Insanity


Escrita porPâmela Sabrine
Revisada por Mariana


Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

  Quando abro meus olhos novamente, aos poucos, consigo me lembrar de tudo que aconteceu. Lembro-me do médico pedindo a enfermeira para que chamasse meu irmão, mas também lembro que ela não se moveu um centímetro de perto de mim.
   Lembro de virar meu rosto para o lado em que ela estava um pouco antes de apagar por completo ao vê-la colocando um líquido amarelo em meu soro.
   Ajeito-me um pouco na cama e sinto as agulhas em meu braço picarem o mesmo, deixando um pouco de sangue escorrer por entre os tubos do soro. Levo minha outra mão livre até elas e as arranco. A dor incomoda, e o sangue parece não querer parar de escorrer. Solto um gemido abafado e então ouço um barulho na janela. Bill estava sentado na poltrona ao lado da mesma, dormindo, eu suponho.
   Ele arregala os olhos e me olha apavorado. Seus passos são longos até a cama. Ele toca meu pulso, mas não diz nada.
   – Estou bem. – Falo, mais para começar um diálogo do que para provar que nada aconteceu em meu braço.
   – É claro que está. – Ele fala em tom irônico. – Vou chamar a enfermeira para consertar o que fez.
   – Eu não quero.
   – Não está em condições de negar ajuda.
   Ele me observa de soslaio e então sai de perto de mim, caminhando rapidamente até a porta, abrindo a mesma e chamando a enfermeira que passava pelo corredor.
   A mulher de meia idade, baixinha e sem nenhum atrativo entra em meu quarto e me olha com reprovação.
   A rapidez com que pega novas agulhas e injeta novamente o soro em meu braço é admirável, e quase não sinto dor. Mas assim que encontro o rosto de meu irmão parado perto da porta sinto que a dor que poderia sentir em meu braço passa longe de me ferir tanto quanto às vezes em que encontro seu olhar triste sobre o meu.
   – Pronto. – A enfermeira diz sorrindo. – Espero que não tenhamos mais problemas com o seu soro, Sr. Kaulitz. – Continua com desdenha, pegando o material sujo e jogando-o na lixeira perto da porta.
   – Obrigado. – É tudo que digo enquanto a vejo sair pela mesma, com o sorriso ainda estampado no rosto.
   – Está se sentindo melhor? – Bill pergunta, aproximando-se da cama.
   – Sim.
   Eu o olho por um instante, esperando que ele comece a falar, que comece a brigar comigo, mas ele nada faz. Bill simplesmente senta sobre a cama, e continua a olhar para a janela perto da mesma.
   – Por favor, fale alguma coisa. – Peço a ele, porque seu silêncio constante começa a me assustar.
   – O que quer que eu diga? – Bill me olha, mas rapidamente volta a olhar o exterior do hospital.
   – Eu não sei, qualquer coisa, me culpe, grite comigo.
   – Eu normalmente faria isso...
   – E é o que eu espero que faça.
   – Eu gritaria e xingaria você, estaria agora mesmo culpando-o. – Diz ele sabendo que é exatamente o que eu espero que faça.
   – Faça isso, mas, por favor, Bill, não fique neste silêncio.
   – Não vou fazer isso, não vou, porque... – Ele suspira pesadamente, e então vejo uma lágrima grossa escorrer por seu rosto. – Porque estou simplesmente agradecido de vê-lo acordado outra vez.
   Bill aproxima-se de mim rapidamente e então circula seus braços por meu corpo. Quero entender por que sua reação é tão plácida, mas tudo que faço é trazê-lo para ainda mais perto de mim em um abraço há muito tempo esperado.
   Quando nos separamos ele ri enquanto segura meu rosto, apertando-o, e então começo a rir também por vê-lo assim perto de mim. E só assim começo a entender que, de verdade, tudo não passara de um terrível pesadelo, apesar de não saber exatamente onde o mesmo começou.
   Ele leva as mãos aos seus olhos, secando suas lágrimas, e faz o mesmo em meu rosto. Começo a rir do jeito atrapalhado em que se encontra e então bato em seu braço como de costume.
   Começamos a rir estranhamente e só paramos quando o barulho da porta sendo aberta invade nossos ouvidos.
   É Kate... Ela nos observa com um brilho diferente nos olhos e posso ver Bill sorrir timidamente ao vê-la se aproximar.
