu mão de muita coisa e foi ficando enfurnado aqui…
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  Dona Laura esmoreceu um pouco decepcionada e triste pelo que diria:
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  — Bernardo já fez um tanto de curso que queria aí na capital, mas… Eu vi que ele cortou o cordão com a fazenda, quando formou, sabe? Estava disposto a crescer realmente de um jeito que a gente não imaginaria… Mas tudo o que ele passou, e toda a decepção que a Bruna foi para ele durante a gravidez, forçaram ele a abandonar alguns sonhos. Pisar mais no chão, pela filha que teria que criar.
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  Nicole suspirou um pouco surpresa. Jamais imaginaria que Bernardo teria passado por aquelas coisas tão cedo. Não que fossem para ela, coisas difíceis demais, afinal, ela também tivera uma trajetória de “gente grande”. Mas, ao redor de todo aquele cenário pacato, Nicole não acreditou que o ranzinza e aparentemente mimado, homem do campo, fosse alguém habituado a batalhar pelo que queria e acreditava. O modo como Bernardo lhe parecia, mostrava a ela, um homem que estava habituado a ter o que quisesse, do jeito que quisesse, e não alguém que buscou sentidos novos para a vida, de tempo em tempo.
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  — Deve ter sido difícil para ele. Aliás, para todos, não é? — Nicole perguntou.
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  — Sim. Muito.
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  — E então é com isso que ele trabalha?
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  — Sim! Hoje de manhã ele estava fazendo aqueles rabiscos dele.
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  — Ah, então era isso! Fiquei curiosa ao vê-lo mais cedo, mas não quis perguntar diretamente. — admitiu.
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  — Sim, ele sempre faz alguns trabalhos para as fazendas vizinhas. Recentemente, antes de você chegar, ele fechou contrato com um grande fazendeiro pecuarista e produtor de milho. Mas, eu também não entendo muita coisa do que faz. Você pode perguntar para ele depois. Não é como se Bernardo fosse te morder, ele gosta de falar sobre a profissão!
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  A tia incentivou a sobrinha sorrindo.
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  — Interessante… — e Nicole ignorou o incentivo de perguntar qualquer coisa que fosse ao Bernardo.
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  — Mas e você, Nicole… E o seu trabalho?
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  — Ah titia… Estou tão triste com tudo isso! Se Ângelo não conseguir provas suficientes da minha inocência, eu creio não poder mais exercer a minha profissão.
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  Naquele instante Bernardo surgiu na cozinha de banho tomado e ele havia escutado o que Nic dissera. Olhou para a mulher de modo constrangido por descobrir a informação daquela maneira, e passou pelas duas sem dar muito alarde.
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  — Tudo irá se resolver querida! — A tia a abraçou e voltou sua atenção ao filho: — Meu filho, eu acabei de passar um cafezinho!
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  — Ainda tem aqueles biscoitos? — Se aproximou de dona Laura e abraçou a mãe apertadamente, beijando seu rosto.
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  Nicole começava a se acostumar com aquela parte amável de Bernardo. Amável com a família, lógico. Ela não queria que ele agisse daquela forma consigo, mas se ele apenas desfizesse as caras ruins para ela e não fizesse cara alguma… No meio daquela reflexão silenciosa, Nicole percebeu que… Não! Não seria suficientemente melhor! Ele já agia indiferente com ela, e mesmo assim ela continuava incomodada! Então, com medo de ficar pensando em que tipo de expectativas ela poderia ter sobre Bernardo, Nicole sacudiu a cabeça e se pôs a desencostar da mesa, onde estava escorada.
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  — Tem, sim, filho. Coma também Nicole!
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  — Agora não tia, obrigada. A água já está quente, eu vou acordar minha bonequinha para ela tomar banho.
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  Bernardo bebeu o café sentindo o nó na garganta ressurgir. “Minha bonequinha” era algo que o incomodou escutar sair da boca de Nicole, porque, no fundo, ele sabia como aquela história iria acabar: com a filha sendo deixada e magoada. Queria proteger Carolina cada dia mais da presença de Nicole, mas não podia negar, que de certa forma, a mulher estava fazendo bem à sua criança.
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  — Tudo bem, eu vou preparar uma bandeja de café para ela comer.
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  — Claro… — Nicole olhou na direção do homem e perguntou sem jeito, sem saber por que estava buscando puxar assunto: — Bernardo, você precisa de ajuda com os animais?
