CAPÍTULO 1 • A Chegada

05 de Março de 2019

Tantas coisas acontecem em nossas vidas, e às vezes, de repente nos vemos perdidos e incrédulos. Perdidos, por sentir as mãos atadas, sem noção do rumo a se tomar. Incrédulos, por olhar à nossa volta e não compreender os dramas da vida. Então surgem perguntas como: “Como isso foi acontecer?”, “Quando eu deixei que as coisas caminhassem para isso?”, “E agora, qual a decisão?”.É tão comum passar por pegadinhas da vida! Mais comum até do que andar para frente, mas nós nunca estamos verdadeiramente preparados para estes baques. Para cada pessoa há um caso diferente que pesa o tamanho do problema. Mas, também é bem possível que as mesmas situações se repitam em pessoas distintas e tenham soluções iguais. Ou diferentes. Ou solução nenhuma.
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  Nicole estava bastante confusa com os últimos acontecimentos. E pensava neles enquanto o ônibus seguia estrada afora. Logo ela, a Nicole dada como a inabalável. Aquela que todos olhavam com admiração por empenhar-se em tudo o que acreditava e não se deixar desanimar. Quem diria que a delegada de trinta anos de idade, tão nova na profissão para algumas pessoas, teria preocupações como diria seu pai: “de gente grande”. Herdou dele o amor à profissão e como sua mãe, professora apaixonada, Nicole também tinha o fulgor na alma pelo que fazia. Dos pais lhe restavam memórias, as quais ela evitava reviver, por ser aquela uma dor ainda recente. Ambos já estavam falecidos acerca de dois anos e ela morava sozinha no centro de São Paulo há algum tempo.
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  Tudo caminhava de modo lento em sua vida, desde que se viu sozinha no mundo, depositando toda a sua energia no trabalho e em seu recente noivado. As coisas seguiam de uma forma saudável, até que mais uma vez, a vida se mostrou um grande cenário de lutas. O mundo lhe caía sobre a cabeça, sem pausa para um café. Há semanas, seu ambiente de trabalho havia dado uma reviravolta e no meio da turbulência que enfrentava, Nicole recebeu uma carta de sua parenta distante. Sua tia, por parte paterna, de Minas Gerais. Desde o velório de Rodolfo, que ela não recebia muitas notícias de parentes e nem mesmo via, essa irmã do falecido.
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  Na carta ela avisava que estava a caminho de visitar a sobrinha. E assim foi. Abraços e beijinhos ao se reencontrarem e todos aqueles rituais de “colocar as fofocas em dia”. Porém, dona Laura não viera apenas a passeio, a senhora tinha uma missão que lhe tirava o sono desde a partida do irmão e da cunhada. Apesar de julgar impertinente que se envolvesse naquela revelação, quem mais diria a verdade À mulher, se não ela? Conversas iam, conversas vinham e Nicole descobriu que era adotada, ou seja, dona Laura também não era a sua tia. E notícia ou vestígio algum existia, sobre a sua origem biológica.
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  — Como assim, adotada? — perguntou surpresa a mulher paulistana.
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  — Desculpe querida, eu deveria tê-la dito isso antes. Afinal, faz dois anos que eles faleceram. — Sua tia desculpava-se com aparente arrependimento — Mas, eu não sabia como surgir depois de algum tempo sem lhe ver e contar algo assim.
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  — Mas, por que eles nunca disseram nada, titia?
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  — Seus pais não te viam como uma filha adotada. Para eles, você sempre foi filha e ponto! Sem qualquer tipo de rótulos. Mas, eu compreendo que é importante que você saiba disso.
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  — Céus… Não bastando, as últimas confusões!
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  O semblante cansado de Nicole, beirando a tristeza foi notado por Laura desde que pusera os olhos na sobrinha do coração.
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  — O que está acontecendo, querida?
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  — Eu fui vítima de uma armação corrupta no trabalho e estou respondendo a um inquérito judicial! Minha carreira está praticamente acabada! Minha casa também não é minha, titia. Desde que a loquei eu pago os impostos e aluguel, e isso começou um tempo depois de papai falecer. E agora estou tendo problemas com isso também.
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  — E a antiga casa dos seus pais?
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  — Eu tive que vendê-la pelo tratamento da mamãe. Na época eu trabalhava, mas ainda me preparava para um concurso e pagava o preparatório. Sem falar que não adiantaria largar uma coisa por outra, porque as dívidas do tratamento eu não teria como sanar. Papai gastou muito com aquilo e depois que ele faleceu, eu tive que me virar. Infelizmente, a mamãe não resistiu… E bem! Eu precisei pagar a conta do Instituto.
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  — Mas, não sobrou dinheiro algum daquela casa?