   Seu rosto está mais claro do que o de costume, como se sua pele fosse feita de cera. Como um anjo, que na verdade é.
   Bill me observa e então bate em minha perna enquanto se levanta. Ele está prestes a nos deixar sozinhos, e eu não o entendo, como pode fazer isso mesmo depois de tudo?
   Talvez confie em mim, talvez não se importe. Talvez eu esteja subestimando meu próprio irmão.
   Ele passa por ela antes de sair do quarto e eu vejo suas mãos se tocarem, ainda que timidamente, em um gesto de cumplicidade. Meu coração dispara, mas felizmente eu ainda sou aquele tipo de pessoa que consegue esconder isso muito facilmente.
   Kate aproxima-se de mim e sinto seu perfume invadir o meu espaço, tomando conta de mim por completo. Talvez eu não seja mais tão bom assim em esconder meus sentimentos.
   – Oi. – Digo a ela com um sorriso meio bobo nos lábios.
   – Oi.
   – Está mesmo aqui. – Digo sem pensar.
   – Sim. – Responde rindo enquanto chega mais perto de minha cama.
   – Desculpe, eu tive uns sonhos malucos e... – Tento explicar para não parecer um bobo, mas ela me interrompe quando toca em minhas mãos.
   – Não importa. Está acordado agora.
   – Vem aqui, vem? – Bato minha mão sobre a cama e Kate aproxima-se, sentando ao meu lado. E enquanto se ajeita, vejo Bill nos observando da janela.
   Kate me abraça forte e então eu beijo o topo de sua cabeça, e assim ficamos abraçados por um tempo, até ela levantar seu olhar sobre o meu.
   – Você é a pessoa que... – Suspira pesadamente. - A pessoa que eu mais gosto nesta vida.
   – Ah, não, não vai chorar agora. – Tento rir. – E, além disso, tem o Bill.
   – Não, é diferente. – Ela volta-se para mim com seu semblante triste e pesado – Eu amo Bill... Mas você... Tom. Quando perdi meu irmão, acreditei que jamais sentiria algo parecido novamente, o amor, a amizade, a cumplicidade. Um tipo de amor diferente de todos os outros... Puro.
   – Kate, eu... – Esforço-me para não desviar o olhar, desejando que minhas palavras saiam certas, mas ela me interrompe.
   – Você substituiu isso. – Começa. – Você me devolveu todos aqueles sentimentos de volta. Com seu jeito, sua alegria, seu amor.
   – Desculpa... – É tudo que consigo dizer, porque talvez seja tudo o que eu tenha a dizer à ela. – Por tudo que eu fiz você passar nos últimos dias... Eu... Não queria... Eu...
   – Nada do que aconteceu importa pra mim, desde que você fique bem. – Ela balança a cabeça e olha para o soro ao lado de minha cama. Está vermelha e vejo que está prestes a chorar. – Desde que tudo volte a ser como antes.
   – Isso é impossível... Depois de tudo que eu fiz... Que eu disse. – Eu reajo à sua bondade, sentindo minhas palavras queimarem minha garganta.
   – Nada é impossível, Tom. - Ela me olha nos olhos, estamos perto demais, mas agora, diferente do que sentia antes, estou apenas feliz por ainda tê-la por perto.
   Eu a puxo pra ainda mais perto de mim e então beijo o topo de sua cabeça novamente. Eu sussurro uma de suas canções favorita próximo ao seu ouvido e a ouço rir fracamente. Lembro-me de nossa dança no dia em que tudo realmente começou a desmoronar à nossa volta. Lembro-me de suas mãos sobre as minhas e a forma como meu coração parecia querer saltar do peito a cada passo que dávamos. Lembro-me de vê-la feliz, e então me dou conta do que realmente importa.
   – And you can tell everybody this is your song – Sussurro e ela ri apertando meu braço.
   – Não é a primeira, mas é a música que...
   – Dançamos no casamento. – Ela diz sorrindo.
   – Você lembra... – Digo surpreso. - Kate. – Paro por um instante e a vejo levantar seu rosto e olhar-me novamente. – O dia em que estávamos dançando na sala, você disse que precisa me contar...
   – Não era nada. – Ela levanta-se de repente, empalidecendo. – Nada que precise se preocupar.
   Eu a observo por instantes e ofereço minha mão para que volte ao meu lado na cama, mas ela segura minha mão entre a sua e as entrelaça.
