2 • Arco-Íris
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— O quê? — Mantive meu olhar em Junior, surtando por dentro. — Império do Brasil? Que tipo de brincadeira é essa?
— %Mia%, não é brincadeira. — A voz de %Joseph% veio de trás de mim.
Eu me virei para trás e o olhei, parado perto da porta de entrada com as mãos nos bolsos. Seu olhar estava triste mais uma vez.
— Me desculpe, eu não deveria ter trazido você — seu tom estava baixo —, mas não te deixaria lá sozinha.
— Vamos lá pra cima, gente, eles precisam de privacidade. — Junior, com seu bom senso de irmão mais velho, puxou os outros dois amigos para o segundo andar.
%Joseph% continuou mantendo seu olhar em mim, adentrando mais a sala vindo em minha direção. Parecia escolher as palavras para iniciar uma conversa.
— Então é verdade? A loucura que acabaram de me contar? — perguntei diretamente.
—
Império do Brasil — sussurrei me sentando no sofá. — Que loucura.
Minha mente estava um misto de surto com curiosidade. Universos paralelos são coisas de filmes de ficção científica e não algo da realidade.
— Seu olhar está curioso — comentou ele.
— São muitas perguntas — confessei, me sentia zonza com tudo aquilo. — Sinto que minha mente está em surto.
— Então pergunte. — Ele se manteve de pé ainda com as mãos nos bolsos da calça jeans, me olhando atento.
— Como você encontrou uma passagem para... o meu mundo? — perguntei.
— Com isso. — Ele mostrou a corrente no pescoço com a pedra. — Foi um presente do meu avô, ele dizia que tinha uma lenda por trás desse cordão que revelava que nosso universo não era o único, sempre que eu uso isso o céu fica azulado à noite.
— Hum… Agora faz sentido. — Observei.
— O que faz sentido? — Ele caminhou até mim.
— Na primeira vez que foi à cafeteria, naquele dia eu vi o céu azulado à meia noite, me deixou fascinada — expliquei a ele.
Ele sorriu de canto e se sentou ao meu lado.
— Você está vindo da sua casa? — Continuei minhas perguntas. — Com seus tios?
— Sim — respondeu voltando seu olhar para frente.
O silêncio pairou pelo ambiente. Tanto que se podia ouvir o som dos carros do lado de fora. Mesmo em um universo paralelo, São Paulo era a mesma à noite, tão movimentada e barulhenta quanto à luz do sol.
— Príncipe imperial? — Voltei meu olhar para ele.
— Uma princesa real e um príncipe real, meus irmãos mais novos — respondeu.
— Por que real e não imperial como você?
— Por ser o mais velho, sou o primeiro na linha de sucessão — respondeu com um tom amarga. — O que faz de mim o príncipe imperial.
Ele parecia não levar aquilo muito bem.
— É louco pensar que agora todas as conversas que ouvi sem querer dos seus amigos fazem sentido — comentei. — Principalmente aquelas sobre sua ex ser interesseira e querer a coroa.
— Podemos não falar sobre ela? — Ele voltou o olhar para mim.
— Tudo bem. — Sorri de forma carinhosa para ele.
— Prometo que voltará para sua casa amanhã.
— É, voltar para casa seria bom, apesar de ainda não ter absorvido os últimos acontecimentos. — Observei suspirando fraco. — Ainda é meio louco para mim.
— Imagino, também fiquei assim na primeira vez. — Ele se inclinou e apoiou as costas no encosto do sofá. — Não foi uma experiência muito boa inicialmente, mas salvou minha vida.
— No sentido literal ou figurado?
— No sentido geral. — Sua voz ficou mais baixa.
Eu me levantei do sofá e caminhei até a varanda. A vista era linda, principalmente do céu estrelado com o azul da meia noite. Apesar de estranho e meio surreal toda a história de universo paralelo e Império do Brasil, eu estava curiosa para saber como era aquele mundo.
— Uau, que silêncio — comentou Tobia descendo as escadas.
— Nós começamos a pensar que ela fugiu de novo — brincou Alex.
— Só estou absorvendo essa loucura — expliquei a eles, me virando para dentro. — Estou curiosa sobre uma coisa.
— O quê? — perguntou Junior.
— Por que o meu universo? Com certeza devem haver mais por aí, por que o meu? — indaguei.
Os três amigos voltaram o olhar deles para %Joseph%, como se fosse o único com a resposta. O príncipe se manteve em silêncio, desviando o olhar para o chão. Eu poderia insistir, mas resolvi acompanhá-lo no silêncio.
— Quem quer pizza? — perguntou Junior, quebrando o gelo. — Estou morrendo de fome.
— Eu quero de pepperoni — disse Tobia.
— Eu prefiro de quatro queijos — disse Alex.
