3 • Mistérios
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Auradon Preparatória
Com duas informantes no meu grupo seleto e a realeza como aliado. Lá estava eu fazendo minhas pesquisas e buscas para encontrar minha mãe. As habilidades de Florence me foram úteis para arrancar informações de alguns alunos sobre o que seus pais sabiam do assunto. Enquanto isso, %Ben% começou a sondar a Fada Madrinha que continuou relutante sobre isso.
As semanas foram se passando, até que o outono chegou e com ele os preparativos para a feira de talentos. Eu estava tão concentrada em minha missão e ser uma aluna mediana, que nem tive tempo para me ocupar com algo.
— Devo admitir, ficou impecável. — disse a ela, assim que me mostrou seus croquis de moda — Não imaginava que tinha todo esse talento.
— Nem sempre eu quero cortar a cabeça de alguém. — brincou ela, me fazendo rir — Sempre gostei de desenhar, você sabe disso e a moda é minha segunda paixão, alinhei o bom ao agradável.
— Bom?! — fiz uma careta, arrancando uma gargalhada maldosa dela.
— E como estão suas buscas? — ela fechou seu caderno de croquis e sentou na cadeira, que tinha junto com a bancada de estudos do seu lado do quarto.
— Mal. — respondi me sentando na cama dela. — Os alunos não sabem de nada e os pais não contam nada, nem o príncipe conseguiu algo com a diretora.
— E por falar em príncipe, soube que ele vai te levar a um baile real. — comentou Clair dando um pulo da cadeira animada e indo até seu guarda-roupas.
— Eh... Eu não queria, mas ele disse que pode ser uma oportunidade de ajudá-lo com o segredo dos pais dele. — confirmei, ainda relutante — Preciso cumprir minha parte no acordo.
— Faz sentido. — ela retirou um vestido do fundo do móvel e me apresentou — Para você.
— O quê?! — senti meus olhos brilharem um pouco ao ver algo tão bonito.
— Acha mesmo que pedi à diretora uma máquina de costura para ficar de enfeite? — ela colocou a mão na cintura, com o olhar óbvio para mim — Claro que não, passei os últimos dias investindo meu tempo nessa obra prima.
Ela me ajudou a vesti-lo e ajeitou meu cabelo. Quase não me reconheci com aquele ar de princesa. Olhei para minha amiga e a abracei de leve.
— Valeu, Clair. — agradeci.
— Pare de doce que você não é assim. — disse ela, com um olhar orgulhoso.
Só não sabia se era por mim, ou pelo vestido.
O príncipe %Ben% me buscou na porta do meu quarto pontualmente na hora que combinamos, juntos seguimos para o baile no castelo de seus pais. Os olhares de surpresa para mim assim que entramos de braços dados no salão eu já esperava, mas a reação estática de Audrey ao lado de seus pais, essa eu não esperava.
Claro que todo esse tempo em que seguimos com nossa cumplicidade, uma proximidade incomum aconteceu entre nós dois. Entre indiretas e farpas, %Ben% era um garoto encantador e muito educado, além de bonito e atraente. A forma em que ele sorria, mesmo em alguns momentos em que discutimos.
Era notável a diferença entre ele e %Gale%.
— Está nervosa?! — perguntou ele, me guiando em direção ao seus pais.
Mas internamente, não garanto nada.
— Mãe, pai, esta é %Mal%. — ele me apresentou de forma espontânea e despreocupada.
— A filha da Malévola. — disse o rei Fera, parecia engolir seco.
— Sim, me chamo %Mal% Bertha, mas podem me chamar de %Mal%. — disse ao sorrir meio forçadamente.
— Não me leve a mal, querido, mas achamos que viria acompanhado de outra pessoa. — disse a rainha.
Com certeza se referindo à Audrey. Pelo menos dela, não senti entonação de preconceito.
— É a única que eu queria convidar. — disse o príncipe, com segurança.
— Vamos dançar um pouco? — perguntou %Ben% para mim.
— Eu não sei dançar. — aleguei.
Estava mesmo envergonhada por todos nos olharem. Eu não estava ali como uma vilã que invadiu a festa para fazer travessuras. Estava como a convidada do príncipe.
— É só me seguir. — ele sorriu de canto e me guiou até o centro da pista de dança.