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  — Sobrou, é claro. Mas, está guardado. Eu pretendia juntar um pouco mais e comprar uma casa própria. Não mexo naquele dinheiro, e nem na poupança que papai deixou para mim. Graças a Deus eu também consegui economizar desde cedo e tenho uma boa reserva, mas quero evitar mexer nela… Afinal, agora mais do que nunca, eu não sei quando e nem quanto, eu vou poder repor do dinheiro que eu tirar.
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  — Minha nossa, Nicole! Por que não me disse antes?
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  — Ah! Titia, nós não temos muito contato, não é?
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  — É verdade… Eu deveria ter sido mais presente, me desculpe por isso.
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  — Não há o que desculpar!
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  — Mas, Nicole, por que está preocupada com o aluguel? Está atrasado? Você precisa de ajuda para pagá-lo?
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  — Não tia, não é como se eu não tivesse dinheiro para pagar as contas. É só que eu terei de entregar a casa, e vai ser difícil encontrar uma moradia com um preço tão bom como este. Sem trabalhar, eu recebo metade do meu salário pelo afastamento obrigatório, mas meu futuro é incerto e eu ainda não tenho planos.
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  — Quanto tempo para entregar a casa?
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  — Trinta dias.
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  — Nossa, mas já?! — Dona Laura levou a mão à boca e lhe ocorreu um pensamento, mas não achou em bom tom compartilhar naquela hora.
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  — Pois é… Mas, eu darei um jeito! Não se preocupe!
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  — Eu estou disponível para te ajudar Nicole! Conte comigo! Irei pensar em algo…
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  Se não fosse pela infelicidade do proprietário da casa alugada por Nicole, falecer, era possível que ela ainda estivesse ali, lidando com todos os seus problemas. Descontroladamente, sim, porém em seu próprio teto.
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  Após a revelação da ilegitimidade paterna, tia Laura mantinha contato frequente com a sobrinha adotiva. Nicole não sabia se aquele contato acontecia por culpa, por zelo, ou apenas por solidariedade, mas também, não fazia diferença para ela. Ela não a culpava. Afinal, a senhora era apenas a sua tia e não portava obrigações de sinceridade, sobre um assunto que seus falecidos pais deveriam ter esclarecido. No entanto, seus desvelos foram acolhedores e as duas se tornaram mais próximas. Assim como sua tia fazia questão, o carinhoso parentesco entre as duas continuava.
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  Ao saber de toda aquela desolação pela qual Nicole passava, dona Laura quis convidá-la para morar consigo no interior de Minas.
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  — Bom, por que não passa uma temporada conosco na fazenda? Pelo menos, até você ter um plano! — falou sua tia, dias após tê-la visitado, em uma das ligações ao telefone.
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  Nicole não desejava ir, mas também, não tinha como ficar. Ela “gozava” de ser uma sem-teto no momento. E mesmo tendo os seus amigos, Verônica e Ângelo, à disposição, ela sabia que o recente noivado em que os dois preparavam-se para morarem juntos, lhes atribuiria muito trabalho para ainda terem que recebê-la.
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  Ela detestava se sentir uma pedra no sapato de qualquer pessoa que fosse. Sentia-se assim com os pais na adolescência: queria a independência, trabalhar, e saber que não precisava fazê-los gastar tanto com ela. Nunca compreendia a necessidade paterna de cuidar e não aceitar aquilo. Passou sua juventude estudando firme para ser mais autônoma e retribuir aos pais um pouco de todo o seu esforço por ela. Mas naquele momento, a única saída era apelar para a estadia de titia. E tomar providências e justificativas perante a lei para que o mais rápido possível, ela reconquistasse o controle da própria vida. Talvez, uma temporada na fazenda até lhe fizesse bem.
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  Então, lá estava a delegada dentro do ônibus que acabara de pegar em Belo Horizonte, após desembarcar no aeroporto de Confins, e seguindo para uma fazenda inóspita. Nicole não tinha nada contra fazendas, mas nunca foi uma garota do campo. Era de fato, um desastre com atividades de cultura rural.
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  A vida dela deu um nó. Virou de ponta cabeça e só lhe restavam fortes desafios. Se felicitava de uma única coisa: poderia estar completamente sozinha nos problemas e na vida, mas a tia Laura com generosidade fora solícita. E embora ela não soubesse se havia motivos escondidos para isso, ou até quando seria assim, Nicole era muito grata a ela. Lógico, em seus pensamentos, o seu “passeio” a casa dela seria provisório. Daria um jeito logo naquela situação!
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~ ♥ ~