Voltei meu olhar para a varando e olhei os carros. O tempo foi passando e a pizza chegou. Comemos sem cerimônia e logo depois %Joseph% precisou ir embora. Junior ficou encarregado de me fornecer o quarto de hóspedes. Era mesmo uma cobertura de luxo e muito confortável. Assim que entrei no quarto e fechei a porta, me sentei na cama ainda abobada com tudo, imaginar que estava em um universo paralelo ao meu, que seu país era uma monarquia e que o desconhecido que beijei em frente ao meu prédio era um príncipe… Isso tudo ia além do que minha sanidade mental pudesse suportar.
Na manhã seguinte, depois do café da manhã caprichosamente preparado por Tobia, tive a oportunidade de saber mais sobre eles. Descobri que nosso mestre cuca da confeitaria, além de visconde de Belo Horizonte, era um renomado chefe de cozinha com sua própria linha de restaurantes. O que fazia sentido as panquecas estarem tão gostosas. Alex, o nobre marquês de Floripa, era o musicista mais aclamado no meio, já tinha participado das melhores orquestras do país e do mundo, além de ter sua própria escola de Artes, destinada principalmente para jovens de baixa renda que precisam apenas de uma oportunidade para aflorar suas habilidades. O descobri um filantropo nato. Já Junior, o conde de São Paulo, por ser de família militar, se formou há pouco tempo em engenharia aeronáutica, se tornando o orgulho dos pais. Todos eles com seus títulos de nobreza, porém reconhecidos pelo país por suas habilidades em particular.
— Qual a programação de hoje? Eu realmente preciso ir para casa — disse a eles depois que Junior terminou de lavar os pratos.
— Vamos te mostrar a nossa São Paulo e depois te levamos para %Joseph% — respondeu Tobia.
— O que está acontecendo? Ele parecia meio triste quando chegou aqui ontem — perguntei intrigada.
— Nosso amigo está sofrendo uma grande pressão com as proximidades de sua coroação — explicou Junior. — Ele já alcançou a idade estipulada para reinar e a corte brasileira o tem pressionado a escolher uma esposa para cumprir o protocolo imperial.
— Uau. — Aquilo me pegou de surpresa. — Em pleno século XXI?
— Existem algumas tradições no Brasil monarca que são diferentes do Brasil república, ter uma família aqui é sinal de responsabilidade e confiabilidade — continuou ele —, pelo menos para nós aristocratas.
— Hum… E o que ele vai fazer? — Meu olhar ficou curioso.
— Não sabemos, mas ele tem quinze dias para se decidir. — Junior pegou as chaves e me olhou com tranquilidade. — Vamos?!
Não queria acreditar que em 15 dias %Joseph% seria coroado rei e que possivelmente se casaria com alguém. Os nobres cavalheiros fizeram o melhor tour que eu poderia imaginar e esperar. Me mostraram cada ponto turístico da cidade, fiquei impressionada com vários pontos diferentes do meu Brasil república, e o primeiro deles é de como a cidade era limpa e bem urbanizada. Brasões da família real espalhados em alguns estandartes e, pelo que pude perceber, a segurança da cidade também era de impressionar.
Ao pôr do sol, nos encontramos com %Joseph% no parque do Ibirapuera, onde ele me levaria de volta para casa. Os outros três nos deixaram sozinhos e ficamos um tempo em silêncio vendo a noite chegar. Assim que passamos o portal e chegamos na minha velha república, ele tentou se despedir de mim sem muito sucesso. Parecia realmente não querer voltar.
— Eu sei que não tenho o direito de perguntar nada, nem mesmo somos amigos para isso, você é só o garoto do cappuccino nutella — comecei meio travada em minhas palavras —, mas…
— O que meus amigos te falaram? — perguntou ele, direto e preciso.
— Que vai ser coroado em 15 dias e que precisa se casar por causa disso. — Fui honesta e direta também.
— Sim — confirmou ele, com seu olhar triste.
— E o que você vai fazer? — perguntei.
— Não sei, mas eu prometi ao meu pai que seria o melhor governante que o meu país já teve, então darei o meu melhor — respondeu ele.
— E vai se casar com alguém que não gosta só para mostrar que é responsável? — O confrontei. — Você será o novo imperador, pode mudar leis e tradições, não pode?
— Por que está preocupada se sou somente o garoto do cappuccino nutella? — Ele sorriu de canto me olhando curioso. — Por acaso está gostando de mim?
— Ah, por favor, deixe de ser convencido. — Eu dei de ombros, demonstrando não estar interessada. — E mesmo se estivesse, somos de mundo diferentes.
— Se estivesse, eu mudaria as tradições com todo prazer. — Ele segurou em minha mão e me puxou para perto. — Eu… Não sei se depois de hoje vou poder voltar… Mas gostaria de vê-la novamente.
— O que vai acontecer agora? — perguntei receosa.
