Midnight Blue


Escrita porPams
Revisada por Lelen

1 • Aurora Boreal

Tempo estimado de leitura: 34 minutos

  A primeira vez que vi o azul da meia noite, foi o dia em que eu o conheci.
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  Naquela tarde eu estava eufórica por ter conseguido um emprego integral na Minas Uai, também conhecida como a cafeteria do Zé. A mais famosa do bairro Brooklin na cidade de São Paulo, segundo ele próprio. Era meu primeiro dia de trabalho e tinha minha inseparável amiga Lola dividindo o cargo de garçonete comigo. Seria divertido trabalhar ali, mesmo que no período final da tarde/noite como um segundo emprego que me ajudaria a pagar os boletos, pois minhas manhãs eram revezadas entre os trabalhos freelances de gráfico e um curso de aperfeiçoamento em fotografia, do qual estava me apaixonando dia após dia. Meu pai não concordava muito, para ele, ter um trabalho em tempo integral estilo CLT era bem mais garantido do que ser uma autônoma que vive de dois empregos por causa do mercado competitivo. Contudo, eu não me importava, já que quem pagava minhas contas era eu mesma e não lhe rendia nenhuma preocupação financeira.
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  — Não acredito que o Zé te contratou também — comentou Lola ao amarrar a liga do meu avental nas minhas costas. — Vai ser mais legal com você aqui.
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  — Espero que ele não me demita se a gente ficar conversando durante o trabalho. — Eu ri enquanto me olhava no espelho.
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  — Que nada, o Zé é uma pessoa bem tagarela também. — Ela terminou de fazer o laço e se afastou. — Principalmente quando conta as histórias da roça onde a família dele vive.
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  — Estou curiosa para ouvir essas histórias — admiti. — Eu acho tão fofo o sotaque dele, ainda mais quando fala uai.
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  — Hum… Está interessada?
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  — Não, eu sei que ele tem namorada — desconversei.
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  — Talvez ele tenha um irmão — disse ela. — Ainda dá pra entrar pra família.
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  Nós rimos um pouco e saímos do vestiário, em segundos começamos a atender as mesas e levar os pedidos. No final da tarde, me aproximei de um grupo de quatro amigos que se sentaram na mesa dos fundos. Todos de jaqueta preta, jeans e all star, rindo bastante em meio a sua conversa e três deles cantando as garotas que estavam na mesa à frente. Me aproximei discretamente para anotar os pedidos.
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  — Boa noite, o que vão querer? — perguntei sendo simpática.
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  — O seu telefone — respondeu o loiro de piercing na orelha, dando um sorriso malicioso.
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  — Que isso, Alex, seja respeitoso com a garota — disse o rapaz negro, ao estilo jogador de basquete da NBA. — Me desculpe moça, qual o seu nome?
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  Eu ri de leve, no automático.
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  — Você é um cara de pau, Tobia, também está cantando a moça. — O ruivo riu dos amigos. — Gata, nós queremos três espressos e um cappuccino nutella para o nosso amigo que acabou de perder a noiva, me disseram que chocolate é bom para corações amargurados.
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  O ruivo apontou para o rapaz com boné que mantinha seu olhar para a vidraça, calado e alheio às brincadeiras dos amigos.
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  — Anotado — disse ao terminar de escrever no bloco. — Fica pronto em alguns minutos.
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  — Agradecemos. — O ruivo piscou de leve e sorriu para mim.
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  Eu sorri de volta e me afastei deles indo até o balcão. Entreguei os pedidos a Beth e peguei a bandeja com o pedido da mesa de um casal de idosos que também atendia. Assim que entreguei o pedido deles e retornei ao balcão, Lola se aproximou de mim com um olhar malicioso.
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  — Que gatos — comentou ela. — Principalmente o de piercing na orelha.
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  — Ele pediu meu telefone, você acredita? — comentei segurando o riso dela. — Fica longe daquela mesa.
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  — Ai, você é egoísta, divide eles comigo. — Ela mordeu o lábio inferior.