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  — Já são seis horas. Já cuidei de tudo.
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  A resposta grosseira e dura do homem fizera Nicole suspirar de raiva, e sua tia lançar ao filho um olhar de repreensão.
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  — Pode deixar, obrigado. — Ele tentou consertar, sem muita vontade, mas Nicole ignorou:
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  — Tudo bem. Eu vou ver a pequena.
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  — Parece até a mãe. — Titia disse sorrindo para a sobrinha.
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  De imediato, Bernardo bateu a caneca na mesa com seus olhos arregalados. Visivelmente contrariado em escutar aquilo. Dona Laura não tivera a intenção de enfrentar ao filho ou de mostrar que sentia aquilo. Estava pensando alto e acabou, em inocência, soltando aquilo.
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  De fato, não era novidade para ninguém que Nicole e Carolina estavam cada vez mais próximas. Criando uma relação quase maternal uma com a outra. Nicole, ao sentir a impaciência de Bernardo, pôs rapidamente a subir com a toalha da garota sobre os ombros. Titia percebeu que foi um pouco longe, e depois que ficou a sós com o filho, tentou se retratar:
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  — Filho, me desculpe… Eu não queria mencionar que…
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  — Que ideia é essa mãe!? — Ele interrompeu a perguntando com o semblante contrariado, o maxilar rijo tal como seu corpo: — A senhora está tentando fazer o quê, afinal!?
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  — Se acalme Bernardo! Não é como se eu estivesse dando a Carolina para alguém! Eu só…
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  — A senhora só está tentando criar, este tipo de situações a cada dia mais, não é?
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  — Não me interrompa desta maneira! — A mãe lhe disse com tom de voz alterado: — Eu apenas pensei alto, e não é como se a Nicole estivesse tentando tirar a Carolina de você! Não tem por que ficar tão atingido com um simples comentário!
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  — A senhora deverá se responsabilizar por ficar trazendo os seus “pensamentos” em voz alta nesta casa, deixando bem claro o que pretende! — Bernardo falou duramente, mantendo a figura de respeito pela mãe, e levantou-se da mesa antes de concluir: — A Carolina é uma criança mãe! Ela acredita em tudo o que disserem para ela!
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  — Eu não disse a ela em nenhum momento, que a Nicole será a mãe dela, Bernardo! Se for isso o que você está sentindo, talvez isso fale mais sobre você do que sobre ela!
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  Dona Laura soltou e então encarou aos olhos oscilantes do filho, como se tivesse atingido o ponto da questão. Ele suspirou, pegou a bandeja de café da tarde que a avó havia terminado de preparar para a neta, e pediu licença para a mãe, deixando a senhora cozinhar sozinha e um pouco preocupada.
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  Quando Carol acordou, Nicole percebeu, a quão exausta ela estava. Não falou muito, tomou banho rápido e enquanto era arrumada por Nic, Bernardo surgiu com a bandeja de café em mãos. E ele também notou a quietude da filha.
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  — Você está se sentindo bem, filhotinha?
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  — Só estou cansada, papai. Corri muito hoje! O Juca é muito bom no pique-pega. — Nicole sorriu ao ouvir aquilo.
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  Ela penteava os cabelos castanho-claros longos de Carolina e Bernardo alimentava sua filha, mas ela não comeu muito. Logo, estava sonolenta como antes, devido ao mexer que a escova fazia em seus cabelos. Os dois ajudaram Carolina a se ajeitar em sua pequenina cama, Bernardo retirou a bandeja e sorrindo beijou seu rostinho angelical. E em seguida Nicole também beijou a testa dela.
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  — Tchau papai… Obrigada mamãe. — disse meio sonâmbula.
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  Ao escutarem aquilo, os dois trocaram olhares assustados e logo Bernardo estava furioso. Nicole sentiu-se feliz, mas, ao mesmo tempo, culpada. Ela sabia que Bernardo até estava certo em ficar com raiva.
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  Colocando-se ao lugar dele, Nicole pensou que se fosse a filha dela a se apegar a um homem quase desconhecido, ao ponto de chamá-lo de “pai” e, sem este homem ser o pai dela, sendo Nicole ciente de que ele iria embora, e também não gostando dele… É, certamente, ao imaginar a situação, Nicole percebeu que ela também ficaria brava.
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  Temeu por Carolina sofrer quando ela se mudasse. Bernardo saiu tempestivo do quarto e foi seguido pela delegada que o chamava corredor afora:
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  — Bernardo! Bernardo!