— Passarei os próximos dias me preparando para a coroação — respondeu ele. — Sei que não posso te pedir isso, mas… Gostaria que esperasse por mim.
Eu tomei impulso e o beijei com doçura. Mesmo sendo pego de surpresa, ele retribuiu com certa intensidade. Assim que me afastei, o olhei com um sorriso escondido.
— Eu espero, estou curiosa para te ver como imperador — brinquei.
Ele sorriu de canto e se afastou de mim.
Os dias seguiram com minha rotina normal.
Trabalhos gráficos e curso de fotografia pela manhã, ir trabalhar no
Minas Uai à tarde/noite. Por mais que eu tentasse me concentrar em minhas tarefas, era complicado não pensar em %Joseph%. Final da tarde de um sábado e eu estava de folga, aproveitei para dar um passeio no Ibirapuera e tirar algumas fotos para a primeira parte do meu trabalho final do curso. Desta vez, testaria o filtro em sépia e teria que montar uma sessão de fotos com o conceito do inverno noturno. Então teria que me inspirar o bastante para fazer dar certo a ideia de cenários que tinha em minha mente.
— Ora, ora, nossa atendente também é fotógrafa. — A voz de Tobia soou atrás de mim, me deixando estática.
— Cavalheiros. — Brinquei ao olhar para trás e ver os três nobres diante de mim, fiz uma breve reverência. — A que devo a honra?
— Como você está, senhorita? — perguntou Junior com seu jeito cordial moderno.
— Levando. — Dentro de mim a vontade de perguntar sobre o príncipe ardia forte.
— Deve estar curiosa por nossa presença — disse Alex, ele retirou um cordão de dentro da camisa mostrando uma pedra azul — e de como passamos sem ele.
— Azul da meia noite — disse admirada ao ver a pedra e me lembrando da história de %Joseph%. — Ele te emprestou?
— Não. — Junior riu. — Ele me deu, mas depois ele te explica sobre isso, agora você precisa vir conosco.
— E por quê? — O olhei confusa.
— Como assim por quê? — Alex me olhou indignado com minha reação.
— %Joseph% será coroado hoje, mas isso não é o pior, seu tio está tentando dar um golpe e tomar o trono em alegação por ele não querer se casar com... — Tobia se calou, parecia mais do que revoltado.
— %Mia%, nosso mundo está passando por rumores de uma guerra civil orquestrada pelo imperador regente — explicou Junior. — Isso é traição, e o tio de %Joseph% possui muitos aliados na corte e no parlamento.
— E o que eu posso fazer quanto a isso? Eu nem existo no mundo de vocês — aleguei com precisão.
— Na verdade você existe, mas com outro nome. — Alex expôs a informação, mesmo com o olhar de desaprovação de Junior. — Só você pode impedir que nosso amigo ceda à pressão política.
— Isso é tudo uma loucura para mim, está dizendo que querem que eu me passe por outra pessoa no seu mundo para simplesmente impedir um golpe de estado? — Eu estava em surto interno. — Olhem para mim, eu nem mesmo consigo lidar com o fato de vocês não serem daqui.
— Nossa última esperança de ver nosso amigo bem é a garota que fez ele sorrir de novo — confessou Tobia. — Você.
Eu não sabia o que pensar, mas se colocasse numa balança, usaria a razão e não me envolveria mais, assim não iria me machucar. Mas não foi o que fiz. Segui com eles para o Brasil Imperial e assim que passei pelo portal, eu somente senti meu coração bater mais forte. Os meninos me levaram para o apartamento deles, afinal a coroação seria somente no dia seguinte pela manhã. E também eu não poderia aparecer de qualquer forma em uma cerimônia tão importante.
Na teoria, entrei na Catedral de Metropolitana de São Paulo, também conhecida no Brasil monarca como Igreja da Sé onde seria a coroação, como acompanhante de Junior. Seguimos para a segunda fileira reservada para amigos, já que a primeira era destinada aos familiares. O bispo já estava a postos esperando a chegada de sua majestade imperial. Logo o lugar ficou cheio e, em instantes, as portas se abriram para que %Joseph% entrasse. A cada passo próximo do trono, parecia que ele sentia ainda mais o peso sobre suas costas. Seu olhar triste me fazia ver a realidade da preocupação dos seus amigos.
— Ele não parece confortável — disse ao sussurrar para Junior, minha percepção do que acontecia.
— Ele tem estado assim desde a última vez que a viu — comentou ele mantendo o olhar para frente. — Tenho que admitir, %Joseph% nunca ficou tão à vontade em nenhum outro universo como no seu e isso se deve a você.
— A mim? — O olhei impressionada. — Como?
— Acho que ele gosta do seu sorriso — brincou Alex que estava ao meu lado.
— E do cappuccino nutella que prepara. — Tobia segurou o riso e os outros dois também.