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  — Falando assim, nem parece que namora né, amiga? — Olhei para ela séria.
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  — Decidi ficar só na amizade com benefícios — explicou ela.
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  — O quê?
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  — Não estou preparada para relacionamentos, amiga, então…
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  — Você não presta, o David é louco por você, arrasta até um caminhão quase. — Coloquei a mão na cintura. — Se ficar esnobando demais ele, vai acabar perdendo.
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  — Vira essa boca para lá, eu só preciso de tempo e espaço para aproveitar a vida antes de pensar em relacionamentos. — Lola era mais racional que emotiva e, na sua lógica de vida, um relacionamento aos 20 anos atrapalha ela curtir a vida.
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  Eu virei para Beth e peguei a bandeja da mesa dos rapazes e caminhei até eles para entregar.
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  — Aqui está, três espressos e um cappuccino nutella — disse colocando os pedidos na mesa.
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  — Seu cappuccino, %Joe% — murmurou o ruivo empurrando a xícara para o rapaz de boné.
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  — Cara, você precisa melhorar seu humor, sua ex era uma vaca, te traiu com seu primo, não fica assim por causa dela — falou Alex, parecia irritado com a tristeza do amigo.
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  — Deixa ele em paz, Alex — repreendeu o ruivo.
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  — Diga que estou errado, Junior?! — o loiro retrucou. — Eu nunca fui com a cara dela, sempre criticava a nossa amizade, todos sabemos as intenções dela, só queria a coroa.
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  — Shiiiiiiii — o repreendeu Tobia. — Não fala sobre isso aqui.
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  O tal %Joe% tocou na xícara e voltou seu olhar para mim. Seus olhos estavam vermelhos e inchados com olheiras, como se tivesse chorado por muito tempo. Só então eu percebi que me mantive parada ali observando a discussão deles.
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  — Desejam mais alguma coisa? Algo para comer? Temos deliciosas panquecas americanas — ofereci de forma natural, porém seguindo o protocolo de atendimento.
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  — Não, obrigado, nos traga a conta de uma vez, por favor — pediu Junior.
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  — Tudo bem. — Mantive o sorriso no rosto e me afastei dele.
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  Dei alguns minutos e sinalizei para Junior que estava com a conta em mãos, ele se levantou da mesa e veio até o caixa pagar. Eles ficaram mais um tempo ali conversando, com os três tentando animar %Joe%, mas sem sucesso. Assim que eles saíram, Lola chegou perto de mim com um sorriso malicioso me convidando para dar um rolê, mas neguei. Estava meio cansada por causa da mudança e precisava acordar cedo para assistir a uma palestra sobre fotografias em sépia. Enfrentar metrô lotado às 10 da noite não era novidade, o pior foi caminhar mais vinte minutos da estação até o prédio onde morava. Não gastaria passagem cara para ficar 5 minutos dentro do ônibus, e como tinha bares próximo do prédio, não seria tão perigoso assim voltar a pé. Cheguei na quitinete onde morava, ou melhor, loft nas palavras de Lola, já jogando minha mochila no sofá, retirando o all star do pé. Trabalhar em pé, mesmo que na metade do dia, era dolorido.
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  — Boa noite, Mel — disse à gata agregada que, ao me ver, veio roçar em minha perna. — Seu dono já te deu comida?
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  Ela miou para mim, então a peguei no colo e a abracei apertado.
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  — Hum… Você é mesmo manhosa — sussurrei.
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  Mel era a gata do meu vizinho da casa ao lado que sempre pulava as varandas e se refugiava em meu sofá ao longo do dia. Acho que a única vez que ia para sua casa verdadeira era quando sentia fome. Então, só me restava aceitar sua companhia. A deixei no chão e retirei minha blusa, então peguei a toalha que tinha deixado em cima do encosto da cadeira e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido, pois o chuveiro não esquentava muito bem. Era o que tinha para o momento, era o que eu podia pagar com o que ganharia agora com meus dois empregos.