Incrível, mas me senti confortável e segura com ele. %Benjamin% me fazia divertir de uma forma diferente e mesmo que eu não quisesse, comecei a fazer alguns comparativos entre ele e %Gale%. Desde os mais intensos olhares até as mais fúteis conversas. E como eram aleatórias as conversas que eu e o príncipe tínhamos, sempre nos levava aos risos.
— Olha só, e não é que você teve um vestido para usar hoje. — comentou Audrey ao se aproximar de mim.
Aproveitei que %Ben% estava conversando com a princesa Tiana e seu marido, para conhecer a mesa de doces, mas considerando a companhia, tenho medo de tudo ficar amargo.
— Sim, tenho uma excelente estilista pessoal. — garanti a ela — Se quiser te dou o cartão dela depois, já que seu vestido parece tão antiquado.
Eu jamais perderia a oportunidade.
— Não pense que venceu essa guerra. — disse ela.
— Que guerra?! — perguntou %Ben% ao se aproximar de nós.
— Nenhuma. — Audrey sorriu para ele, disfarçando a raiva.
Seu olhar para ele segurando a minha mão foi fulminante.
— Audrey, acho que seus pais estão te chamando. — disse ele, para que ela se retirasse.
A garota assentiu e se afastou.
— Ela parece estranha hoje. — comentou ele — Não me convenceu o que ela disse, de qual guerra falavam.
— Bem, a guerra onde todos nós temos um mal dentro, mas alguns escondem bem e outros mostram sem vergonha. — expliquei a ele, de forma enigmática.
— Hum… — ele virou o rosto para a mesa de doce — Você deveria experimentar esses.
Ele pegou um brownie e sorriu.
— São meus favoritos. — disse.
— Vamos lá. — eu tentei soltar minha mão da dele, porém sem sucesso, então utilizei a outra mão livre para pegar.
Assim que dei a primeira mordida, me senti totalmente rendida ao sabor daquela espécie de bolo. Um sabor que estava vivo na minha mente e que eu reconhecia muito bem. De todos que eu comi raramente na Ilha dos Perdidos e na Auradon Preparatório, nenhum tinha aquele gosto tão familiar para mim. Apenas uma pessoa conseguia me fazer sentir variadas sensações ao comer um simples brownie.
— O que foi?! — perguntou ele, já sentindo algo diferente em mim.
— Você disse que são seus preferidos. — eu o olhei — Quem faz?
— Não sei, os doces que são servidos nos bailes reais são encomendas especiais, não são os mesmos que temos na escola ou qualquer outra confeitaria de todo o reino. — respondeu ele. — Pelo menos é o que eu sei.
— Você conseguiria saber pelo menos o nome da marca? — pedi, fazendo um olhar de piedade.
— Tudo bem, acho que consigo, mas por quê? — indagou ele — Não se esqueça que estamos aqui para descobrir…
— Não se preocupe com o segredo da sua família, acho que já desvendei o mistério e depois resolvemos isso. — Assegurei a ele. — Agora preciso de um nome.
Ele assentiu inconformado. Assim que %Ben% conseguiu descobrir o nome da fábrica que fornecia os doces, resolvemos voltar à escola para desvendar esse mistério. Assim que passamos por Audrey, “acidentalmente” a mesma derrubou suco de uva no meu vestido. Minha raiva chegou ao topo da minha paciência, mas %Ben% me segurou pelo pulso, antes que eu voasse nela. Ele me retirou do salão e me levou até seu quarto, mesmo que tentássemos voltar à escola, seus pais não permitiriam.
— Não precisava me trazer para cá. — comentei — O que esse castelo mais tem são quartos.
— Eu sei, só queria ficar mais tempo sozinho com você. — disse ele ao pegar uma toalha e me entregar — E meu banheiro é o melhor de todo o castelo.
— Hum… — eu peguei a toalha — Só quero ver.
— Vai se surpreender. — disse ele.
O que de fato me surpreendeu mesmo. Assim que entrei me senti em um spa de luxo para a realeza. Retirei o vestido molhado e tomei um banho, assim que terminei, vesti uma blusa de moletom dele que parecia mais um vestido curto em meu corpo. Ri um pouco ao me olhar no espelho e observar que nunca imaginei viver coisas assim. O plano original era invadir a sala da diretora, encontrar a minha mãe, obter nossa vingança e voltar para casa.