Voltei meu olhar para frente e continuei prestando atenção na cerimônia. Assim que o bispo ergueu a coroa, nos levantamos de imediato. Ao ser coroado, todos se curvaram para o novo rei do Império do Brasil. Aos poucos um a um, foram se aproximando e ficando diante dele para fazer uma breve reverência. Junior me pegou pela mão e me levou com ele. Assim que parei em frente a %Joseph%, seu olhar ficou surpreso ao me ver ao lado do amigo.
E eu… Bem, meu coração ficou mega acelerado.
— Parabéns, majestade. — Fiz a reverência e o olhei novamente.
Assim que me afastei para sair, %Joseph% me pegou pela mão e me puxou para si. Um abraço desesperado e aconchegante ao mesmo tempo. Eu fiquei com medo pelo momento e por todos estarem vendo o novo imperador abraçando uma indigente como eu. Bem, naquele mundo eu era uma indigente, já que não pertencia a ele.
— Estou surpreso por estar aqui, mas… Obrigado por vir — sussurrou ele ao se afastar de mim e sorrir com leveza.
Seu olhar ficou mais alegre.
— Todos devem estar confusos por ter me abraçado — comentei.
— Terão que se acostumar, a menos que não queira ser minha namorada — disse ele com tranquilidade. — Você aqui me deu forças para fazer o que penso ser o correto.
— Então não vai se casar com nenhuma duquesa? Por acordo político? Ou responsabilidade com a coroa? — indaguei a ele.
— Bem… Acho que seria loucura se eu te pedisse em casamento agora, então prefiro te conquistar primeiro — brincou ele.
— Seu bobo. — Eu bati em seu braço, mas só depois caiu minha ficha onde estávamos e fiquei estática. — Desculpa, eu bati no imperador.
Os amigos dele começaram a rir atrás de mim.
— Só isso já te condenaria à prisão perpétua, agressão à coroa — disse ele ao segurar a minha mão, então olhou para seus amigos. — Quero que conheça os novos integrantes da corte real e meus futuros ministros.
— Isso é que é upgrade na vida — brinquei.
— Junior, saída estratégica, seja um bom ministro da defesa e nos tire daqui — disse ele num tom de ordem.
— Com prazer, majestade. — Junior olhou para Tobia. — Relações diplomáticas, dispensa esse povo e mantenha os holofotes bem longe.
— Deixa comigo — Tobia bateu continência de uma forma despojada.
— Majestade, venha comigo, já tenho tudo planejado. — Junior sorriu de canto.
— Se a trouxe, eu sabia que teria um plano depois. — %Joseph% sorriu de canto.
Nossa saída estratégica foi pela lateral da Catedral. O carro que nos levaria já estava aguardando e em segurança e, com uma pequena escolta selecionada por Junior, seguimos para o heliporto imperial. Foi minha primeira vez dentro de um helicóptero, um frio na barriga me tomou com aquelas 3 horas de voo, até que pousou no Paço de São Cristóvão, o palácio imperial localizado no que deveria ser o parque da Quinta da Boa Vista, no bairro imperial de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Porém, não era um parque, mas, naquele Brasil, era a casa da corte imperial brasileira.
— Aqui é lindo — sussurrei boquiaberta ao olhar para o jardim da fachada.
— Este lugar também tem no seu mundo — comentou %Joseph% ao segurar em minha mão.
— Eu sei, mas é que aqui as coisas parecem ser mais vivas e mais bem conservadas. — Tentei escolher bem as palavras. — O seu mundo parece ser melhor que o meu.
— Acredite, todos os mundos têm seu lado bom e ruim. — Ele soltou um suspiro cansado. — Este lugar só se manteve de pé até hoje porque meu país continuou como uma monarquia, então, de geração em geração, a família imperial brasileira de Orleans e Bragança continuou vivendo aqui e mantendo o bom estado desta edificação.
Ele entrelaçou nossos dedos e me guiou pelo jardim frontal. Senti um frio na espinha ao passar pelas portas da frente do palácio. A imponência do império brasileiro estava contida na decoração moderna e levemente luxuosa. Olhei em minha volta boquiaberta com tudo aquilo, era real mesmo e só agora a ficha caía.
— Quer conhecer mais o meu mundo? — perguntou ele.
— Vendo agora que é real de verdade, acho que estou com medo… — Mordi o lábio inferior e o olhei receosa. — Mas eu quero conhecer sim.
— Gostaria de passar o Natal comigo? — perguntou novamente.
— Seria uma honra, majestade.
Ele sorriu com carinho para mim e, tomando impulso, me puxou para ele, me abraçando forte.
Não importa cada noite que esperei,
Cada rua ou labirinto que cruzei,
Porque o céu tem conspirado a meu favor,
E a um segundo de render-me te encontrei.
- Creo en Ti / Lunafly