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  — Mel, o que faz aí? — perguntei à gata indo até a varanda.
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  Me apoiei no beiral e voltei meu olhar para o céu. Com todas as estrelas brilhando e revelando uma tonalidade única azulada, nunca tinha visto aquilo, mas achei lindo e fascinante. Fiquei algum tempo ali, até que voltei para dentro e me joguei no sofá-cama, não demorou muito até que me rendi ao sono enquanto via um filme na netflix, não tinha chegado nem a 20 minutos de filme.
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  As semanas que passaram.
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  Tentei me adaptar à nova rotina. Segunda quarta e sexta, trabalhos de gráfico que iam surgindo por indicações, terça e quinta concentrada no curso de fotografia, o restante do dia era reservado para a cafeteria e à noite minha pequena residência. Uma rotina agitada e cansativa, mas que significava minha independência e possível crescimento profissional. Porém, havia uma coisa que me deixou intrigada, com frequência os quatro amigos apareciam na cafeteria fazendo o mesmo pedido da primeira vez. Lola tinha comentado que viu eles várias vezes no rolê que ela tanto me chamava, e muito se intrigou quando eles pediram para serem atendidos apenas por mim nas vezes que ela se aproximou de sua mesa.
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  — Boa tarde, o mesmo de sempre? — perguntei assim que me aproximei da mesa, com um sorriso simples.
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  — Não, só me traga um espresso, por favor — pediu %Joe%.
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  Aquilo me deixou intrigada.
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  — Os outros não vão querer nada? — Notei que ele estava sozinho ali na mesa, isso era novidade.
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  — Eles não virão agora — disse num tom mais baixo ainda.
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  — Ok, anotado, se precisar de mais alguma coisa... — eu me afastei dele e segui para o balcão.
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  Como Layla estava de férias, eu e Lola tínhamos que ajudar Beth no preparo dos cafés também, então preparei seu espresso pessoalmente e levei a ele. Me afastando novamente, segui para a mesa onde duas garotas se sentavam, Lola tinha atendido elas, mas pareciam querer mais alguma coisa. Quando cheguei, uma delas me deu um guardanapo com seu telefone anotado, pedindo para entregar a %Joe%. Me chocou um pouco, mas normal, já que ele é bonito e atraente.
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  — Me pediram para te entregar — disse deixando o guardanapo em cima da mesa. — Me parece que você tem fãs.
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  — Agradeço, mas não quero. — Ele manteve o olhar na xícara pela metade.
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  — Está tudo bem? — perguntei.
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  — Sim. — Ele voltou seu olhar para mim. — Pode, por favor, devolver o guardanapo para a garota?
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  — Posso.
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  Fiz o que ele pediu e no impulso peguei um cookie por minha conta e levei para ele.
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  — Por conta da casa — disse, deixando o prato com o cookie na sua frente. — Você não pediu cappuccino nutella hoje.
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  — Você gravou? — Ele me olhou impressionado.
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  — Depois de três semanas vindo aqui todos os dias, três espressos e um cappuccino nutella, é fácil o pedido. — Eu ri de leve.
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  — Seu sorriso é bonito. — Ele suavizou seu olhar, parecia contemplar algo.
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  — Obrigada. — Fiquei meio tímida com aquilo.
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  — Me desculpe dizer, mas você me lembra uma pessoa — comentou ele mantendo o olhar fixo em mim.
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  — É a primeira pessoa que me diz isso. — Respirei fundo e voltei meu olhar para Lola que me espiava enquanto atendia um casal. — Bem, fique à vontade.
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  — Obrigado pelo cookie. — Ele sorriu rapidamente e voltou o olhar para a vidraça.
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  Seu sorriso era bonito, uma pena sempre o ver sério e triste. Ele passou toda a tarde ali sozinho e notavelmente me observando, até que seus amigos apareceram e pediram suco de laranja para contrariar. Era a primeira vez que eles mudavam de pedido, curiosamente os três, me deixando mais curiosa ainda, porém nada impressionada com as novas cantadas deles para mim. No sábado à tarde pedi para sair mais cedo, pois iria visitar meu pai, era seu aniversário e não tinha escolha a não ser levar um presente e mostrar que estava plenamente bem morando sozinha.