  O ônibus chegou à rodoviária pacata de apenas quatro plataformas ao fim da tarde. Dona Laura já a esperava. Pareceu-lhe muito diferente e mais saudável do que quando fora à sua casa em São Paulo. Ares de interior fazem isso! Os cabelos presos em coque com um vestido floral que batia à altura das canelas, despojado e confortável. Um casaco de lã grosso, pois fazia bastante frio e nisso Nicole acabou pecando. Logo ela, uma paulista da garoa! Nicole percorreu os olhos de forma discreta pela senhora que a aguardava e achou muito singelo o chinelinho de “vovó” que titia usava com meias, pretas. Bem típico. Pegou a sua pouca bagagem, duas malas apenas, caminhou em direção a ela que lhe estendia os braços em postura cristã, apoderando-se de um largo sorriso. E sentiu titia dar-lhe aquele abraço forte.
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  — Bem vinda querida.
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  — Muito obrigada, dona Laura!
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  — Dona? Não sou dona de nada! Me chame de tia, por favor. — ralhou com a garota como se ela fosse uma criança.
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  — Certo. Tia.
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  — Você está tão abatida, Nicole!
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  Os olhos exageradamente azuis da tia denunciavam o reflexo de uma face sem cor, abatida e frustrada: a face de Nicole.
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  — Não tem sido muito fácil. — A mulher respondeu sem muito humor.
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  — As coisas vão se ajeitar, confie em Deus! Quero que se sinta bem aqui. Agora vamos! Não repare o carro.
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  Nicole a abraçou de volta e sorriu. As duas caminhavam até o carro, e o primeiro faiscar de admiração surgiu no olhar da paulistana. O veículo era uma picape Ford F-100, ano sessenta e cinco na cor preta. Conservada. Nicole, apaixonada por automóveis como o pai, logo gostou. A tia Laura, uma senhora de sessenta e três anos dirigia como uma tartaruguinha, mas, muito bem até. As duas foram conversando durante o trajeto, que fez Nicole ficar bem mais cansada pela vagareza, e o trepidar da estrada de cascalhos.
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  — Não é longe, eu que sou um pouquinho devagar. Mas também, para quê, pressa? — Titia lhe disse e riu complementando: — Meu filho não gosta nada que eu pegue um volante. Um bobo!
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  Por não terem muito contato ao longo de suas vidas, Nicole não sabia quase nada da titia. Sabia que ela era viúva. Mas, se novamente havia se casado, desquitado, ou como eram seus filhos, se tinha ou não netos, bisnetos… Eram informações pouco claras. Seu pai, ao longo de sua vida, poucas vezes mostrou-lhe fotografias da família de sua irmã. Nicole recordava-se que a cada vez que uma carta de sua tia Laura chegava Rodolfo e Teresa, liam-na com saudades e lhe comentavam sobre as notícias do interior, à mesa de jantar. Mas boa parte da adolescência de Nicole, ela passara enfiada em livros e fones de ouvido. Então não se atentava muito ao que os pais diziam daqueles parentes, que para ela, eram tão distantes quanto desconhecidos.
