Modo Insano de Amar

Escrita porRay Dias
Revisada por Lelen

Capítulo 1 • Acordando Para a Realidade

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

"Oh, não diga simplesmente adeus. Não diga simplesmente adeus. Recolho estes cacos até eu sangrar se isso fizer tudo ficar bem." (Bruno Mars)

  Manhã de outono e as folhas caíam como se dançassem sobre nós. Nesta manhã acordei no sofá, não me recordava o motivo de pernoitar por lá, desconfiava que a razão estivesse no filme tedioso que minhas pálpebras insistiram em observar. Insistiram, como uma tentativa do meu cérebro para não pensar no episódio da noite anterior e teimaram até serem derrotadas. De fato, o cansaço, a ilusão e a sensação de não doer como gostaria trouxeram-me o alívio do sono. Sono tranquilo.
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  %Joe% estava comigo e andamos pareados, indiferentes às coisas sem importância, e percebendo os mínimos detalhes da simplicidade da vida. Coisas que os outros descartavam, nós dois juntávamos e montávamos como num álbum. Estar com ele era estar livre, me sentia sem rótulos ou censura.
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  — Como se sente hoje?
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  %Joe% iniciou um diálogo comigo, quebrando o som da brisa de outono e das folhas dançantes acima de nossos corpos.
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  — Feliz!
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  — Mesmo? %Mel%, não precisa fingir que nada aconteceu. Somos amigos ou não?
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  O olhar dele não era tão surpreso como quando nos conhecemos anos atrás. Não era curioso, nem surpreendente. Era preparado. Ele sempre sabia o que esperar de mim e nunca se assustava com o que via.
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  — Sempre seremos. Mesmo se for apenas da minha parte.
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  — Não tem essa de “só da sua parte“, garota! Você não vai me perder.
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  — Afinal, o que realmente é importante a gente cuida para não perder, não é? — respondi a ele, dando-lhe um meio sorriso ao notar as íris brilhantes de %Joe% para mim.
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  — Mas e então?
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  %Joe% também nunca fora de se contentar com o meu monossilabismo. Sempre insistia até chegar à conclusão que queria, mas também sabia reconhecer quando chegava ao meu ponto final e respeitava isso.
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  Sem fazê-lo insistir muito, até porque esse jogo de mistérios e atrasos entre nós já havia nos exaurido, respondi sua pergunta que ia muito além de apenas saber se ainda éramos amigos:
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  — %Joe%, eu não finjo. Apenas descobri que enfim é outono e se olhar ao seu redor, tudo mudou.
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  — Se eu não te conhecesse, diria que você é louca. Anteontem terminou um namoro de dois anos e meio pelo motivo certo, mas mesmo assim... — ele fez uma pausa sorrindo para mim incrédulo. — Felicidade não era o que eu esperava de você, principalmente porque você disse que me ligou chorando ontem! Não me desculpo por não ter podido a escutar, %Mel%!
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  — Chorava porque não sabia a causa de ter passado tanto tempo com ele. Eu precisava conversar com você...
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  — Não precisa mais?
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  E ele sempre dava um jeito de colocar uma piada ou algum comentário que pendia para um lado mais descontraído em assuntos como este.
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  — E o que estamos fazendo, %Joe%?
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  — Eu sei! Eu sei que você me chamou para o café exatamente por querer ainda falar comigo, desabafar, mas… — Ele me encarou novamente com expressão de cuidado e preocupação. — %Melissa%, você está ótima, e o que ele me disse…
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  — Ele te contou alguma mentira sobre não achar que deveríamos ficar juntos porque ele realmente se importa comigo, e blá blá blá, não é?
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  — Com certeza, é o David afinal! O cara sempre foi um babaca, e não sei por que ele achou que eu iria acreditar nele, mas quando ele me disse que ele terminou com você… Eu realmente achei que você estaria mal.
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  — Eu deveria!?
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  — Bem, eu… — %Joe% hesitou passando a mão nos cabelos. — Não estou falando que deveria estar mal, afinal, ele não merece nem seus sorrisos e nem suas lágrimas. Mas eu achei que você poderia ter encontrado algo…
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  Deixou no ar a mensagem como se eu não soubesse a verdade, e nem ele.