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  Caminhando pela avenida Paulista, entrei no Shopping Cidade para ver se encontrava alguma caneca bonita na Imaginarium. Meu pai tinha um crush por canecas e era um presente que jamais erraria. Ao sair do shopping, com a sacola na mão guardando na mochila, reconheci um rosto caminhando de forma aleatória pelo lugar.
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  — Cappuccino Nutella?! — disse brincando, ao me aproximar dele.
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  — Oi. — Ele sorriu meio surpreso ao me ver. — O que faz aqui?
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  — É aniversário do meu pai, vim comprar um presente a ele — expliquei sem necessidade.
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  — Ah.
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  — E você?
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  — Me perdi dos meus amigos um pouco — respondeu.
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  — Foi proposital?
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  — Sim.
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  Eu ri.
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  — Se posso me intrometer, eles pareceram bastante preocupados com você hoje — observei. — Ainda é sobre sua ex-namorada?
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  — Então você realmente ouve nossas conversas — supôs ele, segurando o riso.
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  — Em minha defesa, tem sido acidental — disse, arrancando um riso discreto dele.
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  — Digamos que eu já superei essa fase — assegurou ele, mantendo o olhar fixo em mim. — Só estou tendo problemas em casa.
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  — Ainda mora com os pais? — deduzi.
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  — Com meus tios, infelizmente. — Ele suspirou fraco. — Só aqui me sinto à vontade, tenho liberdade.
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  — São Paulo nos faz sentir isso mesmo — concordei. — Eu conquistei minha independência há pouco tempo, mesmo tendo chegado aos vinte esse ano. — Ri de leve. — Mas espero que consiga também.
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  — Oh, não. — Ele olhou atrás de mim.
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  — O que foi? — Virei o rosto e vi seus amigos.
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  — Queria um lugar onde não me encontrassem — desejou ele. — Por pelo menos duas horas.
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  — Bem, eu tenho uma festa de aniversário para ir e…
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  — Eu topo, mesmo não sabendo seu nome — disse ele de imediato.
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  — Eu te sirvo cappuccino nutella quase todos os dias, acho que já somos próximos — brinquei.
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  — Bom argumento. — Ele segurou minha mão e seguiu em frente nos afastando do shopping.
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  — Calma, deixa que eu te guio — disse a ele, o puxando agora. — A propósito, meu nome é %Amelia%, mas pode me chamar de %Mia%.
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  — Prazer, %Joseph%. — Completou ele.
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  Era loucura, mas se ele precisava desaparecer por um tempo, eu o ajudaria. Tinha notado que especificamente naquele dia seu olhar se mantinha chateado e frustrado. Mas foi só entrar na casa do meu pai e se deparar com minhas tias malucas perguntando se ele era meu namorado e se morávamos juntos, que sua face mudou e passou a rir de tudo que ouvia. Ou melhor, ria do meu desespero em explicar que não tinha nada entre nós dois e abafar os comentários da minha avó dizendo que eu era a encalhada da família. Morri de vergonha, principalmente por meu pai me perguntar em cochichos se a gente estava usando preservativo, e o deixando escutar. Foi o momento em que eu queria abrir um buraco no meio do chão e me jogar dentro. Contudo, pelo menos consegui ver vários sorrisos na face do meu convidado inesperado.
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  — Me desculpa mesmo por tudo isso — disse ao sairmos em gargalhadas.
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  Minha avó tinha pedido ele para se casar comigo, caso ele não tivesse namorada, com direito a bisnetos em menos de um ano. E meu pai então... Nem vou continuar o assunto.
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  — Minha família vive querendo me casar, como se eu tivesse encalhada. — Rindo de nervoso e vergonha.