   – Precisa ir. – Digo a ela calmamente, porque não quero que se assuste com minha reação repentina e também porque tenho certo receio de que Bill entre no quarto e tire conclusões erradas de nossas ações. – Não quero que fique aqui, não é um bom lugar para estar.
   – Você está aqui, Bill está aqui. – Ela ri divertida, mas sinto que a um disfarce em suas reações. – É exatamente onde eu deveria estar.
   – Volte para casa, logo estaremos de volta também.
   Ela me abraça e me olha sorrindo com lágrimas nos olhos, estão se afasta e caminha lentamente até a porta. Uma espécie de sensação assustadora toma conta de mim assim que a vejo pôr a mão na maçaneta em sua frente.
   – Vai estar em casa quando eu voltar, não vai? Tudo vai estar no lugar? Como sempre foi?
   – Como sempre foi. – Ela diz calmamente em um tom quase inaudível, fechando a porta a seguir.
   Tento entender o significado de suas últimas palavras, mas quando consigo levantar para ir atrás dela, a porta de meu quarto abre e sou invadido por perguntas e olhares preocupados.
   Mamãe, Gordon, Georg e Gustav, junto com outras pessoas que pouco percebo o rosto, falam comigo apressadamente; eu não os entendo, e a primeira vista tudo que vejo são borrões em minha frente, porque meus pensamentos estão em Kate e isso me deixa louco com as possibilidades que crio em minha mente.
   Bill não está com eles, mas assim que dou por sua falta o mesmo entra em meu quarto e fecha a porta atrás de si, como se não faltasse mais ninguém. Como se ela já não fizesse mais parte de nós. Eu os olho, e então tento me acalmar para não preocupá-los.
   Mais tarde, quando abro os meus olhos novamente, apenas Bill está em meu quarto. Está sentado ao lado com a cabeça apoiada em minha cama. Ajeito-me calmamente para não acordá-lo. Mas o vejo abrir os olhos assim que me acomodo outra vez.
   – Está acordado há muito tempo? – Pergunta ele sonolento, espreguiçando-se.
   – Não. Acabei de acordar.
   Ele suspira e então se levanta para pegar um copo de água perto de minha cabeceira. Eu o observo e vejo que está mais magro e pálido. Bastante cansado, eu diria. Mas resolvo não tocar no assunto porque sei que a culpa é minha.
   – Bill? – Eu o chamo e ele volta rapidamente para perto de minha cama, arrastando sua cadeira para mais perto de mim.
   – O quê? – Pergunta em tom neutro.
   – Foi um sonho, não foi? – Digo a ele, esperando que sua resposta seja clara o bastante para me fazer acreditar. – Um sonho dentro de um sonho, por que...
   – Não, não foi um sonho. – Ele me interrompe. – Foi um pesadelo.
   – Você também viu? – Pergunto novamente um pouco alterado. – Estava lá, não estava?
   – Sempre que fechava os meus olhos. – Diz ele com certo peso na voz. – Mas o sonho era seu, eu não pude interferir, sinto muito por não poder ajudá-lo.
   Ele toca meu braço e o aperta em sinal de conforto.
   – Não foi sua culpa. – Digo por fim, não acreditando no que afinal havia acontecido comigo e também com meu irmão.
   – Nem sua. – Diz ele em meio sorriso, voltando a sua mão para o copo. - Volte a dormir, vamos para casa pela manhã.
   – Kate vai estar em casa? – Pergunto sem pensar.
   – Não se preocupe, Tom. – Ele sorri e então volta a encostar a cabeça sobre a cama, fechando seus olhos novamente.
   Olho para janela e vejo suas cortinas balançarem calmamente, e isso, aos poucos, me devolve ao sono.
   De manhã, com quase todos no hospital novamente, eu os observo atentamente tentando achar algo errado em suas reações, algo que os condene e que entregue que estão mentindo, mas não há nada em seus semblantes.
   Gordon assina os papeis de minha alta, enquanto mamãe fala com uma das enfermeiras. Georg da em cima da enfermeira mais bonita que havia naquele hospital enquanto ela o ignora, escrevendo algo em sua prancheta.
   Gustav está com uma cadeira de rodas nas mãos, e observa a todos atentamente, como sempre.
   Ele me olha e então empina a cadeira em minha direção, e eu me dou conta de que terei de sair nela até o carro.