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  Às vezes que vira sua tia, em toda a sua vida — ao menos que se recordava — foram quatro, e bem rápidas. A primeira e a segunda quando ela tinha dois e quatro anos, soubera por seus pais, não tinha memórias daquilo. A terceira quando ela era uma rebelde de quinze e a quarta, ao velório de seu pai. Sem contar, a última, mais recente em sua casa ao reencontrarem-se. De tudo o que conversavam pela estrada trepidante, dona Laura lhe falava da filha mais velha e da neta. Contava-lhe ardilosa, as aventuras da netinha de sete anos e vagamente, sobre os planos futuros da filha de trinta e cinco. Dizia que elas se dariam muito bem, mas nada comentara sobre o filho. Ao chegarem diante de uma grande porteira, tia Laura pediu sorrindo para Nicole abri-la.
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  — Cuidado com a lama. — Ela advertiu assim que a mulher abriu a porta.
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  Nicole olhou para o chão e certamente se seus tênis pudessem enxergar, sofreriam com a visão que ela teve. Desceu concentrando-se em não escorregar e cair numa grande poça de lama e foi andando sem perceber o lugar. Não por desinteresse, mas por possuir uma mente cheia de preocupações aleatórias e descompromissada com as novidades daquele lar. Olhou à frente, logo que chegou à porteira e a fachada do casarão antigo era bem bonita, e bem simples também.
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  — Puxe essa alavanquinha! — disse a tia ao perceber a total falta de intimidade da sobrinha com a porteira.
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  Nicole sorriu discreta do sotaque que lhe soava muito bonitinho. Empurrou a porteira rústica um pouco pesada e as galinhas que estavam soltas no quintal corriam loucas e desnorteadas, assim como outros animais pequenos. Um cachorro franzino, com olhos preguiçosos de esguelha, eriçou as orelhas caídas, em pontudas, ao ver que a velhinha adentrava com o carro. Assim que dona Laura desceu, o canino correu espevitado até ela latindo alegre. Era mansinho, pois, nem mesmo se aproximou de Nicole, a estranha que chegava.
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  Ela fechou a porteira e já próxima ao carro pegou as malas. Na companhia de sua tia, a caminhar em direção à varanda da frente, avistou uma garotinha e uma mulher, ambas lindas, recém-chegadas e lhes esperando. Titia adiantou-se a se colocar ao lado delas e sorria à medida que as duas olhavam curiosas para Nicole. Atenta à conversa que teve com sua tia pelo caminho, Nicole supôs serem aquelas, a neta e a mãe, filha da titia.
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  — Rosa e Carolina, esta é a Nicole.
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  Rosa, a filha, apresentava um sorriso grande, os olhos em cor de mel, cabelos ondulados e escuros, braços e pernas fortes, mas sem uma definição muscular muito evidente. Ela aproximou-se de Nicole e a abraçou, muito simpática, desejando as boas-vindas. Carolina, a garotinha, apenas olhava tímida para a mulher, aos seus olhos, tão bonita.
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  — Carol, não vai cumprimentar a Nicole?
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  Rosa disse sorrindo para a menininha. A pequena levou os olhos ao rosto de Nicole, acenou positivamente com a cabeça e se aproximou apertando a própria boneca em seus braços.
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  — Oi! — Nicole disse.
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  — Oi!
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  — Gostei muito do seu vestido. — abaixou-se para ela sorrindo.
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  — Você é muito bonita. — A garotinha falou com os olhinhos redondos de jabuticaba, brilhando.
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  — Ora, obrigada. Você também é muito linda. Parece uma bonequinha! — Nicole sorriu acariciando o rostinho dela.