Agora eu estava pensando em ficar na escola. Não somente por meus amigos que se adaptaram muito bem em suas atividades individuais como a Clair com as roupas e o Klaus com sua ambição em ser engenheiro.
— Agradeço pelo banho, apesar de não ter precisão, mas seu banheiro foi mesmo convidativo. — disse me encolhendo um pouco, ao sentir a brisa entrar pela janela e passar por minhas pernas. — Deixei a toalha lá dentro.
— Não tem problema. — ele encostou na mesa de estudos mantendo o olhar em mim — Mandei que preparassem o quarto ao lado para você.
— Agradeço. — disse novamente.
Era estranho, mas estava usando muito essa palavra com ele.
— O que faremos agora?! — perguntei.
— Ainda temos um nome e tenho certeza que seu amigo ainda não foi pra cama. — disse ele se referindo ao meu hacker favorito.
Eu sorri de leve e peguei meu celular dentro da bolsa e mão e liguei para Klaus.
— K falando. — disse ele ao atender.
— Quanto tempo demoraria para descobrir sobre um lugar? — fui direta.
— Depende do lugar, se for fácil de achar, faço isso em uma hora. — respondeu ele.
— Diga o nome. — pedi a %Ben%, colocando a ligação no viva voz.
—
Sweet Royal. — disse ele.
— Uau, o príncipe está aí com você? — perguntou Klaus.
— Não desvia o foco, Klaus, e descubra tudo o que puder. — pedi num tom de ordem.
— Sim senhora. — disse ele, encerrando a ligação.
— Agora pode me ajudar?! — %Ben% me olhou mais sério.
— Não posso dizer, mas teria que te mostrar. — aleguei a ele — Me ajuda a encontrar a minha mãe e te levo a Ilha dos Perdidos onde vai encontrar respostas.
— %Mal%. — ele segurou a minha mão com leveza.
— Obrigado por confiar em mim. — ele sorriu um pouco.
Sorri de volta discretamente e me retirei. Assim que entrei no quarto ao lado, caminhei até a cama e me joguei. Senti um peso em meu corpo e a chuva de pensamentos começou. Minutos depois bateram na porta e eu assenti a entrada. Era a rainha Bela, para minha surpresa. Dei um pulo da cama, permanecendo sentada.
— Me desculpe, não queria te assustar. — disse ela, sorrindo de leve.
— Não assustou, só pensei que fosse o %Ben%. — disse, disfarçando.
— É sobre ele que eu vim falar. — ela entrou mais, fechando a porta e seguiu até mim — Estou feliz que ele tenha convidado alguém para o baile.
— Mesmo que esse alguém seja a filha da Malévola? — indaguei.
— Sim. — assentiu ela, se sentando na cama de frente para mim — %Benjamin% nunca foi de muitos amigos e talvez seja por nossa super proteção, sempre frisamos a ele a necessidade de saber se defender e ter responsabilidades com o reino.
— É um fardo muito grande para se carregar, não acha? — joguei uma indireta — Ainda mais sendo filho único.
— Sim… Ele é um menino de ouro, nunca o tinha visto com os olhos brilhando até você chegar na vida dele, foi a primeira garota que ele trouxe em um baile. — ela parecia estar sendo sincera — %Mal%, minha família já sofreu muito no passado, um dos motivos dele não aparecer sob os holofotes.
— Entendo… — eu respirei fundo, juntando as palavras certas na mente — E sendo sincera, acho que deveriam contar a ele sobre essas dores do passado, eu não deveria falar, mas %Ben% acha que escondem um segredo dele, e não vou impedi-lo de descobrir.
— Você sabe de alguma coisa?! — Bela me olhou, parecia ter uma certa esperança — %Mal%, o que você sabe?
— Sei que deveriam se atentar às pessoas que moram na Ilha dos Perdidos, nem todos lá são vilões e merecem ser excluídos. — continuei com minha sinceridade no que achava ser certo pronunciar.
A rainha me agradeceu e se retirou. A forma como ela agiu me deixou intrigada e ao mesmo tempo confirmou minha teoria sobre %Ben% e %Gale%.