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  — Foi uma noite bem divertida e engraçada — comentou ele, recuperando o fôlego depois das risadas. — Foi minha primeira vez perto de uma família normal.
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  — Família normal? — O olhei confusa. — Minha família não tem nada de normal.
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  — É que minha família não é assim…
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  — Não precisa explicar, fico feliz que tenha se divertido. — Olhei para o relógio do celular. — Ai não, se não correr, vou perder o último metrô.
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  — Posso ir com você?
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  — Comigo?
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  — Não posso deixar uma dama ir sozinha para casa — explicou ele.
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  — Ok, então.
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  Sorri de leve e, tomando impulso, corremos até o metrô. Ele me acompanhou até em frente ao meu prédio, seu gesto foi de um cavalheiro moderno.
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  — Aqui estamos — disse parando e o olhando. — Agradeço pela companhia.
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  — Eu que agradeço pela noite. — Ele sorriu. — %Mia%.
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  Respirei fundo e olhei para o céu. Estrelado e azulado como do primeiro dia em que o vi, de alguma forma estranha, olhá-lo deixou meu coração aquecido.
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  — Azul da meia noite — disse ele.
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  — Como? — Voltei meu olhar para ele, que também olhava o céu.
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  — Quando o céu ficava assim, meu avô chamava de azul da meia noite. — Ele voltou o olhar para mim. — Porém, ainda não consegue ser mais lindo que você.
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  Eu sorri envergonhada.
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  — Você precisa de uns óculos — brinquei.
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  — Me permite? — perguntou.
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  — O que? — O olhei sem entender.
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  — Isso. — Ele foi se aproximando lentamente de mim, então parou seus lábios a centímetros dos meus.
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  A escolha era minha, permitir ou não. Fechei meus olhos e impulsionei meu corpo, o beijando. O que eu estava fazendo? Meu coração acelerou um pouco, minhas pernas bambearam quando sua mão tocou minha cintura, nos aproximando mais. Entretanto, continuei permitindo aquele beijo intenso e doce que ele transmitia.
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  — Eu… Tenho que entrar — disse, me afastando dele.
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  — Boa noite — sussurrou ele, sorrindo de canto.
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  — Boa noite. — Me afastei dele e entrei no prédio.
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  Seria complicado focar em outra coisa a não ser no beijo dele. Mas eu tinha que dormir cedo, pois o dia seguinte era minha folga e a vida adulta me exigia faxinar a quitinete, lavar a roupa suja e finalizar um trabalho do curso de fotografia. Porém, isso não me impediu de sonhar com %Joseph% em uma parte da madrugada.
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  E que sonho.
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  Mais dias se passaram com alguns encontros casuais entre mim e %Joseph% no metrô da Paulista, para dar uma caminhada noturna pelas ruas movimentadas da cidade que nunca dormia. Naquele dia exaustivo, pensei que no final do expediente de sexta-feira eu voltaria para casa e terminaria minha maratona de Friends. Entretanto, Lola e sua duracel de 220 watts no lugar do corpo, me arrastou para um “encontrão radical”. Segundo ela, desta vez eu não iria escapar. Seu rolê era tão radical que, descobri ao chegar no lugar, era um encontro de carros turbinados e rachas clandestinos.
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  — Você está louca, Lola? — disse a ela assustada com aquele fluxo de pessoas e carros turbinados na minha frente. — Racha é ilegal no Brasil.
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  — E daí? Não quer dizer que vamos correr. — Ela riu de mim e continuou seguindo em direção a uma Mercedes preta.
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  Não tive escolha senão segui-la, com medo de me perder naquela multidão de pessoas estranhas. O dono do carro era um asiático descolado de cabelos longos e pinta de badboy Fast & Furious. Fiquei chocada ao chegar perto e ver a potência do som do motor. Lola parecia bem íntima daquele rapaz, o que me impressionou.
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  — Han, esta é minha amiga %Mia% — disse ela ao se manter abraçada a ele, para minha surpresa.
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  — Oi, %Mia%, sua primeira vez, né? Espero que goste — falou ele sorrindo de canto.