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  Assim que mencionou se levantar, a menina a abraçou e lhe puxou pela mão para dentro da casa.
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  — Você está gelada! Lá dentro tem uma fogueirinha. Vamos!
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  Nicole, surpresa, olhou para titia e para Rosa que sorriam satisfeitas as seguindo. Tirou os sapatos sujos antes de entrar e dona Laura mais do que rapidamente, quase como um vulto, pegou-os de sua mão entrando pelos cômodos. A sala era tão aconchegante! Colchas de fuxico cobriam os sofás e poltronas. Havia cortinas longas e brancas nas janelas, um enorme tapete que cobria parte do ambiente onde se encontravam os sofás e, no meio do tapete, uma mesinha rústica feita à mão. Pequenos artefatos artesanais e outras mobílias espalhavam-se na casa. Um pilão de madeira enfeitava o canto da sala próximo à janela.
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  A mulher novata não pôde deixar de rir quando viu Carolina sentada com a boneca no colo, sorrindo para ela e batendo com a mãozinha no chão ao seu lado. A fogueirinha na qual ela se referia, era, na verdade, uma lareira.
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  — Vem, senta aqui comigo. Você vai acabar ficando tossinha.
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  — Ficando tossinha?
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  — O pai dela a chama assim quando ela fica resfriada. — Rosa explicou e as duas sorriram.
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  Cora retornou à sala com o café que Rosa tinha preparado antes de chegarem e alguns biscoitos caseiros em uma tigelinha.
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  — Coma querida, depois você sobe, toma um banho e descansa. — falou a senhora que colocou a bandeja perto da garotinha na lareira, e pediu a filha: — Rosa chame o seu irmão, por favor.
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  E Rosa saiu pela porta da sala, apressada. Nicole observava atenciosa ao cômodo, e sorria para Carolina que lhe encarava cheia de caras e bocas, indicando a delícia que era saborear aquele biscoito caseiro. Contudo, perspicaz como era, Nicole logo notou que sua tia havia ficado cheia de dedos após pedir que o filho fosse chamado. Com aquilo, uma pulga se instalou atrás de sua orelha, e logo houve uma confirmação de um problema:
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  — Nicole, gostaria de pedir desculpas a você por qualquer coisa que Bernardo possa dizer. Eu gostaria de tê-la dito antes, mas talvez você não viesse…
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  — O que houve titia?
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  — Ele é um pouco difícil, sabe… Turrão, teimoso. E está um pouco desconfortável por recebermos uma nova moradora, desconhecida para ele. Mas, assim que vocês se conhecerem melhor, se darão muito bem!
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  Aquilo era a pior coisa aos ouvidos de Nicole no momento. Como se não bastasse todo o peso de se sentir um estorvo, ela realmente era incômodo para alguém.
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  — Tudo bem, tia. Eu compreendo. — respondeu num falso sorriso seguido de um suspiro.
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  Ela não poderia dizer outra coisa, poderia?
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  Carolina comia gostosamente os biscoitos e advertiu-a que, se ela não os comesse ficaria fraquinha. Fazia caretas enfatizando o quanto estavam deliciosos. E Nicole sorriu, percebendo quão amável, era a pequenina.
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~ ♥ ~