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Finalmente estava passando pelas portas da Auradon Preparatória, seguindo diretamente ao quarto de Klaus. O lugar repleto de organização que até me fez duvidar se Jay realmente dormia ali também.
— Miss %Mal%, aqui está sua informação. — disse ele, me entregando uma folha.
%Ben% se colocou ao meu lado e juntos começamos a ler. A fábrica ficava em uma parte isolada do reino entre Auradon e Agrabah. O príncipe e eu nos olhamos e já tinha certeza do que o outro pensava. Ao cair da noite, seguimos para o endereço que Klaus conseguiu, acompanhados do meu grupo seleto de amigos. Ally e Jay ficaram encarregados da distração, enquanto Klaus conseguia nos colocar lá dentro, destravando as portas de segurança ao invadir o sistema pelo notebook de vossa alteza. Enquanto isso, Florence ficou na escola para nos dar cobertura.
Eu, %Ben% e Clair entramos na fábrica e fomos guiados por Klaus pelo celular. Um lugar era deslumbrante e repleto de pinturas nas paredes que me remetiam a minha infância, com referências que somente eu e minha mãe saberiam o significado. Adentrando mais o lugar, conseguimos chegar à cozinha principal. Ouvimos algumas risadas vindo de dentro, seguido de barulhos. O som de alguém cantando era nítido.
— Fada Madrinha, não pode continuar me fazendo esses pedidos enormes com o prazo pequeno de entrega. — Eu consegui distinguir nitidamente a voz da minha mãe vindo do lado de dentro. — Não sou uma máquina e meus funcionários também não, a realeza que aprenda a pedir com antecedência, nossa fábrica está crescendo e a inauguração da confeitaria foi um sucesso em Auradon.
— Não me culpe por ser tão habilidosa com sobremesas. — a voz da Fada Madrinha soou clara também, me deixando mais perplexa ainda.
— E como está minha garotinha? Espero que aprontando muito. — minha mãe soltou uma gargalhada que só ela fazia.
Senti meu coração se aquecer.
— Sua filha é uma boa aluna, e tem feito amizade com o príncipe. — contou a Fada, soltando um suspiro fraco — Só me preocupo que ela esteja persistente em te encontrar.
— Não quero nem imaginar isso. — a voz dela ficou mais baixa.
— O que você vai fazer? — perguntou %Ben% em sussurro.
— Não é óbvio?! — disse Clair, me conhecendo.
Eu me afastei dele e entrei na cozinha. Mantendo o olhar para minha mãe, que estava vestida com um avental de cozinheira com uma vasilha na mão e um batedor de ovos na outra.
— %Mal% Bertha?! — ela se assustou ao me ver ali.
— Mãe. — eu não sabia se corria para abraçá-la de tanta saudade e a xingava por ter me deixado.
— Oh… — a Fada Madrinha também se assustou ao me ver, depois seu olhar suavizou ou avistar %Ben% e Clair atrás de mim — Como chegaram até aqui.
— O brownie da tia Malévola a denunciou. — explicou Clair a lógica da questão.
— Você a deixou comer? — minha mãe olhou para a diretora.
— Eu não sabia, na escola… O baile. — ela fitou o príncipe — Vossa alteza a levou ao baile real.
— Poderiam nos deixar à sós? — pediu minha mãe.
Eles assentiram e se retiraram da cozinha. Eu controlei as minhas emoções o máximo que pude até que a raiva explodiu e fiz algumas coisas serem arremessadas contra parede.
— Por que me deixou?! — disse num tom elevado — Me trocou por isso?
— Não, querida. — ele se aproximou de mim e segurou em minha mão — Jamais faria isso, você é minha filha e… É importante para mim.
— Você me deixou naquela ilha sozinha, se não fosse a tia Rainha de Copas, eu não sei o que teria sido de mim. — mantive o olhar raivoso para ela.
— Me perdoe, querida. — ela respirou fundo — Depois que eu perdi minha magia para a Fada Madrinha, eu percebi que não adiantava mais continuar cultivando o ódio, ela me prendeu em um lugar distante, mas depois de um tempo ela me propôs uma sociedade com a fábrica.
— Eu senti tanto a sua falta. — admiti para ela.
— Eu também, minha querida. — ela me abraçou com carinho — Não conte nada para sua tia, tenho certeza que ela vai querer cortar minha cabeça.