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  — Obrigada. — Voltei meu olhar para minha amiga, sinalizando sua intimidade com ele, mas ela me ignorou.
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  Pode ser por ter sido a primeira vez, mas me senti deslocada naquele lugar. De repente, as pessoas ali começaram a se movimentar para a rua lateral. Pelo que entendi, iria fazer uma corrida ali, Lola se afastou do asiático e me pegou pela mão, animada para ir ver a corrida. Tive que seguir com ela e fiquei observando, logo reconheci o rosto dos quatro rapazes da cafeteria. Parecia que um deles iria participar da corrida e, inusitadamente, seria %Joseph%. Minha amiga me puxou para que ficássemos mais próximas, assim a visão seria boa. Uma mulher se colocou entre os carros e levantou um lenço que retirou do pescoço. Ao som dos motores, ela abaixou o lenço dando início à corrida.
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  Todos pareciam eufóricos com aquilo. Menos eu, que a cada minuto me sentia apavorada caso chegasse a polícia. Não demorou muito o bate-volta dos carros. Foi uma corrida acirrada e o vencedor: o garoto misterioso do cappuccino nutella. Seus três amigos se mostraram bastante entusiasmados, ainda mais com o beijo surpresa da vitória fornecido pela moça do lenço, me deixando boquiaberta e perplexa com tudo. Aos poucos um barulho conhecido foi soando, era a sirene dos carros da polícia. O tumulto e o caos tiveram início e, com as pessoas correndo para todos os lados e me empurrando, me perdi da minha amiga.
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  Aos poucos comecei a me desesperar, não podia ser presa em meu primeiro ano de independência financeira e longe de casa. Uma moça robusta trombou em mim e no susto eu caí no chão. Olhei para meu joelho que ralou de leve e senti uma pontada de dor, logo senti uma pessoa pegar em minha mão e me levantar.
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  — Você está bem? — perguntou, era %Joseph% me olhando preocupado.
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  — Sim... Como sabia que eu estava... Como me achou aqui? — perguntei.
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  — Te vi quando estava no carro correndo — ele se explicou. — Consegue correr?
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  — Acho que sim. — Assenti mentindo em partes, pois o joelho doía.
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  Era a parte mais escura da rua em que tinha entrado, então não consegui ver seu rosto, mas segurando em sua mão fui guiada para longe dali. Corremos mais alguns quarteirões, até chegar no parque do Ibirapuera. Eu já estava sem fôlego e cansada, parei de correr e o puxei para que parasse também.
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  — Você está mesmo bem? — me perguntou ele.
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  — Sim, só meu joelho, mas preciso de um minuto — pedi a ele.
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  — Tudo bem. — Assentiu voltando seu olhar para trás.
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  Foi então que os outros três amigos apareceram correndo e gritando para nós.
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  — Corre… %Joe%, corre! — gritou Alex.
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  Eu olhei para a direção deles e vi que tinham policiais atrás deles. Olhei para %Joe% que me pegou ainda me segurando pela mão. Assenti e começamos a correr de novo. Seus amigos nos alcançaram e chegando perto de uma cerca eles pularam. Por essa eu não esperava.
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  — Vamos? — perguntou %Joseph%.
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  — Eu não sei se consigo — disse me encolhendo um pouco.
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  Joelho machucado e medo de cair de novo. Eu estava entre ser presa ou possivelmente ir para o hospital com a perna quebrada. E sim, sempre fui exagerada e dramática.
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  — Pode ir, eu não vou pular. — Soltei minha mão dele e recuei.
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  — Não vou te deixar. — Ele segurou minha mão e olhou para seus amigos, que assentiram com a cabeça.
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  Será que eles sabiam os próximos movimentos dele? Os três pularam de volta a cerca e se aproximaram de nós. Os policiais já se aproximavam de onde estávamos, me deixando mais apavorada ainda. %Joseph% olhou para mim novamente e, retirando uma correntinha que era escondida por sua blusa, segurou firme no pingente azul marinho. De repente uma luz forte surgiu do lado direito, que foi sendo suavizada e revelando uma fina película do que parecia ser vidro. Os amigos de %Joe% passaram pela película, desaparecendo num piscar de olhos, me deixando estática.