  Rosa se aproximava das cocheiras dos equinos, depois de correr um pouco para apressar-se. Adentrou pelo galpão e observou o irmão, que ajeitava o feno no comedouro de Lunia, assobiando tranquilo.
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  — Bê! — chamou e o irmão virou-se para ela sorridente.
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  — Ora, ora! A professorinha veio sujar um pouco os pés? — Rosa que já estava parada ao lado dele deu-lhe uma cotovelada.
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  — Da forma como diz até parece que eu não ajudo nesta fazenda!
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  — Ajuda, pouco. Mas ajuda.
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  — Vou te fazer comer este capim, Bernardo!
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  A irmã vociferou dando um beliscão no homem que. risonho e dolorido desculpou-se:
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  — Estou apenas implicando, irmãzinha! — esticou-se para beijar o rosto dela — O que houve? Por que veio aqui?
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  Rosa mordeu os lábios e respirou fundo com uma mão na cintura e outra a passear pela testa. Encarou Bernardo com sua expressão de quem sabia que não gostaria de ouvir algo.
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  — Olha só, Bê! Antes de qualquer coisa você sabe que esta é a casa da mamãe e ela…
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  — O que ela fez, Rosa? — Logo interrompeu largando o garfo de feno num canto e limpando o suor da testa com a própria camisa.
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  — Ela foi à cidade buscar a prima.
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  — Prima!? — alarmou esbravejando: — Mas… Será possível que a mãe agora deu para enlouquecer!? Ela realmente veio?
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  — Bernardo! Você sabia que ela viria! Sabia que a mãe estava preparando tudo, não vai dar de maluco agora!
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  — Sinceramente… — Bernardo bufou com o semblante estressado e encarou a irmã: — E então? A mulher chegou e é para eu ir lá, e fazer sala agora!?
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  — Abaixa esta crista comigo que eu sou a sua irmã mais velha, moleque! — Rosa bateu na testa do irmão — Sim, venha logo! E desamarra esta burra!
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  Rosa observou o irmão de cima a baixo, e saiu tranquila com um sorriso que Bernardo não poderia ver. Ela sabia que ele entraria em surto logo que ela se afastasse. E tal como pensava, aconteceu. Bernardo juntou todos os utensílios que usava, terminando o seu serviço com uma cara nada amigável, lavou mãos e rosto e encaixou o chapéu com força em sua cabeça. Estava a ponto de chaleira.
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  Assim que Nicole se levantou levando as xícaras à cozinha, titia advertiu que não era para ela lavá-las, sob a justificativa de que a visitante estaria muito cansada. E mesmo que a mulher tenha argumentado contra, aquela senhora era muito boa com argumentos. A visita, como dito, seguiu pelo corredor que ligava sala e cozinha avistando de relance, Carolina correr até a porta de entrada na direção de um homem, que supôs ser Bernardo. Ele também a notou e assim que pôs os olhos em Nicole, seu rosto não demonstrou reação alguma. Seus olhos estavam estáticos e ele respirava de modo lento. Ela, silenciosa, também o encarava um pouco surpresa pela beleza dele, mas bem mais desconfiada, como se estivesse diante de alguém que lhe atacaria. Se estivesse com seu coldre, com certeza a mão estaria a postos de puxar sua arma.
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  Bernardo voltou o olhar para Carol, e sorriu colocando a garotinha no chão, desfazendo a cara feliz, por uma feição desprezível, novamente direcionada à mulher. Rosa sussurrou que ele se comportasse ao ouvido dele, e sorriu para a sua quase prima. Nicole ainda estava imóvel encarando-os, a espera de alguma reação.
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  — Bernardo, esta é a Nicole. — Rosa disse os olhando, curiosa: — Vou até à cozinha chamar a mamãe.
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  — Boa tarde. — disse ele: — Ou melhor, boa noite.
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  Pronunciou sem olhar para a mulher, apenas colocando seu chapéu em um suporte atrás da imensa porta dupla do casarão.
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  — Boa noite. — respondeu ela.