Um breve momento de silêncio e caímos na gargalhada. Eu chamei %Ben% de volta e o apresentei a ela. O olhar da minha mãe para ele foi o mesmo que eu fiz na primeira vez. Ela me olhou como se tivesse também matado a charada, e eu discretamente acenei com o olhar para ela agir naturalmente.
— É um prazer conhecê-lo, alteza. — disse ela.
— Por favor, me chame de %Ben%. — ele sorriu de leve — O prazer é meu, seu brownie é o meu favorito.
— Ah, que bom. — ela me olhou novamente, forçando um sorriso.
— Temos que voltar para a escola, %Ben%. — disse ao segurar em sua mão.
— Posso voltar aqui?! — perguntei a ela.
— Sempre que quiser, minha querida. — ela sorriu de leve.
Algo estranho de se ver. Assim que voltamos para Auradon Preparatória, fomos repreendidos pela Fada Madrinha, e desta vez nem %Ben% conseguiu se livrar. As aulas continuaram pelo outono, e prudentemente resolvemos adiar nossa escapada à Ilha dos Perdidos.
A vigilância era grande demais.
Na primeira semana de dezembro, a rainha Bela ofereceu um baile de Inverno. Desta vez, até meus amigos puderam ir. Parecia tudo tranquilo e normal, a neve caindo do lado de fora, os musicistas tocando belas canções e %Ben% me levou até a estufa do seu pai. Meus olhos brilharam um pouco ao ver a tão famosa roseira do rei Fera. Ele, que segurava minha mão, parou em frente a uma mesa redonda, havia uma rosa em cima.
Pegando-a com a outra mão, me olhou.
— O que foi?! — perguntei sem entender — Por que estamos aqui?
— O primeiro presente que meu pai deu para minha mãe foi uma rosa. — contou ele, ignorando minhas perguntas — Exatamente nesse lugar no dia em que se declarou para ela.
— E está me dizendo isso… — eu me calei entendendo entrelinhas a intenção dele — %Ben%…
— Já entendeu, não é? — ele sorriu de forma fofa.
— Não acho que deveria. — o aconselhei — Não sou a garota ideal para você.
— Não. — disse como se concordasse comigo — Você é a garota que faz meu coração acelerar.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, seus lábios tocaram os meus com suavidade e um pouco de malícia. Doce e leve, começou a ficar mais intenso quando ele envolveu seus braços em minha cintura. O clima estava favorável e meu coração também acelerado.
Até que o inimaginável aconteceu.
Eu senti uma pessoa afastar %Ben% de mim e socá-lo, derrubando-o no chão. Eu levei a mão a boca no susto e em segundo a pessoa encapuzada me segurou pelo pulso e me puxou para sair de lá.
— Ei, espera! — gritei tentando me soltar — Está me machucando.
— O que você acha que fez agora? Me machucou. — a voz era de %Gale%.
O que fez meu corpo gelar.
— É assim que você quer que eu te espere?! — ele soltou a minha mão — Espere até que seja a rainha.
— Não é nada disso, %Gale%. — minha mente estava mais do que confusa — Afinal de contas, o que está fazendo… Como chegou aqui?
Eu já nem sabia qual pergunta fazer primeiro.
— Todo feitiço tem sua falha. — respondeu ele.
Mais uma vez fui surpreendida, agora por %Ben% que se jogou contra ele, iniciando uma briga estranha e maluca. Comecei a gritar chamando por socorro, poderia usar meu poder? Claro, mas precisava de uma vez por todas desvendar esse mistério. Foi então que os guardas do reino apareceram juntamente com o rei Fera e a rainha Bela, e os demais convidados. Eu finalmente os afastei um do outro e me coloquei na frente de %Gale% o protegendo, pois os guardas, a mando do rei, apontaram suas espadas para ele.
— Por favor, não o machuque. — pedi ao rei, sentindo o olhar confuso de %Ben% para mim.
O príncipe se levantou do chão, limpando o sangue que escorria no canto da boca, com o olhar furioso e intimidador, o que era novidade para mim.
— Saia da frente, senhorita %Mal%. — ordenou o rei.
— Não. — gritei segura da minha decisão.
— Agora você vai me defender? — %Gale% se levantou também, atrás de mim — Não preciso que me defenda.