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  — O que? Eu não vou… — Nem mesmo pude terminar minha reação e fui puxada por %Joe% para passar pela película.
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  Fechei meus olhos no meio de tudo isso ainda com mais medo do que ser presa. Mas uma coisa eu conseguia notar: ele continuava segurando em minha mão.
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  — Pode abrir os olhos — disse ele num tom baixo, senti seu corpo próximo ao meu.
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  Abri meus olhos e o olhei. Aquela foi a primeira vez que consegui ver seu olhar mais suave e menos triste. Olhei à minha volta e ainda estávamos no parque Ibirapuera, mas estranhamente os guardas tinham sumido.
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  — O que aconteceu? — perguntei não entendendo nada.
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  — Nada, gata — disse Alex abrindo um largo sorriso e se espreguiçando. — Só conseguimos despistar os guardas.
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  — Eu preciso voltar para minha casa — disse a eles.
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  Os quatro se olharam preocupados. Então %Joseph% me olhou.
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  — Me desculpe, você não pode ir agora — disse ele.
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  — Mas por quê? — perguntei.
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  — É que… — Ele parecia tentar encontrar uma explicação convincente.
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  — Você acabou de chegar e já vai embora? — Alex falou fazendo todos os olhares se voltarem para ele.
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  — Cala a boca, Alex — falou Tobia.
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  — O que eu fiz? — O olhou sem entender.
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  — Levem ela para a cobertura, por favor, eu preciso passar em casa. — %Joseph% se afastou de mim com um olhar preocupado e carinhoso também. — Prometo não demorar.
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  — %Joseph% — Junior o olhou —, toma cuidado, aqui somos… Você sabe.
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  Ele assentiu e se afastou de nós. Tobia me segurou pela mão e me guiou até o carro deles. Fiquei admirada ao olhar para a Mercedes vermelha, carro de gente rica. O que me fez perguntar se eles eram aqueles playboys que faziam travessuras escondido dos pais esbanjando dinheiro. Eu não queria ir com eles, estava preocupada com o que poderiam fazer comigo, e se fossem psicopatas? Não os conhecia direito. Apesar dos passeios com %Joseph%. Em um segundo de distração deles, saí correndo pela rua. Quando se deram conta do meu afastamento, eles vieram atrás de mim.
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  Tobia no volante dirigindo o carro, Junior de moto e Alex correndo. Entrei em uma rua estreita e escura e continuei correndo, até que achei uma loja aberta e entrei nela me escondendo atrás de algumas caixas. Uma criança me olhou assustada e eu fiz sinal para que não dissesse nada. Ela assentiu com a cabeça e voltou o olhar para o brinquedo em suas mãos agindo com naturalidade. Deixei passar algum tempo e saí da loja, seguindo em direção à minha casa.
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  Meu corpo gelou quando cheguei na rua e no lugar do que deveria ser meu prédio de quitinetes, tinha um edifício comercial. Não era possível, eu não tinha errado o endereço, sabia muito bem o caminho e estava tudo correto, exceto por esse detalhe diante de mim. O que aconteceu aqui? Engoli seco ficando com medo. Foi quando uma viatura parou perto de mim e duas policiais desceram.
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  — Jovem? Está tudo bem? — perguntou a mulher mais baixa, de cabelos cacheados.
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  — Eu… — Olhei para seus uniformes e eram diferentes do que eu costumava ver.
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  Será que a guarda-municipal estava trocando os uniformes sem informar a comunidade?
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  — Vocês são? — perguntei intrigada, temendo que fosse uma farsa e elas fossem assaltantes ou coisa pior.
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  — Guarda-Municipal da cidade de São Paulo. — A morena puxou o distintivo e me mostrou.