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  — %Joe%, sabe, David tinha razão se disse que não deveríamos ficar juntos, porque tanto eu quanto ele já havíamos descoberto isso há algum tempo. E sinceramente não sei por que me arrastei por tanto tempo naquilo. Não há necessidade de saber mais detalhes até porque você com certeza já tem ideia das minhas razões. Fui eu que terminei, e não só por descobrir tantas verdades, mas por entendê-las também! Não basta saber que estou bem e me sinto feliz de estar aqui?
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  Encarei meu amigo e ele então estreitou os olhos de forma linda. Era o sorriso. Aquele sorriso largo e radiante que só o %Joe% tinha. E o único que sempre me fazia e faz sentir cócegas no estômago. Ele continuou a falar me olhando com aquele seu sorriso dilacerante.
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  — É que me preocupo com você! Ontem eu fiquei pensando em como você estaria mal com tudo isso e eu não podia estar aqui com você por causa daquela reunião chata da empresa com o novo gerente, admito, num after que ninguém deveria estar falando da droga do trabalho!
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  Eu sorri radiante. Eu sempre soube que ele se preocupava comigo e não era a primeira vez que ele dizia isso diretamente. Contudo, hoje era diferente. Bons ventos trazem cheiros doces que repuxavam da minha memória as sensações perdidas envoltas a %Joe% e à toda a nossa amizade. Sexto sentido talvez? Ou um simples presságio antigo?
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  Essa reunião veio bem a calhar, não que eu não quisesse tê-lo ao meu lado me dando força naquele momento. Mas era necessário que eu tivesse aquela noite sufocante de arrependimentos e com filmes tediosos dos quais meu cérebro nem se preocupou em gravar algum resquício. Não havia nada como a sensação de abrir os olhos e sentir-se livre e acordada. Tudo refletia como uma peça onde eu atuei sem amor.
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  — E foi bem ao contrário... eu me senti aliviada de ter acabado, mas fiquei decepcionada de não ter doído tanto quanto deveria.
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  — Não te entendo... você não disse que não o amava? Queria que doesse?
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  — Não é isso, mas não era só um namoro, sabe? Era um namoro, e só.
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  Como eu disse, me vi buscando me desvencilhar de um personagem do qual eu não reconhecia o motivo de tê-lo vestido. Para que eu estava vivendo algo vazio? Quem era a plateia daquela comédia fracassada? Ou melhor: daquele romance antirromântico!
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  Não era só um namoro desses onde nós não cogitamos o fim e nem vamos muito além. Ou ainda desses onde fazemos múltiplos planos que realizamos ou não. Simplesmente esses "só um namoro" de muitos ou poucos, mas consequentemente namoros que ensinam e são vividos.
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  As nossas almas — generalizo mesmo — são formadas de partes, assim como as fases das nossas vidas. Há um pedaço diferente para cada época, momento, vivência. Há a alma de criança, de jovem, de adulto, medrosa, corajosa, tímida e assanhada e tantos outros antônimos e sinônimos que em seus pedaços formam-nos unicamente no ser.
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  Um "namoro só" recusava explicações. É só. A doação é única de um pedaço que pode entregar-se sem esperar retorno ou apenas entregar-se a si mesmo. Na segunda opção o retorno é automático. É como ferir seu corpo por vontade própria e receber dor e raiva de si mesmo. No meu caso eu não entreguei tudo o que eu poderia entregar, não por egoísmo, mas por falta de interesse. E aquilo que eu recebi não era coerente com o que eu dava, nem coerente à coisa alguma que se referisse a quem eu sou. David e eu éramos duas flechas perdidas, diferentes e que não se cruzavam.
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  %Joe% ficou ali me observando atento e admirado, antes de afirmar:
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  — Preciso fazer um curso sobre este seu lirismo falado para ver se algum dia eu te entendo.
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Narração: %Joe%

  Eu tentei brincar, mas o fato é que eu a compreendia perfeitamente. Eu sempre a compreendia. Às vezes mais do que eu gostaria até. E ela sabia disso, talvez não nas proporções reais, mas em algum vestígio era evidente que sabia.
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  — Você sempre me entende e sabe disso. É uma das coisas que me encantam em você. Ninguém nunca entende o que eu digo, até me rotulam de louca. Mas você não, você me compreende perfeitamente.
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  — É porque eu te conheço. Ninguém entende o desconhecido, certo?
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  — Certo, %Joe%. E quer saber mais? Este é um momento ótimo para o nosso café.
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  — Eu pago.
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  — Viu como você me compreende? Eu adoro você!
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  — Também te amo, pequena.
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