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  Titia chegou e sorriu para os dois, com seu olhar apreensivo para o homem. Carolina brincava com seus brinquedos perto da lareira e já não se importava muito ao que lhe ocorria. Apenas quando fosse conveniente, porque afinal, Carolina era uma criança muito esperta!
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  — Boa noite meu filho, já cumprimentou a Nicole?
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  — Sim. — respondeu olhando de cima a baixo e indiferente à mulher parada a certa distância.
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  — Ela é muito bonita. — Carolina disse olhando para ela e sorrindo tímida.
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  — E você é uma princesinha!
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  Nicole respondeu agradecida à criança e lhe deu uma piscadela com um largo sorriso, logo tornando a falar com os adultos:
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  — Tia, eu gostaria de me repousar e tomar um banho se for possível.
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  — Claro, minha querida. O penúltimo quarto à esquerda, no corredor superior é o seu. O banheiro fica na última porta de frente para o corredor.
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  — Obrigada. Se todos me dão licença…
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  Ela disse pegando as malas à beirada das escadas enquanto Bernardo a olhava de soslaio.
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  — Bernardo ajude-a com as malas, por favor.
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  A ordem da tia se fez, e Nicole tentou evitar simpaticamente.
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  — Não é preciso, muito obrigada. — sorriu para ele, que a ignorou completamente.
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  Bernardo tirou as bagagens das suas mãos e subiu. Nicole então o seguiu pelas escadas, calada e com olhos espantados. Ele manteve-se em silêncio pelo curto trajeto abrindo a porta do novo quarto da mulher. Entrou e deixou as malas ao pé da cama enquanto ela o aguardava sair, parada à porta.
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  — O banheiro é ali. — apontou a porta próxima à do quarto, porém de frente para o corredor.
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  — Obrigada, e me desculpe por incomodá-lo.
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  A resposta de Nicole soou arrogante. Ela compreendia que era a intrusa, mas reconhecia que não tinha um gênio muito fácil. Temeu que não seria muito agradável conviver com Bernardo, mas agarrava-se à ideia de que tudo seria provisório. Ele saiu do quarto, encarando-a sobre os ombros e ela tentou não dar tanta importância àquilo.
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  Seu quarto era simples e agradável. Compunha-se de um guarda-roupa antigo com espelho, uma escrivaninha em um canto, tapete no meio. Uma pequena mesinha de abajur ao lado da cama, acima dela uma janela e ao lado uma sacadinha pequena e florida com longas cortinas em tom verde-claro. As portas e janelas em esquadria de madeira com vidraças.
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  Nicole acabou adormecendo de cansaço, e não ouviu Rosa lhe chamando mais tarde para o jantar. Ela estava exausta dos problemas, da viagem e chateada por uma recepção grosseira de Bernardo, mas confortável por ser bem recebida pelas mulheres da casa. Afinal, era só manter distância dele, que um não pisaria no calo do outro.
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Lelen
  — Como assim, adotada? — perguntou surpresa a mulher paulistana." Leia mais »

Ah, isso explica algumas coisas HAHAHA

Lelen
  Às vezes que vira sua tia, em toda a sua vida — ao menos que se recordava — foram quatro,…" Leia mais »

Yé, gente, mas que foi que rolou que a família ficou assim, cada um pro seu canto?

Lelen
  — Vem, senta aqui comigo. Você vai acabar ficando tossinha." Leia mais »

🥹

Lelen
  — Sinceramente... — Bernardo bufou com o semblante estressado e encarou a irmã: — E então? A mulher chegou e…" Leia mais »

Cadê o menino fofo do prólogo? Esse eu já quero jogar na lama 🤨

Lelen

Bernardo, te cuida que se for pra eu torcer por você, tu vai ter que trabalhar.
E O QUE DIABOS ACONTECEU COM A FAMÍLIA DO PRÓLOGO? QQ É ISSO, MINHA GENTE???
PRECISO DE EXPLICAÇÕES. E PRECISO QUE AS COISAS MELHOREM PRA NICOLE ASJDASOIDNAODMAS

Aven Lore

Que delicia re-ler essa história que tanto me marcou!

Ray Dias

Ah muito obrigada por estar aqui relendo, querida! ♥ Obrigada por sempre, sempre, me impulsionar!

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