— Eu sei, e não vou te defender, pois não preciso. — disse ao me virar para ele e retirar seu famigerado capuz de estimação.
Logo o som de surpresa surgiu entre todos ali presente, principalmente as vossas majestades.
— Aqui está, %Ben%, o segredo dos seus pais. — disse a ele, com o olhar sereno — Você tem um irmão gêmeo.
— O quê?! — disseram %Gale% e %Ben% em um coral.
Eu sorri de canto me sentindo a verdadeira Sherlock Holmes após um caso bem resolvido. O passado triste mencionado pela mãe de %Ben% foi o sequestro do seu irmão, ainda criança, por Gaston. Eu não sabia muito sobre a história, mas me lembrei vagamente das conversas que eu e Clair ouvíamos de nossas mães. Foi somente juntar as peças e levar em conta ambos serem quase idênticos, que logo matei a charada.
— Meu filho… — a rainha Bela se mostrou emocionada, ao se aproximar de nós, sem receio ela tocou no rosto de %Gale%.
— Filho?! — ele se mostrou ainda mais confuso que o irmão que se aproximava.
— Vossa alteza. — brinquei ao piscar de leve para %Gale%.
Ambos os príncipes me olharam.
O que me causou um frio na barriga.
Em instantes o rei Fera ordenou que todos se retirassem. Sua família precisava de privacidade após o turbilhão de emoções causadas por aquela revelação bombástica. Eu me senti aliviada em partes, mas curiosa sobre o que viria a seguir.
Após tudo ser revelado, mais uma celebração foi promovida, agora para a coroação e reconhecimento do príncipe %Gale%. Confesso que fiquei emocionada ao ver tal cena, e mais ainda por minha mãe estar presente ao meu lado. Seu olhar orgulhoso para mim valia mais do que qualquer travessura da vida.
— Olha só nossa investigadora profissional de Auradon. — brincou Clair ao se aproximar de mim — O que achou do vestido que lhe dei?
— Se superou novamente. — a elogiei subjetivamente pegando um brownie da mesa de doces.
— Agora eu estou curiosa. — comentou ela.
— Sobre o que? — a olhei intrigada.
— Com qual dos dois príncipes vai se casar. — disse ela, num tom prepotente — Já estou te vendo como a causadora de discórdias entre a coroa.
Ela soltou uma gargalhada maldosa.
— Eu aposto no %Ben%. — disse Klaus, se aproximando com os outros — Ele é educado, inteligente e se veste bem.
— Eu dobro a aposta no %Gale%, ele e a %Mal% estão juntos desde sempre. — disse Jay — Gosto mais dele.
— Eu acho o príncipe %Ben% um lord… Mas esse %Gale%. — Ally comentou, atraindo um olhar de reprovação de Jay.
Ambos já estavam bem próximos naquela amizade colorida.
— E desde quando eu dei permissão para apostarem sobre minha vida. — eu olhei para Florence — Nem se atreva a dizer algo, ainda está em período de experiência.
— Eu não ia dizer nada. — ela riu.
— Você não respondeu. — instigou Clair.
— E nem vou responder. — eu voltei meu olhar para frente, fixando em ambos os príncipes que mantinham seus olhares também em mim.
Ambos tinham suas qualidades e pontos fortes que me atraíam. %Ben% era sereno e suave como a brisa da noite, seu beijo doce e nossa aproximação havia gerado uma amizade incomum. Já %Gale%, o conhecia desde pequena e em todos os momentos tristes da minha vida, ele esteve ao meu lado, era como o calor do dia com a intensidade dos seus beijos.
Eu não sabia por qual dos dois, mas meu coração estava acelerado naquele momento.
Ao me mudar para Auradon Preparatória eu tinha um propósito de encontrar minha mãe, mas quem diria que eu encontraria mais do que isso.
Logo, um sorriso maquiavélico surgiu em meu rosto.
Você é minha sorte,
Você me fez arriscar meu coração numa oportunidade única,
Agora, todos estão olhando para nós com pipoca na boca,
Esperando para ver o que vai acontecer com nós dois.
- Lotto / EXO
“Surpresas: A vida é uma caixa de surpresas, não devemos ter medo de abri-la e viver o que nos é apresentado.” - by: Pâms.
Fim