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  Ele seguia apressado com a bandeja, descendo as escadas, e Nicole atrás dele, culpada e surpresa. Mas já na sala, ele parou e olhou para Nicole, estava transformado em ira:
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  — Eu te avisei! Vê o que você está fazendo?! — Apontou para o andar superior enquanto encarava Nicole, com semblante desesperado e colérico.
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  — Desculpa! — Nicole pediu com toda a sua defesa desarmada, demonstrando que tanto quanto ele estava surpresa: — Eu não tive nenhuma intenção de fazê-la pensar assim! Mas eu amo a sua filha! E… E ela precisa de uma mãe!
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  — O que está acontecendo? — Titia aproximou-se espantada com a gritaria e ninguém deu atenção a ela.
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  — AH! E você quer ser a mãe da minha filha?!
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  O tom sarcástico e debochado de Bernardo, misturou-se à sua crescente estupefação.
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  — Não! — gritou Nicole e depois confusa, levou as mãos ao cabelo e disse sem o encarar: — Quero dizer… Por que não?
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  — O quê? — Ele estava ainda mais revoltado encarando o olhar diretivo de Nicole.
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  Titia tampava a boca com as mãos, estava chocada pelo que ouviu num misto de esperança e confusão por não saber o que exatamente acontecera. Já Nicole, se aproximava de Bernardo como se aquela pergunta não fosse tão absurda como ele estava fazendo parecer.
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  — Eu posso ser uma mãe para a Carolina! Eu realmente amo a sua filha Bernardo…
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  As palavras confusas e quase suplicantes saíam da boca de Nicole enquanto ela tentava se aproximar dele.
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  — Eu não quero que você seja a mãe dela!
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  Dando passos para trás afastando-se de Nicole, ele vociferou e a mulher, tão surpreendida e assustada por tudo quanto ele, chorava e o enfrentava:
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  — Você não tem que querer! A Carolina quer!
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  — Você é louca! Se afaste de mim e da minha filha! — ordenou Bernardo, com os olhos avermelhados.
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  — Bernardo! Bernardo!
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  Bernardo ouviu Nicole o gritando, mas apenas saiu da casa rumo ao celeiro. Nicole até tentou correr atrás dele, mas sua tia a segurou e abraçou a quase sobrinha aos prantos.
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  — Deixa ele se acalmar, querida… Afinal, o que aconteceu?
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  — Carol… Ela… Ela me chamou de “mamãe”.
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  Então titia também ficou espantada. Sabia que isso aconteceria, mas não achou que fosse tão rápido. Nicole percebeu que estava disposta a não perder a Carolina, mesmo que um dia ela saísse daquela casa. A mulher precisava da criança, e a garotinha mostrava também precisar dela. Aquela descoberta interna fixou à mente de Nic, a ideia de que ela não poderia mais se afastar daquela cidade. Estava apegada à Carolina e esta era só a primeira relação pela qual, Nicole se percebia entregue.
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  Por dois dias, Bernardo olhava para ela, como se Nicole fosse a pior pessoa do mundo. Ele vivenciava uma variedade de sentimentos e pensamentos que iam desde a pensar que Nicole queria “roubar” Carolina dele, até ao fato de perceber o quanto a filha estava de novo, carente de uma mãe. Pensar em uma futura mãe para Carolina era algo que ele sempre evitava, e sentiu-se um fracassado por aquilo depois de tanto tempo. Assim também, como se sentia enraivecido por nas noites seguintes ao ocorrido, ele não conseguir tirar as imagens dos momentos carinhosos entre Nicole e sua filha, dos próprios pensamentos.
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  Já Nicole jamais pensou em “roubar” qualquer aspecto que fosse da vida de alguém, nem mesmo inveja ela sentia por outras pessoas. Ela queria apenas poder ser a mãe que Carolina não teve, e devolver todo o amor que a pequena tinha por ela. Mas Bernardo não se dispôs a conversar, e com um pouco mais de autocrítica sobre aquilo, Nicole o dava razão: havia sido uma sandice dizer aquelas coisas daquela forma para ele. Ela não era a mãe de Carol e nem o poderia ser, e não estava certo alimentar aquela ilusão em si e muito menos na criança. Detestou ter que admitir, mas Bernardo estava certo. E aquele assunto não fora mais tocado, principalmente quando Carol estava por perto.
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