...

   O caminho é longo, e durante ele, Bill pergunta algumas vezes se estou me sentindo bem. Apenas respondo que sim, mesmo sabendo que é mentira. Meu nervosismo e vontade de estar em casa são inquietantes.
   Quero vê-la e saber que está ali, quero saber que está tudo bem e que de verdade nada mudou. Que eu não fui o responsável por estragar a vida de meu irmão e de Kate.
   O carro para e Bill desce, correndo até minha porta.
   – Precisa de ajuda?
   – Não, está tudo bem. – Digo a ele enquanto levanto.
   Então eu entro em casa novamente, depois de tanto tempo, e o que vejo é que estranhamente tudo está realmente como sempre foi literalmente falando. Como sempre foi antes de termos conhecido Kate.
   – O que está acontecendo aqui? – Pergunto a Bill assim que o vejo entrar logo atrás de mim.
   Ele segue até a outra sala largando minhas coisas que estavam no carro, e então vejo mamãe e Gordon entrarem na sala.
   – Alguém pode responder? – Grito sem olhá-los, porque estou furioso. – Onde estão as fotos, onde estão as coisas dela?
   – Tom. – Mamãe me chama em vão.
   Ignoro meu estado e então corro até o quarto deles e abro as portas de seu closet, o lugar está vazio. Não há sinal de Kate ou de que fez parte de nossas vidas em lugar algum daquele apartamento.
   Volto para sala e os encaro. Acreditando com absoluta certeza que jamais a veria outra vez. Que o casamento de meu irmão fora arruinado por minha total incapacidade de ficar calado e guardar meus sentimentos estúpidos para mim mesmo.
   – Onde está Kate? – Ninguém responde. – Onde ela está, Bill?
   – Por favor, não se altere, você não pode... – Mamãe chega perto de mim, mas eu a afasto e corro até Bill.
   – Por que não diz nada? – Grito com ele.
   – Ela preferiu assim, Tom. – Gordon diz sentando-se no sofá. - Não conseguimos fazê-la mudar de ideia, sinto muito.
   Olho para Bill novamente e tudo que vejo é que está tão assustado quanto eu. Caminho até ele e o abraço, apertando-o o quanto posso. Sinto-o chorar perto de mim. Rendendo-me a um choro convulsivo também. Eu sussurro milhares de desculpas a ele enquanto o abraço, mas sei que nada disso trará Kate de volta, então eu prometo a ele que farei isso pessoalmente.
   Mas ele se afasta e me olha calmamente.
   – Não.
   – Mas ela disse...
   – Ela disse “como sempre foi”. Ela preferiu assim e ambos sabemos que ela está certa.
   Ele fala de uma forma extremamente calma, e que me acalma aos poucos também. Eu deveria saber que não teríamos futuro algum junto, e que a ideia fixa em minha mente de que teríamos nossa vida a três de volta era completamente estúpida, apenas uma ilusão.
   Mas Bill não era como eu, não pensava como eu, não agia como eu. E quem poderia condená-lo por isso?
   O que eu havia feito, meu comportamento durante todo este tempo, era imperdoável. Eu tinha, sem a menor dúvida, destruído sua expectativa de vida com Kate, destruído seu amor, sugado a alegria, felicidade e confiança de ambos até a última gota.
   Eu alienei meu próprio irmão com minha insanidade durante todo este tempo. Eu cedi aos meus pensamentos mais sombrios e, por não saber me controlar, perdi para sempre a primeira pessoa que amei de verdade. E que infelizmente não havia e nem poderia me amar de volta.
   Eu os olho uma última vez e então, lentamente, caminho até a outra sala. Eles não saem atrás de mim ou tão pouco me chamam, porque sabem que este é um momento daqueles que preciso ficar sozinho comigo mesmo. Um momento de encontro com meus erros e acertos e com o que farei daqui em diante...
   Mas por enquanto tudo que me resta são apenas memórias, boas ou ruins. Memórias de momentos com Kate... De seus olhares e sorrisos, alegria, amizade e simplicidade, mas, acima de tudo, do carinho que ofereceu a mim durante toda a tempestade que enfrentamos. Durante todo caminho enfrentando minha completa insanidade.
   Então, me sento ao piano e toco sua canção favorita, e por um momento em minha mente, Kate está em casa outra vez.

Capítulo 11
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