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  Entrei em choque quando li o que estava escrito.
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  — Guarda-Municipal da cidade de São Paulo do… — Paralisei em meio ao sussurro e subi o olhar para seu rosto. — O quê?
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  Voltei meu olhar para a viatura e percebi que até o brasão adesivado no carro era diferente. Minha cabeça estava fervilhando com tudo isso, e se eu não estava louca e aquilo não era uma ilusão, onde eu estava então? Pois no meu país não era.
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  — Oficiais, está tudo bem. — Ouvi uma voz de longe, reconheci sendo de Junior.
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  — Ah, lorde Tavares — disse a cacheada o reconhecendo, elas bateram continência de imediato, me assustando.
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  — Descansar. — Junior veio até mim e segurou em minha mão. — Ela está comigo, podem ficar tranquilas.
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  — Sim, senhor — disse a morena, voltando à posição normal.
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  — Gostaria de pedir discrição também, agradeço pelo trabalho duro — disse ele num tom baixo, mas senti a ordem em sua voz.
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  Elas assentiram com a cabeça e entraram na viatura novamente. Eu voltei meu olhar assustado para ele e fiquei esperando que explicasse tudo aquilo.
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  — Onde estou? — perguntei tentando não entrar em desespero. — Para onde me trouxeram? O que querem comigo?
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  — Calma, gata. — Ele sorriu me entregando um dos capacetes. — Não vamos fazer nada, está tudo bem, você está no nosso mundo.
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  — Seu mundo? — Não entendi o que quis dizer.
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  — Vamos para um lugar mais seguro e eu te explico — sugeriu ele. — Prometo.
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  Eu fiquei com medo e insegura, mas se minha casa não existia no meu endereço e tudo ali parecia estranho demais, as únicas pessoas que poderiam me contar eram os quatro amigos. O segui, mesmo relutante dentro de mim. Junior me levou até a cobertura onde morava com os outros dois amigos. Aparentemente, %Joe%, ou melhor, %Joseph% morava com seus tios, sabe Deus onde. Assim entrei na luxuosa cobertura, na rua mais cara de Moema, me impressionou tanto estilo e requinte, pois eles pertenciam mesmo à elite de São Paulo.
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  — Vocês moram mesmo aqui? — perguntei boquiaberta.
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  — Sim, moramos. — Alex despojado no sofá de couro sintético branco, sorriu sem cerimônias. — Bem-vinda ao nosso humilde lar doce lar.
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  Debochado ele.
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  — Não precisa ficar com medo — disse Junior. — Não vamos te machucar.
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  — De onde eu venho, não é seguro uma mulher entrar na casa de três homens sozinha — assegurei a realidade da nossa sociedade atual. — Eu tenho um canivete dentro da mochila, só adiantando.
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  — Uau, ela é perigosa — brincou Tobia sentando no segundo degrau da escada me olhando curioso. — Gostei dessa garota.
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  — Não estou brincando — o ameacei de forma ridícula.
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  — Eu sei. — Tobia riu um pouco.
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  — Gata — Junior me chamou.
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  — Meu nome é %Mia%, não gata. — O olhei.
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  — %Mia%, fique tranquila, não somos malvados — garantiu ele.
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  — E quem vocês são? Onde eu estou? Por que meu prédio desapareceu do nada? Por que aquela policial te chamou de lorde Tavares? — Joguei meus questionamentos nele.
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  — Eu não sei como iniciar isso. — Junior parecia ponderar suas palavras.
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  — Você está em um universo paralelo em que nós somos da nobreza, o Brasil não é uma república, mas sim uma monarquia constitucional, o Império do Brasil, governado pelo imperador regente Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança, tio do nosso amigo %Joseph%, que no caso é o príncipe imperial do Brasil prestes a se tornar o imperador — respondeu Alex de forma natural e tranquila. — Mais alguma pergunta?
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  Meu corpo gelou com toda aquela informação absurda. Fundindo ainda mais a minha mente.
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"Someone call the doctor."
- Overdose / EXO

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